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A Research on Child Consumers in terms of Learning Approach “

4. Araştırma Yöntemi

Conforme indica Bobbio (1987, p.34), a história do jusnaturalismo (doutrina do direito natural) esteve atrelada, nos séculos XVII e XVIII, à história da filosofia política. Neste sentido, Hobbes foi o primeiro filósofo a romper com uma longa tradição que se apoiava na Política de Aristóteles e no direito romano, pois ele buscou, a partir do estudo da natureza humana, mais precisamente da vontade racional, estabelecer as bases para a criação do Estado, demarcando uma rígida divisão entre o estado de natureza (estado não político) e o estado político (estado não natural), ou seja, “o estado político surge como antítese do estado natural, do qual tem a função de eliminar os defeitos, e o estado natural ressurge como antítese do estado político, quando esse deixa de cumprir a finalidade para o qual foi instituído” (BOBBIO, 1987, pp.38-39). Os indivíduos migram, voluntária e consensualmente, por meio de convenções, do estado de natureza para o estado civil (sociedade política) que é essencialmente artificial e cultural.

Uma estratégia utilizada para compreender as inovações introduzidas pelo jusnaturalismo consiste em compará-lo ao modelo aristotélico. A Política de Aristóteles, recorrendo a uma reconstrução histórica, considera a família como a primeira etapa natural da origem do Estado, o qual decorre da necessidade da própria natureza social do homem, enquanto que, para Hobbes, o consenso, oriundo da autonomia da vontade humana, seria o princípio de legitimação da sociedade política.

As comparações entre o modelo aristotélico e o jusnaturalista evidenciam, no primeiro caso, a supremacia da noção de totalidade, representada pela sociedade, sobre o indivíduo73. Por outro lado, o segundo modelo é, antes de tudo, uma exaltação de indivíduos vivendo em estado de liberdade e de igualdade numa fase pré-política, chamada de estado de natureza, a partir da qual é efetuado um contrato dando origem à sociedade política que deverá assegurar a liberdade e a igualdade do indivíduo sob a égide de leis que viabilizem o convívio coletivo.

73 São várias as passagens da Política de Aristóteles que atestam a concepção de formação da Pólis como um processo regido, desde o início, pela ideia de totalidade: “a principal sociedade natural, que é a família, formou- se, portanto, da dupla reunião do homem e da mulher, do senhor e do escravo. (...) Assim, a família é a sociedade cotidiana formada pela natureza. (...) A sociedade que em seguida se formou de várias casas chama-se aldeia e se assemelha perfeitamente à primeira sociedade natural. (...) A sociedade que se formou da reunião de várias aldeias constitui a Cidade, que tem a faculdade de se bastar a si mesma, sendo organizada não apenas para conservar a existência, mas também para buscar o bem-estar. (...) É, portanto, evidente que toda Cidade está na natureza e que o homem é naturalmente feito para a sociedade política. (...) O Estado, ou a sociedade política, é até mesmo objeto a que se propôs a natureza. O todo existe necessariamente antes da parte” (ARISTÓTELES, 2006, pp. 3-5).

A exaltação do estado de natureza constitui, enquanto estado privilegiado dos direitos individuais naturais e base para a construção da sociedade civil, o alicerce do jusnaturalismo que servirá para fundamentar o projeto político da burguesia, o qual é pautado nos ideais de liberdade e de igualdade, visando uma autonomia de seu poder econômico por meio de uma estrutura política que lhe dê respaldo civil e jurídico74. Embora o estado de natureza revele a essência dos direitos individuais naturais, somente no Estado civil é que eles são socialmente garantidos. Deste modo, um retorno ao estado de natureza resultaria em anarquia, o que reforça a ideia da relevância da sociedade civil, pois “uma das características comuns a todos os jusnaturalistas é a tese de que é preciso sair do estado de natureza e por que é útil (Hobbes e Locke) ou necessário (Spinoza) ou algo imposto pelo dever (Kant) instituir o estado civil” (BOBBIO, 1987, p.53), ou seja, o estado de natureza é um estado negativo que deve ser superado pelo estado erigido pela razão.

O jusnaturalismo é baseado no princípio da autonomia do indivíduo como origem da sociedade política, o que demarca uma inversão radical da tese aristotélica que afirma ser o Estado uma decorrência natural da sociabilidade humana. Nesse sentido, Bobbio assevera que

o que se exclui é que a sociedade política seja concebida como um prolongamento da sociedade natural: a sociedade política é uma criação de indivíduos, é o produto da conjunção de vontades individuais. A família faz parte do estado de natureza, mas não o substitui. A sociedade política substitui o estado de natureza, não o continua, nem o prolonga, nem o aperfeiçoa. Os dois termos da construção permanecem o indivíduo, cujo reino é o estado de natureza, e o Estado, que não é uma sociedade natural” (BOBBIO, 1987, p.59).

A ideia de contrato social é o elemento que legitima e dá sustentação à sociedade política, ou seja, por intermédio do pacto nasce um contrato no qual o súdito fica obrigado a obedecer ao soberano (o monarca em Hobbes; a vontade geral em Rousseau; o legislativo em Locke) que adquire, assim, uma autoridade legítima por meio do consentimento (BOBBIO, 1987, p.62). O contrato social evidencia a relevância do elemento racional na constituição da sociedade política, uma vez que

mais do que um fato histórico, o contrato é concebido como uma verdade de razão, na medida em que é um elo necessário da cadeia de raciocínios que

74 “A teoria contratualista (...) representa a tendência da classe, que se move no sentido da emancipação política e não só econômica e social, no sentido de pôr sob o próprio controle o maior instrumento de dominação de que se serve um grupo de homens para obter obediência; em outras palavras, reflete a ideia de que uma classe que se encaminha no sentido de se tornar econômica e ideologicamente dominante deve conquistar também o poder político, ou seja, deve criar o Estado à sua imagem e semelhança” (BOBBIO, 1987, pp.45-46).

começa com a hipótese de indivíduos livres e iguais. Se indivíduos originariamente livres e iguais se submeteram a um poder comum, isso não pode ter ocorrido a não ser por meio de um acordo recíproco (BOBBIO, 1987, p. 64).

O objetivo maior do pacto seria a celebração de um acordo que viabilizasse a constituição de um poder comum que, por meio da lei, garantisse a soberania do governante e a liberdade do súdito. Nesse sentido, Rousseau pode ser considerado como um dos pensadores que tentou equilibrar a relação lei-liberdade, uma vez que o homem livre é aquele que se submete às leis criadas por ele mesmo, às quais são legalizadas por meio do acordo civil.

Independentemente dos fins que os jusnaturalistas atribuem ao Estado (Hobbes: a vida, a paz e a segurança dos súditos; Spinoza: a liberdade; Locke: o direito de propriedade; Rousseau: o fim das desigualdades pela soberania da vontade popular), como bem assevera Bobbio, ele deve seguir os ditames da razão e conciliar obediência e liberdade, ou seja, garantir a sua soberania por meio da primeira, bem como salvaguardar a segunda enquanto direito natural inalienável que, juntamente com a preservação da vida e da propriedade privada, constituem o motivo essencial pelo qual foi criado o contrato social que dá sustentação à própria sociedade política.

A necessidade de equacionar a obediência e a liberdade revela que a lei75 é o instrumento mais eficaz de que dispõe um Estado fundado na razão como meio para garantir a sua governabilidade e a vida social dos cidadãos. Nesse sentido, “todas as filosofias políticas que se enquadram no âmbito do jusnaturalismo têm – com relação às que a precedem e às que as sucedem – uma característica distintiva comum: a tentativa de construir uma teoria racional do Estado” (BOBBIO, 1987, p.87).

Essa tentativa jusnaturalista de construir uma teoria racional do Estado, ao fundamentar a origem da sociedade política na natureza humana, evidencia a sua rejeição dos argumentos teológicos. Nesse sentido, a reta razão apresenta-se como elemento regulador e guia de interesses e paixões na constituição da vida social e do Estado, pois “a doutrina jusnaturalista do Estado não é apenas uma teoria racional do Estado, mas também é uma teoria do estado racional. Isso quer dizer que ela deságua numa teoria da racionalidade do Estado, na medida em que constrói o Estado como ente de razão por excelência, único no qual o homem realiza plenamente sua própria natureza de ser racional (BOBBIO, 1987, p.89). Portanto, somente no Estado (que é uma criação da razão) o homem se realiza como um ser

75 A lei deve ser entendida como algo que nasce de um esforço racional que deve defender os direitos naturais, bem como a essência do próprio contrato social, ou seja, uma lei que decorra e expresse a própria natureza humana.

racional, por isso as condições de desenvolvimento do potencial humano, enquanto ser racional, somente serão encontradas na sociedade civil. Deste modo, o Estado de natureza é concebido como algo negativo e que deve ser urgentemente superado por meio da constituição de um Estado racional alicerçado na lei oriunda de uma vontade racional, o que a distingue dos costumes, hábitos e de outros elementos culturais herdados da tradição.

Levando em conta a afirmação histórica da positivação da lei, a partir do jusnaturalismo, Bobbio assevera que, na formação do Estado moderno, o processo de racionalização do Estado possibilitou a redução de toda forma de direito a direito estatal e este, por sua vez, foi reduzido ao direito legislativo, o que se constitui como garantia formal da igualdade civil, tornando-se, assim, obstáculo ao arbítrio e ao despotismo (BOBBIO, 1987, pp.92-93). Tendo a lei como instrumento que alicerça o processo de racionalização, o jusnaturalismo servirá como base jurídica e política da filosofia das luzes76, contrapondo-se àquelas fontes tradicionais do pensamento antigo medieval (principalmente as que se guiavam pelo texto político aristotélico) que exaltavam os costumes como sustentáculo da política e do direito.

O primado da lei sobre os costumes, ao rejeitar a tutela da tradição apoiada nos costumes e em fundamentos que transcendem o âmbito exclusivo da razão como única fonte de princípios, evidencia que as leis da razão serão o instrumento que permitirá ao homem atingir aquilo que Kant denomina de “sua maioridade”, ideal alcançado por meio da liberdade enquanto autonomia da vontade e da razão.

Em suma, o jusnaturalismo efetua a síntese entre indivíduo e Estado fundada na afirmação política, ética e jurídica da liberdade e na autonomia da razão, cuja fonte de fundamentação deriva dos direitos naturais oriundos exclusivamente da própria natureza humana, o que determina a formação histórica do Estado moderno. Nesse sentido, Bobbio assevera que

na base deste modelo, portanto, está uma concepção individualista do Estado, por um lado, e, por outro, uma concepção estatista (que significa racionalizada) da sociedade. Ou os indivíduos sem Estado, ou o estado composto apenas de indivíduos. Entre os indivíduos e o Estado, não há lugar para entes intermediários. E também essa é uma extrema simplificação dos termos do problema, à qual conduz inevitavelmente uma constituição que quer ser racional e, enquanto tal, sacrifica em nome da unidade as várias e diferentes instituições produzidas pela irracionalidade da história; mas é

76 A filosofia das luzes (o iluminismo enquanto ilustração ou esclarecimento) será um dos temas abordados mais adiante, cujos fundamentos estão intimamente ligados ao jusnaturalismo, bem como ao liberalismo político no que concerne à valorização da razão enquanto guia da autonomia antropocêntrica e à afirmação da liberdade enquanto categoria política, ética, econômica e jurídica.

também, ao mesmo tempo, o reflexo do processo de concentração do poder que marca o desenvolvimento do Estado moderno. Uma vez constituído o Estado, toda outra forma de associação, incluída a igreja, para não falar das corporações ou dos partidos ou da própria família, das sociedades parciais, deixa de ter qualquer valor de ordenamento jurídico autônomo (BOBBIO, 1987, pp. 94-95).

O culto à razão como condição de possibilidade da ordem natural e da construção de uma sociedade política baseada na liberdade e na autonomia do sujeito será uma das características fundamentais do século das luzes, celebrando, com isso, o apogeu do iluminismo.