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Aníbal Machado foi escritor de poucas obras. Publicou um livro de contos, Histórias reunidas, um de poemas em prosa e reflexões, Cadernos de João, ensaios e críticas de cinema, teatro e literatura publicados esparsamente em revistas, e o romance João Ternura, este último iniciado na década de 1920 e finalizado no último mês de vida.

O início da produção de João Ternura não possui data específica, há relatos diferentes, como o de Renard Perez (1965) afirmando ser em 1926 e de Pedro Nava em Beira-mar (1978) declarando ser o ano de 1922. Porém, o próprio Aníbal Machado nunca confirmou em nenhum de seus textos tal data, no prefácio do romance ele diz: ―Iniciado o livro já não me lembro quando, e não sei quantas vezes esquecido (...)‖ (MACHADO, 2004, p.23). O certo é

que o autor escreveu a maior parte da obra nos anos 1920 e 1930. Durante tal período, à medida que produzia, lia para os amigos alguns de seus fragmentos, para os quais recebia boa crítica (PEREZ, 1965). Havia grande expectativa para o seu lançamento, os comentários acerca do livro foram aumentando, ele adquiriu fama, assim como seu personagem ganhou vida, muito antes de o texto ser concluído. Exemplo de tal publicidade é a sua citação por Oswald de Andrade em entrevista para um jornal, em que julga João Ternura um dos maiores momentos do romance nacional (PEREZ, 1965). Aníbal Machado chegou a publicar alguns fragmentos dos episódios da infância e juventude de Ternura, contudo, toda a notoriedade inesperada em torno da obra levou o escritor a decidir por não seguir adiante com a sua criação a partir de 1935, ou por receio de ela não atender ao que se esperava ou por não ser este o objetivo do autor ao escrever o livro. Nas palavras do próprio escritor

A publicidade involuntária que o livro recebeu antes de terminado deixou atemorizado o autor. Gostaria este que a obra cumprisse naturalmente o seu destino, sem forçar o sentido que acaso venha assumir em cada leitor e em cada geração literária. Quanto mais se fazia por ocultá-la (e eram ainda peças retiradas a um corpo apenas pressentido e parcialmente descoberto), mais ela ganhava existência mítica da qual, por isso mesmo, o autor se sentia desligado. (MACHADO, 2004, p. 23)

Durante quase vinte e quatro anos permaneceu a obra ignorada pelo autor. Em 1959, Aníbal decidiu por mostrar os manuscritos para João Cabral de Melo Neto, e tempos depois para Renard Perez. Com boa recepção crítica por parte de ambos, ele optou por retomar a escrita, e se dedicou a ela até os últimos dias de sua vida, incumbindo Perez e Carlos Drummond de Andrade de publicá-la. Faleceu no dia 19 de janeiro de 1964, e no seu primeiro aniversário de morte foi publicada a primeira edição de João Ternura.

Esta primeira edição foi lançada em 1965 pela Editora José Olympio. Em nota da mesma, é afirmado que a publicação do livro havia sido acordada anos antes, possivelmente após 1959, com o retorno da sua produção. Foi Carlos Drummond de Andrade, amigo desde a juventude de Aníbal, quem organizou todos os manuscritos com a fiel transcrição, a pedido do autor. Nas primeiras páginas há o texto ―Balada em prosa de Aníbal Machado‖, escrito por Drummond no dia 10 de março de 1964 homenageando ao amigo. Segue-se o texto biográfico de Renard Perez, já citado anteriormente, intitulado ―Aníbal Machado: vida e obra‖, produzido originalmente em entrevista com o autor em 1956, e modificado posteriormente com o acréscimo de dados para a publicação no romance. Da nova geração de escritores, Perez era dos mais próximos a Aníbal Machado e assíduo frequentador de sua casa. ―Presença

de Aníbal‖ de Otto Maria Carpeaux é o texto seguinte, no qual ele expõe sua teoria dos ―balões cativos‖, que consiste nas zonas fronteiriças entre real e surreal nos textos do autor mineiro. Os textos de Perez e Carpeaux foram especialmente escritos para esta edição, e para completar o segmento precedente ao objeto literário em si, estão três textos do próprio autor: ―Esboço de retrato‖, uma descrição da personalidade do homem mineiro, do ponto de vista de Aníbal Machado; a crônica ―A suicida do viaduto‖, com a reprodução fac-similar do manuscrito; e a introdução do escritor, em que é esclarecido o longo período de elaboração do livro. Após fotos de diversos momentos da sua vida e família, inicia-se o tão aguardado João Ternura. No apêndice encontra-se o fragmento ―O homem e seu capote‖, excluído da obra, foi acrescentado no final a pedido da família e de Carlos Drummond de Andrade.

Em março de 2004 foi impressa a décima e mais recente edição do livro, guardando pouca semelhança física com a primeira. Nesta, os textos de Perez e Carpeaux foram retirados e tal responsabilidade ficou para Mário Pontes que escreveu ―O Iniciado do Movimento‖, no qual faz pequena análise do estilo de escrita de Aníbal Machado, e ―João Ternura‖, onde faz breves comentários acerca do livro e do seu processo de produção. Manteve-se ―Esboço de retrato‖, a introdução do autor e o apêndice ―O homem e seu capote‖, porém foram retiradas todas as fotos do autor.

A publicação tardia do livro, já finalizado o movimento do qual fazia parte, o modernismo, assim como a ausência no momento de publicação de parte daqueles escritores que no início leram os seus fragmentos e incentivaram Aníbal Machado a finalizá-lo, minimizaram as expectativas e a recepção pela grande crítica, fazendo com que ele não se tornasse tão conhecido e difundido nos meios culturais.

A valorização do cotidiano, a fragmentação do enredo, a falta do tempo cronológico bem definido, as variações do foco narrativo, o uso de neologismos, a ironia, o humor, a sátira e a crítica social condizem com os princípios de liberdade de escrita modernista e de obra de experimentação e inovadora do movimento em relação à tradicional mímese realista, que consagrou o romance do século XIX. Todos estes elementos modernistas presentes na obra de Aníbal Machado são uma confluência de tendências e de explorações expressivo-estéticas resultado do processo social pelo qual o país passava naquele momento. A filiação do escritor ao padrão narrativo modernista igualmente se explica pelas afinidades estéticas e cronológicas das narrativas de Oswald de Andrade. Assim, João Ternura é um personagem avesso ao modelo padrão, constituído geralmente de um exemplo a ser seguido pela bravura, pelos valores, pela classe social. Na contramão do estilo burguês, João Ternura personifica a figura

do malandro, não faz questão de trabalhar, é pobre e não pretende mudar esta condição, não se casa e não possui nenhum grande feito na vida.