O Business Project consistia na elaboração de um plano de entrada nos mercados britânico, alemão e francês de lâmpadas LED de alta tecnologia; para isso, formaríamos grupo de cinco pessoas e cada grupo realizaria um projeto para cada país, sendo também dividido nos mercados B2B e B2C.
O grupo em que estava inserida era formado por duas Austríacas, uma Tcheca e um Sueco. Ficamos responsáveis pelo estudo do mercado britânico B2C. A escolha era
feita pelos próprios alunos. Eu deveria me juntar a um grupo que trabalharia com o Reino Unido por ter melhor comunicação em inglês. Apesar de não termos tido um relacionamento amigável desde o encontro em Budapeste, decidi ir ao grupo no qual se encontrava a Tcheca que havia conhecido durante o festival do Sziget, na Hungria.
Haveria um evento de lançamento do projeto em que a empresa iria apresentar os produtos e conhecer os grupos, mas como os horários das aulas eram irregulares, por distração, perdi essa seção de informação, depois da qual encontrei em minha caixa de e-mails a seguinte mensagem:
Dear Cristina,
Didn't I see you in class today or weren't you there? Please let me know when you can't attend it.
Regards, BS
Fiquei com medo de essa falta ser considerada muito grave desde o primeiro dia, mas estava ainda aprendendo a entender os horários irregulares da WU. Entendi então que a professora apenas queria saber sobre a minha presença ou ausência em tais ocasiões.
Mesmo assim, consegui o material fornecido pela empresa para entender os produtos e o mercado dela. Já na primeira interação do grupo, as Austríacas e a Tcheca membros decidiram separar o grupo em dois, deixando-me com o Sueco enquanto as três outras compunham a outra metade da equipe. Parecia que havia voltado ao jardim de infância com esta segregação do grupo. Compartilhei o trabalho com o Sueco, que não colaborava muito com a nossa parte do trabalho, apenas reclamava que as outras meninas do grupo não gostavam dele. Enviava-lhe os arquivos para serem completados e não os recebia de volta.
A falta de comunicação no grupo estava prejudicando o desempenho e, quando eu tentava reunir o grupo, elas se negavam. Um dia, Tcheca me disse: “Você quer que a gente trabalhe juntos toda hora? Não consegue trabalhar sozinha, não?”. Claro que sabia trabalhar sozinha, mas desde o começo já começara a duvidar da
eficiência da outra metade do grupo. Pensava que se tratasse de um distanciamento por motivos pessoais entre eu e a Tcheca, já que desde o começo não tivéramos um relacionamento fácil, sem nos conectarmos de nenhuma forma; manter um relacionamento no mínimo respeitoso era tarefa difícil para mim devido à personalidade dela, distante e protegendo-se de qualquer tipo de envolvimento; era difícil de lê-la para entender o que poderia estar pensando – e tinha certeza, na maioria das vezes, que era alguma coisa ruim sobre mim.
Uma das Austríacas tinha um emprego além da faculdade, mas como as outras duas eram suas amigas, estas ignoravam o fato de que ela estava trabalhando pouco no projeto, o que fazia com que eu e o Sueco também aceitássemos sua pouca colaboração. A outra Austríaca trabalhava melhor, discutia mais as ideias com o grupo sem intrigas pessoais. A Tcheca queria que aceitássemos tudo que o que ela fazia como correto e perfeito, e ainda insinuava que a nossa parte estava sempre errada.
Parte importante do trabalho era entrar em contato com especialistas do mercado de lâmpadas no Reino Unido e realizar entrevistas por telefone sobre as tendências do mercado e a opinião do público a respeito da modificação na legislação do Reino Unido que obrigava a substituição das lâmpadas incandescentes por lâmpadas de LED (Light-Emitting Diode).
Cada um do grupo deveria realizar três entrevistas, mas a pressão exercida na minha metade do grupo era maior, sendo que elas não tinham tampouco completado a tarefa. Consegui bons contatos, e pude inclusive distribuir aos outros integrantes do grupo para que fizessem as entrevistas. Era como se não houvesse nenhuma confiança das três colegas, além de ter que lidar com o Sueco que não estava colaborando com sua parte, apenas reclamando.
As interações deste grupo eram tormentosas, já que os membros não confiavam uns nos outros e havia uma grande falta de comunicação; apesar disso, os relacionamentos foram mantidos iguais durante todo o semestre, sem tentativas de melhora. Como a disciplina era obrigatória e de 15 créditos, era necessário permanecer no grupo – eu não poderia desistir como fiz na matéria de
empreendedorismo na Bocconi.
Uma vez, precisei viajar, mas disse que trabalharia no projeto à distância e que ainda poderia lhes enviar partes do trabalho. Tive uma ideia que queria apresentar ao grupo. Enviei à Tcheca, e a resposta que recebi foi “Acho que seria direcionar o trabalho para outro objetivo. Então, não vamos poder usar a sua ideia. Faz só o que a gente tem pede. Por que você perde seu tempo assim?" Não esperava uma resposta como essa, entendi então que preferiam que eu fizesse apenas as tarefas que me enviassem, e foi o que fiz: parei de tentar contribuir com ideias e realizava as outras tarefas.
A parte que me foi designada foi o estudo de diferentes tipos de distribuidores e intermediários que vendiam lâmpadas e soluções de iluminação no Reino Unido: supermercados, lojas especializadas em iluminação, lojas online e lojas de material de construção. Esta última categoria, eu conhecia, em inglês, pela expressão hardware stores, como os americanos a chamam. No entanto, um mês antes do prazo do projeto, a professora começou a nos questionar sobre do-it-yourself stores, que era a expressão utilizada pelos britânicos. Não sou, no entanto, familiarizada com inglês britânico, ao contrário do resto do grupo. Como tivemos esse desentendimento de palavras entre inglês americano e britânico, era uma categoria de intermediários que não estava bem trabalhada, pois, algumas vezes depois de ter mencionado hardware store e o grupo ter ignorado a expressão e nem perguntado o que significava, preferi me concentrar nas outras partes da pesquisa que estava fazendo.
Com a insistência da professora nesse tipo de varejista, as três integrantes do grupo começaram a me questionar e a dizer que eu não estava colaborando. Certo dia, encontrei a Tcheca e o Sueco para uma reunião de grupo, no qual a Tcheca, que estava claramente irritada com o trabalho do grupo, começou a brigar comigo, dizendo:
- Está vendo? Essa parte era de sua responsabilidade! Agora a gente vai ter que fazer tudo de novo porque você não considerou as lojas Do-It-Yourself e vamos ter mais trabalho para analisar tudo isso! É como se tivéssemos que começar o trabalho de novo, e vamos ter que consertar tudo mesmo! - É! Eu sei! Eu conheço este tipo de loja! E quer saber? Desde o começo do
semestre tenho falado “precisamos ver as hardware stores” e vocês não me escutaram. A única diferença é que eu usei a palavra americana para falar desse tipo de loja enquanto você está usando a expressão britânica, mas você perguntou o que seriam hardware stores? Não! Portanto, não me culpe, porque é fácil culpar os outros! Eu falei, e você e o resto do grupo ignoraram o que eu tinha dito, por isso não insisti muito! E agora vem me culpar?”
Geralmente, mantenho meu temperamento, mas como havia já muitos desentendimentos no grupo, resolvi que desta vez deveria usar um tom de voz mais agressivo. Depois da minha fala, ficamos em silêncio por alguns minutos, sem nenhuma intervenção do Sueco, que estava quieto durante toda a discussão. Perguntei, então: “Não vai falar nada agora?”. A Tcheca fez apenas um sinal com a mão dizendo que seus lábios estavam fechados, que não diria mais nada a respeito do caso, e passamos a trabalhar na nova categoria de intermediários de venda de lâmpadas. Seria preciso levantar a voz para que tivesse a minha palavra ouvida pelo grupo?
A partir de então, recuei nos relacionamentos com o grupo e passei a trabalhar sozinha. Depois de finalmente entender por completo o que era esperado de tal projeto, encaminhava ao grupo o que tinha feito. A apresentação final do projeto estava marcada para junho, mas em maio ainda estava na fase de consolar o Sueco por seus problemas pessoais (explicar que as outras três não tinham nada pessoal contra ele) e tentar convencê-lo a fazer alguma parte do trabalho. Mas, ao invés de reconhecer a ajuda, a decisão dele foi de me bloquear no Skype e parar de falar comigo.
Pelo menos não precisei mais perder tempo conversando com ele, o que me ajudou a concentrar no trabalho. Houve um domingo em que as meninas se encontraram para discutir a parte de recomendações à empresa e enviei algumas ideias. Acrescentamos todas elas ao projeto final; a apresentação e o relatório estavam prontos para serem revisados pela professora e finalmente apresentados.
Muito do que eu fazia era consertado pelas colegas do grupo; eu justificava o trabalho, mas era melhor aceitar as modificações do que causar mais conflitos, já que as duas Austríacas diziam: “Estamos já há muito tempo fazendo trabalhos para o departamento de IMM, por isso, sabemos como eles querem ver esta
apresentação”. No entanto, na seção de feedback, a qual fui sozinha, a professora criticou muito o trabalho e comentou os erros da apresentação – inclusive as modificações realizadas por elas – e disse que precisaríamos melhorar os slides e o relatório.
A maioria dos cursos já tinha acabado, portanto, trabalhávamos intensamente apenas neste projeto, em que a Tcheca disse a mim a respeito do feedback recebido: “Não consigo mais trabalhar nisso, não sei o que posso fazer para melhorar, faz o que a professora falou e aceito o que você fizer”. Finalmente poderia contribuir com o trabalho sem ter que obedecer a elas. Até então, tinha cedido e aceitado as modificações e versões do restante do grupo – com as quais nunca concordei. Passei algumas noites em claro e apresentei ao grupo o trabalho com as modificações sugeridas, quando o grupo agradeceu e apreciou o trabalho.
A apresentação aconteceu na sede da empresa, no sul da Áustria, em uma região chamada Styria, nos arredores de Graz. Passamos o dia em apresentações e visitas à produção da empresa. No final do dia, em um Heuriger, a empresa quis homenagear os melhores grupos e o nosso trabalho ficou em primeiro lugar. Era o grupo que mais teve conflitos, mas que de certa forma trabalhou muito no projeto.
Nesta experiência, o mais importante foi lidar com a falta de confiança nos outros membros. Por serem de regiões próximas – Áustria e República Tcheca – havia uma maior confiança entre as três membros do que em relação a mim, apesar de eu também compartilhar do ‘padrão’ e experiência de ser estudante de escola de administração. Mesmo assim, o meu trabalho era considerado por elas como diferente.
Além disso, a preocupação com o lado pessoal do Sueco, ao invés de focar no trabalho, foi um desafio a ser ultrapassado; ao final do trabalho, somava-se pouca a sua contribuição, e a Tcheca e a Austríaca notaram que precisavam me dar um voto de confiança. Como consequência, quiseram comemorar comigo a primeira colocação que nosso trabalho teve.