2.1. DEĞERLERLE İLGİLİ KAVRAMLAR (DEĞER İLİŞKİLERİ)
2.1.2 Kültür
O repentino processo de transição demográfica brasileiro tem suas explicações em inúmeros fatores de ordem econômica, social e institucional, bem documentadas por muitos estudiosos (Merrick e Berquó, 1983; Carvalho, Paiva e Sawyer, 1981; Paiva, 1987; Faria, 1989; Alves, 1994; Potter, 1994, apud Perpétuo e Aguirre, 1998). No Brasil, a ausência de um Estado atuante no planejamento familiar (Berquó, 1985; Faria, 1998; Potter, 1999), abriu espaço para a iniciativa privada. A difusão de métodos contraceptivos que se utilizam da pílula e da esterilização tornou-se importante para que o processo de declínio da fecundidade ocorresse.
Outro elemento considerado, dessa vez de cunho “cultural” e de grande importância para a redução do tamanho familiar brasileiro, foi o papel desempenhado pelas telenovelas nacionais, com a difusão de valores e estilos de vida modernos; bem discutidos por Faria, 1998; Rios-Neto, 2001; Faria e Potter, 1999. Contudo, alguns resíduos da teoria de transição de fecundidade brasileira ainda não foram explorados. Um deles seria a relação entre o comportamento eleitoral e o comportamento reprodutivo brasileiro. O capítulo inicial desta tese, numa primeira tentativa de estudo, aponta para a existência de uma relação entre os níveis de fecundidade municipal em 1980 (expressos pela terceira parturição média) e os resultados eleitorais de 1976. Assim, segundo eles, nos municípios onde o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) possuía uma grande fração de eleitorado, também encontrávamos uma menor fecundidade. Eles concluíram que o comportamento eleitoral poderia ser o indicador de mudanças nos modus controle social; outra faceta do processo de modernização da sociedade brasileira, o marco de passagem de uma sociedade antes regida por normas comunitárias de controle sobre o indivíduo, e que, posteriormente, passaria a ser
governada por um comportamento ditado por valores individuais e democráticos, os quais mais à frente refletiriam numa escolha individual de padrão reprodutivo. Todos esses mecanismos: os culturais, os de ordem socioeconômica e os institucionais, foram importantes para explicar a transição de fecundidade brasileira, muitas vezes tratados como fatos isolados. Entretanto, ao longo da história, existiram algumas tentativas de estabelecimento de modelos mais seculares para explicar o processo de transição demográfica. Segundo Lesthaeghe e Vanderhoeft (2001), o exemplo mais importante e sintético é o modelo teórico de transição proposto por Coale (1973), que serve como bom guia para entender qualquer processo de transição de fecundidade, em qualquer parte do globo e a qualquer tempo. Para Coale (1973), a transição demográfica só poderia ocorrer se algumas (pré) condições básicas e essenciais fossem preenchidas. Segundo ele, apenas três condições – Ready-Willing-Able: “o estar pronto, ter o aval cultural e conhecer métodos que lhe permitam controlar a fecundidade” – são suficientes para entender o processo de redução de fecundidade. O importante, então, é conhecer como cada uma dessas condições opera em cada contexto estudado.
Dentre os três componentes, de acordo com Lesthaeghe e Vanderhoeft (2001), o elemento Willing sempre recebeu menos atenção que o Ready. A razão por trás é que o willingness (cultural) é imediatamente seguido do readiness (estar pronto). Em outras palavras, não existe um “dilema moral” ou “hiato cultural”. Muitas das discussões sobre a condição willing fizeram parte do Princeton European Fertility
Project. Tal condição foi muitas vezes usada como indicadora do processo de
secularização, caracterizando a redução do poder e da moral da Igreja sobre o controle reprodutivo familiar da Europa Ocidental.
A formalização da secularização nos contextos históricos europeus foi facilitada pelo fato da secularização ter sido, com freqüência, ligada à dimensão político- ideológica de organização social, permitindo que fosse operacionalizado através do comportamento eleitoral ou adesão a práticas religiosas (Lesthaeghe e Wilson, 1986; Livi-Bacci, 1971; Le Bras e Todd, 1981). Lesthaeghe e Vanderhoeft (2001), por conseguinte, argumentam que, nos contextos fora do ambiente cristão europeu, a “condição cultural expressa no willing” possa conter conotações mais
amplas. Primeiro, ela simboliza a legitimidade da interferência individual com a ordem natural das coisas, tida como uma nova construção social. Segundo, ela também descreve o poder individual de alterar a ordem natural, ou destino individualmente orientado versus um fatalismo definido pelos códigos morais comunitários. Por fim, essa condição ainda depende do grau de internalização de
crenças tradicionais e códigos de conduta.
Numa tentativa inicial de analisar a relação entre comportamento reprodutivo e comportamento eleitoral, e de acordo com as análises do primeiro capítulo dessa tese, acredita-se que, no contexto reprodutivo brasileiro, seria plausível acreditar na hipótese do comportamento eleitoral inovador – caracterizado pelo voto no MDB – como indicador do fim da marginalidade subjetiva e do voto clientelista e conformista (expresso no controle comunitário liderado pela figura do coronel) sobre o comportamento reprodutivo. Tais conclusões foram estabelecidas através de um modelo ecológico, considerando o município como unidade de observação; e no qual todas as inferências, entre os comportamentos eleitoral e reprodutivo, foram baseadas em informações municipais.
Um aprimoramento do modelo, proposto no primeiro trabalho dessa tese, poderia levar em conta, de um lado, características individuais da mulher e do contexto onde ela vive, e sua relação com o comportamento reprodutivo individual da mulher, do outro. Diante desse contexto, esse trabalho tem como objetivo melhor explorar a relação entre o comportamento eleitoral e o comportamento reprodutivo, por meio de uma análise hierárquica dos indicadores de variabilidade dos níveis de fecundidade de 1980. Com base em tal metodologia, busca-se distinguir as diferentes dimensões de efeitos em um mesmo modelo explicativo. A finalidade, portanto, é estimar diferentes efeitos, individuais e contextuais, sobre a fecundidade individual da mulher em 1980, isolando-se, assim, o efeito “contextual” eleitoral sobre a fecundidade média das mulheres, de outros componentes individuais.