2.2. İnovasyon
2.2.3. İnovasyon Modelleri
Até aqui, percebemos como o cuidado foi tomado como objeto legítimo pelas agentes do campo político feminista, a princípio pensado numa perspectiva diferencialista. Apresentamos a conhecida teoria da voz ética do cuidado de Carol Gilligan, entendendo que ela nos ajuda a compreender as experiências das mulheres, principalmente no que diz respeito aos sentimentos, valores e atitudes relacionados a um ideal de feminilidade que é construído socialmente.
No decorrer da nossa busca teórica, deparamos com a crítica da ética do cuidado realizada por Joan Tronto, autora que tem se dedicado a pensar o cuidado na perspectiva das ciências políticas. Tronto é a principal referência para o debate de cuidado hoje na França (HIRATA, 2010), e, no que se refere ao Brasil, embora tenha um artigo no livro traduzido como Gênero, Corpo e Conhecimento e outro na Revista Sociedade e Estado, suas ideias são muito pouco conhecidas, principalmente se comparadas às de Gilligan. Concordamos com Borgeaud-Garciandia, Hirata e Makridou (2010), que acreditam que Joan Tronto contribuiu para a discussão do cuidado principalmente ao ampliar a análise para além de uma suposta moralidade das mulheres e também para além das subjetividades, introduzindo a dimensão da ação.
Tronto (1987) reconhece que a interpretação de Gilligan é muito poderosa, visto que ela percebe uma parte da vida das mulheres que não estava sendo levada a sério: o desenvolvimento moral destas, relacionado a suas experiências de cuidado. No entanto, retoma diversas pesquisas realizadas nos Estados Unidos e nota que essa parte da vida que não estava sendo levada a sério não dizia respeito somente às mulheres, mas, sim, aos/as oprimidos/as da sociedade - seja pelo sexo, seja por raça e/ou pela classe -, uma vez que são esses os fatores em conjunto que distinguem nas sociedades ocidentais as pessoas que cuidam (TRONTO, 1987).
Coles (1977, apud TRONTO, 1987), por exemplo, encontrou junto das crianças mexicanas, esquimós e indígenas de ambos os sexos preocupações morais voltadas para o cuidado com os/as outros/as e com o planeta, e, como Gilligan, criticou os/as demais pesquisadores/as anglo- saxões/ônicas por terem percebido essas preocupações como inferiores. De forma semelhante, os estudos de Gwaltney (1980, apud TRONTO, 1987) revelaram que grupos culturais negros se expressavam moralmente, com ênfase no respeito com os/as outros/as e no compromisso com a honestidade e a generosidade, motivados pela ideia de que você pode vir a precisar da ajuda do outro.
teoria de Gilligan e o mau uso dela, como se ela se referisse a uma moralidade das mulheres, ainda que, para Tronto (1987), o aspecto psicológico exerça uma influência secundária. Segundo Tronto (1987), os trabalhos de Gilligan, como a maior parte das teorizações feministas, seriam limitados por referenciarem-se nas experiências e nas ideias das mulheres brancas, de classe média/alta e heterossexuais, estando também passíveis de tendências, ou seja, estando passíveis do mesmo tipo de crítica levantada contra Kohlberg por Gilligan.
Pensada no que concerne ao social, e não apenas ao psicológico, a ética do cuidado tem outras implicações (TRONTO, 1987): a primeira possível interpretação é que, se a teoria de Kohlberg sobre o desenvolvimento moral com base na justiça está totalmente correta, as mulheres e demais grupos subalternizados teriam um desenvolvimento moral inferior, que, lamentavelmente, é reflexo de uma ordem social desigual. A segunda interpretação rejeita a passividade dos/as agentes, afirmando que eles/as se apegariam com orgulho aos seus pontos de vista morais, ainda que sejam considerados menores pela sociedade, de modo a afirmar as suas particularidades. E uma terceira possibilidade, considerada adequada por Tronto (1987), rejeita a hipótese da ética da justiça como sendo superior à ética do cuidado, entendendo, porém, que as mulheres e os demais grupos subalternizados ocupam posições muito diferentes na ordem social, as quais justificam e são justificadas pela posição desigual no papel de cuidadoras/es em nossa sociedade. Em termos éticos, no entanto, esses grupos são favorecidos por suas experiências diárias, e, na situação contrária, para os homens e algumas mulheres privilegiados/as, a escassez das experiências de cuidados os desfavorece moralmente (TRONTO, 1987).
Como dissemos, Tronto (1993) não só pensou na voz ética do cuidado diferenciando-a de mora- lidade das mulheres, como também apreendeu o cuidado como uma prática. Para a autora, o cuida- do é ao mesmo tempo subjetividades e ação, interrelacionadas e direcionadas para um mesmo fim. Esse conjunto configura atividades, que, por sua vez, possuem aspectos universais e particulares, conflituosos, demandam recursos, e suas análises são capazes de fornecer padrões com os quais po- deríamos julgar o quão bem integrado seria o cuidado numa realidade específica (TRONTO, 1993). Nessa perspectiva, o cuidado é visto como uma atividade universal na medida em que é próprio da condição humana: embora algumas pessoas sejam mais vulneráveis17 e dependentes do que ou-
tras, todos nós somos vulneráveis e precisamos de cuidados para manter, continuar e reparar nossas vidas, explica Tronto (1993). Esse olhar culmina em duas situações (TRONTO, 1993): por um lado, requer que sejam pensadas as relações de cuidado para além da dicotomia “cuidadores/as versus
17 Vulnerabilidades, de acordo com a perspectiva de Tronto (1993) e Sarti (2005), significam susceptibilidades diante de circunstâncias específicas, mais precisamente susceptibilidades relacionadas às relações sociais de classe e de sexo. Essas vulnerabilidades, analisadas sob o ponto de vista macrossocial, nem sempre correspondem às percepções dessas mulheres sobre suas vidas.
os/as que recebem cuidados”, o que demanda a difícil18 compreensão de que ninguém é totalmente
autônomo. Por outro lado, ele traz à tona uma injustiça: apesar de todos/as precisarmos de cuida- dos, na sociedades ocidentais sabemos que nem sempre todos/as cuidam, tendo sido essas ativida- des historicamente designadas aos/às subalternizados/as: as mulheres e os demais escravos e pobres (TRONTO, 1993).
Constituído na modernidade como um serviço – em sua maior parte voltado para as crianças, os/as enfermos/as e os/as idosos/as – o cuidado absorveu, de forma precarizada, uma parte expressi- va da mão de obra das camadas subalternizadas no mercado de trabalho. No Brasil, como em outros países, esse movimento contribui hoje para que o modelo tradicional da família (homem provedor, mulher trabalhadora doméstica e mãe) esteja sendo substituído por um modelo no qual mulheres e homens se inserem no mercado de trabalho, o que não altera os cuidados com a família, que perma- necem em grande medida realizados apenas pelas mulheres (SORJ, FONTES e MACHADO, 2007). Apresentado como parte da condição humana, o cuidado tem suas particularidades por se referir a atividades que buscam alcançar formas de “viver da melhor maneira possível”,sendo esse “me- lhor” caracterizado por Tronto (1993) como referente às necessidades, amplamente definidas pela cultura, podendo se constituir sob a forma de direitos. Isso não significa que, ao se caracterizarem como necessidadesde cuidado, todas as atividades culturais devam ser aceitas do ponto de vista éti- co. Nesse aspecto, o cuidado oferece um foco sob o qual as disputas podem ser construídas, pondera Tronto (1993).