Durante as etapas de edição e etiquetagem das amostras de fala coletadas, foi constatado que os sujeitos de pesquisa apresentaram produções de fala diferenciadas no que se refere à acentuação da palavra-alvo. Apesar de ter sido proposto o padrão de acentuação paroxítono (por exemplo, “papa”), por considerar este de maior ocorrência no PB, algumas crianças realizaram as produções com padrão de acentuação oxítono (“papá”). Deste modo, a segunda sílaba da palavra- alvo foi realizada como tônica (acentuação oxítona) e como pós-tônica (paroxítona). Foi verificado auditivamente que, nesta situação, o mesmo sujeito manteve a mesma acentuação da palavra no decorrer de todas as suas repetições ao longo da sessão coleta de dados. Diante dessa constatação, foi realizada a exploração do corpus coletado a fim de se definir contextos distintos de análise, os quais influenciaram os procedimentos adotados na sequência da pesquisa.
A literatura do PB aponta o parâmetro acústico duração como o principal correlato do acento lexical, sendo a diferença entre tônica e pós-tônica decorrente da maior duração da primeira em relação à segunda (Barbosa, 1996; Aquino, 1997;
Gama-Rossi, 1999). Para tanto, foram extraídas as medidas de duração dos segmentos vocálicos e consonantais dos segmentos assinalados em negrito da estrutura CVCV da palavra-alvo (consoante-vogal-consoante-vogal). Na sequência, foi aplicado tratamento estatístico para confirmar a existência de dois contextos de acentuação diferenciados (contextos tônico e pós-tônico) e definir as bases de análise de dados a ser seguida na pesquisa. Tal tratamento é apresentado no próximo item.
3.4.1 Análise estatística para definição do agrupamento das produções de fala dos sujeitos estudados
As técnicas estatísticas aplicadas foram análise discriminante e regressão logística, por meio do software XLSTAT. A análise discriminante é uma técnica estatística que permite descrever as características dos dados com o intuito de verificar fatores discriminantes e alocar tais dados dentro de grupos. É uma técnica que segrega e classifica, permitindo mostrar como as amostras de fala dos sujeitos se discriminam considerando a existência de dois contextos, tônico e pós-tônico. Já a regressão logística permite predizer a relação da variável categórica resposta (contextos tônico e pós-tônico) com as variáveis (medidas acústicas), explicando de que modo as amostras foram segregadas e quais medidas acústicas foram influentes para esta segregação em dois contextos.
A análise discriminante revelou poder segregatório das variáveis em 100% (tabela 1), formando duas classes distintas, com as produções de fala dos sujeitos S1, S4 e S5 em uma e com as produções de fala dos sujeitos S2, S3 e S6 em outra (figura 1). As amostras de fala foram segregadas por um fator (Fator 1 = 100%), em que as variáveis mais influentes para a segregação foram representadas por duração da vogal seguinte à consoante plosiva e duração da consoante plosiva. O teste de Lambda de Wilks, gerado nesta análise, mostrou que a função discriminante foi significativa.
Figura 1 - Gráfico de centroides da análise discriminante de estimação das produções de fala dos sujeitos nos contextos tônico e pós-tônico, a partir das medidas acústicas extraídas
TABELA 1 - MATRIZ DE CONFUSÃO DAS MEDIDAS ACÚSTICAS PARA OS DOIS CONTEXTOS TÔNICO E PÓS-TÔNICO PARA A AMOSTRA DE ESTIMAÇÃO DA ANÁLISE DISCRIMINANTE
de / a tônico pós-‐tônico Total % correto
tônico 79 0 79 100,00%
pós-‐tônico 0 85 85 100,00%
Total 79 85 166 100,00%
A análise de regressão logística aplicada às medidas acústicas das mesmas amostras de fala apresentou R2 de Nagelkerke = 1, com 100% de acerto da amostra de estimação e da amostra de validação e curva ROC=1. Tais achados reafirmam o poder de explicação de 100% na predição dos dados observados, bem como na segregação dos grupos de amostras de fala de contextos tônico e pós-tônico pelas medidas acústicas. contexto' tônico contexto pós-tônico -2 -1 0 1 2 3 -3 -2 -1 0 1 2 3 F a to r 2 (0 ,0 0 % ) Fator 1 (100,00 %)
Centroides (eixos Fator 1 e Fator 2: 100,00 %)
Figura 2 - Gráfico da curva ROC da análise de regressão logística das produções de fala dos sujeitos a partir das medidas acústicas extraídas
Todas as variáveis (medidas acústicas) revelaram diferenças significativas entre os contextos tônico e pós-tônico, com maior relevância para a duração da vogal e da consoante. Tais dados de duração encontram respaldo na diferença de acentuação (oxítona para o contexto tônico e paroxítona para o contexto pós-tônico), por ser a acentuação no PB marcada pelo aumento da duração na sílaba tônica (Barbosa, 1996; Aquino, 1997; Gama-Rossi, 1999).
Diante dos achados de análise discriminante e de regressão logística, em que ambos se mostraram satisfatórios e permitiram a segregação das amostras de fala em dois contextos de acentuação, foi definido o agrupamento dos sujeitos da pesquisa. Assim, as amostras de fala foram também classificadas em função do contexto tônico e do pós-tônico.
O contexto de análise tônico foi constituído pelas amostras de fala dos sujeitos que produziram a palavra-alvo como oxítona; o contexto pós-tônico foi constituído pelas amostras de fala dos sujeitos que produziram a palavra-alvo como paroxítona. Sendo assim, as amostras de fala foram classificadas pelos grupos com alteração e referência e também em função dos contextos tônico e pós-tônico (quadro 2).
0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1 Se n s ib il id a d e 1 - Especificidade
QUADRO 2 - CARACTERÍSTICAS DOS GRUPOS DE SUJEITOS SELECIONADOS PARA O ESTUDO QUANTO A IDADE (ANOS/MESES), GÊNERO (MASCULINO/ FEMININO), DIAGNÓSTICO FONOAUDIOLÓGICO REFERENTE AO CONTRASTE DE VOZEAMENTO NA FALA E AO CONTEXTO DE ACENTUAÇÃO DA PALAVRA- ALVO (TÔNICO E PÓS-TÔNICO)
Sujeitos Grupo Idade Gênero Alteração na
fala Contexto
S1 Referência 7a2m M Não Tônico
Diga papa baixinho Palavra-alvo: oxítona
Trecho analisado: sílaba tônica e vogal
anterior
S4 Alteração 8a6m M Sim
S5 Alteração 10a2m F Sim
S2 Referência 9a1m M Não Pós-tônico
Diga papa baixinho Palavra-alvo:
paroxítona Trecho analisado: sílaba pós-tônica e
vogal anterior
S3 Referência 7a6m M Não
S6 Alteração 10a7m F Sim
Deste modo, no contexto tônico, os segmentos analisados da palavra-alvo foram: a consoante e a vogal da sílaba tônica e a vogal anterior a esta consoante. Enquanto que no contexto pós-tônico, os segmentos analisados da palavra-alvo foram: a consoante e a vogal da sílaba pós-tônica e a vogal anterior a esta consoante.
Para as etapas subsequentes da pesquisa, as análises foram consideradas para comparações entre grupo referência contexto tônico vs. grupo alterado contexto tônico e grupo referência contexto pós-tônico vs. grupo alterado contexto pós-tônico.
Ficaram agrupados três sujeitos para cada contexto. O contexto tônico foi composto das produções de um sujeito referência (sem alteração) e de dois sujeitos com alteração de fala. O contexto pós-tônico foi composto das produções de dois sujeitos referência e de um sujeito com alteração de fala. O número de amostras de fala produzidas pelos sujeitos em função deste agrupamento é exposta no quadro 3.
QUADRO 3 - DISTRIBUIÇÃO DAS AMOSTRAS DE FALA COLETADAS (N) POR CLASSIFICAÇÃO NOS CONTEXTOS TÔNICO E PÓS-TÔNICO DOS GRUPOS COM ALTERAÇÃO E REFERÊNCIA
Grupos estudados Contexto tônico Contexto pós-tônico
Grupo com alteração de fala n = 10 n = 5
Grupo referência n = 5 n = 10
Os achados desta etapa de análise também justificaram a impossibilidade de comparação de achados das demais medidas acústicas (especificadas no próximo item, 3.5) e de dados de percepção entre os contextos tônico e pós-tônico.