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Tomando-se as características gerais da cultura indígena pré-jesuítica, poderemos formar o seguinte diagnóstico: as tribos do litoral de São Vicente, Salvador, Espírito Santo e Rio de Janeiro, como as do interior, por ocasião do período compreendido entre o descobrimento do Brasil e o início da catequese, encontrava-se no estágio neolítico. Essa caracterização é comprovada pela documentação da época, que informa sobre a condição do instrumental indígena, fabricado com a pedra polida.
Os indígenas estavam divididos por nações, tribos e famílias. Embora alguns autores qualifiquem como monogâmica a sua organização familiar, o certo é que os homens viviam com muitas mulheres sem, contudo, ficarem elas diminuídas no seu status social (CLASTRES, 1978; CUNHA, 1986). Ligados à organização familiar encontramos certos traços horripilantes à ética jesuítica, aos nossos sentimentos e reações. Às vezes, antes de devorar o inimigo, davam-lhe antes da morte uma irmã por esposa; morto o inimigo e vítima da antropofagia heróica, se ele obteve filhos com a irmã dos seus algozes, estes os comiam, isto é, comiam, por vingança, entendendo que a filiação fosse apenas paterna (ABREU, 2000; FERNANDES, 1989; SOUZA, 1971; VAINFAS, 1997).
As guerras ferviam contínuas; a cunhã prisioneira agregava-se à tribo vitoriosa, pois vigorava a idéia da nulidade da fêmea na procriação, exatamente como a da terra no processo vegetativo; os homens eram comidos em muitas tribos no meio de festas rituais. A antropofagia não despertava repugnância e parece ter sido muito vulgarizada: algumas tribos comiam os inimigos, outras os parentes e amigos, eis a diferença. (ABREU, 2000, p. 39).
No dia-a-dia da catequese, na correspondência interna em que se abordavam os problemas específicos da missão e, sobretudo nos discursos voltados para os índios, predominaram, sem dúvida, a detração, a hostilização dos costumes, a má vontade que Laura de Mello e Souza (1986) observou nos jesuítas em face das gentes do trópico. Observamos isto em quase todos os padres, inclusive entre os que mais se empenharam em defender os índios contra a escravização. Manuel da Nóbrega em seus apontamentos de 1558 (LEITE, 1955a, p. 279-280) recomendava castigo e sujeição dos aborígenes como único remédio para cessar o sofrimento da nação portuguesa no Brasil.
Depois que sua Alteza mandou Governadores e justiça a esta terra, não houve saltearem os gentios nem tomarem-lhe o seu como antes, nem por isso deixaram eles de tomar muitos navios e matarem e comerem muitos cristãos [...], se o gentio fosse senhoreado ou despejado, como poderia ser com pouco trabalho e gasto, e teriam vida espiritual, conhecendo a seu criador e vassalagem a S. A. e obediência aos cristãos [...]. Este gentio é de qualidade que não se quer por bem, senão por temor e sujeição, como se tem experimentado e por isso se S. A. os quer ver todos convertidos mande-os sujeitar [...].
Os indícios de que a mão do demônio agia por detrás dessa aparente inocência recolheram os portugueses, sobretudo da licenciosidade em que julgavam viver os índios e, particularmente, da relação que mantinham com o próprio corpo.
Primeiro, os selvagens vão para uma cabana, pegam todas as mulheres da cabana e aplicam-lhes fumaça. Depois a mulher precisa gritar, pular e dar voltas até que fica tão exausta que cai ao chão como se estivesse morta. Então o feiticeiro diz: “Vejam, agora ela está morta. Logo a farei viver novamente”. Quando ela volta a si, ele diz que doravante está apta a adivinhar coisas futuras, e quando vão guerrear, as mulheres devem fazer adivinhações sobre a guerra. (STADEN, 1999, p.103)9.
9 Capítulo 24 da obra de Hans Staden (1999), intitulado “Como transformam suas mulheres em
Imediatamente depois de morto o prisioneiro, a mulher (já disse que a concedem a alguns) coloca-se junto do cadáver e levanta curto pranto; digo propositadamente curto pranto porque essa mulher, tal qual o crocodilo que mata o homem e chora junto dele antes de come-lo, lamenta-se e derrama fingidas lágrimas sobre o marido morto mas sempre na esperança de comer-lhe um pedaço. (LÉRY, 1980, p. 178).
Repugnáva-lhes, antes de tudo, o canibalismo (prática inteligível e assustadora para o missionário), fato que corroborava a visão do ameríndio como ser animalesco, selvagem e monstruoso (Figura 6). Mas inquietava-os, em grande medida, o que consideravam falta de lei, ausência de interdições quanto à exibição do corpo e às relações sexuais.
Figura 6: Cena antropofágica: mulheres da tribo retalham o morto (BRY, 1540).
O corpo tem sido visto em diversas culturas e filosofias presentes no Ocidente como um obstáculo à ascensão e liberação do espírito. Desde os gregos já se encontrava esta visão dicotômica, a morte sendo apresentada como instante de liberdade em que o corpo era forçado a abrir os grilhões que aprisionavam a alma. O pensamento socrático o considerava um impedimento à verdade por propiciar a sedução e os desvios à lógica. Platão o concebia como cárcere ou sepultura que encerrava o saber e a razão. Mas, ele não deixava de ser o lugar onde a alma repousava (RANKE-HEINEMANN, 1996; SANTOS, 1986).
O conjunto de disposições contrárias ou de cautela em relação ao corpo difundidas pelo universo judaico-cristão salienta o cuidado em relação ao corpo da mulher e às suas mais variadas representações.
Essa visão, segundo Peter Brown (1990), é difundida desde São Paulo e se consolida na renúncia sexual permanente, através do apelo à continência, ao celibato e à virgindade perene, ou seja, através de uma negação sistemática do contato com a carne – fonte de todo o pecado que arrasta o mundo. Esta disjunção que se estabeleceu entre alma e corpo, no cristianismo sustentou o distanciamento e a fobia ao corpo e à carne, em particular da mulher.
Acreditava-se, como mencionado anteriormente, que a mulher tinha ligações íntimas não com Deus, mas com o diabo (Figura 7) – travestido no corpo de uma serpente, por exemplo -, sendo considerada um ser terreno tirado da costela de Adão e motivo da perdição deste e da sua expulsão do paraíso.
Figura 7: O diabo que faz amor com a bruxa. (MOLITOR, 1489).
Em seu Livro “Corpo e Sociedade”, Peter Brown (1990) analisa a prática da renúncia sexual permanente entre os cristãos desde os anos 40 a 50 d.C. até a década de 430 d.C.. Ele revela que, desde o início, o cristianismo preocupou-se com a dimensão espiritual do ser humano. Para tanto, ele centrava força naquilo que poderia desviar, corromper o ser espiritual que residia naquele corpo. Assim, visou a continência do corpo, no valor da virgindade, da castidade e do celibato a correção do indivíduo e da sociedade. A continência do corpo era a negação ao ato sexual e o total desapego à carne. Deste modo, Brown constata que o cristianismo projetou, desde o início, este processo de normatização social de que nos fala Foucault
(1988, 2006, 2007, 2008) sobre os discursos da sexualidade e as relações de poder que se estabelecem através do mesmo.
Desta forma, foram os jesuítas, em sua maioria, que viram na nudez das índias uma prova de escândalo, ocasião de torpezas e de ofensa a Deus. Decifrando a genealogia de tal despudor, Nóbrega (LEITE, 1955a, p. 239-240) localizou-a no pecado de Cam, que escarnecera da nudez de seu pai, Noé, sendo por isso exilado e condenado à servidão.
Isso podem-vos dizer chãmente, falando a verdade, que lhes veo por maldição de seus avoz, porque estes creemos serem descendentes de Chaam filho de Noé, que descobrio as vergonhas de seu pai bêbado, e em maldição, e por isso, fiquarão nus e tem outras mais misérias. Os outros gentios, por serem filhos de Set e Japher, era razão, pois eram filhos de benção, terem mais alguma vantagens.
Os habitantes nus do Brasil quinhentista (Figura 8) causaram profundo desalento ao Pe. Manuel da Nóbrega que tudo fez para vesti-los desde que chegou à Bahia: quis dar a roupa sobressalente dos padres para os índios batizados; pediu roupas ao Pe. Simão Rodrigues; considerou a possibilidade de os próprios índios fiarem o algodão de seus vestidos; e incluiu essa medida no plano geral de aldeamento de 1558.
Figura 8: família de índios botocudos (FAYET, 2006).
Também peça V. R. algum petitório para roupa, para entretanto cubrirmos estes novos convertidos, ao menos uma camisa a cada molher, polla honestidade da religião christã, porque vem todos a esta Cidade à missa aos domingos e festas, que faz muita devação, e vem rezando as orações que lhe insinamos, e nom parece honesto estarem nuas entre os christãos na igreja, e quando as insinamos. (NOBRÉGA apud LEITE, 1938, p. 39).
Julgava imperioso cobrir o corpo dos índios, alegando variadas razões: o escândalo que dariam nus aos padres vindouros; a ofensa a Deus, sobretudo ao assistirem a ofícios divinos com as vergonhas à mostra; a excitação que índias nuas causariam nos cristãos. Era preciso ocultar-lhes o corpo, uma vez batizados: pela nudez em si, descabida em gente cristã, e pelo que essa nudez poderia incitar. (VAINFAS, 1997, p. 33).
Gabriel Soares de Souza chegou a nomear um dos capítulos de seu memorial com o título “Que trata da luxúria dêstes bárbaros”, escrevendo, de fato, o mais completo resumo das torpezas ameríndias: luxuriosos ao extremo, não havia pecado da carne que os tupinambás não cometessem em matéria de incesto, poligamia e outros mais; as velhas, observou, granjeavam os meninos ensinando-lhes o que não sabiam10, e todos só conversavam sujidades que cometiam a cada hora. Aos
apetites libidinosos, certamente, atribuiu o hábito que muitos tinham de engrossar o pênis: “costumam pôr nele o pêlo de um bicho tão peçonhento que lho faz logo inchar, com o que se lhe faz o seu cano tão disforme de grosso, que os não podem as mulheres esperar, nem sofrer” (1971, p. 308). E, tratando do que pouquíssimos ousavam falar, comentou serem “muito afeiçoados ao pecado nefando”11, do qual
não se envergonhavam, e o que servia de macho dele se vangloriava, tomando essa bestialidade por proeza, ao passo que alguns efeminados armavam tendas e se faziam de mulheres públicas.
Desde o nascimento, as principais tribos indígenas que entraram em contato com os europeus e inacianos do século XVI, tinham seus membros diferenciados através do sexo. Assim, enquanto o pai era responsável por cortar o cordão umbilical de seu varão, presenteando-lhe com tacape, um arco e flechas ornamentadas com
10 Por falta de parceiras jovens – já que o homem só poderia se casar quando fizesse um
prisioneiro, além de outras restrições – os rapazes tupinambás “contentavam-se com as velhas, apesar de as saberem estéreis”. (FERNANDES, 1989, p. 158).
11 Florestam Fernandes afirma que a sodomia recebia o beneplácito social entre os
tupinambás, embora o “papel passivo” exercido por homens fosse sujeito a insultos, utilizando-se a palavra “tivira”. Quanto as mulheres que se “casavam” entre si, adquiriam “toda espécie de parentesco adotivo e de obrigações assumidas pelos homens em seus casamentos”. (FERNANDES, 1989, p. 160-161).
penas de papagaio (símbolo do grande guerreiro), às crianças do sexo feminino eram legados os primeiros cuidados pela própria mãe e sem nenhum presente de boas vindas (RAMINELLI, 2004).
Na lógica tribal, o resguardo do pai simbolizava a importância do papel paterno no ato de gerar a criança, não recaindo apenas sobre a mulher, como na cultura lusitana, o sexo do bebê (CUNHA, 1986). A abstinência sexual após o parto, ou a quarentena inserida na sociedade ocidental posteriormente, tem origem nas sociedades indígenas que, cuidavam para que suas novas mães mantivessem um único bebê, amamentando-o até aproximadamente seus dois anos de idade. Quando alguma mulher ficava grávida de um inimigo, matava e comia o recém- nascido, mantendo a lógica da vingança através da antropofagia e a idéia de parentesco pela linhagem paterna (FERNANDES, 1989).
A menina indígena atingia a idade adulta após a primeira menstruação, o que gerava grande festa na tribo, posto que esta poderia ser preparada para o casamento. Através de um ritual de passagem, estas meninas ganhavam várias cicatrizes pelo corpo que lhe garantiriam ventres sadios e filhos bem formados (CLASTRES, P., s/d). Tal como na cultura européia, o sangue menstrual causava certa repulsa por parte das comunidades indígenas. Para estes, a menstruação era responsável por atrair espíritos maus que poderiam acometer o sexo masculino, gerando assim, a abstinência sexual também nesses períodos.
Não havia cerimônia de casamento, mas a vontade do homem e da mulher, podendo o marido expulsar a mulher e vice-versa, quando estivessem fartos do convívio. Neste caso, e com o consentimento da mulher esta poderia ser presenteada a outro homem. A poligamia era aceita entre os homens em sinal de prestígio e suas mulheres lhe deviam obediência, mas não submissão (RAMINELLI, 2004). O adultério feminino causava grande horror entre os indígenas, porém antes do casamento a liberdade sexual feminina não provocava desonra. Desta forma, eram raros os casos de mulheres que casassem virgens, sendo os instintos sexuais coibidos apenas com o casamento, quando seus maridos as vigiavam de perto, movidos pelo ciúme e pela admiração que tinham pelo corpo de suas esposas.
Porém, fosse pela poligamia, pela instabilidade das uniões, pelos incestos ou infidelidades, os jesuítas julgavam que, se casamentos havia entre os indígenas, eram falsos. O único remédio para os índios era casá-los, uní-los na forma e na regra da Igreja. Nóbrega era, porém realista e o dia-a-dia da catequese fez-lhe ver
que a missão deveria adaptar-se ao Novo Mundo, recuar taticamente frente às particularidades da Colônia. Foi esse recurso em relação ao casamento, em que a impressão de licenciosidade absoluta deu lugar ao reconhecimento de que os índios contraíam matrimônio e, ainda, de que havia normas a regê-lo.
E em muitas coisas guardam a lei natural. Nenhuma coisa própria têm que não seja comum, e o que um tem há-de repartir com os outros, principalmente se são coisas de comer, das quais nenhuma coisa guardam para outro dia, nem curam de entesourar riquezas. A suas filhas nenhuma coisa dão em casamento, antes os genros ficam obrigados a servir a seus sogros. Qualquer cristão, que entre em suas casas, dão-lhe a comer do que têm, e uma rede lavada em que durma. São castas as mulheres a seus maridos. (LEITE, 1955a, p. 65).
Nóbrega passa a suplicar que Roma atenuasse o rigor dos impedimentos: que sua Santidade tivesse largueza destes direitos positivos, e deixasse os padres celebrarem casamentos entre parentes por afinidade. Ou seja, era preciso casá-los com uma só mulher, ainda que à custa das regras oficiais.
Ho gentio desta terra como não tem matrimonio verdadeiro com animo de perseverarem toda a vida, mas tomão huma molher e apartão-se quando querem, de maravilha se achará, em huma povoação e nas que estão ao derredor perto, quem se poça cassar dos que se convertem, legitimamente, à nossa fé, sem que aja inpidimento de comsanguinidade ou afinidade, ou de publica onestidade. E este nos he o maior estorvo que temos, nem os poder pôr em estado de graça, e por isso não lhe ouzamos a dar o sacramento do bautismo, pois he forçado fiquarem ainda servos do peccado. Será necessário aver de Sua Santidade nisso largueza destes direitos positivos e, se parecer muito duro ser de todo o positivo, ao menos seja de toda afinidade, e seja tio com sobrinha, que he segundo grão de consaguinidade, e he quá o seu verdadeiro casamento. (LEITE, 1955a, p. 205).