4. BULGULAR VE TARTIŞMA
4.8. Örnek Uygulamanın Genel Değerlendirilmesi
Lançado em 1980, Na vertigem do dia coleciona poemas escritos desde 1975. A localização do livro na poesia de Gullar desperta questões importantes para o leitor que acompanha o roteiro do poeta, criando naturais expectativas sobre a obra, uma vez que ela sucede o Poema sujo (1976). Dessa maneira, Na vertigem do dia estaria para o longo poema de 1976 assim como O vil metal está para A luta corporal, e essa equação funciona sobretudo quando observamos, nas duas obras sucessoras, um certo amaneiramento da densidade e alquimia dos respectivos livros anteriores. É sintomático disso que os dois mais importantes estudos sobre Gullar, de Alcides Villaça e João Luiz Lafetá, aos quais ve nho fazendo constante referência, se dediquem muito pouco a uma leitura sistemática de Na vertigem do
dia para além do famoso poema “Traduzir-se”. Sintomático, embora compreensível, já que a
proposta de ambos reside na verificação da trajetória de uma poét ica, da qual o referido poema é realmente exemplar.
De fato, como mostra Villaça, é notável em Na vertigem do dia — e esperado, dada a envergadura de Poema sujo — um certo “arrefecimento” de alguns dilemas que acompanham desde sempre a poesia de Gullar e que ganham expressão profunda em seu longo poema. Não obstante o “discretíssimo poder de atualização”86 de Na vertigem do dia, acho importante, em função de minha preocupação voltar-se menos para a trajetória mais ampla de uma poética do
86 VILLAÇA, 1984. p. 169. A expressão se refere, na verdade, à atualização que o poema “Bananas podres” faz
que para o movimento de um motivo, observar, através da leitura de outros poemas não analisados pelos críticos, como o livro parece avançar na reflexão sobre a esperança, sustentando uma mitologia pessoal e aprofundando, embora discretamente, questões anteriores mesmo a Poema sujo, já presentes em A luta corporal, mas que ganham um olhar diferente a partir de Dentro da noite veloz, como vimos e venho tentando demonstrar.
Para muito além da intermediação cronológica, Poema sujo marca uma transição do Gullar que delega à milit ância política a possibilidade de mudança do presente, em Dentro da
noite veloz, para o Gullar mais reflexivo e voltado às questões da identidade, em Na vertigem do dia. Considerado por alguns críticos como o ponto mais alto de sua poesia, a obra de 1976
abandona de vez as simplificações da época cepecista, remanescentes em alguns poemas de
Dentro da noite veloz, para descer fundo na complexidade da própria experiência,
reconhecendo a multiplicidade da vida nas várias faces e tempos que o eu lírico observa e que se interpenetram por terem nele um eixo. Esse olhar sincronizador já aparece em Dentro da
noite veloz, mas é a partir de Poema sujo que ele se torna realmente um procedimento
obsessivo da poética gullariana.
Uma primeira leitura de Na vertigem do dia é capaz de nos dar uma medida desse salto, sendo que o próprio título, se comparado ao do livro anterior, pensando as imagens de noite e dia, já traz uma significativa noção de movimento. Mesmo que vários dos primeiros poemas de Na vertigem do dia sejam escritos ainda durante as agruras do tempo de exílio, Gullar fecha a obra, e talvez dê seu título, já no Brasil, passado aquele duro período que, como assinalamos no primeiro capítulo, pode ser representado pela imersão nas trevas (Dentro da
noite) de uma situação social e política marcada pela incerteza, pela insegurança, mas que
Curiosamente, porém, a idéia de que tempos melhores foram alcançados em Na
vertigem do dia, em função do movimento observado de um título ao outro, não parece
proceder quando olhamos para a obra com mais cuidado, uma vez que a dicção geral entusiasmada de Dentro da noite veloz, fazendo frente à obscuridade daquele momento, cede espaço a um canto que, se não é totalmente desiludido, é no mínimo menos eufórico, estranhamente menos solar, no que tange à reflexão sobre a esperança e certamente mais amargo em relação às convicções sobre aquela luta comum a ela relacionada. Na verdade, se contássemos, veríamos que Dentro da noite veloz possui um maior número de momentos amargurados do que Na vertigem do dia; porém, se verificássemos também a quantidade de imagens eufóricas direcionadas ao engajamento político, veríamos que ela é igualmente maior na primeira obra. Assim, o que movimento dos títulos poderia significar, se ele parece não marcar um encontro do sujeito com um estado de espírito e de coisas mais luminoso, após um período de sofrimentos motivados, em muita medida, por uma circunstância sociopolítica? O que há, em verdade, é uma mudança de perspectiva: além da alteração de tom sensível de um livro para o outro, a diferença significativa entre as duas obras, antes de residir na freqüência e na intensidade de momentos de alegria e desilusão, está na mane ira como o poeta se percebe no mundo e no modo como entende esse princípio de mudança do futuro embrenhado no presente, a que venho chamando de esperança.
Explico- me: a aparente desilusão de Na vertigem do dia, numa leitura mais atenta, parece revelar não a expressão de uma desistência em relação às posições políticas anteriores, mas sim a aquisição de uma consciência da solidão, que, à sua maneira, orienta agora o olhar do poeta sobre as perspectivas de futuro observadas nas possibilidades do presente, de modo que a esperança deixa de se apoiar em um projeto coletivo para se transformar em necessidade
básica à manutenção da vida. Nesse sentido, Na vertigem do dia , apesar de abandonar, de um modo geral, o entusiasmo da luta comum para aprofundar as questões da identidade (e justamente em função deste aprofundamento), consegue ser um livro mais “coletivo” do que
Dentro da noite veloz, já que o reconhecimento da solidão retira do motivo da esperança o seu
viés quase exclusivamente político para ser trabalhado numa acepção mais essencialista; a esperança perde, em grande parte, a referência direta a uma iniciativa bem localizada em espaço e tempo específicos e ganha uma dimensão mais universal. Retornarei a essa questão ainda neste capítulo, a propósito da leitura de “A alegria”.