Tendo em mente o quadro geral de concepções de saúde e doença no período, pretendemos adentrar no cotidiano de uma botica de Mariana. A partir de um processo cível pretendemos exemplificar, com a transcrição de algumas correspondências e pedidos de receitas, as formas de atendimento de uma das lojas estabelecidas na região. O processo refere-se a um longo período de relações entre um comerciante de drogas e seu falecido cliente. Em 1786, o boticário aprovado Paulo Rodrigues Ferreira moveu contra Joaquim José Gouvêa, testamenteiro do reverendo Antonio Jorge Ribeiro, capelão no arraial do Pinheiro, termo de Mariana, uma ação judicial cobrando diversos remédios que o padre mandava buscar na sua botica.
Além dos remédios naturais da terra, os boticários comercializavam principalmente os medicamentos vindos de Portugal. Acostumados a preparar as receitas dos cirurgiões fazendo uso dos símplices e compostos que obrigatoriamente compunham as boticas portuguesas, os boticários negociavam com os mercadores das capitanias litorâneas a compra dos carregamentos vindos do Reino para abastecer suas lojas de drogas espalhadas pela colônia. As drogas aviadas pelos boticários, a pedido de clientes que solicitavam os medicamentos que necessitavam por meio de récipes, cartas e bilhetes, anexados como prova nos processos cíveis de cobrança, são fontes riquíssimas para percebermos a forma de atuação dos licenciados no século XVIII.
Observando o conteúdo das receitas, onde constam diversos produtos da botica e as quantidades prescritas pelos cirurgiões, identificamos algumas de suas partes. Entre os itens relacionados nos pedidos do capelão constam: “frangão”, cristal mineral, grãos de cremores
tártaro, cravo, canela, jalapa, batata em roda, ruibarbo, salsa parrilha, lascas da “pao santo”, tártaro vitriolado, láudano, espírito de alfazema, “poalha”, erva cidreira, açafrão, tintura rúbia em pó sutil, óleo de “macella” e de açucenas, pedra lipes, murta, maçãs de ciprestes, lascas de romã ungüentos e emplastos a base de ervas para uso externo (AHCSM, ações cíveis, 2º ofício, caixa 460, auto 14702).
As solicitações feitas às boticas eram geralmente sucintas, mas neste caso o falecido padre parecia confiar na experiência do boticário, lhe tratando com respeito e amizade, participando o licenciado de suas aflições:
Os dias passados fiz a vossa mercê ciente da minha moléstia e agora repito. Usei do emplasto e se fez outro de [ilegível] tomei mais 5 sangrias e 5 ventosas usei de várias [ilegível] comprei um carneiro trouxe-o e depois de todas essas coisas não surtia o efeito a vista do que o meu assistente me [ilegível] a lei da natureza e como os enfermos são os que padecem e os interessados nas melhoras isto me obriga valer-me da experiência de vossa mercê (...) (AHCSM, ações cíveis, 2º ofício, caixa 460, auto 14702).
Na sequência da carta o ilustre cliente solicita os mesmos remédios ministrados a um sujeito que sofria das mesmas dores e teria ficado são depois de ter tomado uma água antiescorbútica produzida por aquela casa (botica). Portanto , somos levados a crer que o mal de que sofria o padre pode ter sido diagnosticado como “escorbuto”, doença causada pela deficiência de vitamina C que causa dores e enfraquecimento geral. O doente pedia que lhe fosse enviado o remédio e instruções sobre a posologia. Nesse caso, se evidencia a dispensa das atribuições do cirurgião cujo papel, de orientar prescrição e a dosagem do remédio, seria feito pelo boticário. Em agradecimento, o doente se obrigava pela retribuição dos favores recebidos e estimava a boa saúde do amigo vendedor de drogas conforme a vontade de Deus.
Os anexos relatam outros problemas de saúde pelos quais o padre recorreu à botica do autor. As descrições eram acompanhadas das receitas e pedidos de sugestão:
Serve esta de dar parte a vossa mercê que me acho com um espasmo na pele de todo o corpo e que falando com um cirurgião me aplicou meia libra de murta uma quarta de “maçans” de cipreste e lascas de romã para se fazer cozimento; se vossa mercê quiser consultar com o licenciado Manoel Roiz Abranches que não lhe escreveu por não poder fazer pelo esquecimento das mãos, se dizer outra coisa vossa mercê me mande tudo que for bom para saúde nas causas acima. Estimo a boa saúde de vossa mercê com festas alegres de fins de ano; mande-me em custas de seu serviço e Deus guarde (...) (AHCSM, ações cíveis, 2º ofício, caixa 460, auto 14702).
No bilhete acima o padre menciona a consulta que fez a um cirurgião e pede que lhe sejam enviados os remédios necessários para cuidar de sua moléstia. Os pedidos do padre e a forma íntima como ele se dirige ao boticário demonstram a fidelidade de um cliente assíduo. Suas solicitações não se restringiam aos cuidados com a própria saúde e os produtos que encomendava da botica podiam servir para curar protegidos, escravos e até animais.
Preocupado com a saúde de uma de suas cativas, o padre enviou nova solicitação à loja de Paulo Ferreira:
Serve esta de dizer a vossa mercê que a uma negra minha deu um copioso fluxo de sangue e sobre ela uma dor pelo espinhaço acima e lhe tomam a metade da cabeça traseira tais que não contenta coisa alguma, nela tomou 3 sangrias nos braços e dois vomitórios e tem pouco alívio e sua febre muito leva e assim peço a vossa mercê que me mande alguma coisa para se por nas tais partes para ver se alivia das dores. Vai esta receita [escrita] para a tal negra. Desejo que vossa mercê haja assistido de saúde para me dar ocasião de servir a vossa mercê a quem deus guarde
[cópia da receita que acompanhava a solicitação] “tintura rúbia em pó sutil, óleo de macella e de açucenas.” (AHCSM, ações cíveis, 2º ofício, caixa 460, auto 14702).
Não temos mais informação sobre o que causou a enfermidade àquela escrava, mas a violência do cotidiano das Minas e as más condições de trabalho podem ser buscadas como explicação. Outro bilhete bastante curioso emitido pelo capelão pede remédios para a cura de um animal do seu uso. Aproveitando o ensejo, consta no mesmo escrito outra solicitação do padre, dessa vez para um problema que ele próprio vinha sofrendo:
O portador desta é João de Miranda da Silva o qual leva uma receita para um cavalo meu, vossa mercê pode dar tudo o que for necessário e assentá-lo na minha conta. Eu tenho passado mal de cursos e agora me atacou muito as “homorreimas” se houver alguma coisa para elas mo mande os cursos já acabaram. Assim esteja vossa mercê assistido de saúde e com ela sirva-se deste seu criado Deus guarde a vossa mercê. (AHCSM, ações cíveis, 2º ofício, caixa 460, auto 14702).
Os pedidos anexados ao processo são todos referentes ao tempo em que o padre, morador numa região afastada da sede do termo, recorreu ao seu fornecedor de remédios na cidade. Os pedidos datam de vinte anos antes da data do protesto e só foram cobrados após a morte do padre que havia sido cliente na botica. Podemos notar que havia um forte vínculo de clientela entre o padre e o boticário, o que tornava o acesso à botica uma ação corriqueira, mesmo que algumas vezes as solicitações demorassem a ser atendidas. Essa observação mostra que, mesmo distante, o consumo dos produtos da botica era um recurso disponível e com relativa facilidade de acesso.
Não encontramos receitas de elementos tão exóticos quanto aqueles destacados por Furtado no Erário Mineral de Luis Gomes Ferreira. Em contrapartida junto com os pedidos
de elementos vegetais conhecidos por seus efeitos terapêuticos, foram encontrados pedidos de remédios com menções feitas aos compêndios médicos que circulavam no período colonial. Entre os exemplos dessas referências foram citadas as “pirolas para defluxo de Mirandela”, o “mapa marcial de Lemer”, o “refrigerante de Galeno” e “pirolas absorventes” (AHCSM, ações cíveis, 2º ofício, caixa 460, auto 14702).
Os remédios de origem vegetal, mineral e animal eram a base do receituário setecentista, convivendo com as noções de cunho simbólico. No entanto, não encontramos ingredientes considerados esdrúxulos nas receitas emitidas pelos licenciados, essa ausência pode ser um indicativo das mudanças ocorridas na parte final do XVIII. A posse de livros de medicina vindos do Reino, a sintonia entre as práticas dos curadores e o conteúdo das publicações europeias podem fornecer pistas sobre os métodos de composição das receitas emitidas no final do século. A seguir vamos observar aspectos da cultura material através dos inventários dos licenciados luso-brasileiros.