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DİPNOT 2 - FİNANSAL TABLOLARIN SUNUMUNA İLİŞKİN ESASLAR (Devamı)
2.6 Önemli Muhasebe Politikalarının Özeti (Devamı)
A música nunca expressa ou copia o fenômeno, mas unicamente a essência íntima, o Em-si de todos eles, a Vontade mesma.
(Schopenhauer, In Metafísica do Belo, p. 234).
Para abordar os modos de conhecer indispensáveis ao interesse deste trabalho, permaneceremos no âmbito do O mundo como vontade e como representação e em linha com a Metafísica do Belo, tanto a de que trata a terceira parte da obra magna de Schopenhauer como a da tradução para o português da preleção proferida na universidade de Berlim em 1820. Delas observamos que o princípio e fim só existem para o indivíduo condicionado pelas formas a priori do entendimento e que toda afirmação da Vontade faz parecer que o fugaz não é essencial como tudo aquilo que é duradouro e enfatizado pelo tempo. O filósofo mesmo considerou que: ―Exterior ao tempo se encontra só a Vontade, a coisa em si de Kant, e sua objetidade adequada, as Idéias de Platão‖.51
Vimos que uma descrição conceitual do belo da natureza e da arte, por exemplo, é propriamente filosófica no sentido de que, em Schopenhauer, a filosofia expõe in abstracto a significação essencial das coisas. A significação de uma coisa ou sua abstração, não é propriamente o que na Metafísica do belo se entende por idéia ou coisa em si; uma vez que ela deve ser entendida por si mesma e que o conceito ―... é indicado e representado por algo inteiramente outro, visto que não pode por si mesmo ser trazido à intuição (...)‖. 52
Toda representação não intuitiva é propriamente abstrata, portanto, é imprópria para a contemplação de uma idéia. Já o intuitivo estético é o que se atém a um objeto arrancando-o da sucessão temporal, de tal maneira e com uma vívida intensidade, tão grandiosa que todo o restante torna-se dispensável, sem relação com o querer, mas, antes, somente com a Vontade que determina as idéias e permanece una em toda a extensão do universo como é coisa em si, anterior e posterior a toda e qualquer relação temporal. Senão, vejamos uma observação indispensável, conforme destaca o filósofo alemão:
O traço fundamental da minha doutrina, que a opõe a todas aquelas que a precederam é a total separação entre vontade e conhecimento (...) esta separação, esta análise do eu e da alma, por tanto tempo considerada um elemento simples, em dois
51 In SCHOPENHAUER, 2005 § 65, p. 467. 52 SCHOPENHAUER, 2003, p. 180.
componentes heterogêneos, é para a filosofia aquilo que foi para a química a análise da água, mesmo que isto só venha a ser reconhecido mais tarde.53
Para Schopenhauer, o conhecimento intuitivo e objetivo não pode ser acessado por uma mera abstração do conteúdo da matéria54. Ele é o legítimo correlato do sujeito puro do
conhecer. Logo, não há relação entre intelecto e Vontade. A alma radica na Vontade como resultante da síntese vontade/nôus, donde podermos entender a primazia da Vontade e a incapacidade de todo ser cognoscente em atingi-la. Portanto, o conhecimento puro ou objetivo exigirá a superação cabal do pensamento causal. Depreendemos, assim, que o ser do homem55
não se determina do cogito ou conhecimento consciente, mas, unicamente da Vontade.
Dessa descentralização da consciência56 segue-se que a Vontade não é a faculdade de
uma substância nem seu nome. Ela é o núcleo do ser do homem. É ―Algo simplesmente dado, sempre presente, intransponível‖.57
O mundo como representação é o que só existe enquanto entendimento de um determinado sujeito que o percebe. O gênio esteta é quem supera o princípio de individuação e o modo comum de se aperceber no mundo. Eis, portanto, a única verdade a priori segundo Schopenhauer: Tudo que se pode conhecer empiricamente58 no universo não passa de mera
representação e o sujeito é a condição de existência do mundo como representação.
Sobre a má interpretação da noção kantiana de coisa em si – pois Kant não entendeu que a coisa em si coincide com a Vontade - Schopenhauer exorta que: ―Uma realidade que
53 In Sobre a Vontade na Natureza, Fisiologia e Patologia; Cf. LEFRANC, 2005, p. 91.
54 Neste ponto o conteúdo da noção de substância não é outro senão a matéria inalterável, não obstante a
modificação da qualidade da forma, o que caracteriza toda mudança. A volição é tomada aqui como sendo posterior à capacidade inata da alma de acessar o conhecimento do mundo. Nisto há também elementos da chamada psicologia racional de Kant. Cf. MVR § 4 p. 52.
55 Segundo o Dr. Ramananda Prasad, ao intoduzir a sua tradução do Bhagavad-Gita: O Ser do homem ou Atma é
também chamado alma ou consciência, e é a origem da vida e o poder cósmico por detrás do complexo corpo- mente. Do mesmo modo como um corpo existe no espaço, similarmente, nossos pensamentos, intelecto, emoções, e psique, existem no Ser, o espaço da consciência. O Ser não pode ser percebido por nossos sentidos físicos porque está além do domínio dos sentidos que foram desenvolvidos para a compreensão dos objetos físicos. A palavra Atma foi usada também no Gita para, o ser inferior (corpo, mente e sentidos), psique, intelecto, alma, espírito, sentidos sutis, si mesmo, ego, coração, seres humanos, Ser Eterno Brahman, Verdade Absoluta, alma individual, e superalma, ou o Supremo Ser, dependendo do contexto. Cf. Introdução, in BHAGAVAD- GITA (O). O som de Deus. Tradução para o português de Ramananda Prasad e Swami Krisnapriyananda Saraswati. (American/ International Gita Society).
56 A consciência, embora ligada ao mundo sensível, não pode ser experienciada, isto é, não é, propriamente
falando, objeto da ciência.
57LEFRANC, 2005, p. 93.
58 De conformidade com pensadores como Vyasa, da antiga Escola Vedanta indiana, e diferentemente do que
diria Kant, Schopenhauer destaca que a matéria coexiste com a percepção, da qual depende sua existência, idealidade transcendental e realidade empírica. O mundo como representação é o que consideramos a partir da nossa percepção, é uma síntese entre a realidade exterior e a consciência humana.
constituísse um objeto em si que não fosse uma representação nem vontade seria um monstro (...) admiti-la em filosofia seria deixar-se deslumbrar por um fogo fátuo‖.59
A condição a priori do objeto perceptível é o sujeito, e, tudo que existe, existe para um sujeito cujas formas geradoras da multiplicidade são o tempo e o espaço.
Em Schopenhauer, o sujeito conhece e nunca é conhecido, não estando propriamente, também, compreendido pelo tempo e pelo espaço. Desse modo, o mundo como representação se divide em duas metades necessárias, essenciais e inseparáveis: o sujeito e o objeto. Tempo e espaço são as formas essenciais e gerais de todo objeto, são formas gerais da intuição, intuídos por si e independente de toda experiência; representam ainda, a base da matemática em sua indefectibilidade quantitativa. Entretanto, o sujeito mesmo, isto é, sujeito completo e indivisível, cada ser capaz de representação, só se encontra fora de ambos. Pelo que se conclui aqui que o mundo como representação desapareceria se desaparecessem todos os sujeitos, porquanto essas duas metades possuem sentido única e exclusivamente uma para a outra. Como assevera o filósofo: ―Onde o objeto começa termina o sujeito‖.60 Isto, conforme o
princípio de razão seja a expressão comum das formas a priori do entendimento, e, tudo que podemos saber de puramente a priori, é o conteúdo não dado ao entendimento deste princípio; senão pela intuição estética, na qual se expressa todo conhecimento imorredouro e objetivo.
As representações podem ser intuitivas ou abstratas. Nesta última classe incluem-se os conceitos que são formulados pela capacidade racional. Enquanto que, no caso das representações intuitivas, elas são as que abarcam todo o mundo da experiência e sua condição de possibilidade.
Para Kant, as formas gerais do entendimento podem ser descritas tanto pelos conceitos como podem, também, ser intuídas a priori da sensibilidade. Suas propriedades podem ser abstraídas e também intuídas em seu conteúdo. Espaço e tempo são, portanto, as formas mais gerais da percepção e, conseqüentemente, da experiência e as suas propriedades são conhecidas a priori pela intuição. Ambas as formas possuem valor de leis de toda experiência possível. ―... O tempo e o espaço, contudo podem ser considerados como formas puras e vazias de conteúdo como uma classe especial de representações com existência própria‖.61
Agora, partindo para uma exposição mais direta das duas vias de conhecimento em questão, consideremos inicialmente que o princípio de razão condiciona a experiência como
59In SCHOPENHAUER, 2005 § I, p, 45. Aqui, foi adaptada uma versão desta passagem, por motivo meramente
didático. Conforme ao similar espanhol: SCHOPENHAUER, Arturo. El Mundo Como Voluntad y
Representacion. Cuidad de México: Editorial Porrúa, S.A., 1992.
60Ibid. 61Ibid. p. 21.
lei de causalidade e motivação, e o pensamento como lei de fundamentação dos juízos no tempo, a linha sem extensão e sem conteúdo que limita passado e futuro. Por outro lado, a objetivação adequada da Vontade pelo conhecimento intuitivo estético pressupõe que o objeto expressa sua idéia, livre das formas do princípio de razão; e que o sujeito seja puro sujeito do conhecer, emancipado de toda individualidade e subserviência à Vontade.
Como o tempo é a forma do princípio de razão cuja propriedade única ou a sua essência própria é a sucessão, então, o princípio de razão é o domínio do conteúdo das formas no espaço e no tempo, e, a perceptibilidade delas é dada pela matéria que fundamenta a lei de causalidade. Para Schopenhauer, esta lei nada mais é do que a essência própria da matéria cujo ser é força, no sentido de atividade, movimento e ação.62
A variação segundo as regras de atuação de um objeto sobre outro, determinando a atualidade de um dado arranjo de objetos no tempo e no espaço, tudo isso se constitui a partir da matéria. A isto, em conformidade ao princípio de razão, denominamos variação ocorrida nos domínios do espaço e do tempo: princípio de razão do devir ou lei de causalidade. Como disse o filósofo, ―(...) a ciência considera os fenômenos do mundo seguindo o fio condutor do princípio de razão, ao passo que a arte coloca totalmente de lado o princípio de razão, independe dele, para que assim a idéia entre em cena‖.63Portanto, nossa representação
intuitiva do espaço e do tempo depende necessariamente da matéria, sua forma pressupõe uma ação própria no espaço e o próprio espaço, referindo-se sempre a uma mudança e a uma nova representação temporal. Portanto, não se pode supor o tempo e o espaço separadamente da matéria cuja essência constitui a união do tempo e do espaço na causalidade e no agir. De onde se deriva a sua essência ou energia dinâmica.
Na Crítica da filosofia de Kant, podemos entender que a intuição estética schopenhaueriana não é utilitarista, e, o conhecimento objetivo não é conhecimento instrumental. Para Kant, o sujeito en-forma o objeto64, mas não na sua essencialidade, desse
modo, a coisa em si poderia ser pensada, mas, não poderia ser conhecida.
62 Cf. § 4 p. 23, In SCHOPENHAUER, 1992. 63 SCHOPENHAUER, 2003 p. 57.
64 Kant afirma no prefácio da segunda edição da Crítica da Razão Pura: "Até agora se supôs que todo nosso
conhecimento tinha que se regular pelos objetos; porém todas as tentativas de mediante conceitos estabelecer algo a priori sobre os mesmos, através do que ampliaria o nosso conhecimento, fracassaram sob esta pressuposição. Por isso, tente-se ver uma vez se não progredimos melhor nas tarefas da Metafísica admitindo que os objetos têm que se regular pelo nosso conhecimento, o que concorda melhor com a requerida possibilidade de um conhecimento a priori dos objetos que deve estabelecer algo sobre os mesmos antes de nos serem dados". In KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Tradução de Manuela Pinto e Alexandre Fradique Moraujão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1994.
Portanto, em Schopenhauer, duas65 são as maneiras de ver o mundo, uma regida pelo
princípio de razão, a teleológica; que conduz ao conhecimento como opinião (doxa) 66 que é
subjetivo e incapaz, pela vontade, de conhecer um objeto, e, onde o espírito atua sobre o objeto. Ao invés, pela contemplação transcendental ou estética, ocorre o conhecimento como
(epistême)67, isto é, ciência que conhece sem necessitar de mediação.
Na Metafísica do belo, o espírito se abre à natureza que, juntamente com o mundo, é contemplada de modo não-relacional, puramente esvaziado de causalidade. Tal conhecimento objetivo apela sempre para o qualitativo e essencial das coisas, sem jamais considerar seu aspecto quantitativo. A noção de quantidade caracteriza a multiplicidade dos objetos fenomênicos, portanto, não atinge a idéia, dada a sua dependência da lei de causalidade que rege o princípio de razão.
Segundo Schopenhauer, a ciência causal não pode nos dar o conhecimento do todo porque a Idéia é objeto da arte, e, as obras de arte são as únicas objetivações capazes de nos elevar mais facilmente a ela. Nesse sentido, a música, por exemplo, é a arte sem mediação porque não possui representação externa, sendo o que há de mais metafísico no mundo físico.68
Como vimos: o conhecimento quantitativo do modo de pensar aristotélico se contrapõe ao do modo platônico, representante do conhecimento qualitativo, e, as artes repetem o mesmo de forma diferente, sempre com o fim de comunicar a Idéia que, principalmente, no caso da música, é apreendida de forma direta pelo sujeito puro do conhecimento.
É possível conhecer objetivamente por meio da arte. Isto difere do que ocorre na estética69 kantiana, onde a arte não é aceita como conhecimento objetivo e o conhecimento
abstrato provém de uma dimensão espaço-temporal, diferindo, por isso, do conhecimento
65 Lembremos que em Platão, a Idéia ou Sumo Bem, só poderia ser contemplada transcendentalmente, e que,
para Aristóteles, ela seria teleológica. Em Schopenhauer o conceito mais puro difere de uma idéia por ser ele uma representação de representação e, portanto assumir um caráter secundário em relação à idéia.
66Termo grego que significa "crença", "opinião", ou ainda "o que se diz". Platão foi um dos primeiros filósofos a
colocar, no diálogo Teeteto, o problema da distinção entre a doxa e a epistême, isto é, entre opinião ou crença e conhecimento imorredouro.
67Termo grego que significa conhecimento, de onde deriva a palavra epistemologia. Aristóteles usava o termo
no sentido de conhecimento sistemático racional, a que hoje chamamos ciência, mas que para ele implicava a filosofia primeira na sua Metafísica.
68 Cf. SCHOPENHAUER, 2005 § 52 p. 338.
69 Viva a diferença! Mesmo na Vontade, a individualidade é única. A ‗estética‘ de Schopenhauer se filia à
tradição neoplatônica, onde a arte visa ao originário, remonta aos princípios. O fim supremo da arte é a manifestação da essência da humanidade na unidade deste particular que expressaria a sua beleza própria ou Idéia. Contudo, tentar transcender a sensibilidade do mundo material por força da pura idealidade da Idéia, parece ter sido o erro do platonismo. A poesia e a arte em geral, ambas estão ligadas ao sensível visando à Idéia. Cf. SCHOPENHAUER, 2003, p. 124 (N.T).
intuitivo de que trata Schopenhauer, para quem relacionar representações é abstrair e isto não pode ocorrer à parte do princípio de razão, tampouco pode propor a realidade, ou o em si objetivamente; a não ser por meio da intuição estética que, num lampejo fugaz, discerne o discurso da Idéia a partir das coisas, por meio de uma contemplação objetiva desinteressada. Desse modo, não deve haver relação no conhecimento da Vontade.
Como vemos, ao contrário da ciência, a arte ―encontra em toda parte seu fim‖. Nela, o particular contemplado à parte do tempo, representa conhecimento universal. O que implica dizer que: a arte se detém no objeto de sua contemplação fora do curso racional das conexões causais, tornando-o de uma mera parte a um representante do todo e, conforme o filósofo, ―um equivalente no espaço e no tempo do muito infinito. A arte se detém nesse particular, a roda do tempo70pára; as relações desaparecem para ela. Apenas o essencial, a Idéia, é seu
objeto‖.71Portanto, para Schopenhauer, o modo próprio de consideração alinhado com o
princípio de razão é o peripatético ou racional. Este modo determina o desenvolvimento da ciência e é fundamental para a vida prática. De forma contrária, o modo de consideração das coisas relacionado ao platonismo, ele denomina de genial, este é o que fundamenta o desenvolvimento da arte.
Assim sendo, o curso do mundo é objeto da ciência, como ocorre na História72, por
exemplo, e o objeto da arte, é a própria Idéia. A história se repete e os seus personagens são sempre os mesmos, porque a Idéia é um todo indissolúvel que, naquela, se apresenta de forma fragmentada, portanto, não essencial.
Na Metafísica do belo não há como aceitar a noção de um télos histórico; pois a história, como o tempo, faz subsistir apenas o eterno retorno do mesmo, como manifestação fenomênica da Idéia no fluxo intermitente da vida. Logo, uma filosofia da história deve também ser descartada, pois, a Idéia expressa no fenômeno a Vontade, isto é, aquilo que é uno e indivisível. Diante disso, a própria expectativa de progresso da consciência e da história caduca, bem como o conceito de história. Até mesmo uma noção de libertação do homem só se fará viável pela contemplação estética. Portanto, nesse sentido, o que subsiste para Schopenhauer é a disciplina ou a ciência histórica, e, ela importa, apenas, enquanto auxiliar no conhecimento da idéia de humanidade.
70 O tempo presente da vida, enquanto representação, só deixa de ser vazio e sem sentido mediante a Vontade ou
coisa em si que é o único real, entendido em Schopenhauer como manifestação diversa da Vontade una que se
mostra como que pulverizada na diversidade dos fenômenos. No capítulo dois teceremos algumas considerações sobre o tempo da Vontade.
71SCHOPENHAUER, 2003, p. 59.
Decorrem ainda do modo científico de conhecer leis, conexões e relações resultantes da análise dos fenômenos. Mas, o modo de conhecimento estético compõe-se do conhecimento do objeto da Idéia e da consciência daquele que conhece como puro sujeito do conhecimento destituído de vontade. Tal conhecimento, contudo, não pode ocorrer no âmbito de influência do princípio de razão porque não se caracteriza como conhecimento empírico. Aquele que atinge tal modo de conhecimento perde, momentaneamente, a própria consciência individual de si, para assegurar objetivamente o conhecer da Idéia de um modo desinteressado.
É sabido que, enquanto indivíduos, todos nós dispomos apenas do conhecimento regido pelo princípio de razão. Por meio desta categoria de conhecimento não podemos conhecer as Idéias. Para tanto, teremos de nos elevar do conhecimento das coisas particulares à intuição estética do mundo e deverá ocorrer em nós uma mudança similar e correspondente àquela grande mudança que ocorre na natureza total do objeto mediante a qual, o sujeito enquanto conhecedor de uma idéia, já não mais é indivíduo, mas, tão somente, sujeito puro do conhecer.
No pensamento de Schopenhauer, o conhecimento em geral da objetivação da Vontade em seus graus inferiores e superiores, e todo o sistema correspondente à sensibilidade do corpo, são expressões dela mesma nesses graus. As representações engendradas pela sensibilidade também estão a serviço da dela como um meio [Mékané] para a realização de seus complexos fins posteriores [polutelestera] e para a conservação de um ser de múltiplas necessidades.73
Vimos que o conhecimento a serviço da Vontade não conhece os objetos mais que em suas relações, isto é, os conhece enquanto se dão no tempo e no espaço, e em lugar determinado; sob certas circunstâncias e enquanto produtos de causas. Uma vez suprimidas as relações in toto, desaparecem também os objetos efetivos, porquanto o entendimento não pode reconhecer alguma coisa nos objetos sem estabelecer relações de causalidade no tempo que é a forma mais geral de todos os objetos do conhecimento a serviço da Vontade e o protótipo de todas as demais formas. Portanto, aquilo que a ciência estuda, são as relações das coisas sob as circunstâncias do tempo e do espaço; as causas de suas variações naturais, as diferenças formais das coisas, a razão dos fenômenos. Em resumo: ela estuda meras relações fenomênicas.74
73 Cf. SCHOPENHAUER, 2005, § 33, p. 243. 74Idem § 33, p. 244.
Na intuição estética, contudo, o objeto é o foco em si, arrancado de todo e qualquer nexo causal, passa a ser a Idéia ou o objeto da consideração estética, a objetidade adequada da Vontade num grau determinado e que se esforça por ―revelação‖. É quando o homem concentra toda força do seu espírito na visão intuitiva, absorvendo-se inteiramente nela, inundando sua consciência com a contemplação dos objetos naturais a ponto de neles se perder, duvidando de si mesmo e de sua própria verdade, convertendo-se em puro sujeito e refletindo nitidamente o objeto, de tal modo que o coloque como que isolado de suas relações no mundo até que não seja possível separar o sujeito da própria percepção.
Sujeito e percepção tornam-se uma só coisa, pela inundação e completude da consciência numa imagem intuitiva isolada. O próprio sujeito torna-se emancipado do desejo e desprendido de toda e qualquer relação de causalidade, sendo um com o objeto isolado em sua consciência. O conhecido que deriva deste processo deixa de ser o de uma mera coisa no