para que a língua escape a essa lei universal.
(FERDINAND DE SAUSSURE, 1969)
[...] a mudança lingüística está ao alcance de qualquer falante, pois pertence à experiência corrente sobre a linguagem.
(EUGENIO COSERIU, 1982) [...] a mudança lingüística não é, senão a manifestação da criatividade da linguagem na história das línguas.
(EUGENIO COSERIU, 1982).
As tradições, para permanecerem vivas e perpetuarem, precisam ser constantemente reinventadas, pois a realidade é outra, os sujeitos, os espaços e interesses são outros; do contrário, essas tradições ficam recolhidas no discurso da memória. Isso porque os discursos, para serem aceitos, precisam fazer parte das representações dos sujeitos, ou seja, adequarem- se às novas identidades sociais. Desse anseio, surgem as mudanças da linguagem.
É importante, antes de iniciarmos uma discussão, pontuarmos a diferença entre variação e mudança linguísticas.
Na perspectiva de Labov (2008), teórico da Sociolinguística Variacionista, a língua é entendida como sistema heterogêneo socialmente determinado, cuja diversidade está ligada às mudanças sócio-histórico-culturais e ideológicas de uma comunidade. Assim, para o teórico, a variação linguística representa um fenômeno universal que dá conta das diversas formas de representação da língua, suas variantes. Estas ocorrem de acordo com alguns fatores manifestados pelos indivíduos, tais como o tempo (variação histórica), o gênero (variação de
sexo), faixa etária (variação de idade), região (variação regional ou territorial), o espaço, o nível cultural, a situação, a especialidade (variação social e de função).
Coseriu (1979), por sua vez, informa que no nível histórico, as línguas variam de acordo com três grandes marcas distintas: as diferenças que dizem respeito ao espaço geográfico (dialetos), a variação diatópica; as diferenças observadas entre as camadas socioculturais, a variação diastrática; e as diferenças nas formas expressivas de acordo com o contexto de produção, ou variação diafásica.
Segundo Labov (2008), a não homogeneidade da língua decorre em virtude da existência de diferentes formas de escrever e/ou falar, o que resulta na diversidade e variabilidade linguísticas no âmbito social. Para tanto, o autor explica que a diversidade da língua é proporcional a ocorrência de registros, estilos e variedades de emprego da língua, o que ocorre em função da heterogeneidade sócio-histórico-cultural na qual se encontram os sujeitos falantes.
Por sua vez, o processo de mudança linguística se concretiza quando uma variação, normalmente atrelada ao grupo social de prestígio, é incorporada no sistema da língua, tornando-se institucionalizada. Acerca disso, Faraco expõe que
[...] nem toda variação implica mudança, mas que toda mudança pressupõe variação, o que significa, em outros termos, que a língua é uma realidade heterogênea, multifacetada e que as mudanças emergem dessa heterogeneidade, embora nem todo fato heterogêneo resulte necessariamente mudança (FARACO, 1991, p. 13).
De acordo com Labov (2008), toda língua apresenta variação, o que se constitui fator potencial desencadeador de mudança. Por outro lado, além do fator variante da língua, as mudanças linguísticas emergem, também, em grande parte, do contato com outras línguas. Entretanto, Labov (2008) observa que, numa perspectiva histórica, as mudanças linguísticas ocorrem de forma lenta e gradual, e atingem primeiro a fala; para, em seguida, materializar-se na escrita, a qual está atrelada a regras e normas, sendo pois, mais conservadora e formal.
Vale salientar que o estudo sobre os fenômenos e as mudanças linguísticas é levantado tomando o texto/discurso como a unidade analítica, sem, contudo, deixar de considerar o sujeito e o contexto de produção, já que, segundo Antunes (1993, p. 43) ―[...] os elementos lingüísticos do texto não preenchem a totalidade dos requisitos necessários à sua realização‖; para tanto, observamos a contribuição de áreas, não apenas como a Sociolinguística e a Linguística Textual, mas também, a Linguística Histórica, nos estudos diacrônicos.
Nessa perspectiva, tem-se sustentado o pressuposto de que enveredar pelo campo da Linguística Histórica significa adentrar na rede da história social. E lançar um olhar para a história social da língua, em especial, implica enxergar a língua como heterogênea, a partir do reconhecimento de que seus usuários encontram-se situados em grupos sociais distintos, os quais se manifestam nos mais diferentes discursos, a partir de diversos contextos de produção discursiva.
Ainda sobre a perspectiva histórica da língua, Castilho (1998) informa que os estudos da Linguística Histórica do Português percorreram dois caminhos: a România Velha e a România Nova. A primeira se presta a observar as mudanças fonéticas e lexicais do latim vulgar para as línguas românicas, bem como procura entender como a vertente hispânica do latim vulgar deu origem ao galego-português por meio de mudanças fonológicas e morfológicas, resultando na formação da estrutura sintática do português. A segunda procura verificar as transformações ocorridas nas línguas românicas, português, espanhol e francês da América, contribuindo com novas perspectivas para a teoria da mudança. Esta última, vale ressaltar, deve bastante às contribuições trazidas pela filologia pragmática alemã, a partir das pesquisas desenvolvidas por Coseriu12, Oesterreicher13, Schlieben-Lange14, Jungbluth15, SchmidtRiese16, Kabatek17, entre outros.
Assim como a história do homem é marcada por inúmeras mudanças históricas, sociais, culturais, econômicas, etc., a língua, como uma das formas simbólicas de
12 Filólogo romeno, doutor em Filologia e Filosofia e autor de mais de 50 livros, entre eles: Diacronia sincronia, Teoria da linguagem e lingüística geral, Tradição e inovação na ciência da linguagem, etc. Foi Doutor Homoris Causa de quase 50 universidades em todo o mundo.
13 Wulf Österreicher é um linguista alemão que tem, entre seus trabalhos, o artigo Mudança linguística e recursos de expressividade na língua falada, no qual discute os processos linguísticos com base na oralidade
expressiva, que resultam em em novos termos na língua.
14 Schlieben-Lange, em 1970, graduou-se com Eugenio Coseriu e tornou-se assistente no Departamento de
Estudos Românicos em Freiburg/Breisgau. Em 1974, tornou-se professora de Filologia Românica e Linguística Geral na Universidade de Frankfurt. Em 1991, ela foi nomeada para Departamento de Filologia Românica (Linguística) em Tübingen, cargo que ocupou até sua morte. Publicou obras como Tradições de falar (1983).
15 Prof.ª Dr.ª Konstanze Jungbluth é professora de Linguística (Pragmática, Sociolinguística, Línguas
Românicas) da Faculdade de Ciências Sociais e Culturais e da Universidade Européia Viadrina Frankfurt (Oder), na Alemanha.
16 Roland SchmidtRiese é professor titular de Linguística Românica na Universidade Católica de Eichstätt-
Ingolstadt. Tem doutorado em Filologia Românica da Universidade de Friburgo, em Brisgóvia, e pós-doutorado em Filologia Românica da Universidade de Munique, este último versando sobre a gramática colonial nas Américas. Além disso, tem feito pesquisa sobre a história do português brasileiro, sobre contatos linguísticos, especialmente referente às áreas da Morfologia e Sintaxe. Dá aula em cursos de Linguística Francesa, Italiana e Espanhola.
17 Prof. Dr. Johannes Kabatek, nascido em 1965 em Stuttgart/Alemanha. Professor titular do departamento de
Romanística da Universidade de Tübingen, Alemanha. Desde 2002 é membro da Comissão de Seleção de Humboldt Foundation e Membro da Real Academia Galega. É professor visitante nos EUA, no Brasil, no Chile e na Espanha. Atua em áreas como: linguística românica, línguas minoritárias, Linguística Histórica, Fonética. Suas principais obras: Os falantes como linguistas, Sintaxe histórica do espanhol e mudança
representação das ações do homem, também sofre transformações. Segundo Charles Bally (apud COSERIU, 1979, p. 15), ―a língua muda sem cessar e não pode continuar funcionando senão não mudando‖. A mudança é um processo inerente à língua, portanto, toda língua natural evolui a partir do momento em que evoluem seus usuários.
O linguista romeno Coseriu (1979) foi um dos que estudaram a língua como manifestação em constante mutação, enxergando-a como sistema em movimento, em permanente sistematização: ―a mudança na língua não é alteração ou deterioração [...], mas reconstrução, renovação do sistema, e assegura a sua continuidade e o seu funcionamento‖. A língua se constrói a partir das mudanças e ―morre‖ quando cessa de mudar (COSERIU 1979, p. 237). Ainda com relação à mudança linguística, Coseriu (1979, p. 63) diz que ―A língua muda justamente porque não está feita, mas faz-se continuamente pela atividade lingüística‖.
Vale salientar que as atividades linguísticas caminham juntas com as práticas sociais. Portanto, à medida que as práticas sociais e as condições de produção mudam, a língua também passa por transformações, as quais podem ocorrer em vários níveis de estrutura: vocabular, fonológica, morfológica, sintática e semântica. Por isso, a todo o momento, palavras e expressões são vistas como obsoletas, resultando em arcaísmos. Contudo, Faraco informa que
É importante, de início, destacar que a mudança gera contínuas alterações da configuração estrutural das línguas sem que, no entanto, se perca, em qualquer momento, aquilo que costuma ser chamado de plenitude estrutural e potencial semiótico das línguas (FARACO, 2005, p. 14) (Grifos do autor).
Assim, apesar das movências da língua, seu caráter sistêmico é mantido, ou seja, ela continua organizada a fim de que seus falantes disponham dos recursos necessários para construção de sentidos.
As inovações tecnológicas, o estreitamento das distâncias entre diferentes localidades, entre tantos outros processos geradores de mudanças no comportamento humano são responsáveis pela incorporação de novas práticas sociais, novos termos à língua, novas formas de enunciar, etc.. Sobre isso, Coseriu (1979, p. 100) diz que a língua é ―um fazimento‖, ou seja, está sempre em processo de mutação, isso porque se configura como um sistema que tem a função de comunicar e, portanto, faz-se continuamente, já que o falar é uma atividade criadora. Contudo, não é natural aos falantes essa percepção de mudança na língua. ―Parece que, como falantes, construímos uma imagem da nossa língua que repousa antes na sensação de permanência do que na sensação de mudança‖ (FARACO, 2005, pp. 14-15). Isso porque é
própria dos sujeitos sociais a necessidade de estarem ancorados nas tradições, por isso, o passado é normalmente mais valorizado que o presente. Um exemplo disso foi a repercussão das mudanças propostas pelo Novo Acordo Ortográfico, que entraram em vigor em 01 de janeiro de 2013, acerca do qual houve muita resistência.
A realização da linguagem enquanto fala ocorre em qualquer contexto ―segundo uma técnica determinada e condicionada historicamente, ou seja, de acordo com uma língua‖ (COSERIU, 1979). Coseriu (1979) define as línguas como técnicas históricas da linguagem, firmadas em tradições peculiares a cada sociedade. Por outro lado, como a língua não é o único processo de comunicação, o qual também pode ocorrer em sua forma não verbal, através dos diversos signos, símbolos, ícones, imagens, etc., que circulam socialmente; é possível também perceber, nestas formas, marcas de mudanças e de permanência ao longo do tempo. Assim, podemos dizer que não só a fala é uma atividade criadora, mas todo processo de comunicação, quer seja verbal, quer seja não verbal, os quais se encontram sustentados pela tradição.
Na perspectiva de Coseriu (1979), a mudança linguística é um fenômeno da língua/linguagem por meio da fala: ―A língua não existe senão no falar dos indivíduos, e o falar é sempre falar uma língua‖ (COSERIU, 1979, p. 33). Entretanto, acreditamos que na sociedade atual, tida como imagética e caracterizada pela renovação tecnológica, os processos de comunicação entre os indivíduos extrapolam os limites da língua e da fala, e passam também pela não materialização da palavra, ou seja, pela linguagem não verbal. É possível, observarmos, por exemplo, propagandas inteiras sem nenhuma ocorrência verbal, apenas um fundo musical e a dança das imagens, das cores, das formas, construtores de sentidos e de identidades. Por isso, o objeto de estudo da Linguística, enquanto ciência, só pode ser a linguagem, em todos os seus aspectos. Nesse contexto, as mudanças na linguagem também podem ser observadas na pintura, na escultura, na arquitetura, nas expressões das artes como um todo, nas conversas virtuais com o uso dos ícones, nas expressões faciais e corporais, nas imagens, fotos, símbolos, signos, etc., ou seja, em qualquer atividade humana comunicacional/discursiva.
As inovações nas condições de produção das formas linguístico-textuais e imagéticas resultam, pois, inevitavelmente, em mudanças nos gêneros. Sobre isso, Aschenberg afirma:
Uma mudança das condições midiáticas traz consigo uma mudança das tradições discursivas: a introdução da escrita nas línguas nacionais, a invenção da impressão tipográfica, a introdução de mídias eletrônicas causam a perda, a reorganização e a invenção de tradições discursivas.
Nessas mídias eletrônicas articulam-se outros processos de um alcance ainda maior que, a longo prazo, afetam nossos hábitos cognitivos. (ASCHENBERG, 2003, p. 11).
Assim, a mudança na codificação/estrutura da imagem provoca alteração na apreensão de textos, reprodução na memória, bem como, tradição das formas discursivas.
De forma a elucidar as consequências geradas pelas mudanças na sociedade ocorrendo em transformações nas Tradições Imagético-Discursivas (TID), podemos citar, por exemplo, a invenção da Internet, o que possibilitou o desenvolvimento de novas formas de comunicação, bem como, a adequação do ato de escrever ao ato de digitar/clicar, o surgimento de novas formas linguísticas, como a variação própria deste suporte – o internetês; além disso, a incidência de comunicação não-verbal aumentou significativamente através do uso de símbolos, ícones e imagens, como os chamados emoticons, ícones que, muitas vezes, substituem palavras ou enunciados inteiros num ato comunicativo/discursivo. Tais mudanças nas formas de comunicação resultam, consequentemente, na produção de novas tradições discursivas, mais precisamente, tradições imagético-discursivas. Isto porque os símbolos, assim como os signos, são representativos, trazem uma significativa carga semântica, na sociedade atual. Por exemplo, os indivíduos leem muitos símbolos através de imagens, ícones, pinturas, etc. Há, portanto, uma mudança, também, nas formas de dizer, de ler, de atuar linguístico/discursivamente.
Diante disso, novos direcionamentos nas práticas sociais e discursivas exigem novas estratégias de sistematização dessas tradições, como uma forma de adequação frente às novas exigências comunicacionais. Desse modo, ratificamos nossa sugestão de uma teoria das Tradições Imagético-discursivas em pesquisas que tenham como escopo teórico as TD, a Linguística Histórica etc., a fim de que essa proposta dê conta dos mais diversos processos sócio-histórico-discursivos, enxergando nestes as mudanças como forma de adequação às novas práticas dos sujeitos; bem como, os traços de permanência, de maneira a perpetuar uma tradição que lhe serve de base.