2. KURAMSAL BİLGİLER VE KAYNAK TARAMALARI
2.8. Küme Esaslı Tasarım Yaklaşımının Süre, Maliyet ve Kalite
Pois bem, feita a revisão da fortuna crítica mais importante de Ferreira Gullar a respeito desses procedimentos de particularização, como se configura o motivo da esperança dentro deste quadro de amadurecimento poético? Para responder, é preciso considerar tanto o que Dentro da noite veloz conserva ainda dos Romances de cordel, num plano ideológico,
48 Já Na vertigem do dia, outra obra escolhida para análise neste trabalho, marcaria então uma espécie de retorno
àquela consciência da solidão do primeiro livro, mas com uma diferença: se em A luta corporal essa consciência aparece como constatação desestabilizadora da relação eu/mundo, em Na vertigem do dia ela se configura como ganho reflexivo que, ao contrário do livro de estréia de Gullar, demonstra ao eu a necessidade existencial da esperança como mola propulsora à ação presente. Voltaremos ao problema no segundo capítulo desta dissertação.
49 LAFETÁ, 2004. p. 237. O comentário é feito acerca de Poema sujo, mas se aplica bem ao que já se vê em
Dentro da noite veloz.
quanto o que, em um plano estético, representa como início da poesia madura de Gullar, tendo em vista justamente aqueles procedimentos de interiorização e sincronização.
Dentro da noite veloz é, entre suas obras todas, certamente a que referencia a esperança
de maneira mais aberta (um número enorme de seus poemas cita pelo menos uma vez a palavra). O próprio título já sugere positividade, adjetivando como “veloz” a “noite” na qual se encontra o sujeito: reconhecendo-se “dentro” dela, assumindo-se como parte de um tempo problemático, o poeta não deixa de lançar sua perspectiva adiante; o agora obscuro aponta para a expectativa de uma virada dos tempos (noite e dia), sugerindo a iluminação de um momento que parece não tardar. Assim, seria até possível dizer que o motivo da esperança já se insinua de alguma maneira no título da obra, sem, no entanto, conter completamente a maneira como ele se processa dentro dela. Pelo contrário, se o leitor considerar a parcela mais literal da imagem que o título carrega, a interpretação pode seguir um caminho inverso ao que se verifica no livro. Explico-me: como é natural que o dia venha após a noite, ao aplicar simbolicamente esta certeza àquela idéia da expectativa, a leitura talvez dê a esta última uma carga de naturalidade com a qual o poeta não coaduna, como se a saída de um agora obscuro viesse invariável e naturalmente e independesse do esforço humano.
Ao contrário, como comenta Alcides Villaça, se “o tempo é vertiginoso, portanto dinâmico”, o que importa agora “são os movimentos do passageiro desse tempo, igualmente ativo no seu interior”51. Nesse sentido, o título traz consigo uma idéia de historicidade que é inclusive muito cara a Gullar: a matéria de sua poesia diz respeito ao seu tempo presente, sobretudo, nesse momento, às circunstâncias sociais daquele período. Assim, retomando o comentário de Villaça, no que tange à atividade do sujeito dentro de seu contexto, poderíamos
dizer, genericamente, que esse livro de 1975 associa o motivo da esperança à confiança em uma “luta comum”, isto é, a uma necessidade de se organizar socialmente para, a partir de um esforço coletivo, construir uma realidade menos dura, uma vez que não resta outra alternativa de mudança de um atual e desagradável estado de coisas a um homem que pensa o mundo de uma perspectiva materialista e que, por isso, não espera uma intervenção divina nem crê que um destino, cruel ou bom, já esteja traçado anteriormente à experiência da vida. A possibilidade de mudança depende então de uma ação presente, e o sujeito que se assume “dentro da noite veloz” precisa agir (e confia nesta ação, como veremos na leitura dos poemas) para que o momento de escuridão passe realmente em tal velocidade.
Vale lembrar, porém, que Dentro da noite veloz tem como intervalo de criação um longo período de treze anos (isto, é, a noite não foi tão veloz assim...), o que nos leva a imaginar, talvez antes mesmo de sua leitura (em função de Gullar ser um poeta tão ligado às questões que a vida lhe impõe a cada circunstância), uma oscilação de tratamento que um mesmo tema possa ganhar no decorrer da obra, o que se verifica nos poemas. A euforia mais apaixonada divide espaço com um doloroso desencanto, o que não deixa de confirmar aque la polaridade observada no título: há o reconhecimento de um presente problemático, seja ele em uma esfera íntima ou social (considerando-se ainda o desejo de aproximação dessas duas esferas), mas há também a contrapartida ativa que se esforça por escapar deste mesmo estado.
Assim, antes que entremos na leitura dos poemas, é preciso reconhecer que o motivo da esperança passa por alterações em Dentro da noite veloz — apesar de uma certa maturidade poética alcançada, apesar do constante pano de fundo materialista e apesar ainda da insistência temática —, indo de um olhar muito apaixonado pela luta política, nos primeiros textos, atravessando momentos de desilusão e reflexões sobre a identidade e a memória, ao longo de
toda a obra, até chegar à associação entre uma vontade muito íntima de mudança atrelada à necessidade de uma empreitada coletiva nessa direção, mesmo que a prática desta iniciativa se dê em esferas diferentes de ação: no caso de um poeta, a ação que lhe cabe se realiza na poesia, entendida como s ua ferramenta no exercício de alteração da realidade. Vejamos, então, por partes, como essa oscilação se processa.