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O termo Iluminismo designa, em geral, uma postura filosófica que submete os inúmeros campos da experiência humana ao império da razão. Concentramos nossa reflexão no período em que o Iluminismo atingiu o seu ponto de culminação, ou seja, na época intitulada século das luzes (ilustração ou esclarecimento), que foi responsável pela afirmação, na modernidade, do humanismo antropocêntrico nos âmbitos filosófico, científico, religioso, político, ético, econômico e jurídico.

A Ilustração (ou Esclarecimento)77 pode ser concebida como a ampliação da exaltação cartesiana da razão, regulada pelo esforço crítico para determinar os seus limites e poderes. Neste sentido, a crítica racional estende-se, além do domínio científico e metafísico, ao âmbito político, moral, econômico, religioso e jurídico da experiência humana, englobando a própria afirmação histórica da liberdade nos referidos domínios.

Por meio da Ilustração, a modernidade emancipou o homem do peso da tradição e da autoridade político-religiosa, possibilitando-lhe um tipo de autonomia crítico-racional que se expressa de várias maneiras, entre as quais, conforme assevera Rouanet, destacam-se a fé inabalável na ciência e em uma razão formal e universal, a crença no progresso e na autodeterminação do indivíduo, o que pode ser sintetizado na seguinte passagem:

77 Rouanet considera a ilustração como a realização histórica do Iluminismo. Assim, diz ele: “sugeri reservar o termo Ilustração exclusivamente para a corrente de ideias que floresceu no século XVIII. Por outro lado, propus o uso de Iluminismo para designar uma tendência intelectual, não limitada a qualquer época específica, que combate o mito e o poder a partir da razão. Nesse sentido, o Iluminismo é uma tendência trans-epocal, que cruza transversalmente a história e que se atualizou na Ilustração, mas não começou com ela, nem se extinguiu no século XVIII. A Ilustração aparece assim como uma importantíssima realização histórica do Iluminismo, certamente a mais prestigiosa, mas não a primeira, nem a última. Antes da Ilustração houve autores iluministas, com Luciano, Lucrécio eErasmo; depois dela, autores igualmente iluministas, como Marx, Freud e Adorno” (ROUANET, 1987, p. 28).

a ilustração foi, apesar de tudo, a proposta mais generosa de emancipação jamais oferecida ao gênero humano. Ela acenou ao homem com a possibilidade de construir racionalmente o seu destino, livre da tirania e da superstição. Propôs ideais de paz e de tolerância, que até hoje não se realizaram. Mostrou o caminho para que nos libertássemos do reino da necessidade, através do desenvolvimento das forças produtivas. Seu ideal de ciência era o de um saber posto a serviço do homem, e não o de um saber cego, seguindo uma lógica desvinculada de fins humanos. Sua moral era livre e visava uma liberdade concreta, valorizando como nenhum outro período a vida das paixões, e pregando uma ordem em que o cidadão não fosse oprimido pelo Estado, o fiel não fosse oprimido pela religião, e a mulher não fosse oprimida pelo homem. Sua doutrina dos direitos humanos era abstrata, mas por isso mesmo universal, transcendendo os limites do tempo e do espaço, susceptível de apropriações sempre novas, e, gerando continuamente novos objetivos políticos (ROUANET, 1987, p. 27).

O legado do Esclarecimento que alimentou a modernidade decorreu basicamente de duas correntes filosóficas que dominaram os séculos XVII e XVIII78: o racionalismo e o empirismo. Estes, apesar de suas divergências acerca das fontes do conhecimento (o que colocou em discussão a relação razão-sensibilidade), assumiram uma postura comum de exaltação da crítica e da razão, duas categorias que se apresentam como sustentáculos do Esclarecimento e da modernidade, o que foi sintetizado por Kant por meio do termo maioridade enquanto autonomia do sujeito guiado pelo seu próprio entendimento79.

Ao conceber a minoridade como responsabilidade exclusiva do sujeito que não usa o seu próprio entendimento como meio de emancipação, Kant universaliza a autonomia formal da razão e, simultaneamente, desconsidera como possíveis causas dessa minoridade fatores externos de ordem histórica, psicológica, ou seja, reforça e privilegia a razão e a crítica como elementos exclusivos que promovem a emancipação do sujeito.

78Rouanet assevera que “o iluminismo é crítico por ser racional e racional por ser crítico. Nas condições de desorganização e de caos sócio-político do ancien régime, era a própria razão que impelia à crítica, e esta crítica não podia deixar de ser racional, porque os instrumentos à sua disposição vinham do arsenal do racionalismo seiscentista (Descartes, Leibniz, Spinoza), do empirismo inglês (Locke e Hume) e da ciência natural (Newton)” (ROUANET, 1987, pp. 204-205).

79 “Esclarecimento (Aufklärung) significa a saída do homem de sua minoridade, pela qual ele próprio é responsável. A minoridade é a incapacidade de se servir de seu próprio entendimento sem a tutela de um outro. É a si próprio que se deve atribuir essa minoridade, uma vez que ela não resulta da falta de entendimento, mas da falta de resolução e de coragem necessárias para utilizar seu entendimento sem a tutela de outro. Sapere aude! Tenha a coragem de te servir de teu próprio entendimento, tal é, portanto, a divisa do Esclarecimento” (KANT, 2012, p.01). Convém destacar o duplo significado do termo Esclarecimento: “De um lado tem-se a perspectiva subjetiva que se refere ao indivíduo, de outro, a perspectiva objetiva, que se refere a uma qualificação atribuída a uma época histórica. Pode-se dizer que o texto aborda tanto o significado de esclarecimento, quanto o “espírito” do Esclarecimento. Porém, ambos os contextos não ficam isolados, o seu ponto de contato é o conceito de “uso público da razão”, o qual funda um âmbito de transição entre a esfera privada e a esfera pública, entre o âmbito individual e o âmbito comunitário” (KLEIN, 2009, p.212).

A preguiça, a covardia e a acomodação seriam as causas do estado de minoridade do sujeito, impedindo-o de caminhar sozinho tendo como guia o seu próprio entendimento. Preceitos e fórmulas80 estabelecidos pela tradição seriam entraves à emancipação humana.

A liberdade é a condição essencial a partir da qual o homem decide pensar sobre si mesmo. Assim, enquanto o uso público da razão81 possui dimensão irrestrita, pois tem o poder de difundir o esclarecimento entre os homens, o uso privado da mesma possui algumas restrições, uma vez que somos obrigados a agir de acordo com o interesse maior da coletividade, visando à preservação do bem público, ou seja, devemos nos conduzir em obediência às leis editadas por nós mesmos, o que não acarreta uma limitação da liberdade, a qual pode ser definida como a capacidade de nos submetermos às leis que nós mesmos elaboramos. Daí a máxima kantiana: “raciocinai o quanto quiserdes, e sobre o que quiserdes, mas obedecei”. Neste sentido, Kant compartilha com Rousseau uma concepção de liberdade que se adequa à lei, pois

o homem é o único ser no mundo capaz de agir e comportar-se segundo as leis que ele próprio edita; ou, dito de outra forma, o ser humano, diferentemente dos demais seres, vive segundo o princípio da autonomia da vontade. O paralelo com o pensamento de Rousseau também aí é irrecusável. Segundo o genebrino, a essência do pacto social, que funda a sociedade livre, consiste justamente no fato de que os indivíduos, tendo embora renunciado a todos os seus direitos próprios, continuam, não obstante, a viver em liberdade, pois eles submetem-se às leis que eles próprios editam (COMPARATO, 2006, p.297).

Embora a liberdade esteja condicionada pela obediência à lei, ela atinge o seu ápice por meio do uso público da razão. Kant determina a vinculação íntima da liberdade com a autonomia da razão na seguinte passagem:

o uso, portanto, que um pastor em função faz de sua razão diante de sua paróquia é apenas um uso privado; pois esta é uma assembleia de tipo familiar, qualquer que seja sua dimensão; e, levando isso em conta, ele não é livre enquanto padre e não tem o direito de sê-lo, pois ele executa uma

80 “Aquilo que Kant entende por preceitos e fórmulas é completamente distinto daquilo que ele pensa por regras e princípios, os quais são atribuídos à “sã razão humana”. (...) Antes de aceitar as crenças e as opiniões de outrem, está em jogo o esforço de avalia-las. Neste sentido, ser esclarecido não é simplesmente saber de algo, isto é, estar de posse de uma “crença verdadeira justificada”, é preciso que a justificação seja empreendida pelo próprio sujeito e não simplesmente acolhida a partir da autoridade da reflexão de outrem. Portanto, esclarecer-se implica uma atitude ativa e crítica por parte do sujeito” (...) Ora, esse modo de pensar livre é tal que não aceita fórmulas e preceitos irrefletidos. Ainda que seja mais fácil e cômodo assumi-los, é preciso submetê-los sempre à avaliação, qual seja, à uma reflexão racional pautada sobre os princípios da razão” (KLEIN, 2009, pp. 213-214). 81 “Entendo por uso público da razão o que fazemos enquanto sábios para o conjunto do público que lê. Denomino de uso privado aquele que se é autorizado a fazer de sua razão em um certo posto civil ou em função da qual somos encarregados” (KANT, 2012, p.3).

missão alheia à sua pessoa. Em contrapartida, enquanto erudito que, por meio de seus escritos, fala ao verdadeiro público, isto é, ao mundo, por conseguinte no uso público de sua razão, o padre desfruta de uma liberdade ilimitada de servir-se de sua própria razão e de falar em seu próprio nome (KANT, 2012, pp.4-5).

A religiosidade, em si, não deve ser obstáculo ao esclarecimento. Porém, são obstáculos à emancipação humana determinadas posturas eclesiásticas que, em nome da imutabilidade de princípios e símbolos, mantêm “sob tutela superior permanente cada um de seus membros” (KANT, 2012, p.5), impedindo-os de exercitar a sua autonomia racional. Do mesmo modo que a religiosidade não pode ser obstáculo à emancipação, nenhuma época pode deixar de legar às seguintes as condições para o progresso do esclarecimento. Caso isto não aconteça, “os descendentes terão pleno direito de rejeitar essas decisões tomadas de maneira ilegítima e criminosa” (KANT, 2012, p.5), o que justificaria transgredir o estabelecido em nome do próprio esclarecimento que constitui a vocação original da natureza humana. Nesse sentido, torna-se pertinente a seguinte indagação kantiana: “a pedra de toque de tudo o que pode ser decidido sob forma de lei para um povo se encontra na questão: um povo se imporia a si mesmo uma tal lei?” (KANT, 2012, p.5), o que evidencia a relevância do esclarecimento enquanto teleologia buscada e instituída pela autonomia racional do indivíduo e da coletividade em cada época. Por tudo isto, é dever moral do indivíduo perseguir a sua maioridade e a da humanidade, pois “um homem pode, a rigor, pessoalmente e, mesmo então, somente por algum tempo, retardar o Esclarecimento em relação ao que ele tem a obrigação de saber; mas renunciar a ele, seja em caráter pessoal, seja ainda mais para a posteridade, significa lesar os direitos sagrados da humanidade, e pisar-lhe em cima” (KANT, 2012, p.6).

Um dos entraves ao Esclarecimento, aos olhos de Kant, reside na ausência de autonomia do indivíduo em relação à religião quando este delegar a outrem o seu próprio entendimento. Neste sentido, um príncipe ou qualquer governante necessita considerar como dever a tolerância religiosa, adotando como princípio deixar “cada um livre para se servir de sua própria razão em todas as questões de consciência” (KANT, 2012, p.7). A tolerância religiosa apresenta-se como fonte e condição das demais tolerâncias, da igualdade formal e da autonomia individual como garantias da estabilidade social, pois “ali onde reina a liberdade nada há a temer para a tranquilidade pública e unidade do Estado” (KANT, 2012, p.7). Emancipar-se do domínio da religião é, segundo Kant, o primeiro passo rumo ao Esclarecimento. Permanecer na minoridade é ultrajar a nossa vocação de pensar e agir livremente. A concepção kantiana de emancipação sintetiza o espírito do iluminismo e da modernidade.

A emancipação, enquanto um dos ideais impulsionadores do iluminismo, obteve, com John Locke, no âmbito de afirmação da liberdade como categoria política, uma formulação conceitual que influencia o pensamento político até os nossos dias, como veremos a seguir.