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Souza Júnior (2008, p. 146) sintetiza o quadro sócio-espacial atual da cidade e afirma que João Pessoa é:

[...] uma cidade com uma organização espacial bem diferenciada daquelas encontradas nas demais uma vez que tem conseguido desenvolver sua fisionomia urbana sem abandonar elementos do seu sítio inicial o que possibilita a existência de uma paisagem que se apresenta como um verdadeiro relicário urbano-ambiental onde teve estabelecido seu sitio. Já no segundo caso, apresenta-se como uma cidade “descoberta” por atores sociais que tradicionalmente têm ficado de fora dos debates sobre os parâmetros do ordenamento urbano. Assim, existe uma cidade feita para se reproduzida e apropriada pela e para a classe média e outra para ser produzida e apropriada pela sociedade em geral. Uma cidade que segrega, exclui e diversifica; e outra que resiste e se impõe. Tais aspectos tornam desafiador o interesse pela compreensão da formação socioespacial da cidade de João Pessoa assim como as estratégias e táticas desempenhadas pelos atores sociais no processo de produção da cidade.

O resultado de um processo de ocupação do solo urbano seletivo como o demonstrado nos parágrafos precedentes aliado à uma política urbana insipiente, do ponto de vista do direito à cidade, não foi muito diferente do observado em outras cidades do país e tem como tendência principal a reprodução das mais diversas formas de segregação sócio-espacial.

Assim como em outras localidades do Brasil, em João Pessoa o tecido urbano apresenta-se segmentado a partir dos desiguais níveis de renda. Em áreas “nobres” da cidade, a valorização do solo urbano promoveu a formação de bairros relativamente bem servidos com relação aos equipamentos urbanos que contrastam com ocupações irregulares marcadas pela precariedade das habitações e pela situação de insalubridade ambiental.

A ideia de segurança é utilizada constantemente pelo capital imobiliário local como elemento de valorização de determinados produtos imobiliários, a exemplo dos “condomínios fechados” (verticais e horizontais) de acesso controlado, dotados de equipamentos destinados ao lazer como praças, clubes, academias, quadras poliesportivas. Na visão de Caldeira (2003), esses “enclaves fortificados” são o reflexo mais evidente da autossegregação.

Para Lefebvre (1999), o fenômeno da segregação pode ser ainda analisado a partir de três aspectos que ora apresentam-se simultâneos, ora sucessivamente: espontâneos, voluntários e programados.

O caráter programado (pode-se dizer, intencional) é caracterizado a partir das intervenções do Estado através de suas incursões infraestruturais ou da formulação das políticas públicas urbanas. Na realidade urbana de João Pessoa, essa prática é perceptível se analisarmos com atenção as políticas habitacionais desenvolvidas pelas sucessivas gestões em

todas as esferas administrativas (federal, estadual e municipal). Tais políticas lançaram as populações de baixa renda para as periferias da cidade a partir da construção de conjuntos habitacionais longínquos e sem a devida infraestrutura, conforme já demonstrado no presente subtópico. Porém, esse processo de expulsão dos pobres para as periferias não ocorreu sem resistências25.

Dessa forma, podemos entender o processo de ocupação informal de determinadas áreas urbanas (geralmente as que são desprezadas pelo capital imobiliário) como produto da relação dialética entre a imposição (determinada pelo processo intencional de periferização dos pobres) e a negação dessa imposição (caracterizada pela estratégia de ocupação do solo para fins de moradia a revelia dos marcos legais estabelecidos, fato que permite uma relativa proximidade física entre os pobres e os ricos).

Contudo, as fissuras sócio-espaciais decorrentes de um processo tão excludente como o exposto são evidentes. A violência urbana, em suas mais diversas modalidades, tem ampliado os níveis de tensão social na cidade e os conflitos sócio-espaciais manifestam-se das mais variadas formas. Nesse sentido, consideramos emblemático o episódio ocorrido no bairro de Manaíra (um dos bairros de mais alto padrão da cidade) em 21 de março de 2010. Uma confraternização entre amigos terminou em tragédia quando a casa que sediava a festa foi invadida por assaltantes residentes na comunidade São José - que está situada nas proximidades do Shopping Manaíra e da Comunidade São Luis. Conforme destacou a reportagem de um site de notícias da cidade:

[...] uma tentativa de assalto em Manaíra acabou muito mal. Dessa vez para os bandidos. Três homens tentaram fazer um “arrastão” em uma festa que estava acontecendo no Bairro de Manaíra. Por volta das 4h deste domingo eles invadiram o local e um dos assaltantes fingia estar armado. Durante o roubo, um dos convidados percebeu a farsa e avisou aos demais que seguraram os assaltantes. Um deles conseguiu fugir levando alguns pertences, mas ou outros dois foram agredidos pelos convidados. Um dos agredidos, um adolescente, Alex Paulino, de 15 anos, foi espancado até a morte. O outro, Rafael Carvalho dos Santos, de 19 anos, foi levado pelo Samu. Os vizinhos da residência invadida se dizem incomodados com a quantidade de assaltos realizados no local. A avó do adolescente morto esteve no local do crime para reconhecer o corpo e acabou passando mal e sendo levada também ao Hospital de Trauma. No dia seguinte alguns moradores do bairro São José juraram vingança, fato que fez com que a casa fosse abandonada rapidamente pelos seus proprietários26.

25 Foucault (1984, p. 226) entende que a resistência “não constitui uma substância, pois ela não é anterior ao

poder que [...] enfrenta. Ela é coextensiva a ele e absolutamente contemporânea [...] Para resistir, é preciso que a resistência seja como o poder... Tão inventiva, tão móvel, tão produtiva quanto ele”.

26 Disponível em:<http://www.wscom.com.br/noticia/policial/assaltantes+invadem+festa+em+jp-84606>. Acesso

As evidências de tendência à sociedade urbana fragmentada do ponto de vista sociopolítico-espacial são claras. A repercussão do caso foi relativamente grande na cidade. Os discursos sobre o episódio, oriundos da mídia e de boa parte da população, apoiavam-se na tese da “legítima defesa” e na comemoração da morte dos “bandidos”. No dia seguinte ao ocorrido, a polícia implantou sobre a comunidade São José uma operação que foi denominada de “asfixia”, na qual as saídas e entradas principais da comunidade passaram a ser vigiadas, as pessoas revistadas e submetidas a constrangimentos. Vejamos o depoimento de um líder comunitário da referida comunidade sobre o caso:

Eu me lembro bem daquele dia. Tá certo que na nossa comunidade tem muito vagabundo e eu não apoio o que eles fizeram na casa lá. Mas a polícia pensa que todo mundo lá é bandido. Eu mesmo fui revistado 4 vezes no dia depois do assalto [...] A polícia ficou lá uma semana e depois foi embora. É sempre assim! Agora ninguém vê um prefeito ou alguém do governo dizendo que vai trazer educação para as crianças. Se tivesse educação e coisas para esse povo fazer, você acha que alguém tinha precisão de assaltar? Claro que não!27

A partir dos anos 1960, João Pessoa embarcou em um processo de rápida expansão de seu tecido urbano. Dessa época em diante, as repercussões sócio-espaciais negativas desse processo tem sido notadas no cotidiano da cidade. Isso fez com que a capital paraibana perdesse, ao longo do tempo, as características que lhe conferiam o rótulo de cidade pacata e com boa qualidade de vida.

Atualmente, a cidade ultrapassou a casa dos setecentos mil habitantes (IBGE, 2010), sendo que boa parte deles sobrevivem em meio às péssimas condições de habitabilidade. O que se tem percebido na cidade é a ampliação de problemáticas sócio-espaciais urbanas, sobretudo nas áreas habitadas pelos mais pobres. As iniciativas governamentais para a reversão do quadro esbarram na já mencionada dificuldade de se garantir a função social da cidade e da propriedade urbana, preconizadas pela Constituição federal e pelo Estatuto da Cidade. A problemática sócio-espacial da habitação precária têm se ampliado na cidade, conforme demonstram o mapa 6 e os dados da tabela 3 a seguir:

27 Fala de morador entrevistado em uma reunião do orçamento democrático. O entrevistado é líder comunitário

no São José e representante da referida comunidade nas reuniões do orçamento democrático. O caráter casual da fala colhida e transcrita acima se deve ao fato de que nossos objetivos estavam centrados na seguinte pergunta: como é morar no São José? A citação do episódio narrado foi motivada pela fala do entrevistado que, mesmo sem ser questionado diretamente sobre o tema, fez questão de mencioná-lo, fato que demonstra o impacto que o mesmo teve sobre o cotidiano da referida comunidade.

Mapa 6 - Distribuição espacial dos assentamentos precários (aglomerados subnormais) em João