Compreendemos com Machado (1994), Martins e Bicudo (1989), Garnica (1997) e Negrine (1999) que, em pesquisas de natureza qualitativa, pesquisador/a e pesquisado/a buscam por que interrogam e não explicam a coisa como ela se apresenta. A preocupação não é com os fatos, mas com o significado dos eventos para as pessoas envolvidas na pesquisa; e o que sustenta o próprio pensamento que se tem das coisas é a condição de estar-no-mundo.
Pesquisadora e educadora na construção de uma práxis musical dialógica intercultural no PEF, após ter realizado a investigação temática para o levantamento da Música Geradora, com autorização em termo de consentimento livre e esclarecido das pessoas envolvidas, as quais foram organizadas em três grupos, a saber: educadores/as127 (APÊNDICE 4), participantes colaboradores/as (APÊNDICE 2) e seus responsáveis (APÊNDICE 2), passamos ao momento da coleta de dados nesta pesquisa. Esse momento, o desenvolvimento da Música Geradora (tematização e problematização), constituiu-se no processo de construção- reconstrução, no qual os acontecimentos foram criteriosamente descritos em diários de campo.
Todos os procedimentos adotados, dentre: entrevista aberta, pergunta, situações diálogo e conversas espontâneas, registros fotográficos, audiovisual e visual (desenhos e textos escritos), apresentação musical e viagem, foram rigorosamente registrados em diários de campo e os discursos coletados foram, em sua totalidade, transcritos na íntegra para realização da análise fenomenológica. Observamos que as transcrições, por vezes, possuem erros do ponto de vista da língua portuguesa padrão, pois foram mantidos tanto os textos escritos quanto as falas originais dos depoentes, conforme suas pronúncias, ou seja, manteve- se o discurso ingênuo, entendido como dado genuíno ou original (GONÇALVES JUNIOR, 2008).
Tendo em vista a convivência e o fácil acesso da pesquisadora, também participante, aos/as participantes colaboradores/as dessa pesquisa, no que se refere às conversas espontâneas e situações diálogo que aconteceram no decorrer das investigações, elas foram descritas nos diários de campo, por consideramos importante e acreditarmos que essas conversas poderiam contribuir na análise dos dados, já que se tratava do registro fiel realizado pela pesquisadora em relação aos acontecimentos no dia a dia na pesquisa.
De acordo com Silva (2011), os “passeios e conversas” que fazemos com as pessoas com as quais convivemos no ato da pesquisa podem ser procedimentos metodológicos. Em
127 Para o diretor da Escola Bias Fortes foi elaborado um Termo de Consetimento Livre e Esclarecido específico,
seus estudos no Limoeiro128, a autora buscou compreensões a respeito da educação, da identidade, do pertencimento étnico-racial em sociedades multiculturais, observando que: “Palavras, gestos, trejeitos são sempre mais potentes do que se consegue captar. Por isso, somente o convívio com aqueles que os expressam, nos leva a compreensões fecundas” (p. 81).
Em busca de identificar e compreender os processos educativos decorrentes da construção da práxis musical dialógica intercultural no PEF, respeitadas a emergência de situações, a evidência e manifestação expressa da vontade dos/as próprios participantes colaboradores/as, aplicamos uma pergunta aberta (APÊNDICE 7), conforme descrito no Capítulo 4, Item 4.1.6. Tematização e problematização: desenvolvimento da Música
Geradora. De acordo com Lakatos e Marconi (1991), essa pergunta, de ordem pessoal, seria
classificada como pergunta aberta, já que permitiu ao respondente liberdade para expor sua opinião e sentimentos em relação às atividades realizadas no PEF das quais participou.
Freire e Cavazzoti (2007) reforçam o uso desse procedimento metodológico, por acreditarem que a aplicação de perguntas abertas em pesquisas participantes “[...] evitam, ao máximo, sinalizar previamente possíveis respostas” (p. 33). Acrescentam a autora e o autor que abordagens como essas, onde todas as pessoas envolvidas são “agentes na pesquisa”, mostram preocupação dos/as pesquisadores/as em relação à aplicação dos resultados obtidos na pesquisa, os quais devem ser direcionados para a transformação da realidade e o compartilhamento da construção de novos conhecimentos.
Os registros em diários de campo foram considerados um recurso metodológico básico e de extrema importância nesta modalidade de pesquisa. Para Bogdan e Biklen (1994), os diários de campo são “[...] o relato escrito daquilo que o investigador ouve, vê, experiencia e pensa no decurso da recolha e reflectindo sobre os dados de um estudo qualitativo” (p.150).
Nesse sentido, o autor e autora afirmam:
[...] as notas de campo consistem em dois tipos de materiais. O primeiro é descritivo, em que a preocupação é a de captar uma imagem por palavras do local, pessoas, ações e conversas observadas. O outro é reflexivo – a parte que apreende mais o ponto de vista do observador, as suas idéias e preocupações. (1994, p.152).
Ressaltamos que os registros em diários de campo foram realizados em turno imediatamente posterior às situações vivenciadas, ou seja, os encontros aconteceram em geral
128 Sugestão de leitura: SILVA, Petronilha Beatriz G. Entre o Brasil e África: construindo conhecimento e
no período matutino e os registros eram realizados no período vespertino. Quando não, a escrita dos diários era feita em tempo cronológico o mais próximo possível da realização das atividades, em busca de descrever as situações vivenciadas, evitando ao máximo deixar de relatar os acontecimentos percebidos e observados, considerados importantes e sem fazer juízos de valor. Entretanto, sem deixar de colocar as observações pessoais, sabendo-se que até mesmo as descrições que fazemos não estão isentas de nossa interpretação, usamos nos diários de campo, sempre que necessário, notas de Comentários do Observador (C.O.).
O momento da coleta de dados, com posterior análise ideográfica e análise
nomotética129 – uma modalidade fenomenológica de condução de pesquisa que parte da
análise do individual para o geral, discussão que faremos a seguir – aconteceu no período de
primeiro de outubro a doze de dezembro de 2012, momento caracterizado pelo passo a passo da construção-reconstrução da Música Geradora, o dia a dia problematizador de uma práxis musical dialógica intercultural realizada no PEF. Desse modo, os diários de campo analisados, representados pelas letras iniciais de suas palavras (DC), somaram um total de trinta e três, os quais foram enumerados por algarismos romanos (APÊNDICE 1).
Ao longo da convivência, no desenvolvimento da Música Geradora, além dos registros em diários de campo como principal recurso metodológico de coleta de dados nesta pesquisa, usamos registros fotográficos, filmagens130 e desenhos, por acreditarmos que tais procedimentos pudesem nos auxiliar na ilustração, bem como em novas e outras formas de olhar as mesmas situações vivenciadas e, por isso, investigada.
Nos diários de campo foram sistematicamente descritas as relações entre as pessoas envolvidas nesta pesquisa (pesquisadora e demais educadores/as, participantes colaboradores/as e seus pais/mães e pessoas reponsáveis) e as situações vivenciadas, bem como as entrevistas realizadas e as conversas espontâneas. Com posterior análise e reflexão dos dados coletados, em busca de estabelecer uma compreensão entre eles, foram levantadas as unidades de significado, as quais foram sublinhadas e enumeradas uma a uma em ordem sequencial em algarismos arábicos, representando, assim, o ponto de partida para a análise dos dados coletados.
Nesse sentido, Martins e Bicudo (1989) observam que esse momento em que o pesquisador/a busca evidenciar as unidades de significado nos diários de campo caracteriza-se
129 Sugestão de leitura: MARTINS, Joel; BICUDO, Maria Aparecida V. A pesquisa qualitativa em psicologia:
fundamentos e recursos básicos. São Paulo: Moraes, 1989.
130 As filmagens em geral, mas principalmente aquelas referentes aos momentos da pesquisa que provocaram
curiosidade epistemológica e, muito particularmente, a apresentação da Música Geradora, foram realizadas com a finalidade de arquivo, tanto para a apresentação dos resultados à comunidade participante, Devolutiva, como para eventuais apresentações em eventos científicos.
por sua “[...] procura [de] colocar-se no lugar do sujeito e tentar viver a experiência vivida pelo sujeito, de forma que ele não seja um mero espectador, mas alguém que procura chegar aos significadores atribuídos vivencialmente” (p. 95). Essas unidades são compreendidas como respostas para as interrogações, momentos que se distinguem na totalidade do discurso contido na descrição dos diários de campo.
De tal forma que, após diversas leituras dos registros nos diários de campo, ao percebermos unidades significativas, que não se constituem como unidades fechadas ou rígidas em sua indicação, mas representam a possibilidade de outros questionamentos e indicação de diferentes significações para outros/as pesquisadores/as, essas unidades foram primeiramente reduzidas, redução fenomenológica131, que é a busca da essência de cada unidade, e em seguida agrupadas em categorias temáticas, organizadas a posteriori na matriz nomotética, de inspiração fenomenológica (MARTINS; BICUDO, 1989; GONÇALVES JUNIOR, 2008), objetivando movimento intencional em busca da essência do fenômeno pesquisado.
Segundo Gomes (2004):
As categorias são empregadas para se estabelecer classificações. Nesse sentido, trabalhar com elas significa agrupar elementos, idéias ou expressões em torno de um conceito capaz de abranger tudo isso (...). As categorias podem ser estabelecidas antes do trabalho de campo, na fase exploratória da pesquisa, ou a partir da coleta de dados (p.70).
Dessa forma, as unidades de significado foram levantadas, reduzidas e organizadas em categorias, ordenadas a partir da coleta de dados. Concordamos com Machado (1994), ao afirmar que a análise ideográfica e nomotética contribuem com pesquisas de natureza qualitativa por possibilitarem que o tema seja circundado, em busca de compreender o fenômeno e não explicá-lo. Os mundos pesquisadora/pesquisado (a) se interpenetram, possibilitando “[...] acesso ao mundo-vida e ao pensar do sujeito” (p.41). Compreendendo-se as divergências e as convergências, sem universalizar, parte-se do individual para o geral, o que é mais que uma verificação de resultado, mas uma profunda reflexão sobre o fenômeno.
Apoiados em Gonçalves Junior (2008) e com base nos dados obtidos por meio dos instrumentos metodológicos usados, podemos considerar que nesta pesquisa aconteceram as seguintes fases: redução fenomenológica (APÊNDICE 11), matriz nomotética (QUADRO 9),
131 Para Martins e Bicudo (1989, p. 40): “Há quatro momentos distintos na análise em F”, Fenomenologia, que
são: 1) leitura da descrição ingênua [...] ; 2) leitura em busca de levantar as unidades de significado; 3) transformação de cada unidade de significado, passando do discurso ingênuo para o discurso psicológico ou educacional; 4) busca da essência ou da estrutura de cada unidade de significado. Por isso, o uso do termo redução fenomenológica.
construção dos resultados, Capítulo 5. Para o autor, a matriz nomotética é um movimento do individual para o geral, no qual há uma compreensão das proposições individuais e suas possíveis convergências, divergências e idiossincrasias (asserção eventualmente encontrada em apenas uma das descrições) com as proposições das demais pessoas envolvidas.
Nesse sentido, feita a análise ideográfica, cada unidade de significado foi reduzida (redução fenomenológica), passando-se à construção da matriz nomotética. A redução fenomenológica é apresentada em quadros, cada qual referente a um diário de campo com respectivo número, representado em algarismos arábicos132, e data, colocados no lado superior esquerdo. Cada quadro é dividido em duas colunas, sendo que: à esquerda são apresentadas as unidades de significado, acompanhadas uma a uma de uma letra alfabética maiúscula, que representa a categoria à qual esta unidade foi analisada, seguida por um número arábico, que auxilia sua localização na matriz nomotética.
Já a matriz nomotética (QUADRO 9) se compõe de um quadro, dividido em colunas, assim: à esquerda, em sentido vertical, estão os diários de campo, identificados e representados em sequência por algarismos romanos e, no lado superior direito, as categorias, representadas por letras alfabéticas, e as unidades de significado encontradas, expostas em algarismos arábicos nos espaços de interseccção entre os diários de campo e as categorias. Na ocorrência de “divergência” de compreensão referente àquela categoria por parte de alguma das pessoas envolvidas haverá a letra “d” ao lado do número que representa a unidade de significado do referido participante colaborador/a, seu responsável, ou educador/a. Na ocorrência de idiossincrasias, identificadas, segundo Martins e Bicudo (1989), quando as evidências “[...] indicam disposições individuais que fazem com que o sujeito reaja de maneira muito pessoal à ação dos agentes externos” (p. 108), essas serão representadas pela letra “i”.
Ressaltamos que as categorias, as quais emergiram na análise dos dados coletados, não se constituem em algo estático e isolado. Ao contrário, elas se “[...] sobrepõem e tingem umas às outras com nuanças de significado” (McLAREN, 1991, p. 37), já que tratamos de pesquisa em Educação, envolvendo seres humanos, aqui muito especificamente seres humanos envolvidos na construção-reconstrução de uma práxis musical dialógica intercultural.
Nas considerações finais apresentamos a construção dos resultados, última fase da pesquisa na abordagem fenomenológica, construída diretamente nos dados da matriz
132 Nesta pesquisa, usamos algarismos arábicos para identificar os diários de campo na redução fenomenologia
por compreendermos que o uso de numerais arábicos simplificam as compreensões. Entretanto, na matriz nomotética, os diários de campo foram identificados por algarismos romanos, de modo a não se confundir com as unidades de significado (US), as quais foram representadas por algarismos arábicos.
nomotética. Assim sendo, podemos considerar que, em pesquisas dessa natureza, onde as pessoas envolvidas são todas participantes, responsáveis pela construção de uma práxis musical dialógica intercultural, “[...] enquanto sujeitos que pesquisam juntos, e neste ato humanizam-se e firmam-se cidadãs e cidadãos” (OLIVEIRA et al., 2014, p.35), podem, também, construir coletivamente significados que possibilitam oferecer oportunidades de crescimento e formação a cada uma dessas pessoas.
De modo a identificar e compreender os processos educativos decorrentes da construção de uma práxis musical dialógica intercultural no PEF, passaremos à construção dos resultados, analisando e discutindo os dados obtidos por meio dos procedimentos metodológicos adotados nesta pesquisa, conforme descritos anteriormente.