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- İLİŞKİLİ TARAFLAR AÇIKLAMALARI (Devamı)

Belgede DYO BOYA FAALİYET RAPORU (sayfa 94-98)

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DİPNOT 4 - İLİŞKİLİ TARAFLAR AÇIKLAMALARI (Devamı)

―A primeira e a última coisa que se exige do gênio é o amor pela verdade‖. (GOETHE, In Escritos sobre arte, Frag. 382 p. 262, de 1827).

Nesta seção, consideraremos que o artista cria com base no conhecimento objetivo, isto é, naquele que atinge uma idéia. Desse modo, sua obra de arte é o meio facilitador, importante acessório para o conhecimento da essência da beleza, e sua genialidade é a capacidade de proceder de maneira puramente objetiva, mediante o entusiasmo na vontade desinteressada, propiciadora do estado genial ou puro sujeito que conhece. Isto pode ser denominado, também, de claro olho cósmico, numa alusão do autor a uma terminologia famosa na mística77 filosófica e que se assemelha à noção schellingniana de intuição

intelectual eterna. 78

Portanto, intentamos destacar a possibilidade de um conhecimento em nós que não se limita ao meramente aparente, e que se dá mediante a contemplação desinteressada do mundo, ou seja, pela intuição estética imediata. Tal conhecimento é um modo excepcional de conhecer cujo melhor representante é o gênio esteta.

Nesse sentido, por exemplo, importa considerar que uma grande descoberta científica ou a criação de uma obra genial, ou quando um animal percebe uma causa que age sobre seu corpo enquanto objeto no espaço, tudo isso manifesta a mesma função do entendimento: um conhecimento imediato e certo, nunca o resultado de uma série de raciocínios abstratos.

Com isto, podemos entender que o intelecto genial é o que se desprende do querer e, ao final, negaria a própria Vontade. Destarte, a essência do gênio constitui na perfeição e na

77 Aqui se insere um conceito bastante interessante que remonta ao antigo Olho de Hórus dos egípcios. Eles

acreditavam que a Águia era filha do Sol e da Lua que depositava os ovos no alto da montanha, durante a noite e que o Faraó vigiava o seu povo pelo olho da águia, o animal que voa mais alto e por mais tempo. A divindade associada a isto é Atum-Rá e a representação gráfica desta crença foi, mais tarde, chamada de Olho de Hórus. Esta figura foi encontrada no peitoral de Tutancamon no invólucro da múmia, e pode ser visitada no Museu Egípcio do Cairo. Posteriormente, a antiga mística cristã se referia ao Olho da Providência, ou, pelo viés alquímico o Olho que tudo vê. A mística filosófica de Jacob Boehme (1575-1624), autor de obras famosas como

As quarenta questões sobre a alma, a quarta obra escrita pelo Príncipe dos filósofos divinos, considerado o

primeiro filósofo alemão. Ele é citado por Schopenhauer que também faz referência ao Olho cósmico da mística. Atualmente, a astronomia contemporânea nomeou Nébula Hélix, uma nebulosa que fica a 700 anos-luz da Terra, na constelação de Aquário, como „Olho de Deus‟ ou „Olho cósmico‟.

78 Cf. SCHOPENHAUER, 2003, p. 66 (N.T). Vidi 8a. Carta sobre o dogmatismo e o criticismo. In

SCHELLING, F. von. Cartas filosóficas sobre o dogmatismo e o criticismo. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Os Pensadores).

energia do conhecimento intuitivo de uma obra de arte, e que não tem uma motivação79

utilitarista, nem qualquer intencionalidade nesse sentido. Ora, assim, o trabalho do gênio esteta é instintivo e de motivação tacitamente inconsciente80, e o conhecimento puro do

mundo é o elemento intuitivo a partir do qual ele cria.

Esse modo de acessar o mundo não pode estar impossibilitado de adentrar ao plano ético, senão de um ponto de vista meramente formal, uma vez que, o homem comum, e principalmente o de gênio, em todas as áreas está conectado a tudo. Desse modo, a alma do artista - que entra em comunicação com o que podemos chamar de o espírito do mundo - não deve em nada ser diferenciada da alma do santo ou sábio cuja ação no mundo é já uma arte.

―Reconheceu-se a fantasia como um componente essencial da genialidade, com razão; mas, muitas vezes, se julgou que a fantasia e o gênio seriam uma coisa só, o que é um grande erro‖.81Isto porque, por possuir esse excedente daquela faculdade de conhecer, o gênio

apreende a determinação da Vontade, a coisa em si, isto é, contempla a idéia do mundo: ―... as formas eternas imutáveis, essenciais da objetivação da Vontade, ou seja, do mundo e de todos os seus fenômenos‖.82

Conseqüentemente, o gênio não é um mero fantasista, 83 como no caso de um autor de

obra literária ou pictórica. Segundo Schopenhauer, ele não segue modelos fixos ou caprichos da imaginação, devaneios ou sonhos. Estes lhe servem apenas ―para ampliar o seu círculo de visão para além dos objetos que se oferecem à sua pessoa na realidade, tanto segundo a quantidade quanto segundo a qualidade‖.84

Na filosofia schopenhaueriana, o mais elevado grau de genialidade é o que se expõe na arte que revela a idéia de humanidade e o gênio esteta é quem, por meio da obra de arte, facilita o conhecimento dessa Idéia. Sua qualidade é a de possuir a objetividade mais perfeita ou orientação objetiva do espírito e, nele, a intuição do mundo é mais purificada que no homem comum e reside uma vontade radical de fazer do próprio homem objeto de apreensão

79 Motivação aqui é causalidade baseada no conhecer, e só opera nos animais, ou seja, nos seres capazes de

representação ou cognoscíveis. Cf. SCHOPENHAEUR, Arthur. Los dos Problemas Fundamentales de la Ética.

Traducción, introducción y notas, Pilar López de Santa Maria. SIGLO XXI DE ESPAÑA EDITORES, S.A:

Madrid, 1993, p. XXI.

80Fafian entende que: ―O sistema do idealismo transcendental de Schelling anuncia o conceito de modo bem

explícito. Mas é Schopenhauer quem formula uma verdadeira metafísica do insconsciente (...) nele, a Vontade universal é energia, força irracional que condiciona um determinismo múltiplo na natureza‖. (In FAFIAN, Manuel Maceiras. Schopenhauer e Kierkegaard: Sentimiento y Pasión. Madrid: Ediciones Pedagógicas, 1996, p. 37).

81 SCHOPENHAUER, 2003. p. 64. Cf. p. 65, (N.A). 82 Idem, p. 65, Cf. (N.A).

83SCHOPENHAUER, 2005, § 36 p. 255. 84 SCHOPENHAUER, 2003, p. 64.

purificada de toda vontade. Portanto, ele possibilita o alcance de um grau supremo de pureza das representações intuitivas e, para ele, os objetos, neles mesmos, são as suas respectivas idéias. Seu modo de conhecer quer conceber o conteúdo de todos os fenômenos e sua impressão do presente se dá através do puro sujeito do conhecer destituído de vontade e que, portanto, é o claro espelho da essência do mundo.

Gênio, portanto, é a capacidade preponderante de apreender a Idéia das coisas por intuição contemplativa e puramente objetiva em alguém que não busca realizar-se como indivíduo na história, mas apenas como sujeito do puro conhecer. Nele, há uma disposição excedente que é o além do desejo, o nível do sujeito puro do conhecimento. Tal excedente é qualitativo e não quantitativo e tudo de grandioso na sua obra é feito por meio do entusiasmo e da paixão e tende ao conhecimento mais objetivo que, na Metafísica do belo, é aquele destituído do princípio de razão e que é capaz de elevar-se à Idéia que engendra a realidade a partir da Vontade.

Desse modo, o gênio consegue penetrar o ser mais profundo das coisas mediante a intuição imediata da idéia de um objeto. Ele ultrapassa a mera superficialidade do plano senso-intelectivo e atinge o sentido mais essencial do universo numa mirada metafísica ou intuição puramente sensível, ativa, espontânea e produtiva, embora, desinteressada; tanto no agir que produz a arte, como na arte de agir genialmente na sociedade. É nesse sentido que podemos captar essa aproximação cada vez mais indistinta entre ética e estética, e do gênio em ambos os casos, pelo que podemos dizer que o esteta é genialmente ético.85

Agora, considerando-o em essência, podemos entender que o gênio constitui-se na perfeição e na energia do conhecimento intuitivo. A sua obra não tem uma motivação interesseira e sim um fundamento instintivo, basicamente inconsciente, numa acepção indireta desse termo. Destarte, o conhecimento puro do mundo é o elemento intuitivo, a partir do qual ele cria sua arte.

85―Para Jean-Paul, portanto, a clarividência genial aparece como progenitora da razão e do entendimento. Ela se

encontra, nesse sentido, numa posição de anterioridade à das faculdades de conhecimento. Trata-se, por conseguinte, de uma forma especial do conceber estético que antecede às outras formas de conhecimento. Ela não se associa imediatamente à faculdade racional no sentido comum, como Schopenhauer a define, isto é, uma faculdade que precisa antes de dados empíricos para fornecer conceitos abstratos. Quer dizer, ecos idealistas, sobretudo da intuição intelectual, ainda se ouvem em Schopenhauer, quando da redenção ético-estética do mundo pelo santo; porém, é antes na Besonnenheit genial de Jean-Paul que o filósofo encontra, penso, o conceito-chave para estender a intuição genial à ascética e, assim, pela negação da Vontade, aparentar ética e estética. Com isso a clarividência da razão se torna um híbrido de liberdade intuitiva e racionalidade. Tal clarividência é exigida tanto num primeiro momento, na espontaneidade da negação da Vontade a partir da intuição do todo da vida – onde há um „puro conhecimento da Idéia da vida‟ (Schopenhauer, 1966-1975ª, HN I, p. 468) – como depois, para manter em definitivo esse estado‖. (In BARBOZA, Jair. Infinitude subjetiva e estética: natureza e arte em Schelling e Schopenhauer. São Paulo: Ed. Unesp, 2005a, p. 271).

Como se pode observar, diferentemente do que ocorre com o modo de conhecer do homem comum, no gênio artístico não há um estabelecer de relações entre as coisas, ele não se deixa prender pelas relações causais da temporalidade, antes apreende da efetividade, a idéia, que é, para ele, mais clara que o próprio indivíduo e suas relações com o mundo.86

Desprendendo-se da vontade de conhecimento, aquela relacionada com a doutrina do entendimento, e assumindo uma nova postura, neutro com relação ao princípio de razão, ou seja, assumindo uma atitude contemplativa e desinteressada ante os fenômenos, o gênio haure a Idéia a partir da efetividade, expondo-a na obra de arte e, assim, comunicando-a a outros, isto é, possibilitando-lhes um acesso facilitado.

Portanto, de conformidade com o princípio de razão que considera as coisas isoladas e por meio de relações, ninguém é capaz de apreender uma idéia e que, contudo, o mundo todo repousa nela que, por sua vez, repousa unicamente na Vontade.

Devido à fineza do modo genial de conhecer, a representação se faz pura e cristalina, em nada turvada pelo desejo, donde deriva a precisão e objetividade dessa capacidade que torna possível, no mundo físico, um acesso à coisa em si ou verdadeiro fundamento da obra de arte que, embora inserida no tempo, permanece atemporal e propriedade de ninguém, porque não tem qualquer relação, por parte do gênio criador autêntico, com os interesses da maioria.

Pelo que vimos até aqui, a filosofia pode ser entendida como um tipo de arte, e, o gênio artista não busca realizar-se como indivíduo na história, mas, apenas como sujeito do puro conhecer. Ele possui um modo muito peculiar de apreender e sentir a realidade, e possui o olhar interior, o olho cósmico da mística.

A subjetivação da genialidade tem por conseqüência, sobre o indivíduo de gênio, a melancolia87 e a bipolaridade do humor. Schopenhauer considera, ainda, que: ―Há uma grande

distância entre a racionalidade propriamente dita, o autocontrole seguro, a visão geral fechada, plena de segurança, a regularidade de comportamento que se encontram num homem comum racional, e o estado ora de absorção onírica, ora de excitação nervosa do homem genial‖.88

Como já sabemos, até aqui, para um homem comum, o querer conhecer é o primeiro e decisivo impedimento à objetividade do conhecimento da Idéia, enquanto Vontade de

86Cf. SCHOPENHAUER, 2003, p. 81.

87 Na pg. 75 da Metafísica do Belo, Schopenhauer destacou que: ―A melancolia predomina, porque o adverso e o

inconveniente sobrepujam o favorável e o desejado. Uma representação vivaz logo reprime a outra: a mudança de humor é surpreendentemente rápida; salta-se de um extremo a outro; mostra-se, portanto, um fenômeno que se aproxima da loucura, como Goethe o descreve em Tasso e como em todos os tempos se percebeu no gênio‖.

conhecer, nada pode saber acerca do real. Desse modo, e como já observamos, a subjetividade é como que uma névoa, é o Véu de Maia, como se diria pela sabedoria védica. Ela embota o saber objetivo, logo, não há, segundo a teoria da Metafísica do belo, qualquer apelo à subjetividade na arte autêntica. Há somente o puro sujeito do conhecer, entendido como uma medida da faculdade genial de conhecimento que ultrapassa, em muito, aquela exigida para o serviço de uma vontade comum, e que não encontra impedimento na contemplação da idéia.

A faculdade estética é, portanto, a especial faculdade de arrebatamento da realidade efetiva. Já o modo subjetivo é incapaz de atingir a idéia que, enquanto objeto da intuição que não se situa no domínio da efetividade, não desperta vontade, antes a faz calar por completo.

Como vimos, a obra do gênio é a imagem objetiva arrancada do curso da efetividade com esta finalidade: fazer calar a vontade, que é o que ocorre em nós quando o belo e o sublime nos comovem, pois, na Metafísica do belo, a tranqüilidade necessária ao estado estético ou estado de serenidade do espírito, é contrastada com o sofrimento, o tormento e a angústia que se alimentam do querer e ante os quais, para redimir-se no mundo, o gênio se faz indiferente a tudo que o desejo o impõe. Destarte, o conhecimento subjetivo o angustia, ao passo que o conhecimento objetivo o redime, e a sua índole estética é o que provoca o nascimento da obra de arte a partir da suspensão da subjetividade do indivíduo, no momento quando ele se esvazia do querer para tornar-se um com a idéia do objeto que contém o conhecimento destituído de qualquer imposição volitiva, conhecimento de onde aquela se deriva e que é, portanto, o mais objetivo e imediato: o mais perfeito da essência da vida.

Possuindo os olhos que desvelam o essencial das coisas e que traspassam a realidade efetiva dos fenômenos, o artista faz que sua técnica atue como que num empréstimo dos seus olhos e de seu olhar privilegiado a outros. É por meio dessa intuição estética que o gênio haure uma idéia, prescindindo do princípio de razão e, desse modo, o essencial da efetividade que repousa na obra de arte, são os olhos com os quais o gênio esteta enxerga o mundo como representação. Ele os possui e enxerga a essência das coisas no mundo, independentemente de quaisquer relações. Este é o seu dom natural e inato, e, daí resulta a sua técnica de arte particular e intransferível.

Embora para Schopenhauer, todos possuam, em maior ou em menor grau, 89 a

capacidade do olhar estético, somente o gênio a possui de modo a captar o belo sem mediação e, com isso, proporcionar a facilitação, pelo médium da obra de arte, àqueles que a apreciam,

proporcionando-lhes satisfação e acesso ao conhecimento objetivo da beleza, expresso de maneira primordial na natureza.

Até aqui, podemos aceitar que a obra genial possui a capacidade de apresentar à consciência a Idéia, de um modo mais acessível que aquele proposto pela efetividade e que, desse modo, o conhecimento que ela proporciona se desvincula de toda causalidade, assumindo uma disposição puramente objetiva e sendo uma imagem isolada, não conforme ao que ocorre no curso do mundo fenomênico. Portanto, a obra de arte possibilita um conhecimento objetivo que se dá pela contemplação desinteressada da beleza, condição que é comum ao gênio. Como dissemos, ele possibilita aos demais o conhecimento objetivo essencial de uma coisa arrancada de suas relações com a efetividade. Sua obra arranca um objeto de qualquer relação com a torrente efetiva e fugidia do curso do mundo e é capaz de desprender o espectador do domínio da vontade, despertando-o para a contemplação desinteressada da idéia nela exposta, e que não possui qualquer relação com o mundo fenomênico. E Schopenhauer disse ainda que: ―Embora nas artes apenas o gênio autêntico pode realizar algo de bom (...) segurando diante de nós um espelho límpido, nele vemos reunido na luz mais cristalina tudo o que é essencial e significativo, purificado de todas as causalidades e estranhezas‖. 90

Esclarecendo definitivamente aquilo que pretendia expor sobre a figura do artista genial, Schopenhauer considerou o seguinte:

Digo: a essência do gênio é a capacidade de apreender nas coisas efetivas suas Idéias, e, visto que isso só pode ocorrer numa contemplação puramente objetiva, na qual todas as relações desaparecem – em especial as relações das coisas com a própria vontade somem da própria consciência -, então o gênio também pode ser definido como a objetividade mais perfeita do espírito, isto é, a capacidade de proceder intuindo puramente, de perder-se na intuição, de abandonar o conhecimento a serviço da vontade, isto é, de perder de vista seu interesse, seu querer seus fins, de desfazer-se de sua personalidade e permanecer como puro sujeito que conhece, claro olho cósmico. É justamente essa capacidade que diferencia o gênio do homem comum. 91

Por Idéias devemos entender as essências objetivas que o gênio esteta apreende e transmite por meio da arte. São, por assim dizer, objetos essenciais embora posteriores imediatamente à coisa-em-si e ―(...) as Idéias existem nas coisas e são captadas nas coisas, isto é, não possuem uma autêntica realidade ôntica, que só as representações individuais possuem e, em sentido forte, a Vontade, senão somente uma realidade ontológica, isto é,

90 Idem, p. 211. 91Ibidem, p. 66.

como esquemas de inteligibilidade da realidade‖.92 Elas formam uma realidade ontológica

esquemática capaz de proporcionar inteligibilidade ao mundo, possibilitam um tipo de ―metabstração‖ contemplativa fugaz, capaz de suprimir o desejo elevando o artista a um conhecimento puro e plenamente satisfatório.

Desse modo, notemos ainda que o Gênio schopenhaueriano é como que, um

daimonion 93ou disposição estética voltada para o aspecto qualitativo e essencial do mundo; e

nada tem em comum com a noção posterior que se convencionou a partir da modernidade e que se fixou culturalmente como um coeficiente quantitativo de inteligência. Ele é um incomum fenômeno enérgico da vontade, fenômeno irracional que se assemelha à loucura. Nele a intuição estética dá-se como momento de liberdade do sofrimento causado pela abordagem fenomênica do mundo. Sua ocupação, seu modo de agir e seus objetivos no mundo são bastante incomuns, como podemos observar a seguir: ―A Idéia, no entanto, torna- se comunicável apenas pela obra de arte, enquanto a essência inteira torna-se exponível apenas pela filosofia. Eis porque a arte, tanto a plástica quanto a poesia e a música, bem como a filosofia, são o círculo de atuação propriamente dito e o estofo das obras do gênio‖. 94

Portanto, de conformidade com o princípio de razão do homem comum, que considera as coisas isoladas e por meio de relações, ninguém é capaz de apreender as idéias. O mundo todo repousa na Idéia, mas ela mesma repousa unicamente na Vontade.

Como vimos, ficou claro que a faculdade estética é, portanto, a especial faculdade de arrebatamento da realidade efetiva e que o Dom do gênio é ―o enérgico poder de conhecimento além do normal‖ 95 que lhe é inato. Isto pode ser verificado na originalidade de

92 RÁBADE, 1989, p. 18.

93 No chamado estado genial, como ocorre também no estado ascético, o princípio de individuação é superado.

Isto pode ser verificado tanto na Metafísica do Belo quanto na Metafísica da Ética. Nesse sentido, não há qualquer exagero em entender que o santo é eticamente genial e que, o gênio, é esteticamente santo. Genialidade e santidade devem ser entendidas como uma disposição natural que, em alguns seres humanos, se manifesta de modo excessivo, disposição excedente ao que ocorre com os demais e que, em grau supremo, tanto na estética como na ética, é um tipo de ‗aberração‘ da natureza, dada sua escassez ou raridade no mundo. É bem verdade que o termo em algumas acepções do sentido grego clássico, se denominava daimonion ti, um tipo de loucura divina. Sócrates está, pelo menos parcialmente, dentro da tradição religiosa arcaica quando fala do seu ―algo divino‖ daimonion ti que o aconselha a evitar certas ações. Cf Apologia. 31d; a sua operação é consideravelmente mais vasta no relato de Xenofonte no seu Memorial. I, 1, 4 [obra composta de sete manuscritos]; também é notável o uso constante que Sócrates faz da forma impessoal da palavra ou do sinônimo ―sinal divino‖, In Fedro 242b. Possui ainda outras utilizações no mundo grego, no Timeu 90ª, o próprio Platão o identifica com a alma e pode ver-se um reflexo disto, por exemplo, em Meditações II, 17, III, 16 [Obra de filosofia estóica de Caesar Marcus Aurelius Antoninus Augustus, o Imperador Filósofo. 121 a 180 ª.D]. Mas, numa outra noção, a termo se refere a uma figura intermédia entre os Olímpicos e os mortais e está também presente em Platão no Eros demoníaco do Symp. 202d-203ª.

94SCHOPENHAUER, 2003, p. 78. 95 SCHOPENHAUER, 2003, p. 63.

uma técnica de arte, por exemplo, como no caso de um Vincent van Gogh ou de um Michelângelo.

Já sabemos que todo conhecimento empírico brota da subjetividade, contudo, a obra

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