A história é como um palácio do qual não descobrimos toda a extensão e do qual não podemos ver todas as alas ao mesmo tempo; assim não nos aborrecemos nunca nesse palácio em que estamos encerrados.
A periodização é parte fundamental do conhecimento histórico. Entretanto, tabular precisamente as inúmeras mudanças na linguagem torna-se tarefa extremamente árdua, levando em consideração a heterogeneidade constitutiva da língua, a diversidade de gêneros enquanto corpus de análise, as diversas influências internas e externas sofridas pela língua, as particularidades da oralidade e da escrita etc.
Desse modo, nosso olhar, nesse primeiro momento, será lançado sobre o discurso do horóscopo em Almanaques e Revistas, observando as características que os constituem, bem como, atentando para as mudanças e permanências da materialidade linguística e extralinguística, sem, contudo, sustentar a intenção de periodizar. Isso, principalmente, levando em consideração a dificuldade de construir um arquivo (corpus de análise) com o objeto de estudo selecionado (discurso do horóscopo), uma vez que, apesar de ser um discurso recorrente no campo social, é tido como marginal; em especial, os registros mais antigos, como se seu conteúdo/previsões não tivessem mais ―validade‖.
Assim, por hora, partimos para uma análise com foco no aspecto sócio-histórico- cultural e sua contribuição no processo de desenvolvimento linguístico. Isso fortalece a ideia de que atuar no campo da Linguística Histórica significa caminhar sobre as trilhas da história sócio-cultural da língua, levando em consideração de que seus falantes pertencem a grupos sociais situados, o que resulta na heterogeneidade linguística manifestada em diversos gêneros. Essa escolha está ancorada na tripartição (sistema, norma, fala) proposta por Coseriu (1979, p. 79), a qual, de acordo com o teórico, é importante, pois apresenta ―o conceito de língua no lugar que lhe corresponde, na consideração descritiva e histórica, e não analítica e interpretativa, da linguagem‖. O linguista explica ainda que ―o conceito corrente de língua não se estabelece com critérios exclusivamente lingüísticos, mas também com critérios culturais‖ (COSERIU, 1979, p. 77).
A realização da linguagem, na perspectiva coseriana, ocorre em três níveis:
a) o Nível Universal (sistema) – que diz respeito ao ato de falar; é a capacidade inata que todo falante tem do sistema da língua e da utilização dos signos linguísticos;
b) o Nível Histórico (norma) – refere-se às marcas linguísticas de uma comunidade; diz respeito aos traços históricos e atualizados de determinadas línguas. Neste nível, Koch (1997) aponta dois domínios: as tradições discursivas e as línguas históricas. Nestas últimas situam- se as variantes linguísticas (orais e escritas) junto às particularidades de cada língua quanto as suas normas fonéticas, fonológicas, morfossintáticas e lexicais. Por sua vez, as tradições discursivas marcam a tipologia textual, os gêneros discursivos, os estilos etc. Acerca disso, Oesterreicher informa que:
[...] as tradições discursivas funcionam em virtude de situações comunicativas determinadas historicamente. Todo discurso individual guiado por determinados modelos discursivos – os gêneros ou as tradições – se constitui no marco de uma série de constelações comunicativas que controlam os traços específicos de cada discurso e as possíveis modalidades de sua produção e recepção (OESTERREICHER, 2002, p. 359).
c) o Nível Particular (fala) – é a realização individual; trata-se da materialização dos discursos.
Com base nesse segmento, é possível enxergarmos a língua enquanto atividade criadora, ancorada em tradições linguísticas que não só se materializam nos discursos sociais, mas também os atualizam. A noção do nível histórico da língua e de tradição discursiva é de grande valia para a teoria da mudança linguística, uma vez que nos permite observar ―[...] as continuidades e descontinuidades da evolução textual, e talvez de uma possível evolução lingüística paralela‖(KABATEK, 2001, p. 100).
As considerações acima acerca das TD e das Mudanças Linguísticas podem ser observadas no discurso do horóscopo, nosso objeto de estudo, veiculado em almanaques e revistas, em especial, as femininas, já que este gênero não foi encontrado em revistas masculinas no Brasil. É importante justificar a análise do nosso objeto de estudo em almanaques nesse momento da pesquisa, uma vez que nosso foco é sobre o horóscopo em revistas femininas. Fizemos esse recorte, nessa primeira etapa da análise, por dois motivos: primeiro com o objetivo de observar o gênero horóscopo que não fosse exclusivamente voltado à mulher, a fim de confirmar as particularidades de seu discurso em revistas femininas; segundo, diante da inacessibilidade a esse gênero em revistas femininas antigas, o que nos privaria de lançar um olhar sobre nosso objeto de estudo numa perspectiva histórica.
Desse modo, neste primeiro momento destinado à análise de nosso corpus, analisaremos textos sob um olhar diacrônico, atentando para o contexto social, histórico e cultural no qual os mesmos foram produzidos, visando a uma aproximação com suas condições de produção e circulação na qual foram veiculados; para assim, tentarmos entender a manifestação desse discurso, recorrente ainda hoje, mesmo que sob outras circunstâncias.
Vejamos o primeiro texto no Almanach d’ “O Pensamento”, de 192818.
18 Vale salientar que ficamos de fotografar novamente os horóscopos do Almanach d’ “O Pensamento” e
do Almanaque d’ Saúde da Mulher na Biblioteca Átila de Almeida, contudo na oportunidade de revisão
do texto esta biblioteca passava por uma reforma, bem como algumas de suas obras foram extraviadas, privando-nos de ter acesso ao seu acervo. Diante disso, nos textos em que a leitura fica comprometida pela qualidade da imagem, optamos por colocar legendas.
Figura 10 – Capa do Almanach d’ “O Pensamento”, de 1928. Fonte: Biblioteca Átila de Almeida, Universidade Estadual da Paraíba.
Figura 11 – Folha de rosto do Almanach d’ “O Pensamento”, de 1928. Fonte: Biblioteca Átila de Almeida, Universidade Estadual da Paraíba.
Figuras 12, 13, 14 e 15 – Horóscopo do Almanach d’ “O Pensamento” de 1928. Fonte: Biblioteca Átila de Almeida, Universidade Estadual da Paraíba.
O Almanach d’ “O Pensamento” é um almanaque popular brasileiro, publicado
anualmente desde 1912, que traz, em seu conteúdo, as predições diárias dos signos do horóscopo, as posições dos astros, os santos do dia, a numerologia, a previsão do tempo etc. Assim, é possível observar nas páginas 41 e 67, no tópico PHENOMENOS, as posições astrológicas para os signos de aquários e peixes, respectivamente; bem como, no tópico GUIA PRÁTICO ASTROLÓGICO, discursos preditivos contemplando os dias dos meses de janeiro e fevereiro, direcionados às pessoas desses signos, o que também é observado nas páginas 43 (aquário) e 69 (peixes).
Num primeiro momento, o que nos chama a atenção são os traços linguísticos do
Almanach d’ “O Pensamento” (1928), ou seja, o uso de algumas marcas vocabulares distintas
das que usamos atualmente. Vale ressaltar que entre os séculos XVI e XX, o português escrito no Brasil e em Portugal era guiado pela matriz etimológica grega e latina. Entretanto, a partir de 1907 a Academia Brasileira de Letras (ABL) dá início a um processo de simplificação de sua escrita, mas só em 1911 é sancionada uma grande Reforma Ortográfica que atende apenas a Portugal, pois esta foi elaborada sem qualquer acordo com o Brasil, resultando em ortografias diferentes entre estes países.
O século XX foi marcado pelo crescimento do mercado editorial, bem como pelas constantes alterações ortográficas entre Brasil e Portugal, o que resultou numa ―desordem‖ linguística insustentável e a consequente necessidade de unificação ortográfica dos dois principais países de língua portuguesa – Brasil e Portugal (NUNES, 1997).
É importante trazermos em questão a década de 1920, pois é onde situamos o primeiro objeto de análise desse texto – Almanach d’ “O Pensamento” de 1928. Esse é um período de grande importância diante da reflexão proposta acerca da afirmação do nacionalismo linguístico brasileiro, o que gerou, no campo linguístico, publicações como a de João Ribeiro
A Língua Nacional (1921); no campo literário, a Semana da Arte Moderna (1922), a qual
propôs uma revolução da linguagem e da arte no Brasil. Neste mesmo ano, Mário de Andrade idealiza sua Gramatiquinha, projeto que é construído ao longo da década de 20 através de coleta de materiais para sua concretização, visando à independência linguística do Brasil. Como se vê, os escritores modernistas atuaram como renovadores não apenas da estética literária, como também da linguagem e sua construção identitária nacional, tendo, como um dos mais importantes, Oswald de Andrade.
Após este momento, houve sucessivas tentativas de uniformizar a escrita entre Brasil e Portugal, muitas frustradas. O próprio Acordo Ortográfico de 1945 não foi posto em prática no Brasil, continuando em vigor as regras propostas pela ABL em 1943. Só na década de 1970 (1970 no Brasil e 1973 em Portugal) foram sancionadas reformas ortográficas que aproximavam a escrita do Brasil a de Portugal.
Por fim, o mais novo Acordo Ortográfico é apresentado em 1990, após anos de tentativas, propondo mudanças na língua portuguesa dos países lusófonos: Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, e São Tomé e Príncipe. Timor-Leste só pode assinar o documento do acordo em 2004, após sua independência. Este acordo entrou em vigor em 1º de janeiro de 2009, tendo, a princípio, um período de adaptação para passar a vigorar a partir de 1º de janeiro de 201319, entretanto esse período foi estendido por prazo indeterminado.
O Conteúdo temático do discurso do horóscopo apresentado no Almanach d’ “O Pensamento” (1928) traz predições com foco em:
Tabela 1 – Conteúdo temático do horóscopo no Almanach d’ “O Pensamento” (1928)
Escopo Trechos do Almanach d’ “O Pensamento” (1928)
Viagens
―Podes viajar‖ (dia 1, p. 41; dia 9, p. 43; dia 1, p. 67, dia 11, p. 69; dia 12, p. 69);
―Não viajes em trem ou automovel‖ (dia 6, p. 43); ―Dia improprio para viajar‖ (dia 7, p. 43);
―bom para viajar em trem ou automovel‖ (dia 8, p. 43); ―Dia favoravel para viajar‖ (dia 10, p. 43);
―Não viajes‖ (dia 9, p. 69).
Negócios/ Finanças/ Aquisições
―Podes [...] assignar documentos‖ (dia 1, p. 41; dia 11, p. 43; dia 12, p. 69);
―[...] nem trates de negocios novos‖ (dia 6, p. 43);
―Bom dia para tratar de negocios relativos ás casas, construcções, terras e minas‖ (dia 7, p. 43; dia 9, p. 43; dia 10, p. 69);
―[...]; não assignar contractos ‖(dia 7, p. 43);
―Dia favorável para assumptos financeiros‖ (dia 8, p. 43);
―bom para [...] tratar de negocios novos, empresas originaes, invenções e trabalhos mechanicos‖ (dia 8, p. 43);
―Dia favoravel para [...] encetar negocios novos‖ (dia 10, p. 43); ―Não faças negocios importantes‖ (dia 1, p. 67; dia 7, p. 69);
―[...] nem trate de empresas arriscadas e negocios novos‖(dia 9, p. 69) ―Dia bom para [...] encetar negocios novos [...] e para tratar de negocios relativos ás casas, construcções, terras e minas‖ (dia 11, p. 69);
―[...] nem encetes negocios novos‖ (dia 12, p. 69); ―Podes [...] encetar negocios novos‖ (dia 13, p. 69).
Questões Políticas
―não tratar de assumptos politicos‖ (dia 7, p. 43); ―Podes [...] tratar de assumptos politicos‖ (dia 1, p. 67); ―Podes [...] tratar de negocios politicos‖ (dia 11, p. 69).
Questões Jurídicas ―Dia favoravel para assumptos [...] jurídicos‖ (dia 8, p. 43); ―[...]evita [...] processos‖ (dia 9, p. 69). Questões Religiosas ―Dia favoravel para assumptos [...] religiosos‖ (dia 8, p. 43).
Saúde
―Dia favoravel para investigações psychicas‖ (dia 6, p. 41 e p. 43); ―Dia favoravel para [...] consultar medicos‖ (dia 10, p. 43); ―Dia improprio para operações cirurgicas‖ (dia 10, p. 69);
―Dia bom para [...] consultar médicos [...] e para tratar de [...] investigações psychicas‖ (dia 11, p. 69);
―Dia desfavorável para operações cirurgicas‖ (dia 12, p. 69); ―Podes [...] consultar medico‖ (dia 13, p. 69).
Assuntos militares ―Dia favoravel para [...] assumptos militares‖ (dia 10, p. 43); ―Dia bom para [...] assumptos militares‖ (dia 11, p. 69).
Ações pessoais
―Podes [...] fazer mudanças‖ (dia 1, p. 41; dia 12, p. 69); ―[...] nem fazer mudanças‖ (dia 7, p. 43);
―Podes [...] divertir-te, comprar vestidos ou joias‖ (dia 9, p. 43; dia 13, p. 69);
―Dia favoravel para [...] fazer compras‖ (dia 10, p. 43); ―Podes [...] pedir favores‖ (dia 1, p. 67);
―[...] evita especulações, emprestimos‖ (dia 9, p. 69); ―Não compres vestidos nem joias‖ (dia 10, p. 69);
―Não faças compras avultadas‖ (dia 10, p. 69; dia 12, p. 69); ―Dia bom para fazer compras‖ (dia 11, p. 69).
Relações interpessoais ―[...] nem pedir favores‖ (dia 7, p. 43); ―Podes tratar com outro sexo [...]‖ (dia 9, p. 43; dia 13, p. 69); ―[...] evita pessoas edosas‖ (dia 1, p. 67; dia 7, p. 69); ―evita o outro sexo‖ (dia 10, p. 69; dia 12, p. 69);
―Podes [...] pedir favores‖ (dia 11, p. 69);
Sexualidade ―[...] evita o outro sexo‖ (dia 10, p. 69; dia 12, p. 69);
Ausência de predição ―Sem importancia‖ (dia 8, p. 69).
O discurso preditivo no Almanach d’ “O Pensamento” (1928), em especial no tópico Guia pratico astrologico, é marcado, de forma explícita, pelo tipo textual injuntivo, o qual
indica como realizar uma ação ou prediz acontecimentos, apresentando, em sua maioria, os verbos no imperativo ou em formas verbais equivalentes, o que denota o tom autoritário, de ordem ou de alerta, que marca os horóscopos dessa época.
Em sua estrutura discursiva, o horóscopo deste almanaque não traz a caracterização das pessoas regidas pelos signos observados, mas sim, preocupa-se em apontar as posições dos astros por cada dia do mês em questão, além de sinalizar os períodos das fases da lua.
O discurso do horóscopo no Almanach d’ “O Pensamento” era direcionado a um
público adulto, masculino e/ou feminino, com o foco principal em questões profissionais, financeiras/negócios, pessoais/interpessoais e de saúde; trazendo, ainda, em segundo plano, questões religiosas, políticas, jurídicas, militares, além de outras, que sequer são mencionadas – Sem importancia (ALMANACH D‘ ―O PENSAMENTO‖, dia 8, p. 69).
A constatação de que o horóscopo no almanaque em questão estivesse voltado à figura masculina poderia ser aceitável, em vista do teor discursivo por ele apresentado (viagens, negócios, finanças, política, assuntos jurídicos e militares), bem como, pela época de publicação (1928). Contudo, seria arriscado sustentarmos essa afirmação, pois desde as I e II Guerras Mundiais (1914 – 1918 e 1939 – 1945, respectivamente), em que os homens tinham que se apresentar às frentes de batalha, as mulheres passavam a comandar os negócios da família e assumirem seus lugares no mercado de trabalho, o que se manteve após o fim das guerras, em virtude de muitos desses homens perderem suas vidas ou ficarem impossibilitados de retomar suas atividades.
A partir, principalmente, desse período em que as mulheres deixam de atuar apenas no espaço doméstico e dão segmento aos projetos de seus pais e maridos, o que vem a se consolidar no século XIX, com o sistema capitalista, o qual apresenta as mudanças necessárias à normatização da produção e organização do trabalho feminino; algumas leis foram sancionadas visando o benefício das mulheres. A primeira delas consta na Constituição de 1932, que em seu artigo 121 sustenta uma atuação profissional:
[...] sem distinção de sexo, a todo trabalho de igual valor correspondente salário igual; veda-se o trabalho feminino das 22 horas às 5 da manhã; é
proibido o trabalho da mulher grávida durante o período de quatro semanas antes do parto e quatro semanas depois; é proibido despedir mulher grávida pelo simples fato da gravidez.
A figura 16 a seguir, caracteriza esse manifesto.
Figura 16 - Revolução Constitucionalista de 1932, liderada por bravos paulistas. Fonte: Site do SP Urbanista, 09 July 2008. Disponível em: <http://urbanistas.com.br/sp/wp-content/uploads/2008/07/revolucao-1932.jpg>. Acesso em: 24 mai. 2012.
No ano seguinte, mais precisamente em 3 de maio de 1933, a mulher votou pela primeira vez no Brasil em eleições nacionais.
A seguir, nos debruçaremos sobre nosso objeto de estudo (o horóscopo) em dois suportes distintos, mas que estão inseridos em contextos sócio-históricos semelhantes, na década de 1950, quais sejam: o Almanaque d’A Saúde da Mulher, de 1950, e a Revista O
Cruzeiro, de 1959.
Figura 17 – Capa do Almanaque d’A Saúde da Mulher, de Janeiro de 1950. Fonte: Biblioteca Átila de Almeida, Universidade Estadual da Paraíba, Campina Grande, PB.
Figura 18 – Horóscopo no Almanaque d’A Saúde da Mulher, de Janeiro de 1950. Fonte: Biblioteca Átila de Almeida, Universidade Estadual da Paraíba, Campina Grande, PB.
Figura 19 – Capa e sumário da Revista O Cruzeiro, de 14 de março de 1959. Fonte: O Sebo Cultural, João Pessoa, PB.
Figura 20 – Horóscopo da Revista O Cruzeiro, de 14 de março de 1959. Fonte: O Sebo Cultural, João Pessoa, PB.
É pertinente situarmos o período de produção do almanaque e da revista, para entender a materialidade discursiva desses suportes. Entretanto, faz-se necessário, antes, apresentarmos os suportes que serão usados nesse momento. O primeiro, o Almanaque d’A Saúde da Mulher,
era o que se chamava de almanaque de ―pharmácia‖, o qual era publicado anual e/ou mensalmente por um laboratório farmacêutico, visando a divulgação de algum medicamento. Para tanto, eram feitas grandes tiragens e distribuídas de forma gratuita às farmácias das mais diversas regiões do país. Traziam em seu conteúdo, além das propagandas de remédios, calendários, horóscopos, fases da lua, piadas, receitas diversas, dicas de saúde, dias dos santos, histórias diversas, textos literários, etc.
No caso do Almanaque d’A Saúde da Mulher, o laboratório responsável era o Daudt,
que iniciou suas tiragens em 1906, como estratégia de lançamento do tônico Saúde da
Mulher, marcando a geração de várias mulheres. Seu último exemplar foi divulgado em 1974
e seus assuntos versavam, principalmente, acerca da saúde e do bem estar feminino.
A revista O Cruzeiro, por sua vez, é tida como a mais importante revista brasileira ilustrada do século XX, a qual teve sua primeira publicação em 10 de novembro de 1928. Esta revista apresentava temáticas diversificadas, tais como: reportagens, política, vida dos astros de Hollywood e das celebridades nacionais, cinema, culinária, saúde, esportes, textos literários, piadas, horóscopos, moda, charges, etc., voltadas ao público feminino e masculino.
Com o surgimento de novas publicações e a inserção do meio televisivo e das investidas do golpe militar, O Cruzeiro entrou em declínio, tendo sua última tiragem em julho de 1975.
No que diz respeito à contextualização da década de 1950, esta ficou conhecida como Anos dourados. Trata-se de um período de pós-guerra (II guerra mundial, de 1939- 1945) e o início de período de revoluções artísticas, comportamentais e tecnológicas. No campo artístico, as indústrias da música e do cinema tornaram-se bastante influentes. Com o início dos festivais de música Brasileira, muitos talentos foram revelados. A arte, como um todo, atua com um tom revolucionário.
No que diz respeito ao avanço tecnológico, o Brasil ganha um novo cenário com a era de Juscelino Kubitschek, criando um canteiro de obras nas principais cidades do país, o que impulsionou ainda mais o êxodo rural. Esse período traz à tona, também, a produção e o consumo de ―aparelhos modernos‖ que adentraram as casas de classe média brasileira: liquidificadores, panelas de pressão, enceradeiras, batedeira, fogão a gás, televisores, etc., bem como produtos industrializados como alimentos, bebidas, de higiene pessoal e de beleza. Inclusive, a história da televisão no Brasil teve início em setembro de 1950, com a fundação
da TV Tupi como primeiro canal televisivo do país. Tudo isso trouxe muitas mudanças no comportamento das pessoas: os mais jovens passam a seguir James Dean e Elvis e seu conceito de juventude transviada, além de modificarem o estilo de roupas, os penteados e a dançarem rock and roll e twist. Tal realidade faz emergir uma visão nacionalista e a ideia de um país rumo ao progresso.
Os anos dourados foram marcados, pois, pelos processos de urbanização, industrialização e pela ascensão da classe média, o que possibilitou a educação, profissionalização, lazer e consumo tanto para homens quanto para mulheres, resultando numa sutil diminuição das diferenças entre eles.
Contudo, como na década de 1950 reinava, de forma acentuada, o ideal de felicidade conjugal, havia certas regras sociais e posturas a serem adotadas por parte dos homens e das mulheres. Apesar de não haver mais a obrigação dos casamentos arranjados pelos pais, ainda assim, a mulher era criada para atuar no espaço doméstico; por isso, neste período, a figura feminina idealizada era aquela que sabia cuidar de uma casa, que era prendada, a ―rainha do lar‖; que também cuidava da aparência e era a boa esposa, isso porque caía sobre ela a responsabilidade do sucesso do casamento.
O homem, por sua vez, assumia o papel de ―chefe da casa‖, por isso detinha o poder e decisão, o controle financeiro, bem como, gozava de liberdade. Sua esposa tinha a função de estar sempre pronta para agradá-lo e nunca incomodá-lo.
Feita esta breve contextualização, voltemos ao objeto de estudo. Com relação aos fatores morfossintáticos, no Almanaque d’A Saúde da Mulher (1950), como se observa a
seguir, não foi identificada nenhuma ocorrência distinta das marcas linguísticas atuais, o que não quer dizer que não havia distinções, mas sim, que devido a pouca exposição de texto, elas não apareceram. Até porque, as marcas linguísticas desse período são o resultado das alterações proposta pela ABL em 1943, muitas das quais foram modificadas em acordos ortográficos posteriores.
Figura 21 – Horóscopo no Almanaque d’A Saúde da Mulher, de Janeiro de 1950. Fonte: Biblioteca Átila de Almeida, Universidade Estadual da Paraíba, Campina Grande, PB.
Por outro lado, no Horóscopo da Revista O Cruzeiro (1959), é possível observar as seguintes mudanças em relação à ortografia atual20.
20 Como as imagens da Revista O Cruzeiro que foram coletadas no Sebo Cultural em João Pessoa, não
ficaram muito nítidas, optamos por inserir uma legenda na nota de rodapé, remetendo ao texto analisado, conforme se vê a seguir.
No tópico Símbolos: 1 (Carneiro) 4 (Balança) 2 (Escorpião) 5 (Aquário) 3 (Capricórnio) No tópico Profissão: 6 (Caranguejo) 8 (Capricórnio) 7 (Leão) 9 (Balança) _______________
1 ―Jardim em miniatura, bolsa de ráfia, luvas brancas‖. 2 ―Gerânios, chambre elegante, candelabros de cristal‖.
3 ―Jardins artificiais, traje de noite em musselina, lenço côr de pérola‖.
4 ―Plantas em vasos, traje de ―cocktail‖ muito decorado e ousado, vaso precioso‖. 5 ―Rochedos sôbre o mar, duas-peças em tecido de côr unida, jóia de ouro‖.