A parusia é o elemento que exprime a participação de Paulo no “tornar-se cristão” dos tessalonicenses. Determina todos os momentos de seu viver. Por duas vezes, encontramos no
501 Esse giro expressa algo histórico-objetivo, mas o interesse é pela qualidade da relação compartilhada. 1Ts
apresenta traços do ter-se tornado, mediante as palavras: tornar-se, gerar-se, criar-se, ver-se, saber-se, conhecer-se, recordar-se, lembrar-se.
502 Para o Antigo Testamento, ídolo representa a divindade pagã. Era objeto de culto. O judaísmo considera-o
como mentira sedutora, não-deus, nulidade (Jr 2,5-11; Am 2, 4); não passava de pedaço de madeira ou pedra, que a nada servia (Is 41,18-20). São empregados muitos termos hebraicos para designar ídolo. Em geral, literalmente, significam: “imagem, figura, representação”, que pode ser mental ou física; também “imundície, esterco, impureza”; “vaidade, fumaça, coisa vã, futilidade” (Cf. SCHLESINGER, H; PORTO, H. Dicionário Enciclopédico das religiões, p. 1317. Verbete: Ídolo).
texto referências dessa condição: “Não podendo mais suportar, resolvemos ficar sozinhos em Atenas [...]”; “[...] para que ninguém desfaleça nessas tribulações”504. Para Heidegger, a situação autêntica de Paulo como apóstolo é marcada por peculiar tribulação que lhe é própria, decorrente justamente da expectativa da parusia, isto é, a “vinda do Senhor”505. É, pois, com base na atribulada espera do Senhor que compreendemos a existência de Paulo enquanto pregador do Evangelho, seus gozos e suas aflições.
A tribulação constitui a situação de fundo, na qual Paulo se encontra ao escrever a carta. Seu mundo vital próprio (Selbswelt) pode ser observado neste trecho:
Conheço um homem em Cristo que, há quatorze anos, foi arrebatado ao terceiro céu – se em seu corpo, não sei; se fora do corpo, não sei; Deus o sabe! – foi arrebatado até o paraíso e ouviu palavras inefáveis, que não é lícito ao homem repetir. No tocante a esse homem, eu me gloriarei; mas no tocante a mim, só me gloriarei das minhas fraquezas. Se quisesse gloriar-me, não seria louco, pois só diria a verdade. Mas não o faço, a fim de que ninguém tenha a meu respeito um conceito autoior àquilo que vê em mim ou me ouve dizer. Já que essas revelações eram extraordinárias, para eu não me encher de soberba, foi-me dado um aguilhão na carne – um anjo de satanás para me espancar – a fim de que eu não me encha de soberba. A esse respeito, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Respondeu-me, porém: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifestou todo o seu poder”. Por conseguinte, com todo o ânimo prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que pouse sobre mim a força de Cristo. Por isso, eu me comprazo nas fraquezas, nos opróbrios, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por causa de Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte506. Essa passagem exprime a totalidade da vida fática, acentuada pela intensa aflição e tribulação, frente à expectativa por aquilo que há de vir. O relato que acena para a situação vital de Paulo sugere também o modo como ele deseja ser considerado diante da comunidade. Em seu mundo próprio, concebe a si mesmo como órfão, porque ao final está privado da companhia dos tessalonicenses: “[...] privados por um momento de vossa companhia, não de coração mas só de vista, desejamos muito vos rever”507. Para Heidegger, o decisivo é que não quer ser visto como objeto da graça. Não há referências diretas a esse elemento. Ele não conhece formas de arrebatamento, por isso lhes confere pouca importância. Quer ser visto apenas na sua debilidade (Schwachheit) e tribulação. Gloriar-se das “fraquezas”, das “afrontas”, das “necessidades”, das “perseguições”, do “profundo desgosto sofrido por causa de Cristo”. Tais elementos aparecem aqui como constitutivos da existência cristã.
Para Heidegger, podemos destacar alguns elementos que demonstram, de forma mais explícita, essa condição fundamental da vida fática cristã.
504 1Ts 3,1-3.
505 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 98. 506 2Cor 12,2-10.
Alguns versos revelam a preocupação do Apóstolo com a “complementação (Ergänzung) de sua obra”508. Essa necessidade inquieta o Apóstolo e intensifica o desejo de rever os tessalonicenses: “Noite e dia rogamos com insistência para rever-vos, a fim de completarmos o que ainda falta à vossa fé”509. Essa afirmação indica que o “ter-se tornado” cristão carrega consigo uma carência, um “ainda por realizar”, um “ainda-não” (noch nicht). A vida fática cristã é perpassada pela incompletude e, por isso, necessita de preenchimento. É nesse sentido que compreendemos o motivo pelo qual os membros da comunidade adquirem importância absoluta para Paulo: o “tornar-se cristão” é algo que precisa ser completado, e Paulo depende vitalmente do êxito dessa tarefa, para levar a cabo sua obra e sua convocação pessoal.
O modo como o Apóstolo prefere ser visto e reconhecido aparece nessa outra importante passagem, onde descreve sua condição por meio da expressão “espinho na carne” (skolops t sarkia); “a mensagem de satã a me esbofetear”510. Essa expressão foi excessivamente discutida ao longo da tradição cristã, e recebeu múltiplas interpretações. Heidegger recomenda aqui que a compreendamos de forma mais geral, segundo a explicação fornecida por Santo Agostinho511. Este concebeu a expressão “carne” (Fleisch) como concupiscência, ou seja, “a esfera originária de todos os afetos que não são motivados por Deus” (die Ursprungssphäre aller nicht aus Gott motivierten Affekte)512. “Carne” aparece aqui, de modo originário, como o elemento que promove a tribulação, e é pertencente a vida fática cristã. Vinculada a ela, irrompe também o conflito referente à relação entre “espírito e carne”.
Da mesma forma, a referência a satanás (Satan) favorece a apreensão e a determinação da situação originária de Paulo. Para compreendermos essa expressão, de acordo com Heidegger, é fundamental, desde o início, nós nos afastarmos de todas “as representações referentes ao discurso paulino sobre satanás”513. Em sua análise, procura afastar-se de todas as imagens objetivas do demônio (Teufel). Não faz sentido, no contexto do exercício da vida
508
HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 98.
509 1Ts 3,10. Afirma ainda: “Irmãos, separados de vós por algum tempo – de vista e não de coração – temos o
mais vivo e ardente desejo de vos rever” (1Ts 2,17).
510 2Cor 12,7. 511
Cf. HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 98.
512 HEIDEGGER, M. Augustinus und der Neuplatonismus, p. 210ss.
513 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 98. O termo satã vem da forma
aramaica “satana”, que, no Antigo Testamento, significa “adversário”, “rival”, “inimigo de guerra”, mais precisamente, “aquele que luta contra Deus”. Na tradução do aramaico para o grego (Septuaginta) empregou-se o termo “diabalos” para “satana”. “Diabalos significa “caluniador”. Na exegese convencional, costuma-se afirmar que, nos escritos de Paulo, satanás aparece, de modo geral, como o inspirador das más ações (Cf. CHAMPLIN, R. N. Novo Testamento interpretado versículo por versículo, vol. V, p. 185).
fática, recorrer às especulações acerca da existência como tal do diabo, ou seja, sobre o seu conteúdo. Pelo contrário. O decisivo para uma aproximação fenomenológica é compreender
como satanás se instala na vida fática de Paulo, e como se processa sua atuação.
Para Heidegger, satanás aparece no mundo de Paulo como o que obstaculiza e impede (hindert) sua obra: “Quisemos ir visitar-vos – eu mesmo, Paulo, quis fazê-lo muitas vezes –, mas satanás me impediu”514. Ele aparece também como o tentador que domina os fracos de espírito e submete à provação a experiência originária cristã. Trata-se da sedução que desvia a obra iniciada: “Por isso, não podendo mais suportar, mandei colher informações a respeito de vossa fé, temendo que o tentador vos tivesse seduzido, inutilizando o nosso trabalho”515.
Em ambas as situações, no âmbito da vida fática, satanás aparece como aquilo que promove ruína e decadência, impedindo que a obra alcance a consumação. Por isso, o diabo aumenta a tribulação de Paulo e, ao mesmo tempo, promove a preocupação absoluta com aqueles que podem sucumbir diante da ação de satanás. O diabo estimula os grandes esforços para sustentar a obra apostólica. Dessa forma, o sentido de exercício da vida fática cristã comporta a presença de satanás, como parte da convocação inerente ao “ter-se tornado cristão”516.
A autoação do obstáculo colocado pelo tentador ocorre mediante a oração (Gebet). Nesse momento da carta, Paulo pede a Deus que favoreça o caminho até os tessalonicenses: “Deus, nosso Pai, e Nosso Senhor Jesus aplainem o nosso caminho até vós”517. Para Heidegger, a oração adquire aqui sentido decisivo (entscheidenden Sinn)518. Não é mera expressão de piedade, apoio ou edificação, mas modo vital de aproximação do divino, enquanto enfrentamento e autoação daquilo que impede o cumprimento da missão. A preocupação é com a preservação do caminho assumido pelos tessalonicenses519.
É na franqueza, e não no êxtase, que acontece a relação íntima com o divino. É na necessidade que Paulo realmente possui a sua vida e, portanto, existe como tal.
Por isso, em sua situação fática, Paulo não vive da pretensão de estar seguro e apoiado em Deus. Pelo contrário, ele faz o jogo do tentador. Tentar ser forte para combater com as próprias armas e vencer o tentador pode gerar orgulho e soberba para o cristão, o que não
514 1Ts 2,18. 515
1Ts 3,5.
516 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 99. 517 1Ts 3,11.
518 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 99.
519 No final da carta, Paulo faz outra oração correspondente a essa, na qual pede que sua epístola seja lida para
todos na comunidade (Cf. 1Ts 5,17). Segundo Heidegger, isso serve de comprovação que a oração para Paulo está vinculada essencialmente à preocupação de que os tessaloniceneses permaneçam fiéis ao caminho cristão assumido (Cf. HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 99).
corresponderia à experiência do ter-se tornado cristão. Por isso, o enfrentamento da tendência à ruína, inerente à vida fática, não provém do idealismo utópico, nem da estrutura segundo a qual o bem vence o mal. Aqui se acentua o que pode ser considerado contradição da vida fática cristã: o que é a fraqueza para o pensamento e para a ética é fortaleza para quem tem sua vida em Cristo. Aquele que é aparentemente fraco encontra sua força na fé. Retomando os versos de Paulo:
Disso me gloriarei, mas de mim mesmo não me gloriarei, a não ser de minhas fraquezas; E para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás, que me esbofeteia e me livra do perigo da vaidade520.
Nesse sentido, a fortaleza não provém da vontade poderosa de combate, dos esquemas e estruturas de proteção, da adequação às leis da natureza e da sociedade. A experiência de Deus não serve de apoio, nem de consolo para as misérias do mundo. O elogio à fraqueza seria insensatez. Vangloriar-se da fraqueza também é insensatez521. Do mesmo modo, o amor próprio criado a partir da “grandeza de revelações” seria vaidade encobridora da genuína experiência do tornar-se cristão.
Os aspectos apresentados, a saber, “o não mais poder suportar”, o “demônio”, a “oração”, o “juramento final” exprimem e retratam a situação fundamental atribulada da vida fática cristã, a partir da qual Paulo escreve a Carta aos Tessalonicenses. Tendo caracterizado a situação, Heidegger analisa agora a redação como tal da carta, que em si mesma constitui uma forma de proclamação. Com isso, atinge o clímax da proclamação de Paulo.