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Nascido a 18 de Outubro de 1517, em Portugal, ao que parece no Minho, não se conhecem documentos coesos do que foi a vida do Padre Manuel da Nóbrega (Figura 2) até sua apresentação diante da Companhia de Jesus. Sabe-se que devia ser homem nobre, já que seu pai, Baltazar da Nóbrega era desembargador e havia sido Juiz de Fora do Porto em 1532. Por esta informação pensa-se que aí Nóbrega tenha iniciado seus estudos de humanidades. O fato é que começou a freqüentar a Faculdade de Cânones por 1934 como bolseiro de El-Rei, isto é, com moradia e favor de D. João III, em atenção aos merecimentos de seu pai (FERREIRA, 1957).
Graduou-se Bacharel na Faculdade de Coimbra a 14 de Junho de 1541, de forma que se graduava em Direito Canônico antes mesmo de seus 24 anos completos com a observação de não ser ainda Padre. Intencionado em seguir na Universidade, Nóbrega presta concursos que, tem fins sempre negativos por ser gago. Nas palavras de Franco (apud LEITE, 1955b, p. 28):
Em Coimbra se graduou de Bacharel. No tempo que nela se davam lugares, como ele era muito gago, não fazia conta de se opor a eles, mas o Doutor Navarro o não consentiu. Como sabia o que nele tinha, lhe aconselhou que se opusesse. Acomodando-se ao seu parecer, fez sua lição de ponto com tanta satisfação, que o juízo de todos se lhe devia o primeiro lugar. Mas como o Reitor da Universidade tinha outros empenhos, fez o possível porque se lhe não desse. Estava tão seu adverso, que pùblicamente, depois de acabar a hora da lição, disse que fosse por diante e lesse mais, que por ser gago não tinha lido hora inteira. Virou ele então o relógio e leu com a mesma satisfação tanto tempo que foi necessário fazerem-lhe sinal algumas vezes que acabasse, e assim acabou. E porque o Reitor estava já inclinado à outra parte, não se lhe deu senão o segundo lugar, posto que levou a hora do primeiro a juízo de todos os doutores.
Como os episódios dos concursos não levaram Nóbrega ao êxito da fala, desenganou-se. E como diria ainda Franco (apud LEITE, 1955b, p. 29) “Vendo que o mundo o desprezava, fez propósito de o desprezar a ele”. Circunstâncias da vida, o fato é que se ficasse em primeiro lugar seria Nóbrega professor universitário e não “professor” de mais alto magistério, a imensa Universidade das Almas, como Vieira chamaria mais tarde as selvas do Brasil (LEITE, 1938).
Figura 2: Busto do Pe. Manuel da Nóbrega (BAIRRO DO CATETE, 2009).
Nóbrega entra para a Companhia de Jesus em 21 de Novembro de 1544, já Padre, ocupando o cargo de Procurador dos Pobres (FERREIRA, 1957). Não obstante o impedimento da fala, Nóbrega pregava muito (LEITE, 1955a, 1955b), o que parece chamou a atenção de seus companheiros na nova instituição. Conhecido como apóstolo de ação direta por seus Irmãos, Nóbrega parece receber tal cargo por
destacar-se pelo santo zelo e dedicação em tirar as pessoas de pecados mortais durante suas peregrinações.
Assim como a Índia, D. João III queria que o Brasil recebesse os padres da Companhia de Jesus para a conversão dos gentios realizando, desta forma, a expansão da Igreja para o Novo Mundo.
A nova Missão estava já aprovada por S. Inácio para a hipótese de a fundar o Provincial Simão Rodrigues, a quem El-Rei dera licença de ir e ficar lá três anos. O andamento interno das coisas da Província portuguesa da Companhia de Jesus aconselhou o Provincial a permanecer no seu posto e a nomear quem fosse não por três anos, mas para toda a vida. Nóbrega, que em Junho de 1548 ainda residia nas margens do Minho (Sanfins), foi avisado tarde e quando chegou a Lisboa já Tomé de Sousa ia de vela, ficando à sua espera a nau do Provedor-mor, donde, pouco depois, passou para a do Governador Geral (LEITE, 1955b, p. 51).
Eis que parte o Pe. Manuel da Nóbrega para o Brasil para realizar o desejo Del-Rei de transmitir os valores cristãos aos gentios do além-mar. Ao seu lado aportam na Bahia no dia 29 de março de 1549 acima de mil homens (note-se: apenas homens), dos quais quatrocentos degredados acusados dos mais variados crimes: assassinatos, roubos e o que de acordo com Vainfas (1997, p. 41) tinham cunho moral,
freiráticos que invadiam mosteiros para arrebatar as esposas de Cristo; os que desonestassem virgens ou viúvas honestas; os que fornicassem com [...] parentas; os que violassem órfãs ou menores sob tutela; os que, vivendo da hospedagem alheia, dormissem com parentas, criadas ou escrava brancas do anfitrião; os que dormissem com mulheres casadas [...].
Eis, “in genere”, a resposta que encontramos nos documentos da Companhia de Jesus, nos arquivos da historiografia, na documentação do tempo (LEITE, 1938), no testemunho de seus apologistas (FERREIRA, 1957; LEITE, 1955a, 1955b), nas críticas (ABREU, 2000; WREGE, 1993). Quanto à conclusão dos demais a respeito do valor ou não da instituição que nos trouxe a cruz e o alfabeto, a unidade cultural e a reflexão sobre o nosso próprio destino e liberdade, fica articularmos nas linhas que seguem a construção, direta ou indiretamente, de uma educação sexual miscigenada e conflitiva, mas que serviria de base para a formação da sexualidade brasileira dos séculos seguintes.
3 A CULTURA DOS HABITANTES BRASILEIROS NO SÉCULO XVI
E disse a Adão: Porque deste ouvidos à voz de uma mulher e comeste da árvore, de que eu tinha ordenado que não comesses, a terra será maldita por sua causa; tirarás dela o sustento com trabalhos penosos todos os dias de tua vida.
Gêneses: 3,17 (BÍBLIA SAGRADA, 1985, p. 28)
Deve-se atentar, neste momento, para duas linhas de educação sexual que surgem no Brasil no período pré-colonizador que geram na Colônia duas posições antagônicas em relação às práticas sexuais: uma baseada nos deleites sexuais da cultura gentílica e, a outra, trazida pelos jesuítas que, tinham verdadeiro horror pela nudez das índias e a sua liberdade sexual (RAMINELLI, 2004). Pensemos nessa moral jesuítica pela nudez, nessa aversão à conduta feminina. Nóbrega e os outros inacianos não desconfiaram de que era seu próprio Lúcifer que chegava ao Novo Mundo (VAINFAS, 1999). Este era o momento em que trabalho e sexo eram separados na esfera humana, cabendo a figura feminina o local dos prazeres do corpo, do proibido, do mau. O imaginário jesuítico é pautado por idéias divulgadas no Velho Mundo como verdades absolutas, verdades estas encontradas em manuais como Malleus Maleficarum (KRAMER; SPRENGER, 1993) que no início do século XVI era difundido para contenção, identificação e punição do sexo feminino. A mulher torna-se o perigo encarnado (Figura 3), cabendo aos padres a contenção do mau que elas representam. Mais fácil manifestar a fraqueza feminina pelo desejo carnal do que o olhar de cobiça do homem sobre ela. Daí o horror pela nudez das índias, a nudez que corrompe e que leva o homem a cometer os pecados nefandos e mortais aos valores cristãos.
O disciplinamento do corpo é estudado com afinco por Foucault (2007, p. 119). É ele quem diz:
O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto mais útil, e inversamente. Forma-se, então, uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus
comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. [...] A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos dóceis. A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência).
Mesmo falando em século XVI, Michel Foucault (1988, 2007, 2008) é mais do que pertinente em nossa análise já que ao se preocupar com o corpo visa compreender como o poder influencia e é exercido nos microespaços pelos indivíduos e pelos diversos grupos de uma sociedade. Assim, estudar o controle e o processo de normatização das condutas, atitudes e comportamentos das índias, traduz-se em Foucault numa análise apaixonada e cabível, mas que desencanta a sociedade deste período.
Figura 3: Uma feiticeira e seu demônio cavalgando um fálico cabo de vassoura rumo a um sabá (MOLITOR, 1549).
Ainda pautados pelos preceitos e valores cristãos, os jesuítas desprezavam a poligamia indígena tentando impor seus princípios religiosos sobre a sexualidade dos habitantes da terra Brasil. Assim, como observa Ribeiro (2005, p. 05) “a educação sexual, passada informal e naturalmente, sem ninguém pensar que fosse de fato uma educação sexual, de livre que era, ia muito lentamente absorvendo o sentido de pecado que lhe atribui a Igreja Católica”.
Estigmatizadas pelo olhar dos que por aqui passaram, as mulheres, principalmente as índias, nos primeiros relatos e crônicas sobre o Brasil ganharam lugar de destaque no construto literário seiscentista europeu. O apetite sexual descrito pelos cronistas, na maioria jesuítas, era comparado ao desejo das velhas índias tupinambás de comer carne humana, reunindo em si os piores atributos de Eva (RAMINELLI, 2004). A Bíblia já havia representado a mulher como fraca e suscetível. Desde Eva, as tentações da carne e as perversões sexuais surgem do sexo feminino. Os eruditos do final da Idade Média partem comumente da falta de autocontrole para explicar as perversões sexuais das mulheres. Aí está incluído o desejo canibal que, aproxima o ato de beber e comer da cópula. Se a misoginia cristã explica a ligação da imagem feminina à perversão, a teoria da degeneração7 permite entender as características atribuídas às velhas índias.