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A relação humana com o álcool na forma de bebida ao longo dos tempos foi responsável pela formulação de conceito, percepção e o julgamento moral sobre o consumo excessivo. Durante um longo tempo, a embriaguez foi vista como um desvio de conduta moral e religiosas. Os excessos eram vistos de forma preconceituosa como pecado, em que o usuário era possuído por forças do mal; como falta de caráter ou totalmente desprovido de força de vontade para vencer o vício. Os aspectos relacionando o abuso no consumo de álcool às questões de saúde vieram a tona nos últimos dois séculos, o século XIX e o século XX.

Para tratar do alcoolismo seguem-se três tópicos, o primeiro visando uma conceituação do tema; o segundo tópico discorre sobre o alcoolismo como doença segundo a OMS – Organização Mundial de Saúde e o terceiro tópico apresenta uma visão generalizada das consequências do alcoolismo.

2.2.1 Uma conceituação

O alcoolismo pode ser visto como uma dependência emocional e orgânica do álcool, causada pela ingestão de bebidas alcoólicas, manifestada na compulsão e na necessidade de beber cada vez mais. A dependência do álcool é tanta que, ingerindo o primeiro gole, o alcoólico não consegue parar até chegar ao estado da embriaguez. Ou seja, perde o controle sobre suas emoções e ações, não tendo assim controle sobre a quantidade de bebida a ser ingerida.

Após realizar uma releitura no conceito dado pela OMS - Organização Mundial de Saúde para o alcoolismo, Fortes afirma que o alcoolismo é uma farmacodependência, pois apresenta as seguintes características: 1) dependência psíquica em grau variável; 2) dependência física bem definida; 3) certo grau de tolerância irregular e incompleta; 4) complicações somáticas e psíquicas muito graves, variáveis de pessoa para pessoa e dependentes da evolução.(FORTES, 1991, p.11-12)

... como uma farmacodependência, pois geralmente se observa que o etilista tende a aumentar progressivamente as doses ingeridas e, por outro lado, quando interrompe completa e bruscamente a ingestão do álcool, apresenta, em intensidade muito variável, o grave conjunto de sinais de sintomas físicos- psíquicos que integram a síndrome de abstinência alcoólica” (FORTES, 1991, p. 12).

O alcoolismo é uma dependência que não pode ser vista como vício ou pecado, também não dá para dizer que seja uma falta de caráter ou fraqueza moral. É na verdade uma doença incurável segundo a Organização Mundial de Saúde – OMS, que pode ser tratada e prevenida.

Segundo Fortes, o brilhante pesquisador E. M. Jellinek, define o alcoólatra como um bebedor excessivo, cuja dependência do álcool chega a ponto de acarretar-lhe perturbações mentais evidentes, manifestações que afetam a saúde física e mental, as reações individuais, o comportamento social, por isso necessita de tratamento. E Jellinek também apresenta a seguinte definição para o alcoolismo como sendo “qualquer uso de bebidas alcoólicas que ocasiona prejuízos ao indivíduo, à sociedade ou a ambos” (FORTES, 1991, p.19).

Outro pesquisador citado por Fortes, o francês P. Fouquet, que caracterizou os seus pacientes, considerando os três fatores que integram a síndrome alcoólica: 1) fator psíquico, uma predisposição mental que vai desde um distúrbio de personalidade mais simples até alterações psiquiátricas mais graves; 2) fator tolerância, que possibilita ao indivíduo absorver quantidades maiores ou menores de alcoólicos com consequências variáveis de pessoa para pessoa; 3) fator tóxico, de ordem humoral, que sanciona os efeitos do etanol sobre o organismo (FORTES, 1991, p. 20-21).

Os trabalhos de Fouquet contribuíram para distinguir melhor os aspectos clínicos da farmacodependência e estabelecer uma diferenciação entre a ‘síndrome alcoólica e as formas paraxística do alcoolismo. [...] os ‘alcoolitos’ dotados de elevado grau de tolerância e que, depois de numerosos anos de consumo elevado, vão apresentar complicações viscerais sob a dependência tirânica do tóxico. Para o autor, esses casos representam aproximadamente a metade dos alcoólatras existentes (FORTES, 1991, p. 21).

Fortes ao apresentar o “conceito de alcoolismo crônico”, segundo Anibal Cipriano da Silveira Santos, publicado pela Revista Paulista de Medicina – 1965, descreve que segundo o autor, o conceito deve ser estendido a três classes de pacientes, como segue:

1) Toxicofilia propriamente dita, como dinamismo primário do uso imoderado de álcool; a gratificação é fundamental sobre um substrato de

inferioridade psicopática com duas alternativas: a) compensação de dificuldades emocionais (personalidades psicopáticas inseguras e instáveis), b) em função de incapacidade conativa (personalidade psicopáticas astênicas);

2) Toxicofilia alcoólica, como refúgio neurótico-intoxicação habitual como defesa contra insuficiência subjetiva -, também com duas alternativas: a) alcoolismo habitual, como expressão masoquista e b) alcoolismo crônico, fenômeno de compensação neurótica;

3) Alcoolismo crônico por desordem instintiva, como os que recorrem à intoxicação por desvio instintivo adquirido, exemplificando com os casos das pessoas que sofreram encefalite tipo epidêmico na infância (FORTES, 1991, p. 23).

Em 1976, a Assembleia Mundial de Saúde, substituiu a expressão alcoolismo pelo título de “síndrome de alcooldependência”, sendo registrado na Classificação Internacional de Doenças (CID – 9) e cuja definição é: “Um estado psíquico, e, habitualmente também físico, resultante de tomar álcool, caracterizado por uma conduta e outras respostas que sempre incluem compulsão para tomar álcool de uma maneira contínua ou periódica, com o objetivo de experimentar efeitos psíquicos, algumas vezes para evitar as manifestações produzidas pela ausência, podendo estar presente ou não a tolerância”.

O termo alcoolismo no Brasil utilizado para denominar os usuários bebedores- problemas e os dependentes de álcool foi em 1990 substituído por alcoolistas (BRASIL. M.S.,1990).

2.2.2 Conceituação segundo a OMS

A conceituação da OMS classifica o alcoolismo como uma toxicomania ou farmacodependência, em que o alcoólatra tende a aumentar progressivamente as doses ingeridas e quando interrompe completa ou bruscamente a ingestão, desenvolve vários sinais e sintomas físico-psíquicos, que caracterizam a Síndrome de Abstinência Alcoólica.

É uma doença de natureza complexa, cujo tratamento é preciso recorrer a processos profiláticos e terapêuticos de grande amplitude. Já os alcoólatras são bebedores excessivos, cuja dependência do álcool chega a ponto de acarretar-lhes perturbações mentais evidentes, manifestações que afetam a saúde física e mental, cujas reações individuais e o comportamento social exigem atenção e tratamento.

Desde a década de 60, o programa de saúde mental da OMS tem-se empenhado em melhorar o diagnóstico e a classificação de transtornos mentais, além de trabalhar a definição de termos relacionados. Naquela época foram realizados vários encontros com a finalidade de estudar os conhecimentos produzidos até então sobre o tema, envolvendo representantes de diversas áreas do conhecimento. Deste trabalho, foram apresentadas numerosas propostas usadas no rascunho da 8ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID – 8). Atualmente, estamos na 10ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID – 10), que é utilizado nas descrições clínicas e nos diagnósticos das doenças pelo sistema de saúde pública em nosso país. Também é utilizado no Brasil o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtorno Mentais (DSM – IV), da Associação Psiquiátrica Americana.

Ambos os sistemas classificatório refletem nos seus critérios para dependência os conceitos de Síndrome de Dependência do Álcool, propostos, inicialmente, por Edward e Gross, em 1976. Interessante é que o diagnóstico da Síndrome de Dependência do Álcool pode estabelecer níveis de comprometimento ao longo de um contínuo, entre o nunca ter experimentado até o gravemente enfermo, considerando os aspectos do grau de dependência relacionado com o grau de problemas (SENAD, 2010, P. 39).

A conceituação da Síndrome da Dependência do Álcool conforme apresentada pelos cientistas Edwards e Gross na década de 70, descreve os seguintes sinais e sintomas:

Estreitamento de repertório – na dependência avançada, o ato de beber torna-se diário e ocorre sempre no mesmo horário, para manter alto o nível de álcool no sangue, o padrão de consumo torna-se rígido, previsível e refratário ao dia ou horário da semana, ao tipo de companhia ou ao estado de humor pessoal.

Saliência do beber – a prioridade na vida do alcoolista é a manutenção da ingestão do álcool.

Aumento da tolerância ao álcool – a tolerância é demonstrada pela pessoa dependente ao manter a capacidade de seguir sua rotina com um nível de álcool no organismo, não prejudicando suas ações.

Síndrome da abstinência – apresenta sintomas que incluem: náuseas, sudorese, sensibilidade ao som, zumbido nos ouvidos, coceira, câimbras musculares, perturbações do humor, perturbações do sono, alucinações, convulsões epilépticas e um quadro completamente desenvolvido de delirum tremens.

Alívio ou evitação dos sintomas de abstinência – é uma prática de ingerir bebida alcoólica logo pela manhã no horário do café ou no meio da noite com vistas a aliviar a síndrome da abstinência incipiente.

Consciência subjetiva da compulsão por beber – é manifestada no desejo incontrolado por beber que o alcoolista experimenta, é definida pela falta ou perda do controle diante da vontade de beber.

Reinstalação da síndrome da dependência – um dos aspectos mais intrigantes desta condição é que uma síndrome que pode ter levado anos para se desenvolver pode ser integralmente reinstalada em 72 horas após o alcoolista voltar a beber ou até antes disso.

A Síndrome da Dependência do Álcool pode ser facilmente identificada através dos critérios apresentados pelo DSM-IV e o CID-10. A Tabela 2, a seguir mostra claramente esta comparação.

Tabela 232

DSM-IV CID-10

Padrão mal-adaptativo de uso, levando a prejuízo ou sofrimento clinicamente significativos, manifestados por 3 ou mais dos seguintes critérios, ocorrendo a qualquer momento no mesmo período de 12 meses: 1) Tolerância, definida por qualquer um dos

seguintes aspectos:

a) Uma necessidade de quantidades progressivamente maiores para adquirir a intoxicação ou efeito desejado;

b) Acentuada redução do efeito com o uso continuado da mesma quantidade.

2) Abstinência, manifestada por qualquer