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IV. BULGULAR VE YORUM

4.2. İkinci Alt Probleme İlişkin Bulgular ve Yorum

A tentativa de caracterização (lógica e epistemológica) da noção de lei natural, circula no pensamento filosófico desde a Antiguidade e foi particularmente discutida no início da Modernidade pelos grandes filósofos-cientistas (Galileu, Descartes, Boyle, Newton etc.), e é de complexidade patente. Há, entretanto, certas características gerais que se esperam serem satisfeitas para a qualificação do predicado “lei científica” a certo enunciado (embora a discussão das questões lógicas envolvidas nesse processo de caracterização seja bastante mais complexa, como mostrou Goodman, e na qual não adentraremos dadas as limitações deste ensaio). A primeira aproximação com o conceito de lei científica (ou lei natural, aqui tomadas como sinônimos) é como um título honorífico aplicado a certas proposições centrais nos diversos braços da atividade científica. Uma observação mais atenta leva à consideração de que as proposições nomeadas leis científicas geralmente se

apresentam (ou potencialmente se apresentam) como condicionais universais do tipo “Para todo x, se x é A então x é B”.

No entanto, mais do que ser simplesmente um condicional universal, as leis (aparentemente) devem apresentar-se como condicionais universais e verdadeiros; isto é, uma aproximação intuitiva do conceito de lei natural parece implicar a demanda de que a proposição em questão deva estabelecer uma relação causal (representada pelo condicional), ser universal e verdadeira. A objeção natural vem da dificuldade (percebida intuitivamente de certo modo) de que não há um método último e eficaz para avaliar a verdade de uma proposição universal que diga respeito a uma realidade empírica qualquer, embora o comportamento médio dos indivíduos, cientistas ou não, seja atribuírem o qualificativo verdadeiro à proposições que servem como componentes de uma inferência preditiva, sejam precisas, etc. Logo, o requisito de ‘verdade’, em um nível de interpretação epistemológica mais refinado, é substituído pelo de “legaliformidade”, isto é, a proposição que se quer uma lei científica deve ter as características acima mencionadas, sendo dispensada apenas da necessidade (lógica ou empírica) de ser verdadeira para ser aceita como tal (os instrumentalistas representam perfeitamente esse tipo de interpretação).

A forma da lei científica deve satisfazer a certos requisitos, tais como universalidade e estabelecimento de relação entre eventos (causal, teleológica, etc.). Esta observação fornece ocasião de mencionar que um requisito básico para encarar uma proposição como lei natural é de que sua universalidade seja objetiva (para certo universo do discurso) em oposição à universalidade acidental (em um universo do discurso determinado) ou a veracidade vácua, como as leis da lógica. As leis naturais devem possuir conteúdo empírico determinável (GOODMAN:1955/1973).

Epistemologicamente, a característica distintiva de um enunciado legaliforme que se pretende lei natural é de que ele deve suportar implicações contrafactuais e subjuntivas. Se a lei natural afirma que “Para todo x, se x é A então x é B”, ela é interpretada (geralmente) como suportando a implicação contrafactual, isto é, não correlacionada com um evento concreto qualquer (observação ainda não realizada ou realizável): “Para todo x, se x tivesse sido um A , então teria sido um B”. Mais ainda, pretende-se que suporte também o condicional subjuntivo (isto é, hipotético): “Para todo x, se x fosse A, então seria também B”.

O importante a ser notado é que a lei natural formula o comportamento de frações da realidade por meio de expressões nômicas que, suportando implicações contrafactuais e subjuntivas, permitem não só a extensão da afirmação presente na lei a frações desconhecidas da realidade

(espacial e temporalmente), como também previsões de casos hipotéticos (e, portanto, a característica geral de previsibilidade em domínios não experimentados). Em conjunto, estas características permitem, conceitualmente, a aplicação da lei no tempo e no espaço, isto é, de certo modo representam a crença metafísica do curso uniforme da natureza (ou melhor, dependem desta hipótese metafísica para que tenha alguma validade preditiva, segundo a formulação ingênua aqui apresentada).

Os cientistas se vêem compartilhando leis naturais. Essas leis, pelo menos algumas delas, podem ser consideradas o núcleo duro do programa? O núcleo duro de um programa de pesquisa, tal como formulado por Lakatos, é um conjunto de proposições irrefutáveis por decisão metodológica, cuja heurística negativa consiste no imperativo de não apontar o modus Tolles (H→ Q e ¬Q ├ ¬H) para estas proposições fundamentais. Observem-se algumas aplicações desta caracterização em estudos históricos já realizados.

Peter CLARK (in HOWSON:1976, p.45), discorrendo sobre a querela entre atomistas e defensores da termodinâmica, assim caracteriza o núcleo duro do programa atomista:

“O núcleo duro do programa de pesquisa atômico-cinético consistiu simplesmente na proposição que o comportamento e natureza das substâncias é o agregado de um número enorme de indivíduos elementares [partículas] muito pequenas e constantemente em movimento sujeitas às leis da mecânica.

O mesmo autor caracteriza o núcleo duro da termodinâmica (p.63):

“há uma relação definida entre a quantidade de calor e o trabalho que de algum modo poderia ser produzido por ele.”

Mais dois exemplos ilustrativos.

MUSGRAVE (in HOWSON: 1976,p.187) assim caracteriza o programa do flogisto na química:

“O programa originado com a afirmação de Becher de que combustíveis continham um ‘princípio inflamável’ que eles liberavam quando sob combustão”

No mesmo artigo (Why did oxygen supplant phlogiston?) Musgrave caracteriza o núcleo duro do programa do oxigênio como afirmando que a combustão é uma reação química que envolve a absorção de oxigênio.

Trata-se em todos os casos de proposições muito gerais que corporificam elementos metafísicos e ontológicos. No entanto, podem ser traduzidas em condicionais universais e geralmente geram condicionais contrafactuais e subjuntivos como acima mencionados, sem perda de conteúdo semântico (pode-se fazê-lo nos seguintes termos: “se x é uma reação de combustão e x produz trabalho (y), então x tem uma relação (R) definida com y”, etc.). Assim sendo, aparentemente, o enunciado da proposição que se apresenta como núcleo duro do programa geralmente não é propriamente pensado pelos criadores do programa como o “núcleo duro” de um programa, mas como uma lei natural, em um sentido lato, na medida em que ela apresenta (ainda que de forma muito geral e metafísica) um modo fundamental de organização de um fragmento da realidade física. O contexto aqui certamente é o da descoberta, mas essa aproximação entre a afirmação de que uma proposição é uma lei natural, na obra científica investigada, e a sua conversão em núcleo duro de um programa de pesquisa permite divisar um critério de identificação na análise histórica: o núcleo duro de um programa de pesquisa será geralmente referido no desenvolvimento do programa como uma lei natural.

A insistência na aproximação entre as noções de núcleo duro e lei natural contêm outro aspecto relevante, do ponto de vista epistemológico. É pouco provável que se aceite qualquer tipo de proposição como núcleo duro de um programa, p. ex., uma lei cujo universo de aplicabilidade seja muito restrito. Embora estas possam ter algumas das características acima mencionadas concernentes à legaliformidade da proposição tomada como lei natural (historicamente o núcleo duro do programa de pesquisa), as proposições fundamentais de um programa devem (aparentemente) possuir virtudes epistêmicas e pragmáticas para se tornarem efetivos instrumentos de desenvolvimento teórico e, portanto, devem possuir características distintivas dentro do conhecimento disponível em determinado tempo.

Por sua vez o poder explicativo, a generalidade nas aplicações e a possibilidade de articulação com elementos empíricos e teóricos já conhecidos, além da explicitação de características ontológicas são elementos indispensáveis tanto às proposições do núcleo duro de um programa de pesquisa quanto de uma interpretação em primeira aproximação da idéia de lei natural, tal como geralmente a caracterizam filósofos e cientistas. É a partir desta simetria (ou pelo menos proximidade) de caracteres epistemológicos entre os conceitos de núcleo duro e lei natural que se propõe a idéia de que o núcleo duro de um programa de pesquisa se constitui de leis naturais.