Nesta categoria organizei indicadores diretos que permitem perceber, por quantificações, expressões do desenvolvimento econômico e social. No entanto, após a descrição destes, apresento quatro subcategorias gerais para a interpretação do desenvolvimento, a partir da contribuição de Arocena (2004). Mas apesar de priorizar a análise a partir das categorias indicadas a seguir, busquei refinamento nas ideias de territorialização e desterritorialização, de Haesbert (1999), e de verticalização, horizontalização, forças centrífugas e centrípetas, de Santos (1998).
5.2.1 A subcategoria desenvolvimento econômico e social
Em termos econômicos, as referências habituais não serão desconsideradas, mesmo que se restrinjam à aferição de crescimento econômico. Neste caso, será consultado o Produto Interno Bruto (PIB) e sua variação per capita, que embora não meça além de aspectos monetários, servirá de referência às contraposições em termos sociais. Nesta dimensão serão buscados dados da produção local nos diferentes setores de sua ocorrência, seja no ambiente rural ou urbano, assim como as arrecadações da administração pública do município. Adicionalmente, e visando complementar mudanças de crescimento no conjunto do município, indicadores de consumo de energia serão consultados (residencial, industrial, comercial e de serviços).
No que se refere ao desenvolvimento social, serão considerados indicadores coerentes com as medições do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da PNUD. Pois este, além de informar sobre a riqueza (PIB per capita), alcança indicadores de longevidade (condições de saúde da população, como a mortalidade perinatal) e de educação (taxa de analfabetismo adulto e percentual de matrículas no ensino fundamental).
Pelas indicações é possível perceber que o desenvolvimento pode ser medido somente pelo IDH, uma vez que este abrange tanto o parâmetro econômico quanto daqueles
relacionadas à dimensão social. Ademais, é um índice consultado em fontes secundárias de fácil acesso. O que pode complementar a avaliação da qualidade do desenvolvimento do local estudado são as condições de saneamento e habitação, assim como a relação entre população ocupada e desempregada.
Adicionalmente, outros três indicadores serão considerados como complementares para a percepção do desenvolvimento local. Mantendo clara e direta relação com modificações na realidade local, são eles:
• Infraestrutura: estrutura necessária para acesso físico ao município, assim como as condições materiais necessárias à organização produtiva local, como as condições da terra, as culturas animais e vegetais e a própria organização das empresas do arranjo, suas máquinas, equipamentos, matérias-primas e espaços;
• Consumo de energia: residencial, industrial, comercial e serviço;
• Disponibilidade de capital: exigências para concessão de crédito, inclusive garantias, a existência de subsídios, as taxas e o tempo concedido ao retorno do pagamento, ou seja, a política de concessão de crédito às empresas locais, assim como sua natureza, pública, privada ou terceiro setor, nacional ou internacional.
5.2.2 A subcategoria modos de desenvolvimento
Assumir que há modos de desenvolvimento significa que regularidades suficientes foram observadas para que fosse possível tal diferenciação. Como conceito central, os modos de desenvolvimento são as diferentes formas assumidas pelas estruturas sócio-econômicas dos territórios locais nas últimas décadas, decorrentes de dinâmicas de relações sociais locais.
Neste nível de análise, é fundamental reconstituir os processos de desenvolvimento local atento às lógicas que fundamentaram as grandes transformações. Distintas modalidades são possíveis a partir das diferentes articulações produzidas ao longo da história na estrutura sócio-econômica de cada local. A variável de referência é o grau de integralidade do desenvolvimento.
Assim, é a partir do grau de articulação das distintas dimensões dos processos de desenvolvimento que se torna possível diferenciar os modos em que se manifestam.
5.1.2.1 Modo de desenvolvimento integral
Nestas áreas, foi desenrolado um processo de desenvolvimento que permita a integração de múltiplas dimensões, quando realizações econômico-produtivas estão articuladas com aspectos sociais e culturais. São presentes interações que tornam possível uma visão global da sociedade local. Conforme explica Arocena (2004, p. 30), o êxito do processo de desenvolvimento local está fortemente associado ao caráter integral do mesmo.
5.2.2.2 Modo de desenvolvimento de incipiente articulação
Neste ponto são contemplados os casos possíveis de perceber locais que mostram sinais de estarem orientados rumo a um processo integral de desenvolvimento, mas que em determinado momento apresentam decomposições. É um caso híbrido, pois são visíveis os sinais de integralidade e os vestígios de dissolução.
Segundo Arocena (2004, p. 30), nestas ocorrências há a tendência à integração a partir da incorporação de um novo ciclo produtivo com potencial significativo para o desenvolvimento local, gerando uma dinâmica que pode vir a significar um desenvolvimento integral. Como em sua fase inicial a possibilidade de gerar um projeto local articulado é pequena, torna-se fundamental a presença e ação de um agente imbuído da concepção de desenvolvimento integral.
5.2.2.3 Modo de desenvolvimento desarticulado dual
Há, ainda, localidades marcadas por formas de desenvolvimento com a presença da dualidade entre um polo economicamente dinâmico e uma realidade social fortemente desarticulada. Geralmente, a economia local conta com processos de acumulação importantes, com complexos agroindustriais e/ou industriais cujo crescimento está relacionado com fatores exógenos. Portanto, o destino dos excedentes não necessariamente se volta para a sociedade local estimulando a geração direta de serviços e comércios, mas reverte-se ao próprio complexo produtivo ou direciona para espaços extralocais.
Outra manifestação comum são realidades justapostas – (rural-urbana) – com baixo nível de intercâmbio, uma vez que costuma se tratar de produção de commodities destinada à
indústria de processamento ou a outros mercados. Os vínculos dessas indústrias com a sociedade local é mínimo, mantendo seu desenvolvimento em paralelo sem que haja pontos de contato significativos com aquela sociedade.
5.2.2.4 Modo de desenvolvimento desarticulado
Em uma expressão oposta ao que define um modo de desenvolvimento integral desarticulado estão presentes várias atividades de pequena envergadura que coexistem sem uma organização que os alinhe, que os dê uma ordem de convivência. Assim, cada uma das dimensões do desenvolvimento – econômica, social, cultural – tomam caminhos distintos, gerando uma grande dispersão de pequenos esforços.
Como revela Arocena (2004, p. 31), a partir de suas observações, em alguns dos casos estudados coexistem atividades diversas de maneira desconexa como o turismo marginal, o contrabando, a criação de animais de pequena escala, pequenos armazéns, a apicultura artesanal, o microcomércio, etc. Por outro lado, em uma linha totalmente separada, desenrolam-se atividades sociais e culturais de certa relevância. Um conjunto que não constitui um sistema capaz de apresentar um projeto integral de desenvolvimento.
Encaixam-se ainda neste caso aquelas pequenas cidades rodeadas de grandes extensões de terra, cujos proprietários não destinam os excedentes ao local, minando a capacidade da estrutura produtiva local converter-se em um num processo articulador. Em tempo, esta situação diferencia-se do desenvolvimento desarticulado dual pelo fato dos proprietários de terras, aqui considerados não terem, necessariamente, em suas propriedades, produções dinâmicas. A barreira que geram ao desenvolvimento articulado local diz respeito ao domínio da terra enquanto meio de produção e valor.