De acordo com Heidegger, Paulo aborda a questão da parusia mediante o esclarecimento de duas questões levantadas pelos membros da comunidade de Tessalônica.
Na passagem de 1Ts 4,13-18, o Apóstolo assume a pergunta acerca do que acontece com “os que já morreram”, os quais não vivenciarão a segunda vinda do Senhor. Já no trecho 1Ts 5,1-12, formula a questão pelo “quando” da realização da parusia. Para Heidegger, tais indagações estão baseadas em equívocos dogmáticos, os quais desencaminham a faticidade cristã, vinculada à atualização da vida522. Por isso, chama a atenção, sobretudo, para a forma com a qual Paulo recebe as indagações oriundas dos tessalonicenses. Paulo não encara a
520 2Cor 12; 5.7.
521 “Fiz-me louco. Vós me obrigastes, porque era vosso dever recomendar-me. Pois, embora nada seja, não fui
inferior em nada aos autoapóstolos”(2Cor, 12,11).
pergunta dos congregados como questão de conhecimento teórico. Por conseguinte, não fornece resposta específica, de forma direta e literária, ou seja, em sentido mundano. Essa é razão pela qual a tradição exegética o acusou de evitar a questão, e de não possuir conhecimento sobre o assunto523. Todavia, para Heidegger, ele “se mantém totalmente afastado de um tratamento gnosiológico (erkenntnismässigen Behandlung), porém, sem dizer tampouco que seja incognoscível”524. De fato, não encontramos respostas tais como: “O senhor virá nesse ou naquele momento”; ou “não sei quando o senhor retornará”.
Ao longo da história, ocorreram modificações no sentido e na estrutura conceitual do termo parusia. Entretanto, elas não teriam permanecido vinculadas à experiência originária da vida cristã. No tempo de Paulo, a compreensão da parusia era proveniente do grego clássico. Na Septuaginta, significava “presença”, “chegada”525. Para os primeiros cristãos tinha o sentido de “reaparição do Messias já aparecido”526. Trata-se de uma noção que não aparece inserida na compreensão comumente empregada do termo, embora a vivência cristã tenha operado transformação total da sua estrutura.
Uma compreensão mais imediata sugere que a parusia consistiria em comportamento básico da vida cristã, no sentido de expectativa, forma especial de espera de um acontecimento futuro. Todavia, para Heidegger, tal compreensão é absolutamente equivocada (ganz falsch). Isso porque jamais chegaremos à determinação do sentido referencial da parusia, enquanto evento futuro, pela contagem ou expectação de alguma coisa, a ser definida em termos de tempo objetivo, que ocorre por meio da análise da consciência527. A estrutura da esperança cristã, no tocante ao sentido da parusia, é radicalmente distinta de todas as expectativas comuns (radikal Anders als alle Erwartung). Por isso, as noções de “tempo”, “instante”, “momento” acarretam problema especial para a explicação fenomenológica.
Segundo Heidegger, Paulo contesta as questões iniciais apresentadas pelos tessalonicenses, fora do contexto da experiência objetiva de tempo. A questão não é examinada a partir do sentido de conteúdo, nem recorrendo ao conhecimento objetivo. O que ocorre é a retomada do conhecimento inerente ao como da experiência do ter-se tornado cristão. Essa é a razão pela qual o apóstolo desenvolve sua resposta mediante a contraposição de dois possíveis modos de ser, dois comportamentos distintos frente à parusia. Não se refere
523 Esse fato também contribuiu para colocar sob suspeita a autenticidade da carta. 524 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 99.
525 No grego clássico, parusia significava “vinda”, “presença”. No Antigo Testamento, na Septuaginta,
significava a “vinda do Senhor” e o “dia do juízo final”. Já, no judaísmo tardio, queria dizer “vinda do Messias como Vigário de Cristo” (Cf. HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 102).
526 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 102. 527 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 102.
simplesmente a duas formas de vida, independentes e contraditórias entre si, que pudessem ser simplesmente colocadas uma ao lado da outra. O motivo da contraposição reside na vida fática mesma. Por isso, refere-se a dois modos possíveis de estar na vida cristã, compartilhada entre ele e sua comunidade.
Esses distintos modos de ser são encontrados na redação de Paulo:
Quando as pessoas disserem: paz e segurança!, então, lhes sobrevirá repentina destruição, como as dores sobre a mulher grávida; e não poderão suportar. Vós, porém, meus irmãos, não andais em trevas, de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão; pois que todos vós sois filhos da luz, filhos do dia. Não somos da noite, nem das trevas528.
Podemos observar que Paulo faz referência a um grupo específico da sua comunidade, que diz: “Paz e segurança!” (Friede und Sicherheit). Para Heidegger, essa expressão remete ao modo peculiar de ser da vida fática cristã, ao como do comportar-se com tudo aquilo que vem ao encontro, no âmbito dessa experiência529. Exprime, igualmente, o fato de que tudo aquilo que vem ao encontro, no comportamento desse grupo, acontece de forma mundana (welthaften Verhalten), ou seja, não carrega nenhum motivo que provoque desassossego (Beunruhigung). Por isso, falar em “paz e segurança” neste mundo é o mesmo que se apegar a ele, procurar apoio, quietude e tranquilidade. Sobre os que vivem dessa forma, precipitar-se-á repentina calamidade. Ver-se-ão surpreendidos, pois não a esperam. Para Heidegger, eles se encontram justamente na “expectativa atitudinal” (einstellungsmässigen Erwartung); “seu esperar se absorve nas solicitações mundanas da vida”530. Por viverem dessa expectativa, a calamidade lhes afeta de tal forma, que não poderão escapar dela:
Eles não se salvarão a si mesmos, porque não possuem a si mesmos, porque se esqueceram de si próprios; porque não possuem a si mesmos na claridade do autêntico saber. (Sie können sich selbst nicht retten, weil sie sich selbst nicht haben; weil sie das eigene Selbst vergessen haben; weil sie sich selbst nicht haben in der Klarheit des eigentlichen Wissens)531.
Não poder chegar a si próprios equivale a encontrar-se nas trevas (im Dunkel).
Em contraposição àqueles que vivem de forma mundana, isto é, na decadência da vida fática cristã, expressa no termo “trevas”, Paulo refere-se aos que vivem na “luz do dia”. Esses vivem de tal forma que o dia do Senhor não os surpreenderá como um ladrão (Dieb). Heidegger confere dois significados distintos à expressão “dia”, no âmbito do exercício da
528 1Ts 5,3-5.
529 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 103. 530 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 103. 531 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 103.
vida fática cristã: a) quer dizer “claridade do saber sobre si mesmo” (Helle des Wissens um
sich selbst), filhos da luz, frente àqueles que vivem nas trevas; b) quer dizer “dia do Senhor” (Tag des Herren), “dia da parusia”532.
De acordo com Heidegger, a distinção que Paulo realiza entre dois modos diversos de colocar-se na vida cristã, consiste propriamente na resposta que ele remete aos membros de sua comunidade. Na realidade, Paulo os remete ao saber próprio:
Este saber precisa ser muito peculiar, pois São Paulo remete os tessalonicenses a eles mesmos e ao saber que eles possuem enquanto vieram a ser aquilo que são. Desse modo, a contestação da “pergunta” depende de suas próprias vidas533. Dito de outra forma, o cristão não deve olhar para o calendário vigente, mas para si próprio, para a real decisão implícita na questão que depende da própria vida, do seu “ter-se tornado” e de “seu saber pleno sobre isso”.
Ao convocá-los a permanecerem vigilantes e despertos no saber que possuem sobre si mesmos, Paulo desloca a questão do “quando” para o comportamento da vida fática cristã534. Ao ser concebido e utilizado em sentido temporal objetivo, o “quando” aparece na forma decadente do seu sentido originário, faticamente experimentado. Paulo não faz menção referencial ao “quando”, porque, no contexto da vida fática, essa expressão objetiva da temporalidade simplesmente se torna inadequada. Por isso, ao aparecer na vida cristã, exprime uma forma decadente e rasa da faticidade como tal. O decisivo aqui é como o cristão se comporta no exercício da vida fática, se de modo autêntico ou não. É a partir daí que compreende o sentido do quando, do tempo e do instante.
Nesse sentido, o “como” do acontecer da parusia na vida cristã remete à plena temporalização e atualização da vida fática mesma. Não consiste na expectação de acontecimento vindouro que transcorrerá na linha do tempo. Isso torna possível a afirmação de Heidegger de que o sentido do “quando”, do tempo em que o cristão vive, “possui caráter especial” (besonderen Charakter)535. E, com essa descoberta, aproxima-se, em sua maior amplitude, do indício formalmente anunciado, no início, de que “a religiosidade cristã vive a temporalidade como tal” (die christliche Religiosität lebt die Zeitlichkeit)536. Trata-se de um tempo de ordem própria, sem lugares fixos. Mediante o conceito de tempo objetivo, é impossível encontrar a temporalidade originária. Em todo caso, o “quando” da parusia não é
532 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 104. 533 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 103. 534 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 104. 535 Cf. HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 104. 536 Cf. HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 104.
apreendido objetivamente537. Só se pode compreender a temporalidade pela cuidadosa distinção dos três sentidos de direção (conteúdo, relação, atualização), os quais compõem a estrutura da experiência fática da vida como tal.
Conforme observamos, o exercício da vida fática cristã não é perpassado pela segurança. Todas as significatividades básicas do ser cristão são caracterizadas pela insegurança contínua (ständige Unsicherheit). O inseguro, porém, não é casual, mas necessário. Não se trata de necessidade lógica ou natural. Nesse sentido, a resposta que Paulo oferece à pergunta dos tessalonicenses, acerca do “quando da parusia”, consiste, pois, na exigência de permanecerem sóbrios e vigilantes. Há o refreamento do entusiasmo e da curiosidade de quem pergunta pelo “quando”, e especula sobre seu acontecer. Tudo isso é indicação de que vivem na decadência da vida fática, ou seja, estão presos ao mundano.
Essa problemática se tornará mais clara com a explicação da Segunda Carta aos Tessalonicenses, que veremos a seguir.