O mundo ocidental e, mais fortemente, a academia e a ciência, os saberes fortes discriminam a figura do Guru. Existe um preconceito, uma visão pré-estabelecida que associa o Guru a um ditador de vida, regras, normas e comportamentos. Uma figura que, movido por objetivos individuais e egoístas, desejoso de poder e dinheiro, manipularia um grupo de indivíduos ou comunidade, a seu bel prazer. Um fundador de uma seita, carismático, extremista, falso e autoritário, que faz lavagem cerebral em seus membros, tornando-os alienados, e, ainda, estimulando a realização de atos macabros ou não-convencionais, que podem levar à morte de seus membros. Eu mesma, até bem pouco tempo, compartilhava dessa visão. A mídia reforça esta idéia presente na cultura contemporânea, tantas vezes desqualificando a figura de mestres e gurus, simplificando e ocultando a verdade sobre estes personagens. Essa visão foi reforçada pelos eventos dramáticos envolvendo algumas seitas na década de setenta, como o assassinato em massa dos adeptos do Templo do Povo, liderado pelo reverendo Jim Jones.
O Guru também pode estar associado à imagem de uma pessoa que detém um saber específico e torna-se autoridade maior no assunto. Guru do marketing, guru do amor, guru da inovação, guru da auto-ajuda, guru da culinária, guru da informática, guru da efetividade, guru da administração, guru hoteleiro, guru dos gurus, são alguns dos títulos que são autoutilizados em campanhas publicitárias. Nenhuma destas formas de entender o que seja
um guru corresponde à dimensão e ao significado que é dada a tal figura no contexto cultural em que esta se origina, a Índia.
Conhecendo Sri Sri Ravi Shankar, estando na sua presença por várias vezes, descobri um estado interior até então desconhecido para mim: paz interior, mente profundamente quieta, ausência de desejos e questionamentos, apenas um grande amor que se irradia para o Mestre, para o mundo, para as pessoas, para as pequenas coisas da vida, para a natureza. Até então eu não sabia o que significava o sentimento amor, realmente eu vivia na ilusão de sentimentos de apego, posse e confundia com amor. Somente um ser iluminado, segundo a concepção hindu, seria capaz de despertar sensações e sentimentos tão puros apenas com a simples presença. A sensação de felicidade é tão intensa que se prolonga por dias. Várias pessoas relatam o mesmo em inúmeros depoimentos. Eu poderia, em outra época da minha vida, buscar explicações racionais para tal fenômeno, no entanto, hoje, tais justificativas são desnecessárias. As fortes e belas experiências vividas na sua presença, na Índia, em 2006, em Buenos Aires e Rio de Janeiro, também em 2006, e mais recentemente em maio de 2008, no Rio de Janeiro, inclusive falando pessoalmente com o Mestre, são inequívocas para mim. Sri Sri Ravi Shankar, com a sua sabedoria, o seu amor, sua alegria, sua dedicação à humanidade, autodeterminação e ação efetiva de transformação individual e social, é um Guru, na mais exata expressão da palavra. É um Guru para mim e para milhões de pessoas em todo o mundo.
Sri Sri Ravi Shankar (2003) explica que existem diferenças importantes entre o Oriente e o Ocidente quanto a ter um Guru. No Oriente ter um mestre é motivo de orgulho, pois este é símbolo de segurança, amor e um sinal de grande bem-estar. Estar com o guru é como estar com o Ser maior. Não ter um mestre é visto como um órfão ou pobre, é sinal de má fortuna. Já no Ocidente ter um mestre é considerado um sinal de fraqueza, motivo de vergonha. No Oriente as pessoas têm orgulho de ter um guru para várias disciplinas – um guru para a religião (dharmaguru), um guru para a família (kulaguru), um guru para disciplinas específicas (vidyaguru) e um guru espiritual (sadguru). No Oriente os mestres tornam seus discípulos mais fortes, enquanto no Ocidente, os mestres tornam os seus discípulos mais fracos. No Oriente, existe um forte senso de pertença que possibilita as pessoas dissolver sua identidade limitada no infinito, mas no Ocidente um mestre é considerado apenas um motivador e uma pessoa que estimula a competição.
Segundo a tradição da cultura hindu, Guru é aquele que traz a luz do conhecimento para a vida das pessoas, aquele que conduz as pessoas da escuridão da ignorância, avydia, para a clareza da sabedoria, vydia, para a compreensão correta de si
mesmo da realidade, desenvolvendo a capacidade de discriminação, viveka, entre o que é real e o que é ilusão. Tal tarefa só pode ser conduzida por alguém que desenvolveu tais capacidades na própria vida, quem ultrapassou os limites do ego e do conhecimento relativo sobre a vida, um ser iluminado. Iluminação é o termo utilizado para designar o estado mais elevado de consciência de completa realização de Br hma em si mesmo. Iluminado é aquele que reuniu tman a Br hma, aquele que ultrapassou definitivamente as limitações do corpo e da mente e, portanto, passa a ter acesso à sabedoria infinita presente no Universo. O iluminado é um ser que realizou definitivamente a dimensão espiritual no mais alto grau possível, e, portanto, é expressão viva da natureza divina. Para o hindu um Guru não é nada mais que sabedoria e amor, um instrumento para despertar sabedoria e amor naqueles que estão no caminho espiritual.
Para a nossa mente racional, tal caracterização de um ser iluminado pode parecer incompreensível, apenas uma fantástica fantasia, pois geralmente permanecemos presos aos limites da realidade material, quantificável, palpável. Não é minha intenção convencer o leitor, porém, creio que a história de vida do Mestre Ravi Shankar pode ser a melhor forma de possibilitar um maior conhecimento sobre este Ser tão especial. Afinal quem é Sri Sri Ravi Shankar? Onde nasceu e cresceu? Quem são seus pais, quem é a sua família? Como e onde foi educado, quem foram seus mestres, quem foi o seu Guru? Conhecer a história de Sri Sri foi para mim um modo de descobrir detalhes sobre a sua vida e sua trajetória desde criança, passando pela adolescência até a sua realização espiritual, e hoje a sua dedicação a uma humanidade livre do estresse e livre da violência.
Obtive as primeiras informações no próprio site internacional da Arte de Viver, porém foi no livro O Guru da Alegria, de François Gautier (2002), que encontrei a biografia mais completa do Mestre Ravi Shankar. Escrita com amor e admiração é um texto rico em detalhes, lembranças, narrativas, nascidas da convivência do autor com o próprio Mestre e sua família, com vários instrutores, estudantes e inúmeros discípulos que se dedicam ao trabalho educativo e humanitário da Arte de Viver.
Sri Sri Ravi Shankar é um mestre muito especial que vem da Índia, mas com sua mensagem universal de Amor, Paz e Verdade consegue atingir países próximos e distantes do berço da sabedoria da humanidade, como é considerara hoje a Índia antiga. Palco de guerras e invasões e de um intenso comércio com um Ocidente ávido por suas riquezas materiais, como sedas, perfumes, especiarias, jóias, incensos, tapetes e objetos de artes, a maior riqueza da Índia Moderna e Antiga é a sua espiritualidade. Fruto de antepassados anônimos e outros
ilustres ainda desconhecidos em nossa cultura, a força da sabedoria Védica encanta e inquieta viajantes, curiosos e buscadores da felicidade.
Este jovem mestre indiano, com apenas 50 anos de vida e 25 anos dedicados a um trabalho humanitário, incansável no seu dia-a-dia e encantador nas suas ações, é um mestre muito especial respeitado e reconhecido em todo o mundo. Graduado em Física e Ciências Védicas com apenas 17 anos, desde a infância surpreende sua família, amigos e mestres com sua incomum capacidade para aprender e seu comportamento dharmico8, sua devoção às divindades e dedicação ao outro, às classes populares e aos carentes material e espiritualmente, em uma Índia recém liberta do domínio inglês e ainda marcada por um sistema de castas. Aos quatro anos, o pequeno Ravi Shankar, nascido em Papanasam, uma pequena vila no sul da Índia, de uma família tradicional ortodoxa Brahmina9, já era capaz de recitar de memória o Bhagavad Gita, texto sacro hindu. Levado antão a Thangamma, renomado professor desta língua antiga, causou grande estupor e risos quando o pequeno Ravi Shankar cantava os versos de memória e o seu mestre apenas os conseguia ler. Posteriormente estudou sânscrito com Pandit Sudakar Chaturvedi, também mestre de Gandhi, o Mahatma10
indiano. A extraordinária inteligência de Ravi Shankar também impressionou seus mestres acadêmicos, os quais lhe concederam dupla aprovação: graduação em Literatura Védica e Bacharel em Ciências Modernas (GAUTIER, 2002).
No entanto, os seus caminhos futuros foram trilhados em um campo nada científico, segundo a concepção tradicional de ciência, o S natha Dharma. A sua vida e obra são uma expressão clara e profunda dos princípios mais antigos do hinduísmo e de uma indianidade seguidora do dharma. Segundo Piano (1996) a palavra dharma tem inúmeros significados. Pode significar religião, porém não esgota suas possibilidades. Derivada da raiz indo-européia dhr, que significa “sustentar, manter no ser”, da qual se originam as palavras latinas firmus e forma, acrescenta à palavra dharma a noção de fixo, estável e sólido, que não muda, e à “forma” das coisas, a sua natureza, aquela força que faz ser como é e não de outro modo. “O dharma é, então, alguma coisa similar ao que nós chamamos <lei da natureza>, é <norma> eterna e <ordem>, seja do cosmo, seja da vida individual e social dos seres humanos” (PIANO, 1996, p.22).
8 Segundo o dharma. O dharma é alguma coisa similar ao que nós chamamos <lei da natureza>, é <norma> eterna e <ordem>, seja do cosmo, seja da vida individual e social dos seres humanos” (PIANO, 1996, p.22). 9 Pertecente à classe dos Brahmanes.
É desta compreensão, aceitação e vivência no dharma que se encarna na consciência e emana uma ação na prática, no cotidiano, que Sri Sri Ravi Shankar, com sua grande alma e seu amor incondicional, dedica-se ao trabalho admirável de trazer a humanidade para o centro do próprio Ser, levando à descoberta do que já é em sua essência: alegria, paz, amor e felicidade.
Sri Sri Ravi Shankar é um yogue e seus ensinamentos têm como fim a descoberta do Si mesmo espiritual e a unificação com o divino. Sua mensagem, ancorada na tradição védica hindu, é plena de originalidade e vitalidade, inspirando milhões de pessoas a empreenderem um caminho de autoconhecimento, até o século passado desconhecido no ocidente. Para o mestre Ravi Shankar o re-nascimento a ser alcançado em vida, é fruto da autosuperação dos elementos que nos limitam, dos condicionamentos que nos imobilizam, da ignorância que nos enreda nas pequenas ações e nos desejos que só trazem sofrimento. A felicidade é a consequência palpável no cotidiano e vivenciado em profundidade no nosso íntimo e na vida.
Do estado de felicidade, Sat-Cit-Ananda, deriva o contentamento e a alegria que brota no Ser e irradia-se na totalidade da pessoa. Daí Sri Sri Ravi Shakar ser conhecido como o Guru da Alegria, aquele que encarna a alegria no próprio Ser, na sua personalidade, na sua vida, em torno de si. Muitas vezes o ouvi dizer: quero levar um sorriso a todas as pessoas; que sorrir seja a sua vida, a sua forma de ser no mundo. A pessoa adulta ri menos que um jovem, e um jovem ri menos que uma criança. Sorriso, contentamento e alegria é o estado natural de uma criança, até que a vida nos transforme. Retornar ao espírito de criança é viver a alegria agora, hoje. A felicidade é estar no momento presente. A felicidade é um estado da consciência. Este é o conhecimento central da Arte de Viver e do Guru da Alegria.