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2. Bölüm, Araştırmanın Kuramsal Çerçevesi ile İlgili Araştırmalar

2.1. Araştırmanın Kuramsal Çerçevesi

2.1.9. İhtiyaç Kavramına Kuramsal Açıdan Bakış

Ao longo da pesquisa de mestrado (BANDINI, 2003),foi possível observar na IEQ que algumas mulheres redefiniam os espaços que lhes eram reservados, segundo seus próprios interesses e necessidades, criando diferentes modos de aproximação entre lideranças, ‘seguidores’ e ‘seguidoras’. A dissertação demonstrou que o discurso dominante era produzido por um grupo masculino, geralmente portador de capital financeiro, político e familiar.

A IEQ é a única grande Igreja pentecostal fundada por uma mulher. Esta marca de origem associa a denominação à identidade feminina, pois aproximadamente 42% do pastorado é feminino. Atualmente, a IEQ apresenta-se como a Igreja mais receptiva à ordenação de mulheres em condição de sozinhas (solteiras, viúvas ou divorciadas) e menos repressora em relação ao vestuário11. A porcentagem de mulheres na IEQ

corresponde a 69%, enquanto a IURD apresenta 81% e a AD 66% de população feminina. Nos últimos 10 anos, elas têm disputado espaços de poder tidos anteriormente como espaços exclusivos aos homens, exemplificado pela participação de mulheres no Conselho Estadual (entre treze homens) e no Conselho Nacional da Igreja (entre cinco

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Segundo o Instituto de Estudos da Religião (ISER), a porcentagem dos pentecostais que “acham certo a ordenação feminina” é de 46% na AD; 66% na IEQ e 83% na IURD. Contudo, a porcentagem cai quando se refere ao cargo de bispado, pois somente 42% da AD, 57% da IEQ e 68% na IURD acham certo a ordenação de mulheres para o bispado.

homens)12. As mulheres da IEQ contam com o apoio da Igreja para a realização de

encontros femininos - fiéis e pastoras – e para a confecção de material de orientação ao pastorado feminino.Os dados apontam que as práticas das pastoras, que já conquistaram um certo poder, perpassam a ação coletiva no sentido de construir identidades femininas, pois acima de tudo, buscam o reconhecimento da Igreja sobre suas diferentes realidades e necessidades.

Visto que toda história está constituída de relações sociais e de poder, segue uma brevíssima abordagem histórica da origem e formação da IEQ, pois, sem conhecer seu nascimento, é impossível compreender a dinâmica e a especificidade dessa denominação.

O nome “Evangelho Quadrangular” veio de uma revelação à fundadora da Igreja, Aimee Semple McPherson, em 1922, enquanto pregava. O termo, Church of The

Four-Square Gospel, refere-se às quatro qualidades de Cristo: Salvador, Batizador no Espírito Santo, Médico e Rei. Esta denominação destaca-se na caracterização do campo

pentecostal brasileiro porque está muito ligada à idéia da cura física e não somente à cura da alma.

Aimee nasceu no Canadá em 1890 numa família metodista. Um ano depois de sua conversão, aos 18 anos de idade, casou-se com Roberto Semple de quem ficou viúva durante uma missão na China, onde ambos pegaram malária. Com a filha, Aimee voltou para a América e casou-se novamente com Harold McPherson que não gostava de fazer missões. Conta-se nos históricos da Igreja que Aimee passou a se dedicar somente à família até o momento em que teve um sonho, no qual o Senhor lhe perguntava se ela ia pregar ou não. Como respondeu que sim, Aimee recomeçou seu ministério, em 1915 aos 25 anos.

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As conquistas das mulheres da Quadrangular também podem ser notadas fora do Brasil. Assim, como a IURD, ela está presente na Europa e nos EUA. Especialmente em Portugal, as mulheres correspondem a mais de 50% do pastorado Quadrangular neste país. Na cidade de Paris, existem igrejas-sede com mais de dois mil membros administrada por pastoras brasileiras. (Pr Silvio, missionário internacional da IEQ, informação oral).

No Brasil, a Igreja chegou em 1946 com os missionários Hermínio Vasquez e Harold Edwin Willians. Em 1953, eles promovem uma campanha de curas chamada "Cruzada Nacional de Evangelização". No ano seguinte, Willians funda a Igreja da Cruzada, reestruturada em 1955 como a Igreja do Evangelho Quadrangular. Nos anos 1980 já era uma das Igrejas mais expressivas do pentecostalismo. Em 1988, torna-se independente da Igreja de Los Angeles e adquire sua própria editora e gráfica a fim de produzir e distribuir por todo o país o jornal institucional: Voz Quadrangular.

Atualmente, a IEQ possui aproximadamente vinte e três mil pastores para seus dois milhões de membros. Faz-se presente por todo o Brasil com mais de 10 mil Igrejas; 554 programas de rádio; 234 institutos teológicos e cerca de dois mil salões e templos. (Dados do site oficial: www.quadrangularbrasil.com.br)13.

Os cursos de pastorado são oferecidos pelos institutos bíblicos da própria Igreja e podem ser realizados por correspondência, que é inclusive o meio mais utilizado, pois a intenção é generalizar o conhecimento formal entre a liderança. Por meio destes cursos, o obreiro ou a obreira passa a ser um obreiro/a credenciado/a com permissão de realizar batismos, dirigir a santa ceia e ofício fúnebre. Após mais dois anos de estudo, o/a obreiro/a chega ao cargo de pastor ou pastora auxiliar. Nesta função, ele ou ela exerce o direito de auxiliar e substituir, eventualmente, o/a líder da Igreja. Ou seja, a pessoa é praticamente um pastor ou pastora. Porém, somente com mais três anos de estudo, a pessoa pode ser consagrada ao ministério evangélico e exercer o direito de administrar sua própria Igreja e de assumir a Igreja de algum/a, líder quando a superintendência solicitar. Os ministros e as ministras - ou pastores e pastoras - são nomeados pelos superintendentes regionais, que estão abaixo dos presidentes estaduais e nacionais. Em resumo, a carreira do pastorado está na seguinte seqüência: Aspiranteĺ Obreiroĺ Obreiro Credenciadoĺ Obreiro Titular ĺ Obreiro Tempo Integralĺ Pastor

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Somente para situar, a IEQ chegou na cidade de São Carlos em 1964. Atualmente, conta com aproximadamente 25 templos e cerca de 4300 membros.

Auxiliarĺ Pastor Titular. O plano de carreira pastoral não se diferencia para os homens e as mulheres.

O grupo Missionário de Mulheres é o mais ativo e o mais forte da denominação. Sua origem se deu, durante a primeira expansão da Igreja no Brasil, quando os cultos eram realizados em tendas de lona. O grupo começou informalmente com atividades de arrumação do local para os cultos, com trabalhos de evangelismo e de assistência aos carentes por meio de aulas de higiene pessoal, de alfabetização e de preparação de refeições. Atualmente, o Grupo é reconhecido formalmente pela Igreja, realiza suas próprias convenções entre pastoras e seguidoras, além de usufruir grande legitimidade da cúpula, uma vez que, dos frutos deste trabalho é que depende a expansão e a consolidação da Igreja nas comunidades instaladas. O conteúdo do entendimento mútuo entre as pessoas do bairro e a Igreja aí instalado, não pode ser determinado pela liderança, ou seja, a ‘troca’ real de serviços prestados entre esses dois atores não pode ser artificialmente produzido, assim o entendimento é característico na relação Igreja e comunidade. Neste sentido, geralmente, o grupo Missionário de Mulheres realiza na comunidade e para ela trabalhos como:

¾ Assistência social: visitação, doação de cestas-básicas, roupas e remédios. ¾ Campanhas evangelísticas: estas que efetivamente influenciam na

expansão da Igreja

¾ Campanhas para arrecadação financeira: preparação e vendas de jantares, sobremesas, pizzas.

“Elas têm muito mais facilidade de conseguirem o dinheiro porque elas produzem e vendem para a Igreja e para fora. Com isso elas conseguem realizar as atividades de doações de cestas básicas e outras coisas que a Igreja não tem da onde tirar”, justifica o secretário geral da Igreja sobre a importância do trabalho do Grupo de Mulheres.

Durante a produção do contexto histórico da IEQ, as leituras e conversas indicaram-me que o trabalho das mulheres dentro da Igreja e para a Igreja, muitas vezes,

foi ignorado e subvalorizado, não somente no aspecto econômico como também no aspecto político, pois do mesmo modo que não se considera trabalho o “cuidado” com a casa e filhos, acontece com o trabalho voluntário na Igreja. Ou seja, apesar dessas mulheres não receberem nenhum tipo de remuneração pelo trabalho que executam, não quer dizer que sejam menos eficientes que os homens. Acontece que, se estas mulheres parassem de fazer todo o trabalho pelo qual não são pagas, a Igreja perderia uma de suas maiores forças sociais: o vínculo com a comunidade. Todas as instituições religiosas dependem do trabalho, muitas vezes ignorado pela cúpula, que as mulheres executam no dia-a-dia. Contudo, o reconhecimento do trabalho feminino ocorre ou pela visão culturalista ou biologicista, ou seja, a capacidade de trabalho das mulheres está sempre associada à perpetuação da mística feminina ou à concepção física/biológica da mulher reproduzindo práticas discriminatórias do trabalho feminino na sociedade. “A realidade

é que as mulheres sempre trabalharam, embora o termo trabalho tenha sido cada vez mais definido, ao longo dos séculos, como aquilo que os homens fazem”. (HUBBARD,

1999, p.24)

Além do Grupo de Missionárias, as mulheres também estão presentes nas bandas de louvor e na área da educação e recuperação de jovens que usam entorpecentes. Entretanto, nos eventos mais importantes da IEQ, que são as Convenções Gerais, ainda predomina nos discursos a figura masculina. Portanto, os homens permanecem como representantes públicos e legítimos da Igreja e na Igreja14. Em tais eventos, nem mesmo aquelas mulheres que se tornaram pastoras titulares conseguem ocupar espaços de poder e de representatividade. Nos dois Encontros Regionais do Grupo Missionário de Mulheres, um realizado em Araraquara e outro em Ribeirão Preto, a observação participante permitiu identificar que a palestra apresentada como a

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Comprovei na pesquisa de mestrado (2003) que a representação da Igreja nas esferas política e midiática é, predominantemente, masculina. Ou seja, a conotação de poder ainda está associada à figura do homem.

mais importante do evento era de pastores, as demais falas pertenciam às pastoras locais15. Na última Convenção da Igreja, realizada em outubro de 2005 na cidade de Santos, nenhuma pastora conseguiu a oportunidade de discursar. Isso sugere que os critérios para a escolha dos palestrantes foram construídos por pessoas que detêm pensamentos e comportamentos semelhantes à reprodução da desigualdade de gênero nas estruturas de poder da IEQ. A premissa implícita é a de que não convém numa Convenção Geral permitir oportunidade à mulheres cujas idéias e comportamentos não estejam de acordo com o sistema operante, ou seja, de acordo com as convenções sociais estabelecidas.

Também há na IEQ o pastorado itinerante que é a prática permanente de missões em cidades e países diferentes. Esse estilo de pastorado não possui igreja própria nem endereço fixo. A justificativa de não existir pastora itinerante se deve à sua condição de

mulher, pois se está sozinha, a cúpula argumenta que “é perigoso uma mulher fazer

missão sozinha” se está casada “não pode porque tem que cuidar do marido, da casa e dos filhos”. Embora a Igreja, oficialmente e legalmente, não impeça a ordenação de mulheres em condição de sozinhas, na prática, a “ideologia da natureza feminina” continua a encobrir, em graus diferenciados, a capacidade de trabalho e o potencial das mulheres na sociedade (HUBBARD, 1999).

No caso das três Igrejas pentecostais investigadas, o discurso oficial, muitas vezes, reproduzido por homens e mulheres reforça a idéia de que a capacidade de engravidar torna as mulheres fisicamente incapazes de assumir algum tipo de cargo e de exercer algum tipo de atividade, quando comparadas aos homens. Essa noção fortalece a associação entre a dominação masculina e o poder religioso, pois a cumplicidade da própria comunidade e também das mulheres permite que os homens se embasem nestes argumentos para legitimarem suas posições na Igreja, a partir da dita “fragilidade inata”

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das mulheres, e para diminuir a concorrência pelo status religioso. Para Ruth Hubbard, os elementos da “ideologia da natureza feminina” comprovam que os homens não desejam perder o tipo de atenção e os serviços pessoais que ainda estão habituados a receber de suas mães, esposas ou irmãs. Não reforçar essa ideologia, abriria a possibilidade de perderem esse estilo de mulheres, pois o empoderamento permitir-lhes- ia conquistar espaços e direitos, antes usufruídos somente por eles. Contudo, ainda é muito comum encontrar mulheres que, na relação de poder-dominação de gênero se sentem superiores aos homens em relação aos serviços domésticos da casa e da Igreja e também nos “cuidados maternais” prestados à comunidade (crianças, doentes, idosos). Os homens ‘por natureza’ seriam melhores que as mulheres na área administrativa, política e de competitividade da Igreja. Em decorrência, pastoras auxiliares, em condição de “ajuda” de pastores titulares, é o caso da maior parte das pastoras na IEQ. Normalmente, estas pastoras são esposas, noras e filhas de pastores titulares. Segue um quadro ilustrativo dessa desigualdade sexual do trabalho pastoral, segundo as cidades nas quais as pastoras entrevistadas estão exercendo seu ministério16.

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As cidades apresentadas no quadro foram selecionadas a partir da rede de contatos construídos ao longo da pesquisa de graduação, mestrado e pesquisa piloto para a elaboração do projeto desta pesquisa.

QUADRO 1 - Distribuição do Pastorado da Igreja do Evangelho Quadrangular, nas cidades de São Carlos, Araraquara, Limeira e Osasco, segundo a função, gênero e remuneração. Cidade Total de Pastoras Pastora Titular Pastora Auxiliar Pastora Auxiliar Remunerada Total de Pastores Pastor Titular Pastor Auxiliar Pastor Auxiliar Remunerado São Carlos 9 2 7 1 30 19 11 4 Araraquara 2 1 1 0 7 3 4 3 Limeira 1 0 1 1 1 1 0 0 Osasco 37 7 30 10 55 30 25 20

Fonte: pesquisa de campo,2004/2005

O quadro apresenta a realidade de uma denominação fundada por uma mulher e portadora da característica de ser receptiva ao pastorado feminino. Entretanto, o quadro já aponta a existência de uma névoa que encobre a desigualdade de gênero nesta denominação e que será comprovada no decorrer do texto. Já se pode adiantar, que para muitas líderes da IEQ, o reconhecimento da comunidade e a consideração de seus familiares pelo trabalho pastoral transformam-se em motivações profundamente justificáveis e recompensadoras para se continuar a jornada do ministério. Afinal, permitir o êxito das mulheres perante a instituição formal (a Igreja) é, acima de tudo, permitir que elas conquistem autonomia econômica e subjetiva sobre suas vidas e sobre aquilo que elas se propõem a realizar: o ministério evangélico. Ainda são poucos os casos, como veremos no decorrer das trajetórias, de mulheres que conquistaram o nome próprio; ou seja, que não têm seu nome substituído pelo papel desempenhado como esposa, mãe ou filha de uma figura masculina da igreja. Ser reconhecida pelo próprio

nome significa estar de posse de si mesma, ser detentora do poder de usufruir de suas

capacidades de pensar, expressar, agir e de escolher as direções de sua vida. Olhando para a realidade das mulheres pentecostais, torna-se possível verificar suas desigualdades de poder econômico e social, segundo a relação entre homens e mulheres, homens e homens e mulheres e mulheres.

São Carlos, Araraquara e Limeira são cidades com características sociais semelhantes e com números de templos muito próximos. Entretanto, a divisão sexual do

trabalho religioso se apresenta muito mais complexa do que apenas uma reprodução da exploração econômica e simbólica da sociedade mais ampla, por isso a importância da contextualização, não somente da instituição religiosa como também das trajetórias femininas e masculinas selecionadas, segundo a rede de contato construída ao longo desta pesquisa. O presente estudo pretende tirar da invisibilidade figuras femininas que fazem parte do processo histórico e expansionista destas instituições religiosas, pois o exercício do pastorado feminino entre outras atividades exercidas na Igreja guarda uma relação direta entre a construção histórica da dominação masculina e as alterações sociais ocorridas nas relações de poder e dominação de gênero na sociedade mais ampla. Os dados coletados demonstram que na prática várias trabalhadoras de Igreja exercem seus ministérios sem poder de decisão e sem o reconhecimento oficial da cúpula pelas responsabilidades assumidas e exercidas no dia-dia.

Para esse primeiro estudo de caso da IEQ, foram realizadas sete (7) entrevistas, sendo seis (6) com pastoras e uma (1) com esposa de pastor. Ao interagirem em vários campos sociais, estas mulheres foram deslocando e redefinindo a própria trajetória social por meio de feixes de itinerários (BATTAGLIOLA,1991, p.3). Portanto, a construção de suas identidades perpassa o cruzamento de três eixos de poder: classe, raça, gênero e geração.

Os itinerários (familiar, profissional, escolar e conjugal) colocam em evidência os acontecimentos que merecem reflexão e os momentos que exigiram delas uma reorientação de trajetória. Como observaremos a seguir, os acontecimentos familiares têm efeitos diferentes sobre os itinerários de mulheres e homens. As trajetórias apontam os principais acontecimentos que influenciaram em seus itinerários e em suas estratégias no campo do trabalho ministerial.

A primeira trajetória a ser apresentada será de Emília de 73 anos, esposa de pastor superintendente. Ela foi escolhida para esta pesquisa porque sua trajetória

produziu uma marca de esposa de pastor que as mulheres mais jovens, especialmente as esposas que pretendem ser pastoras, tentam não reproduzir em suas trajetórias, a marca da mulher sem nome. O termo “esposa do pastor” refere-se ao pastor que está liderando a igreja local, por exemplo, a esposa do pastor fulano de tal. Já o termo “esposa de pastor” refere-se à mulher casada com um pastor que pode ou não estar liderando uma igreja no momento. As viúvas, por exemplo, continuam com a marca durante muitos anos ou para sempre, reforçando a marca por meio de frases tais como, “ela é viúva de pastor fulano” ou “ela era esposa de pastor fulano de tal”.

A noção de mulher sem nome corresponde à marca que recai sobre as esposas de pastores que não conquistaram determinados espaços na igreja que as possibilitassem adquirirem reconhecimento pelo trabalho desenvolvido publicamente. Sempre associadas como “esposa do fulano de tal”, mulher sem nome refere-se às mulheres que tiveram suas trajetórias demarcadas pela figura do marido, líder da Igreja. Portanto, essa marca resulta de um processo histórico no qual o grupo religioso naturaliza e padroniza essas figuras femininas. Consequentemente, o grupo passa a reproduzir categorias sociais que discriminam as mulheres e impedem sua autonomia.

O depoimento de Emília também se justifica pela categoria idade que possui, uma vez que a pesquisa tem o propósito de analisar o projeto das mulheres pentecostais e o projeto só existe quando há ação com algum objetivo predeterminado. (VELHO, 1980, p.41). A análise das trajetórias evidência o campo de possibilidades das mulheres que percorreram (e ainda percorrem) caminhos tortuosos ao longo de suas vidas, portanto, o enovelamento das categorias sociais também envolve a construção da velhice e os aspectos relativos do envelhecer.

A intenção não é aprofundar a categoria de geração e religião, mas privilegiar os dados coletados sobre essa temática. As diferenças de gênero, classe, religião, raça, assim como de inserção profissional estão, necessariamente, presentes nas construções

das representações e das experiências do envelhecer (CUNHA, 2000 p.11). Essas dimensões são fundamentais porque a representação do tornar-se velho não é homogênea entre os grupos sociais. A geração “tem uma efetividade” nas relações sociais, embora as categorias de idade sejam construções culturais que mudam historicamente (DEBERT, 1998, p.11). No caso das mulheres pentecostais, os aspectos relativos à velhice ilustram as oportunidades que tiveram (e se tiveram) para refletir sobre elas mesmas e até que ponto puderam desenvolver suas capacidades para construírem e/ou realizarem seus próprios projetos.

mília

Nasceu em fazenda, numa família metodista de 7 filhos e estudou até à quarta série do Ensino Fundamental, numa escola rural, pertencente ao município de Getulina, estado de São Paulo17. Seu pai trabalhava em fazenda de café e a mãe realizava o trabalho doméstico e extradoméstico; ou seja, realizava os trabalhos da área interna da casa (limpeza e alimentação) e fora da casa (produção de sabão, horta, criação de suínos e aves), mas “toda a família trabalhava na roça”, relata Emília.

Na minha infância eu já trabalhava. Eu tinha uns 10 anos, chegava da escola e ia pra roça ajudar no cafezal. Eu capinava, rastelava o café, na colheita eu ajudava também. Minha mãe fazia o serviço da casa, depois levava o almoço lá na roça e lá já ficava ajudando também. (...) Hoje em dia, não existe mais isso, não tem mais estas fazendas de café que tinha antigamente. Isso foi há 60 anos atrás. Quando eu tinha uns 17 anos, meu pai comprou uma casinha na cidade e nós fomos morar na cidade de Getulina.

A dominância paterna, característica típica de grupo rural, não excluía a mãe de Emília da iniciativa de buscar autonomia, quando executava as tarefas domésticas. Ou seja, além do trabalho doméstico improdutivo (o cuidado da casa e das crianças), sua mãe também realizava o trabalho doméstico produtivo (criação de aves, suínos, horta,

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Os dados de Emília foram coletados no primeiro semestre de 2005. Algumas visitas foram necessárias para se estabelecer um laço de confiança entre a pesquisadora e a depoente, antes do registro