Cantar ajuda a trazer serenidade. Cantar é simplesmente imergir-se no som, flutuar nas suas ondas com um senso de contentamento e meditação.
Sri Sri Ravi Shankar. Todas as noites, às dezenove horas, havia a realização do satsang. O local preferido era o anfiteatro, mas também foi realizado no Vishalakahi Mantap, o templo principal do ashram. Tivemos a presença de Sri Sri Ravi Shankar apenas em dois deles, os quais foram muito especiais. A programação era semelhante ao primeiro satsang: canto,
meditação, perguntas ao Mestre e finalização com canto. A emoção estava sempre presente, era um momento de celebração, alegria e comunhão entre os presentes. Mas cada dia era diferente nas sensações e sentimentos vividos.
Um satsang foi muito especial. Haviam anunciado que naquele dia Sri Sri Ravi Shankar estaria presente. A agitação era maior, todos queriam estar bem próximos do palco e estávamos cada vez mais apertados. Inicialmente tivemos o canto, e especialmente naquele dia havia um senhor indiano que exibia a sua habilidade para o desenho, uma técnica muito curiosa. Enquanto cantávamos os bhajans ele desenhava figuras ou imagens relacionadas, apenas com um cordão embebido em tinta. Com uma precisão e rapidez impressionantes, daquele insólito instrumento, nasciam belas imagens de divindades do hinduísmo.
Outra obra produzida naquela noite foi uma pintura de Sri Sri Ravi Shankar abraçando a terra. Uma figura amorosa e doce em atitude de cuidar da humanidade que emocionou a todos os presentes. Enquanto se cantava um bhajan em homenagem ao Guru – Guru Om – os traços iam ganhando forma e delineando uma imagem de delicadeza e força (Fotografia 10).
Fotografia 9 – Desenho de Saraswati, realizado durante um satsang, utilizando um cordão como instrumento (fevereiro, 2006).
Fotografia 10 – Desenho de Sri Sri Ravi Shankar abraçando a terra, realizado durante um satsang, utilizando um cordão como instrumento (fevereiro, 2006).
Mas naquele dia Sri Sri Ravi Shankar não veio para o satsang, para minha frustração. Raramente o víamos no ashram durante o dia, pois ele estava sempre ocupado com reuniões, recebimentos, entrevistas etc. Algumas vezes o avistei em meio a uma pequena multidão que o acompanhava, tornando quase impossível qualquer aproximação. Eu começava a perguntar-me: quem é Sri Sri Ravi Shankar? Vários aspectos da sua imagem me intrigavam. Não havia uma correspondência com a idéia que eu tinha de um Mestre espiritual. O seu dia-a-dia era a de um homem de negócios. A Arte de Viver enquanto organização não- governamental parecia ter a dimensão de uma grande empresa. Na minha mente se insinuava alguns questionamentos, uma crítica negativa que era alimentada por uma das integrantes do grupo brasileiro. Comentava-se que Sri Sri Ravi Shankar era apenas uma marionete na mão dos americanos, os quais eram os verdadeiros donos da Arte de Viver, cujo principal objetivo era o lucro. A dúvida instalava-se na minha mente e no meu coração. Tal dúvida me acompanhou por alguns dias, trazendo inquietação e medo, afinal entrava em questionamento um percurso formativo iniciado, esperanças depositadas em um caminho espiritual, e principalmente a figura central de um conhecimento considerado muito antigo, mas pleno de verdades. A dúvida é um questionamento a nível cognitivo, mas que envolve a afetividade, as emoções, sentimentos, e é própria de processos formativos, assim como outras emoções (CONTINI, 1998). Durante o curso Parte 1, nos é dito que a partir de então três dúvidas surgirão: primeiro, dúvidas sobre nós mesmos, se somos capazes de realizar a prática com
correção, constância, disciplina; em seguida, duvidamos da técnica, questionando se é uma técnica eficiente, que funciona realmente; e, por último, duvidamos do instrutor e do Mestre. A dúvida sobre o Mestre se mostrou então com grande intensidade. O que fazer? A minha decisão, naquele momento, foi observar, vivenciar, experienciar e deixar que o tempo me trouxesse a resposta. Assim, mantive a mente tranquila para viver o momento presente.
Terminado o satsang, quando todos já começavam a deixar a área do anfiteatro vimos um movimento incomum. Preparavam o centro do anfiteatro colocando duas cadeiras lado a lado, luzes e câmeras de filmagem. Soubemos, então, que Sri Sri Ravi Shankar estava chegando para uma entrevista para um importante canal televisivo internacional, a CNN. Aos brasileiros foi reservada uma área no palco, muito próximo de onde se daria a entrevista. Apressadamente me posicionei em um lugar em que pudesse observar o Mestre de frente. Sentada no chão, como os demais, eu preparava a máquina fotográfica para as fotos e tentava bolar uma estratégia para chegar mais perto e falar com ele.
A sua chegada foi rápida e barulhenta. As pessoas ao seu redor gritavam “Guruji, Guruji”, outros o saudavam com as mãos unidas na altura da cabeça ou peito falando “Jai Guru Dev”. A sua resposta era um olhar doce e amoroso e um sorriso franco. Novamente à sua presença senti uma grande emoção, incompreensível á minha mente racional, e uma felicidade para o meu ser mais sensível. Durante aquela hora que estive ali na sua presença, mesmo distante, a minha mente estava totalmente concentrada na sua figura, em um enlevo delicioso que aquietava e vibrava todo o meu corpo, deixando uma sensação de alegria e vitalidade. Naquele estado de ânimo eu seria capaz de realizar qualquer atividade, tanta era a energia que eu sentia. Existe alguma explicação para tal reação? Não sei, mas foi muito real e duradouro. Foi esta energia que me impulsionou a aproximar-me do Mestre no momento da sua saída, rapidamente e com decisão caminhei até ele e num impulso fiz uma prostração, saudação que se faz aos Mestres na Índia, abaixando-se e levando a cabeça até o solo. Senti então suas mãos nos meus braços ajudando-me a levantar-me. O seu toque foi como uma descarga elétrica. Ao redor os brasileiros cantavam “como é grande o meu amor por você”. Fiquei sem voz e sem ação, toda a energia que havia sentido até então se transformou em riso e lágrimas de alegria. Comecei a pular de alegria como uma criança, a dançar, sentia-me uma borboleta que voava leve e livre. Foi uma emoção linda que me transformou, sentia-me feliz e plena de amor como jamais havia sentido. Aquele momento foi o início de uma relação mais profunda e sincera com Sri Sri Ravi Shankar. Simbolizou a minha disponibilidade e necessidade de colocar-me na posição de discípula (anthavasi), como tradicionalmente na Índia é chamada a pessoa que segue os ensinamentos de um Mestre espiritual. Anthavasi, em
sânscrito, significa aquele que habita dentro do Mestre. Não significa somente o Mestre no coração do discípulo, mas também o discípulo no coração do Mestre. Da entrevista eu não entendi muita coisa, pois foi realizada na língua inglesa, somente alguns meses mais tarde pude assisti-la na CNN e na internet, com tradução em português. Basicamente o jornalista perguntava sobre a função da respiração para a vida e sobre as atividades da Arte de Viver no mundo.
Estas experiências me marcaram muito e também deixaram muitas questões às quais me dediquei a estudar nos meses que se seguiram. O meu lado racional queria explicações, justificativas e a busca de respostas foram e estão sendo ainda um processo de aprendizagem da cultura hindu e de alguns textos importantes dos Vedas. Uma das primeiras questões foi: o que é um Satsang? Qual o significado das músicas que são entoadas? Por que e para que se faz um satsang?
A palavra Satsang em híndi, deriva do sânscrito Sat, a qual tem vários significados: Ser o que é, o bem, a verdade, o Divino; e sanga, que significa companhia, associação. Na filosofia hindu assume, então, os significados de estar “na companhia da Verdade”, “na companhia do guru”, e “na companhia de pessoas que buscam a Verdade”. A verdade em questão está ligada à nossa verdadeira natureza, quem somos nós, e a realidade em que se vive. É um encontro que visa criar um ambiente para a meditação e outras práticas espirituais. Tipicamente um satsang envolve o canto de Bhajans, o discurso do Mestre, perguntas e respostas ao Mestre, e a prática de meditação.Um Satsang pode ser realizado quando um grupo de pessoas se reúne em nome de um Mestre, nesse caso são feitas leituras de escrituras ou textos escritos pelo Mestre.
Em um significado mais profundo satsang significa “associação com o Divino”, a qual seria a única verdadeira realidade em um mundo de aparências ou ilusório (maya, asat). Segundo esta visão, seria um momento para sairmos da associação com o mundo material em que vivemos. Seria então um encontro para experienciarmos a associação com o Divino, com a nossa verdadeira natureza e elevar a nossa consciência.
Ariera (s/d) esclarece que Satsanga é a associação com pessoas que desejam o Sat, o Real, o Ilimitado, conduz a nissanga, a ausência da necessidade de estar sempre em companhia de pessoas, apegado a objetos. A ausência dessa necessidade nasce da análise, do questionamento, que é viveka (discriminação entre o que é eterno e não eterno ou efêmero), que tem como consequência vairagya, o desapego natural e gradual. Isto é, a ausência da ilusão e a presença da mente clara para analisar a si mesmo e apreciar o seu verdadeiro Ser, a Consciência Sem Limites.
Segundo Sri Sri Ravi Shankar o tempo que dedicamos ao Satsang é um tempo dedicado ao Divino, ao qual se deve dar a maior prioridade, assim como à meditação. Assim como as pessoas precisam de abrigo para o conforto físico, para proteger-se das mudanças da natureza, do mesmo modo, precisam de conforto mental e espiritual. Satsang é este abrigo. “Aquele que não faz satsang é como um animal selvagem. Satsang sozinho faz você civilizado. Satsang é o abrigo para as mudanças do tempo e suas severas influências na vida. Satsang é o ninho no qual você pode encontrar repouso. Se você é um “tomador” de felicidade, você recebe miséria. Se você é um doador de felicidade, você recebe alegria e amor” (SRI SRI RAVI SHANKAR, 2005).
Através do satsang nós vislumbramos o infinito, a completude do momento presente, nós transcendemos as dimensões da mente, do tempo e do espaço. Cada satsang da Arte de Viver é uma celebração cantando, dançando e compartilhando o conhecimento de Guruji. Cantando juntos às diversas mentes no grupo tornam-se unidas. Satsang combina música e conhecimento. Os lados racional e criativo do cérebro são equilibrados. A mente que vagueia volta ao momento presente e experimenta uma dimensão profunda da vida (SHIVRATRI, 2006, p. 78)
Em um satsang são cantados bhajans. São músicas, canções de melodias simples, entoadas normalmente com flautas e instrumentos de percussão, e o canto, normalmente coral, que exprimem a adoração devocional de grupos de fiéis (PIANO, 1996). A este respeito, Sri Sri Ravi Shankar diz que:
Seu corpo inteiro é feito de átomos. Estar com a verdade acende a energia em você e eleva a sua consciência. Quando você canta os bhajans, a energia sonora fica absorvida em cada átomo do seu corpo. Exatamente como um microfone absorve o som e o converte em eletricidade, o corpo absorve som e o converte em consciência. Quando você se senta para os bhajans, seu corpo inteiro fica encharcado de energia e a transformação acontece. Se você está sentado e ouvindo fofocas ou música violenta, então é isso que é absorvido pelo seu corpo. Mas quando você escuta o conhecimento, ou canta com todo o seu coração, sua consciência é elevada (SRI SRI RAVI SHANKAR, 2005, p. 144).
Bhajan significa compartilhar, compartilhar a partir do nível mais profundo da existência, é um compartilhar autêntico. Segundo o Mestre Ravi Shankar (1999), quando se canta com outras pessoas, nós entramos num nível de comunicação mais sensível, no nível do coração. Quando se canta bhajans o ego é “quebrado”, o espírito dissolve o ego. Esta foi a minha experiência. Em um satsang sentimos a unidade entre todos; as diferenças, os medos, a raiva, tudo se dissolve. Permanece o amor, a alegria e a paz interior. Cantar bhajans é uma das
práticas do Bhakti Yoga, uma das formas autênticas do Yoga. É um caminho para a realização do objetivo final do Yoga, a liberação. No Bhakti Yoga é a força emocional do ser humano que é purificada e canalizada para Deus. O termo bhakti derivado da raiz bhaj (compartilhar ou participar de) é geralmente traduzido por devoção ou amor. O Bhakti é, portanto, o Yoga da dedicação amorosa à Pessoa divina e da participação no amor dessa Pessoa (FEUERSTEIN, 2003). É esse apego amoroso (asakti) que os bhakti-yogins empregam conscientemente na sua busca de comunhão ou união com a Divindade. Segundo esta escola do Yoga, toda a confusão e a infelicidade que vigoram no mundo são decorrentes do fato de estarmos separados de Deus. Retornar à divindade e fundir-se com o Divino seria, então, a via mais fácil dentre às escolas de Yoga. A devoção amorosa ao Senhor dá seus frutos sem demora quando é constante, inabalável e desinteressada.
A prática de meditação durante um satsang é uma forma de yoga chamada Laya Yoga. A música leva a mente a um estado meditativo permitindo que você se dissolva. A repetição de palavras está presente em várias culturas e tradições, e tem o poder de transformar o estado da mente de um estado de aborrecimento, tristeza, preocupação, para o estado oposto de amor (SRI SRI RAVI SHANKAR, 2005). O Laya Yoga objetiva a “dissolução” (laya) ou da ocupação total da mente na meditação. A palavra laya deriva da raiz verbal li, que significa “dissolver-se” ou “sumir”, mas também “aderir” e “permanecer preso”. Os laya-yogins buscam dissolver-se na meditação mediante a adesão única e exclusiva do Divino (FEUERSTEIN, 2003).
Laya Yoga é aquela forma de yoga na qual o yoga mesmo, que é o samadhi, é atingido por meio de laya. Laya é a concentração profunda que provoca, etapa por etapa, a absorção dos princípios cósmicos pelo aspecto espiritual do supremo Poder- Consciência. É o processo de absorção dos princípios cósmicos na concentração profunda, libertando desse modo a consciência de tudo o que não é espiritual, das coisas que contêm o divino poder luminoso e espiralado, chamado kundalinî. (GOSWAMI apud FEUERSTEIN, 2003, p. 94).
Este processo de absorção é comum a todas as formas meditativas de Yoga e diz respeito a um crescente distanciamento do mundo exterior e uma unificação cada vez maior do mundo interior, no entanto o Laya Yoga dá uma atenção específica ao aspecto psicoenergético desse processo.
A palavra do Mestre durante um satsang seja falada por ele pessoalmente ou lida, ou através de apresentação de vídeos tem o objetivo de trazer o conhecimento antigo dos Vedas para o cotidiano dos discípulos. É uma prática de yoga através do conhecimento, que
constitui uma das formas de Yoga, Jnãna Yoga. A palavra jnãna significa “conhecimento”, “intuição” ou “sabedoria” e significa especificamente no contexto do yoga, um tipo especial de conhecimento ou intuição libertadora. Nas palavras de Eliade (1996, p. 26),
Na Índia, só é apreciado e buscado o conhecimento metafísico (vidya, jnãna, prajna), isto é, o conhecimento das realidades últimas, pois só ele busca a liberação. É, com efeito, pelo “conhecimento” que libertando-se das ilusões do mundo dos fenômenos que o homem “acorda”. “Pelo conhecimento” significa pela prática do recolhimento, cujo resultado é fazê-lo reencontrar seu próprio centro, fazê-lo coincidir com “seu espírito verdadeiro” (purusa, tman)”.
Jn na Yoga é o caminho da tradição vedântica, também chamado de “caminho da sabedoria”, o qual tem como princípios orientadores a força de vontade (icchá) e a razão inspirada (buddhi) (FEUERSTEIN, 2003).
Com esses estudos descobri o quanto é complexa a prática do satsang. O que, aparentemente, visto com um olhar simplista, é apenas uma festa, esconde na diversidade de seus momentos e prática o mundo do yoga em três de suas formas mais importantes: Jn na Yoga, Laya Yoga, e Bhakti Yoga. Fez-me compreender a complementaridade possível entre estas práticas, reconhecendo e, ao mesmo tempo, superando a visão ocidental de que as diversas formas do Yoga são caminhos diversos e às vezes até inconciliáveis, o que abre um grande debate entre as praticantes dessas diversas escolas.