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Os conceitos de meio ambiente e paisagem têm uma grande convergência e o pensamento da Profa. Miranda Magnoli esclarece essa idéia:

Entendo o meio ambiente humano como o resultado das interações das sociedades humanas com o suporte, a base física e biológica que as envolve, contribuindo este suporte, esta base, de diferentes maneiras para sua subsistência biológica e espiritual. Este suporte, base física e biológica, já tem uma história de interações: desde o aparecimento do homem é objeto da ação do homem, alterando essa base. Daí, poderá se sintetizar a concepção de ambiente como a interação da sociedade com o suporte físico, quer tenha aparência comumente denominada „natural‟ ou construída. A interação se dá no espaço geográfico pelas adaptações, transformações, readaptações e novas transformações das sucessivas formas encontradas, elaboradas e reelaboradas. A essas conFORMAções, conFIGURAções, carregadas da interação social com o suporte temos denominado paisagens (MAGNOLI, 1994, p.60).

A definição oferecida por Magnoli apresenta paisagem e ambiente como conceitos que se imbricam, quase sinônimos. A distingui-los, parece haver uma diferença: enquanto o ambiente é o território da própria realização das interações das sociedades com o meio ecológico, que a autora chama de suporte, a paisagem seria essa relação revelada nas suas formas, a sua aparência mais o próprio acontecer das relações. Entende-se, assim, que para a autora paisagem é o ambiente tornado visível, apreensível.

No pensamento de Magnoli, meio ambiente não é ecologia: “ecologia e meio ambiente humano não se confundem, não são sinônimos. [...] A mediação entre um subsistema e o sistema global (o todo e a parte) não se pode explicar somente com os conceitos, métodos e instrumentos da biologia. Essa mediação é social” (MAGNOLI, 1994, p.63). O entendimento de paisagem de Magnoli “é o da construção efetuada diariamente pelo conjunto da sociedade” (LEITE, 2006b, p.71)

Ao contrário de Magnoli, a maioria dos geógrafos, inclusive os da chamada Geografia Crítica, como é o caso de Milton Santos, vê a paisagem como “o conjunto de formas que, num dado momento, exprimem as heranças que representam as sucessivas relações localizadas entre homens e natureza. O espaço são essas formas, mais a vida que as anima” (SANTOS,1996, p. 26).

Em realidade, a paisagem compreende dois elementos: 1. Os objetos naturais, que não são obra do homem nem jamais foram tocados por ele. 2. Os objetos sociais, testemunhas do trabalho humano no passado, como no presente. A paisagem nada tem de fixo, de imóvel. Cada vez que a sociedade passa por um processo de mudança, a economia, as relações sociais e políticas também mudam, em ritmos e intensidades variados. A mesma coisa acontece em relação ao espaço e à paisagem que se transforma para se adaptar às novas necessidades da sociedade” (SANTOS, 2009, p.53 e 54)

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No conceito de Santos a paisagem é um “trabalho morto” (SANTOS, 1996), representada apenas pelo sistema de objetos. O sistema de ações mais o sistema de objetos, que para Magnoli compõem a paisagem, na teoria santosiana é o próprio espaço.

Queiroga (2006, p.59), a respeito da definição da geografia, que vê a paisagem simplesmente como uma porção do espaço geográfico alcançado pela visão, argumenta que essa visão “pouco auxilia na compreensão dos processos que engendram a paisagem; descrever paisagens é insuficiente para compreendê-las [...] Compreender a paisagem é reconhecer a dialética social que se processa entre todas as instâncias sociais [...]”.

Sílvio Macedo vê a paisagem como um produto e, ao mesmo tempo, um sistema. “Como produto porque resulta de um processo social de ocupação e gestão de determinado território. Como um sistema, na medida em que, a partir de qualquer ação sobre ela impressa, com certeza haverá uma reação correspondente, que equivale ao surgimento de uma alteração morfológica parcial ou total (MACEDO, 1999, p.11). Para o autor, a paisagem pode ser lida na “expressão morfológica das diferentes formas de ocupação e, portanto, de transformação do ambiente em um determinado tempo” (MACEDO, 1999, p.11).

Para Maria Ângela F. P. Leite “as paisagens não são produtos, mas sim processos de conferir ao espaço significados ideológicos ou finalidades sociais com base nos padrões econômicos, culturais e políticos vigentes” (LEITE, 2006a, p.80).

A diversidade de pensamentos sobre a paisagem impõe que se tenha neste trabalho um conceito próprio. Este conceito deverá responder às seguintes questões: Quais são os atributos da paisagem? Como ela se forma? Como a paisagem se transforma? O que os pesquisadores e projetistas devem considerar quando tiverem na paisagem seus objetos de pesquisa ou trabalho?

Em busca dessas respostas decidiu-se buscar nos pensamentos de alguns estudiosos e projetistas envolvidos com a questão da paisagem, no Brasil, conceitos considerados relevantes, para, em seguida, discuti-los individualmente. Essa técnica levou, ao seu final, à formulação do conceito de paisagem adotado neste trabalho.

Conceitos e comentários:

i. As paisagens como possibilidades.

A paisagem é objeto de interesse de vários campos do conhecimento – filosofia, literatura, pintura, geografia – e isto prova que nela coexistem as dimensões científicas, psicológicas, estéticas, enfim, a objetividade e a subjetividade. A importância da paisagem para o arquiteto vem da própria multiplicidade de sentidos deste conceito e da imensa gama de possibilidades que oferece à reflexão e à ação sobre o espaço (BARTALINI, 2008, p.1). Na literatura observa-se o emprego do termo paisagem de diferentes maneiras: geógrafos, arquitetos, biólogos, dentre outros profissionais, costumam buscar as definições mais adequadas às especificidades dos seus fazeres. Contudo, mais do que encontrar uma

definição que atenda aos seus interesses, pesquisadores e aqueles que intervêm nas paisagens devem estar abertos e preparados para receberem as inúmeras possibilidades de compreensão dos fenômenos oferecidas pelas leituras das paisagens.

ii. As ações e os objetos compõem as paisagens.

As ações são, também, parte constituinte da paisagem, a dinâmica da paisagem não apenas se transforma ao modificar-se o sistema de objetos, mas ao realizar-se o sistema de ações, a cada momento, isto é, aliás, parte mesmo da visibilidade que caracteriza intrinsecamente a paisagem (QUEIROGA, 2006, p. 62)

De fato a paisagem não pode ser tomada apenas como materialidade, até porque a própria materialidade da paisagem é fruto da operação da cultura sobre os meios ecológico e técnico. Se a cultura, como manifestação humana, é a produtora e modificadora dos meios e objetos, ela faz parte deles e se manifesta neles: pelas técnicas, pelos materiais, pelos usos desses objetos. Além disto, no caso particular da arquitetura e do urbanismo, que contribuem para criar a base material da vida humana, os objetos não fazem sentido sem a sua fruição, a vida. O arquiteto não pode enxergar os objetos sem aquilo que lhe dá sentido: as ações humanas. Para o arquiteto, a obra deve ser sempre objeto e ação.

No caso particular do fenômeno turístico a paisagem não pode ser entendida apenas como materialidade. Os territórios turísticos são sempre compostos de objetos e ações, do patrimônio material e imaterial, apropriados ou inventados, mas sempre vividos, mesmo que só pelos turistas, como nos territórios sem lugar.

iii. É nas paisagens do cotidiano e por meio delas que se pode avançar na construção da autonomia dos lugares

São as paisagens o cotidiano de vida do cidadão. São esses os lugares que ele se apercebe, em que se identifica, em que ele exerce sua socialização [e é também nas paisagens do cotidiano] e por intermédio delas que se poderá facilitar o avanço da autonomia dos grupos sociais na decisão e controle dos processos de desenvolvimento” (MAGNOLI, 1994, p.64)

A definição de Magnoli apresenta o cotidiano imbricadamente ligado à idéia de lugar, de cidadania, de vivência diária e contínua dos territórios. As suas paisagens do cotidiano são como a esfera da vida pública proposta por Arendt (1991), a vita activa, onde acontecem a produção cultural, a construção da cidadania e se desenvolve parte da própria história das civilizações.

De fato, por meio das paisagens do cotidiano e nelas, se poderá facilitar o avanço na autonomia dos grupos sociais. Isto ocorrerá se os grupos locais, empoderados, passarem a perceber o domínio das verticalidades nessas paisagens cotidianas e, a partir daí, iniciarem os processos de mudança que lhes permitirá assumir o controle decisório do acontecer naqueles lugares, fazendo prevalecer as horizontalidades.

iv. Conflitos sempre existem nas paisagens e a sua identificação é um dos modos possíveis de compreensão da realidade:

Uma paisagem é formada pela combinação entre elementos novos e velhos, externos e internos. Essa combinação altamente dinâmica, que se dá em cada lugar segundo uma determinada lógica particular de organização pressupõe um confronto e, muitas vezes, um conflito entre externo e interno, novo e velho. A aceitação desse confronto ou conflito é condição de procura da exatidão (LEITE, 2006b, p.7).

Se a paisagem está em constante mudança, nela sempre existirão conflitos. E esta manifestação cotidiana dos conflitos constitui uma importante chave de leitura das paisagens. Vainer (2005 apud ÁLVARES et al., 2010, p.7), a respeito da manifestação dos conflitos nas cidades, ensina que “a diversidade e multiplicidade da cidade aparecem, quase em estado virgem, nos conflitos, eles mesmos dispersos, múltiplos e diversos” e que “atores, objetos e objetivos de conflitos, temporalidades, formas, geografias, retóricas e simbologias oferecem um quadro complexo e diferenciado da cidade”

No caso da construção das paisagens turísticas, além dos conflitos que decorrem das mudanças dos processos naturais e sociais, aparecem muito intensos os conflitos resultantes do combate entre forças dos projetos turísticos e as locais. Identificar esses conflitos é tarefa obrigatória para quem lida com o fenômeno da construção das paisagens turísticas.

A paisagem nada tem de fixo, de imóvel. Cada vez que a sociedade passa por um processo de mudança, a economia, as relações sociais e política também mudam, em ritmos e intensidades variados. A mesma coisa acontece em relação ao espaço e à paisagem que se transforma para se adaptar às novas necessidades da sociedade. As alterações por que passa a paisagem são apenas parciais. De um lado alguns dos seus elementos não mudam – ao menos em aparência – enquanto a sociedade evolui. São as testemunhas do passado. De outro lado, muitas mudanças sociais não provocam necessária ou automaticamente modificações na paisagem (SANTOS, 2009, p. 54)

Discorda-se de Santos. Entende-se que paisagem sempre muda e está diferente a cada novo tempo. Mesmo o sistema de objetos das paisagens se modifica constantemente: o meio ecológico experimenta mudanças decorrentes dos próprios processos naturais, as infraestruturas se depreciam, sofrem mudanças pelo uso, pela ação das intempéries, microorganismos, dentre outros fatores de transformação.

vi. Na contemporaneidade, a paisagem se apresenta de uma nova maneira:

Neste final de século, já existe uma nova maneira de integração entre os planos de definição da paisagem: o plano horizontal, o das formas de organização e atuação dos grupos sociais no cotidiano, filtra e redefine, cada vez mais, as diretrizes de organização do plano vertical, o da hierarquia econômica, política e administrativa (LEITE, 2006b, p.7).

Como se discutiu no capítulo 1, na atualidade, em todos os territórios, exceto nos territórios turísticos sem lugar, sempre coexistirão grupos de forças em combate. Em alguns, como na maioria dos territórios turísticos, irão prevalecer as forças verticais, a razão global, e em outros, as horizontalidades, a razão local. Quanto mais os grupos sociais locais se empoderam, menos verticalizados irão ficar os lugares. A investigação da integração desses planos de definição da paisagem deve ser tarefa obrigatória de todo pesquisador da paisagem, em tempos contemporâneos.

vii. As paisagens são estruturas limitadas e sua interpretação é individual e própria de cada observador:

As paisagens são, então, estruturas finitas, pois são lidas e interpretadas dentro de uma escala de um dado observador que não pode, devido a limitações físicas, abranger o ambiente terrestre como um todo, dentro do

seu campo visual ou de análise. Portanto, para o ser humano, cada paisagem sempre sucederá a uma outra e assim por diante (MACEDO, 1999, p.11) Entende-se que a paisagem tem um limite, mas este limite não é mais, na atualidade, imposto por limitações do campo visual do observador, como descreve Macedo. O avanço das tecnologias da informação e espacial, principalmente a partir da década de 1970, tem permitido leituras do meio ecológico e das infraestruturas com definições cada vez mais claras, se desejado, de países inteiros. O campo visual a que se refere Macedo não está mais limitado ao alcance do olhar do observador.

No entanto, sendo a paisagem entendida neste trabalho como o conjunto dos sistemas de objetos e ações, sua leitura continua limitada, mas à capacidade de percepção (os sentidos e a intuição) do observador, principalmente quando se trata de ler o sistema de ações. Essa capacidade de perceber os sistemas de ações a tecnologia ainda não foi capaz de ampliar.

Assim, entende-se que a paisagem tem, de fato, uma circunscrição, uma fronteira, cuja percepção é individual e depende de cada observador.