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Belgede GSD Holding Anonim Şirketi (sayfa 56-0)

Você pode experimentar a vastidão da consciência que você realmente é. Sri Sri Ravi Shankar.

Quando parti do Brasil o meu foco principal era fazer o Curso Parte 2, considerado avançado e indispensável para prosseguir na Arte de Viver. Na época eu tinha uma leve idéia do conteúdo deste curso, e estava ansiosa para fazê-lo. Porém, após tantas experiências o curso havia perdido a centralidade dos meus interesses. Já era o quinto dia na Índia e eu vivia uma experiência muito contraditória: a minha mente era serena e tranquila, o meu coração iniciava a sentir pequenos momentos de alegria, mas o meu corpo sofria. Eu sentia muitas dores por todo o corpo, o meu pé esquerdo não suportava tocar o chão. Caminhar era penoso e doloroso. A todo o momento eu ansiava por repouso, descansar, dormir. Assim, o primeiro dia do curso não foi muito empolgante para mim. O que mais me motivava era a presença de Sri Sri Ravi Shankar durante o curso. Fiquei decepcionada quando soube que ele viria para algumas partes do curso, e para outras não.

A grande tenda onde se realizava o curso estava lotada. Milhares de pessoas de várias nacionalidades haviam se inscrito para este curso, falava-se de quatro mil pessoas, outros contavam oito mil pessoas. Eu não soube ao certo, mas o fato é que não havia espaço suficiente para tanta gente. O grupo de brasileiros preferiu fixar-se em uma área mais externa, do lado direito do palco, um tanto longe, o que dificultava acompanhar as atividades propostas. O tapete vermelho que cobria o chão já estava bem empoeirado e encontrei dificuldade em organizar o meu lugar, já que não havia trazido colchonete ou yogamat, nem mesmo a minha almofada para meditação. Por certo tempo, fiquei me lamentando de não havê-los trazido, a minha mente perdia-se constantemente em culpar-me e encontrar desculpas, o que me deixava aborrecida. Preparei o meu lugar com o que havia disponível: uma canga, um travesseiro, um lençol e uma cadeira de meditação. Estaríamos reunidos ali por quatro dias consecutivos, das 7h30 da manhã às 17h00, com um intervalo de uma hora e meia para o almoço. Oito horas diárias de curso, aproximadamente, o que para mim começava a parecer uma maratona.

Brasileiros e brasileiras se agrupavam segundo as suas amizades. Como eu havia maior contato com as baianas, fiquei próximo à Isabella, a qual me havia adotado como mãe, à Olga e Cristina. Muita agitação antecedeu o início do curso. Havia problemas com os aparelhos de tradução. O grupo não havia se organizado adequadamente para tal e tivemos alguns tradutores que se revezavam, o que dificultava a compreensão das explanações dos instrutores. Tudo isso começou a me irritar, afinal havíamos pagado também pela tradução, e além do desconforto deveríamos fazer um esforço extra para acompanhar o curso! O meu lado perfeccionista e controlador se manifestaram e, algumas vezes, coloquei meu descontentamento, apesar de não proporcionar qualquer possibilidade de mudança das

condições que estavam postas. Eram reclamações no vazio. Não havia muito a fazer. Comecei a sentir-me em meio ao caos.

Fotografia 12 - Local onde foi realizado o Curso Parte 2, fevereiro de 2006, Ashram de Bangalore. Acompanhar o curso passou a ser um grande esforço. O chão duro machucava cada parte do meu corpo que tocava o solo, a luta por um espaço maior para esticar as pernas de vez em quando, a dispersão que ocorria em meio às atividades propostas, tudo tornava o tempo mais longo e insuportável. No primeiro dia, apesar de tudo, tentei me concentrar e acompanhar as atividades. Logo cedo, fazíamos yoga (ásanas) e a prática do Sudarshan Kriya. Após um pequeno intervalo, iniciamos algumas vivências em duplas ou em pequenos grupos. Eu fazia cada vivência proposta, mas não estava totalmente presente, estava sempre dividida entre as sensações dolorosas do corpo e as novas reflexões propostas. Seria uma fuga? Creio que sim. As minhas experiências com vivências em cursos anteriores como Bioenergética, Psicoterapia Corporal, Biodança e etc., sempre foram muito profundas e emocionadas, assim eu não estava me sentindo à vontade para penetrar no meu mundo interno no meio de milhares de pessoas. A vergonha de expressar meus sentimentos e emoções era muito forte. A ausência de um psicoterapeuta que cuidasse de mim e das minhas angústias que porventura emergissem, era outro motivo que eu encontrava para não querer realizar os processos guiados. Percebi que interagir com pessoas desconhecidas também dificultava a minha participação com leveza e naturalidade. Eu observava ao meu redor e via que algumas pessoas estavam muito à vontade realizando as práticas e eu não estava à vontade de modo algum, pelo contrário, ansiava pelo término das dinâmicas. Do meu ponto de vista, tais práticas naquele contexto eram inadequadas. Era necessário um setting protegido, com um

número restrito de pessoas, um acompanhamento de um psicoterapeuta, um tempo para compartilhar e elaborar. Era o paradigma da psicologia ocidental que estava na minha mente. O meu lado crítico, racional e autosuficiente se manifestou forte. No fundo, era uma grande resistência que crescia em mim. Somente cheguei a compreender dois anos depois quando fiz pela terceira vez este curso avançado, e cheguei a compreender a sua estrutura interna, os seus objetivos e métodos.

Já neste primeiro dia tivemos também uma exposição, por uma instrutora indiana, sobre alguns elementos teóricos sobre medicina Ayurvédica e saúde, com especial atenção para a caracterização dos doshas. Neste campo teórico me senti mais segura e confortável, pois não exigia de mim um contato com as pessoas. Ayurveda é uma palavra em sânscrito que significa o “Veda da Vida” ou a “Ciência da Vida”, e é um dos sistemas mais antigos e completos do mundo de cura natural, data de cinco mil anos. É o sistema de cura natural e tradicional da Índia. Trata-se do ramo medicinal dos sistemas yogues do subcontinente indiano e hoje é alvo de atenção em todo o mundo como uma medicina holística e integral para o corpo, mente e o espírito. Ayurveda e yoga são inseparáveis em sua origem, pode-se considerar a Yoga como uma filosofia prática cujos métodos integram este grande sistema. A Ayurveda ou “Ciência da Vida” tem como objetivo levar o homem a viver em harmonia com a natureza, como chave para o bem-estar, nos ligando às fontes da criatividade e da felicidade na nossa própria consciência. Segundo esta ciência, “a solução real para os nossos problemas de saúde, implica em voltar à união com o universo e com o Divino dentro de nós. Isso requer mudar nossa vida, nossa maneira de pensar e sentir” (FRAWLEY, 1999, p. 20).

Sri Sri Ravi Shankar (2003) diz que saúde não é uma mera ausência de doença. Estar com saúde é estar estabelecido no Ser. Este é a expressão dinâmica da vida. De acordo com esta ciência a doença é causada por estilos de vida que transgridem leis e ritmos da natureza e também por ignorarmos nossa sabedoria inata, usando de forma dissonante a mente e os sentidos, alimentando-nos de maneira inadequada e ignorando os ritmos pessoais e as estações do ano (TIWARI, 2004).

Segundo a Ayurveda cada pessoa se distingue de muitas maneiras, tanto física como mentalmente, e cada pessoa apresenta uma constituição básica (prakriti) e única, diversa de qualquer outra. Compreender a nossa natureza e a dos outros é, então, a base para uma vida feliz, harmoniosa, saudável e para a vida social dos grupos e comunidades. Nessa teoria, a ciência dos tipos individuais constitui uma sabedoria fundamental, a qual classificando as pessoas em categorias gerais, segundo os três humores, nos ajuda a entender claramente as diferenças individuais, nossas capacidades e nossas idiossincrasias. Os doshas

ou humores biológicos são um reflexo das grandes forças da natureza e a nível individual são as forças fundamentais da nossa vida física. Esses doshas são chamados de Vata, Pitta e Kapha em sânscrito, e correspondem aos três grandes elementos do ar, do fogo e da água, do modo como atuam no complexo da mente e do corpo. Os doshas estão em toda parte – nas condições atmosféricas, nas plantas e nos animais, e definitivamente nos alimentos. Até as estações do ano e os períodos do dia têm os seus doshas. Cada dosha possui certas funções básicas e bem definidas. Cada um de nós possui os três humores biológicos, contudo a proporção deles varia de acordo com o indivíduo. Em geral, um tipo de humor predomina e deixa sua marca característica na nossa personalidade. Esta é uma teoria extremamente complexa e precisa. Os tratados de medicina Ayurveda são verdadeiros retratos e configurações dos possíveis tipos humanos, desequilíbrios, doenças, problemas comportamentais e psíquicos que demonstram a sabedoria que os grandes sábios indianos transmitiram às diversas gerações.

Em um daqueles dias de curso, tive a oportunidade de fazer uma consulta com um médico Ayurveda do Sri Sri College of Ayurvedic Science and Research Hospital, que foi criada por Sri Sri Ravi Shankar e é mantida pela fundação Arte de Viver. Durante o período do Jubileu, foi montado um serviço de atendimento e tratamentos pelos médicos e estudantes da clínica que funciona no Ashram, a qual pode realizar milhares de consultas aos participantes, na sua maioria, estrangeiros que desejavam ter acesso a este método de cura natural. Com muita curiosidade para conhecer o método, para ter um diagnóstico sobre a minha constituição e principalmente para realizar um tratamento que realmente me ajudasse a superar todo o mal-estar que eu estava sentindo nos últimos tempos, marquei a consulta. Tabela 1 – Os três doshas, suas funções e qualidades na constituição humana, adaptado de Chopra, 1998.

OS TRÊS DOSHAS

DOSHA FUNÇÕES BÁSICAS QUALIDADES

VATA Governa as funções do corpo relacionadas com o movimento

Ativo, rápido, leve, frio, áspero, seco; lidera os outros doshas

PITTA Governa as funções do corpo relacionadas com o calor e o metabolismo

Quente, aguçado, leve, ácido, levemente oleoso KAPHA Governa as funções do corpo relacionadas com a

estrutura e o equilíbrio dos fluídos

Pesado, oleoso, lento, constante, sólido, inerte

No dia e hora marcados eu deixei o curso e por uma hora fui para a tenda de atendimento que funcionava ao lado da tenda central do curso. Após uma meia hora de espera, fui recebida por um médico indiano que falava um inglês “enrolado” como os indianos falam, o que dificultou a nossa comunicação. Mas a comunicação verbal não era muito necessária, o exame se baseia na observação do corpo e expressão da pessoa e da auscultação sutil do pulso. E para minha grande surpresa este método realmente funciona! Fiquei realmente impressionada com a habilidade demonstrada para chegar a um profundo entendimento das minhas características biológicas e psicológicas. O médico começou a perguntar-me se eu apresentava alguns sintomas cujo quadro representava exatamente o que eu sentia como mal- estar. Relacionou também algumas características pessoais e comportamentais que correspondiam a uma descrição de mim mesma. Fui diagnosticada como um tipo vata-kapha (ar-água). Foi-me prescrita uma série de cápsulas elaboradas no próprio laboratório da clínica, a partir de plantas nativas, para serem tomadas por seis meses seguidos. Especial atenção foi dada pelo médico à alimentação que eu deveria seguir. Segundo esta medicina, a alimentação, fonte principal de pr na (energia sutil de vida), é fundamental e deve ser escolhida segundo a constituição individual da pessoa. Ao final, conselhos sobre a prática de atividade física, principalmente aquelas que estimulassem de modo intenso o sistema cardiovascular. O objetivo era diminuir os doshas que estavam em desequilíbrio (vikriti), possibilitando o aumento de pitta, buscando um equilíbrio entre os três doshas, de modo que a natureza chegasse a um equilíbrio no meio interno. Esta busca de equilíbrio equivale a encontrar a nossa verdadeira natureza, o nosso verdadeiro eu, o qual é um estado de perfeita saúde e bem- estar. Esta consulta foi a melhor “aula” que eu poderia ter tido para compreender os princípios básicos da medicina Ayurveda.

Os cursos da Arte de Viver têm a experiência como metodologia privilegiada para a aprendizagem. Nos dias que se seguiram, nos foi proposto a prática de uma sequência de meditações distribuídas no período da manhã e tarde, intercaladas com sessões de conhecimento e encontros com o Mestre Sri Sri Ravi Shankar. Alguns mudras foram apresentados e experimentados, onde buscávamos descobrir os efeitos no nosso próprio corpo e mente. Um exercício bastante interessante que nos faz perceber o poder de gestos das mãos e do corpo sobre nós mesmos, nos diversos níveis, físico, mental e consciência. A palavra mudras é um termo que tem vários significados. É utilizado para significar um gesto, uma posição mística das mãos, um selo ou lacre e também um símbolo. Existem também posições dos olhos, posições corporais e técnicas de respiração que também são denominadas mudras. O valor do seu uso no âmbito do Yoga deriva da capacidade de desencadear vividamente

estados ou processos de consciência. O simples ato de cruzar, estender, dobrar ou tocar os dedos com outros dedos tem efetivamente o poder de engajar certas áreas do cérebro e o espírito influenciando o nosso ser em todas as dimensões. Experienciar e comprovar em mim mesma esta antiga prática que remonta a mais de cinco mil anos, foi uma experiência fantástica. Eu já havia praticado os mudras anteriormente, mas somente os dois mais conhecidos – os dedos polegar e indicador que se tocam (chin mudra) e o chamado “ovo cósmico” (dhyani mudra) que é utilizado no zen budismo. No Curso Parte 2 são apresentados quatro mudras cuja finalidade básica é potencializar o estado meditativo através do equilíbrio do pr na em nosso interior, além de cada um deles exercer sua ação em uma área específica do corpo. A prática diária que nos foi proposta realmente me levou a estados de consciência de maior tranquilidade e a meditações mais profundas.

De fato, a grande finalidade deste curso é levar a pessoa a estados mais profundos de consciência preparando a sua mente para um estado tranquilo da mente onde possa acontecer o estado meditativo, e preparando-a para acessar o próprio Ser ou tman. Segundo Sri Sri Ravi Shankar (2004b), que nos fala a partir da grande tradição védica, “apenas ouvir a verdade não causa efeito algum... Apenas anunciar a verdade não ajuda ninguém... Apenas descrever o destino final para onde alguém deve se dirigir não é o suficiente”. É preciso desenvolver quatro principais qualificações ou quatro pilares do conhecimento, os quais incluem os seis tipos de riqueza.

As meditações eram realizadas várias vezes ao dia, chegando a um total de cinco ou seis meditações diárias. A técnica proposta foi criada por Sri Sri Ravi Shankar e denominada de “oco e vazio” (hollow e empty). São meditações guiadas, geralmente feitas com uma fita gravada pelo próprio Mestre ou quando ele estava presente, com a sua própria voz. Esta meditação é feita exclusivamente no curso avançado e nos conduz à percepção de quanto o nosso corpo que nos parece tão material é apenas energia que flui, somos muito mais vazios do que sentimos ou imaginamos. É a percepção de nossa verdadeira natureza. Além do corpo material, além da mente, existe a consciência, o Ser. Para mim foi como um insight, uma percepção clara e instantânea que me trouxe muita paz. Realmente o mundo material, ao qual damos importância e centralidade na nossa vida, é apenas uma dimensão densa de nós. Outras dimensões mais sutis existem e são tão reais quanto a dimensão material, basta treinar a nossa percepção, aquietar-se, acalmar a mente, recolher os sentidos do mundo externo (pratyahara) e observar (dh rana, concentração da consciência em só ponto), sem julgamentos ou expectativas. Esta técnica é a meditação (dhy na), segundo, é ensinada nas diversas escolas de yoga.

Com essas experiências, o curso se tornou para mim, um refúgio para as minhas dores e cansaços. Era quando eu me concentrava além das dores e encontrava um espaço interno de tranquilidade e felicidade. Esta sensação se prolongava no dia e me fazia sentir e compreender um dos ensinamentos básicos da Arte de Viver, a impermanência das sensações, fatos e eventos da vida. Tudo muda, tudo está mudando o tempo todo. Ter esta consciência (viveka, discriminação) me levou a uma relação com o mundo e comigo mesma de maior aceitação, afinal tudo passa, tem um fim, se transforma. Muitas vezes não aceito uma situação e quero ter controle sobre esta, o que nem sempre é possível, trazendo mais conflito para a mente e para a minha vida. Mas aceitar e agir em consequência para uma mudança é uma atitude mais sábia e que traz muita paz. Comecei a praticar este conhecimento intuitivamente quando cheguei no ashram, aceitando a situação como era e continuei durante toda a viagem pela Índia. Comecei aceitando o estado do meu corpo, pesado, lento, dolorido, tomei consciência que transformá-lo dependia somente de mim mesma, da minha atitude, das mudanças no meu estilo de vida. Decidi praticar yoga, voltar a caminhar e modificar meus hábitos alimentares.

Nem sempre Sri Sri Ravi Shankar podia estar presente no curso, devido aos preparativos para a festa do Jubileu de Prata que seria nos dias 17, 18 e 19/02. Porém, nos dias que ele podia vir, toda a programação era modificada para que ele pudesse ou nos conduzir em meditação ou responder a perguntas. As sessões de conhecimento eram uma janela para a visão de mundo dos Vedas e do hinduísmo, enquanto dimensão cultural que está na base da vida dos indianos. Daqueles momentos não tenho muitas lembranças, para mim estar junto de Sri Sri Ravi Shankar é uma experiência de grande paz. Não tenho perguntas, não tenho nenhuma necessidade, a minha mente torna-se um oceano sem ondas, calmo e tranquilo.

Muitas coisas mais aconteceram neste curso, e outras que deveriam acontecer não aconteceram. Quem já havia feito este curso nos disse que este foi um curso adaptado ao contexto, à situação, ao número de pessoas inscritas. Na verdade, o curso é mais profundo, mais intenso, o que seria impossível acontecer naquele momento. Estes comentários me davam certa frustração, afinal eu tinha vindo do Brasil para este curso e fizemos apenas uma parte! Novamente eu me percebi não aceitando a situação como era. Por outro lado a minha vontade de fazer o curso em sua totalidade crescia, e realmente pude fazê-lo outras três vezes e cada um deles foi um pouco diferente, mas me possibilitaram grandes e boas experiências. Experiências de transformação e formação.

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