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Na opinião dos exegetas que interpretam o Apocalipse em relação com os escritos apocalípticos e, em especial, dos que fazem exegese da merkavah, os seres vivos do Apocalipse, “”, obviamente são os S47Y&'-[hayot] de Ezequiel.193
Assim como a LXX, que também usa “” para hayot, João de Patmos destaca a qualidade de “vivo” do nome deles. Ele fala deles essencialmente dentro da tradição hínica,194 atribuindo-lhes um canto incessante (4,8; 5,8-14; 7,11-12; 19,14).195 Essa tradição hínica é parte de uma complexa visão merkavah, do trono-carruagem de Javé, e dos elementos ou das idéias extraídas de uma variedade de fontes, utilizadas por João na composição, sobretudo, dos capítulos 4-5 e 7,9-17. Acerca destas fontes existe um consenso a respeito do uso do imaginário de Isaias (1,6; 66,1), Ezequiel (1-2,7); Daniel (7); 1 Enoque (18,39); 2 Enoque (20-22), assim como de elementos tomados da iconografia das cortes grego-romanas e iraniana.196
193
Existem hipóteses sobre a identidade dos seres vivos formuladas sem considerar as tradições judaicas merkavah, por exemplo a hipótese de Bauckham dos quatros adoradores cuja adoração é levada para círculos mais amplos, cf. BAUCKHAM, Theology, p.33; ou a hipótese de Phillipe, que entende os quatro seres vivos como Cristo no mistério da Encarnação, cf. PHILIPPE, Marie Dominique. Reflexión théologique sur la révélation du sacerdoce du Christ dans l’Apocalypse. In: Aletheia, 11. Paris: Fayard, 1997, p.11-34.
194
Cf. acima, nota 172, p.46. 195
Cf. HALPERIN, p.90-91. 196
A maioria dos comentários observa o uso das tradições judaicas; por exemplo Charles, Caird, Sweet. Sobre a imagética da corte helenística cf. AUNE, David Edward. The Influence of Roman Law Court Ceremonial on the Apocalypse of John. In: Biblical research,18. Chicago: Covenant Press, 1983, 5-26; Cf. FIORENZA, Elisabeth Schüssler. Revelation: vision of a just world. Minneapolis: Fortress, 1991, p.59. Também Gruenwald observou que várias combinações dos elementos das visões do trono teofánico e do trono- carruagem em 2 Reis, Isaías, Ezequiel e Daniel são componentes comuns nas visões místicas nos textos da apocalíptica judaica, no Apocalipse e nas visões merkavah da literatura hekhalot, cf. GRUENWALD, Mysticism, p.31.
É notável que, dentro desse processo de confluências e do uso das imagens, o autor do Apocalipse combina os hayot com os Z5+#1Q9D-[serafim] de Isaías (6,2-3), concedendo aos seres vivos seis asas e o grito de “Santo, Santo, Santo!” (4,8). Ele também lhes proporciona olhos múltiplos que propriamente pertencem aos Z5+[&#/2-[’ofanim] (Ez 1,19; 10,12). É
chamativo também que o autor do Livro das Parábolas de 1 Enoque atribui o triplo “Santo” à tríade angelical dos “Querubim, Serafim e Ofanim”, assim como à segunda fórmula “Bendito és Tu, e bendito é o nome do Senhor pelas eternidades das eternidades”,197 remanescentes da doxologia na nossa imagem de 7,12. Desta maneira, pode-se entender que as criaturas vivas do Apocalipse estão compostas pelas três categorias.
Os seres vivos do Apocalipse, além de serem um resultado da combinação entre várias tradições imagéticas, diferem dos hayot originais de Ezequiel, que têm basicamente a aparência que lembra uma forma humana, cada um com quatro faces de animais (Ez 1,5). Os seres vivos de João têm quatro distintas formas de animais e já não têm a aparência de uma forma humana, mas têm face humana. Até o capítulo 5, os seres vivos parecem agradáveis. Porém, nos capítulos 6; 15 e 16 tornam-se executores. Esta conduta também possui sua imagem-fonte em Ezequiel onde o querub “colocou nas mãos do homem vestido de branco” fogo para espalhar sobre Jerusalém.198 Desta maneira, segundo Halperin, a tradição hínica tem também seu lado obscuro ou pelo menos sombrio.199
8.3.2 Anjos
As imagens de 5,11 como de 7,11 que esboçam as figuras de anjos demonstram que eles constituem claramente um círculo exterior do céu. Assim como em Daniel (7,10) e em 1 Enoque (71,10), o visionário contempla multidões de anjos sem características distinguíveis. Em ambas as tradições pode ser destacada a função de servir no templo
197
Os anjos pronunciam incessantemente a fórmula de louvor: “Santo, santo, santo, é o Senhor dos Espíritos: Ele enche a terra com espíritos” (39,12). E: “Bendito és Tu, e bendito é o nome do Senhor pelas eternidades das eternidades” (39,14, repetido em 61,11, mencionado em 47,2).
198
Há dois hinos do Apocalipse Siríaco de Baruc, contemporâneo, que confirmam ou, talvez iluminam esta imagem: “Tu... governas com grande juízo a multidão que permanece na frente de Ti; também os incontáveis seres (vivos) santos, que tu fizeste desde o início de chama e fogo, que rodeiam Teu trono Tu governas com ira” (2Br 21,6); “...deverá ser mostrado a eles a beleza da majestade dos seres vivos que estão embaixo do trono, e todos os exércitos dos anjos que estão mantidos firmemente pela ordem, que podem permanecer em seus lugares até sua chegada vir” (2Br 51,11)
199
celestial. Já nas duas ocorrências no Apocalipse, as multidões angelicais são responsáveis pelo louvor litúrgico rendido a Deus. Segundo Beale, o uso duplo do “”, que confirma enfaticamente a certeza da salvação realizada por Deus, no contexto litúrgico judaico e alhures no Novo Testamento, sugere sua origem de um pano de fundo da linguagem litúrgica judaica.200 Exemplos de tradições dos hinos litúrgicos, onde os anjos são os principais oradores, encontram-se nos escritos de Qumran, precisamente nos 13 Cânticos do Sacrifício Sabático. O caráter específico dos hinos contidos nesses fragmentos deu origem ao termo “liturgia angelical”, sendo que a coleção não contém apenas uma experiência de um visionário levado diante do trono de Deus, rodeado pelos anjos, mas, uma descrição da liturgia realizada pelos anjos em várias partes do céu.201
Cada um dos cânticos começa de forma similar com uma dedicação, com um cabeçalho para identificar o sábado, mês e ano em que acontece, seguido por um convite para louvar a Deus, dirigido aos anjos. Os primeiros cinco cânticos contêm uma descrição do sacerdócio angelical; os cânticos 6-8 contêm orações e bênçãos dos sete príncipes. Sete cânticos compreendem sete chamados dirigidos aos sete concílios angelicais e as orações do próprio santuário celestial. Os cânticos 9-13 contêm descrições do templo celestial e sua oração a Deus. Segundo Carol Newsom, que publicou os ShirShab em 1985, não se trata nestes textos da idéia de uma participação humana no culto celestial, mas, de uma experiência entre os leitores ou ouvintes de assistir o louvor sabático no céu diante do trono de Deus.202
A descrição da realidade celestial, embora percebida aparentemente como um dos mistérios, é formulada desde uma perspectiva da pluralidade dos observadores humanos. Newsom denomina o texto como “quase místico”.203 Baumgarten sugere que nos Cânticos do Sacrifício Sabático trata-se de uma antiga forma do misticismo congregacional, onde os adoradores humanos eram transportados progressivamente desde os vestíbulos do hekhal
200
BEALE, Revelation, p.432. 201
Sobre o termo da “liturgia angelical” cf.: STRUGNELL, John. The Angelic Liturgy at Qumran: 4Q Shirot Olat Hashabbat. In: Congress Volume Oxford 1959: Papers read at the 3rd congress of the International Organization for the Study of the Old Testament. Leiden: Brill, 1960, p.335-336; HALPERIN, p.49-55. 202
Cf. NEWSOM, Carol. Songs of the Sabbath Sacrifice: A Critical Edition. Atlanta: Scholars, 1985, p.67-72. Sobre esta questão, cf. também o artigo dela: IDEM. “He established for Himself Priests”: Human and Angelic Priesthood in the Qumran Sabbath Shirot. In: SCHIFFMAN, Lawrence H. (ed.). Archaeology and History in the Dead Sea scrolls: the New York University Conference in Memory of Yigael Yadin. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1990, p.113-117.
203
[>&R5%3], através do véu do santuário, até a base do trono divino, e finalmente até a visão da merkavah. O autor segue a análise de Newsom e aprofunda a hipótese dela, dizendo que imagens dos anjos bordadas no véu do vestíbulo dos quartos reais (4Q405 14-15), e as imagens dos seres celestiais gravadas nos vários móveis do debir ([Q5+W9U], (4Q405
19ABCD), são capazes de unir-se ao hinos de louvor a Deus e formam parte de um templo celestial.204
Além do fato de que os ShirShab criam uma imagem do templo celestial construído pelos seres angelicais,205 a nossa atenção é atraída pelo uso freqüente do número sagrado “7”. Esta cifra é especialmente freqüente no sexto, sétimo e oitavo dos ShirShab. Deste modo, encontramos no fragmento MasShirShab 2 um solene convite aos sete “anjos- príncipes” para louvar Deus em sete hinos, e logo uma enumeração de suas sete bênçãos.206 Não obstante, para nós, o mais importante é o conteúdo destes hinos, pois sua similaridade
204
BAUMGARTEN, Joseph M. The Qumran Sabbath Shirot and the Rabbinic Merkabah Tradition. In: Revue de Qumran, 13. Paris: Gabalda, 1988, p.199-213.
205
Cf., por exemplo, 4q405 14-15 i.2-5; 4Q405 19 5-8; 11Q17 vi.5-7. O fenômeno de transformar as rodas do trono em uma classe de anjos não é único e encontra-se também em 1 Enoque (Parábolas) e 2 Enoque. Sobre esta questão, cf. HANNAH, Darrell D. Of Cherubim and the Divine Throne: Rev. 5.6 in context. In: New Testament Studies, 49. Cambridge: Cambridge University Press, 2003, p.528-542.
206
NEWSOM, p.193:
“Salmo de exaltação de língua
1. do terceiro dos mais importantes príncipes, a exaltação (dos seus fiéis ao Rei dos anjos com seus sete exaltações maravilhosas; ele exaltará os anjos sublimes sete vezes com sete palavras das exaltações maravilhosas.
2. Salmo de oração de língua do quarto Guerreiro que está acima de todos (seres celestiais) com seus poderes celestiais; e ele louvará Deus do
3. poder sete vezes com sete palavras e sete orações. Salmo de ação de graças de língua do quinto ao Rei da glória
4. com seus sete agradecimentos maravilhosos; ele dará graças ao Deus da glória sete vezes com sete palavras de agradecimentos maravilhosos. Salmo de regozijo
5. de língua do sexto ao Deus da benevolência com seus sete maravilhosos cantos de alegria; e ele aclamará alegremente ao Deus da benevolência sete vezes com seus sete palavras maravilhosas de regozijo.
6. Salmo de cântico de louvor de língua do sétimo dos mais importantes príncipes, o poderoso cântico de louvor ao Deus da santidade com seus sete
7. maravilhosos cânticos de louvor. E ele cantará louvor ao Rei da santidade sete vezes com sete palavras de cânticos de louvor maravilhosos. Sete salmos de Sua bênção; sete
8. salmos de grandeza de sua justiça, sete salmos de exaltação do Seu reino; sete salmos de louvor de Sua glória; sete salmo de ação de graças por Suas maravilhas;
9. sete salmos de regozijo na Sua força; sete salmos de louvor para Sua santidade, a natureza... sete vezes com sete
10. palavras maravilhosas, palavras de ... o primeiro dos mais importantes príncipes bendirá em nome da glória de Deus todos os ... com sete
11. palavras maravilhosas; ele bendirá todos os seus concílios em seu sagrado santuário com sete palavras maravilhosas; e ele bendirá aqueles que possuem conhecimento das coisas eternas.”
com os hinos do Apocalipse merece nossa maior atenção. Existe um paralelismo bastante nítido entre as palavras de louvor qumrânicas: “bênção” (3C1R1Q9(, [berakhah]), “grandeza” (>%07\, [godel]), “exaltação” (Z&,/Q, [romam]), “louvor” ('&(%!-[shebah]), “ação de graças”
(S/0/3 [hodot]), “regozijo” (3][+Q-[rinah]) e “glorificação” (31Q9,: *, [zimrah]), e aquelas de Ap
5,12: , e de
7,12:
(cf. também 4,11; 5,13; 19,11).207
8.3.3 Anciãos
Finalmente, devemos analisar a identidade dos anciãos. Na opinião de Halperin, a figura dos anciãos presentes no Apocalipse (4,4.9; 5,6-14; 7,11) pertence à merkavah de Ezequiel, concretamente à visão dos pecados de Jerusalém, onde ele vê “os anciãos – sacerdotes, cada um com o seu turíbulo na mão, do qual se elevava o perfume de uma nuvem de incenso” (Ez 8,11). Na visão de João de Patmos, os anciãos são representantes das 24 classes dos sacerdotes e cantores (1Cr 24-25) e também daqueles “com uma cítara e taças de ouro cheias de incenso, que são suas orações dos santos” (5,8). Segundo o interpretador, alguma luz sobre esta figura bem controvertida, pode ser lançada por um fragmento de Qumran, que parece descrever um ritual no templo celestial (2Q24, fragmento 4 [52]), onde a nota final inclui uma referência aos “anciãos que estão entre os 24 sacerdotes” e, talvez, estes “anciãos” estivessem ligados com aqueles do Apocalipse.208