A montagem da matriz estrutural, através do modelo URCA, é feita da seguinte forma: a primeira linha e a primeira coluna da matriz são utilizadas para
definir quais variáveis são consideradas no estudo. Em seguida, toma se a primeira linha questionando se a variável da linha tem influência na primeira variável da coluna respectiva. A ordem da influência é, portanto, da linha sobre a coluna. Neste caso, a primeira variável está na diagonal, que não deve ser preenchida (a diagonal é vazia, pois uma variável não influi em si mesma).
Na primeira linha toma se a segunda coluna, portanto casa (1,2), e se pergunta se a variável em linha influi na variável em coluna. As respostas possíveis a esta pergunta são:
SIM: Na matriz URCA, em linguagem natural, a influência é denominada Unidirecional, da linha para a coluna. Coloca se U na casa (1,2) e o modelo automaticamente impõe na matriz booleana casa (1,2) = 1 e casa (2,1) = 0.
NÃO: Na matriz URCA não existe a influência, ela é Ausente, e coloca se A na casa (1,2), ou deixa se a casa vazia. O modelo impõe na matriz booleana, casa (1,2) = 0.
RECÍPROCA: A influência é da variável em coluna sobre a variável em linha, a influência é denominada Recíproca. Na matriz URCA coloca se R na casa (1,2) e o modelo automaticamente impõe casa (2,1) = U. O modelo impõe na matriz booleana casa (1,2) = 0 e a casa (2,1) = 1.
CIRCULAR: A variável em linha influi na variável em coluna e vice – versa.
Se a influência é Circular (C), na matriz URCA, coloca se C na casa (1,2) e o modelo automaticamente impõe casa (2,1) = C. Na matriz booleana o modelo impõe casa (1,2) = 1 e a casa (2,1) = 1.
Adaptado de Marques, 2007
Esta é a origem do nome URCA, dado ao modelo. No preenchimento, como se viu, começa se pela matriz URCA em linguagem natural e, ao invés de se escrever os números 0 ou 1, escreve se a letra que corresponde à influência. Trabalha se apenas com a parte superior da matriz, pois o modelo preenche automaticamente a parte inferior, reduzindo à metade o trabalho de seu preenchimento e evitando erros na alocação dos números. O modelo URCA transforma automaticamente a notação literal U, R, C, A em 0 e 1, gerando a matriz estrutural booleana, impondo U = 1, R = O, C = 1 e A = O. (Marques, 2007).
A tabela 14, a seguir, demonstra a matriz estrutural preenchida através do método URCA.
Tabela 14 Matriz Estrutural URCA Variáveis do Direito Autoral
Concluído o preenchimento da matriz estrutural pelo modelo URCA, prossegue se à fase em que o modelo CHIVAS hierarquizará as variáveis. Conforme elucidado por Marques (2007), o programa obtém a hierarquização através das potências sucessivas da matriz. A cada potenciação, a matriz desenvolve um aumento do número de influências indiretas possíveis no modelo. Como resultado final, as variáveis serão relacionadas de acordo com a motricidade e dependência entre si, na devida seqüência, analisando as influências diretas e indiretas.
Contudo, a hierarquização traz um agravante: a cada elevação da matriz a potência ocorre uma explosão numérica dos resultados. Como solução para este problema, Marques introduziu um critério de cálculo que conduz a uma matriz estável. Este cálculo é dado pela fórmula a seguir, abrangendo as influências diretas e indiretas.
' ( ) ( ) *
+ ,
' - - )
Conforme prescrito por Marques (2007, pg 36):
É necessário tomar o cuidado para se atenuar o peso dos longos trajetos à medida que a potência aumenta. Esta penalidade permite levar em conta simultaneamente influências de todos os comprimentos, (semelhante à atualização nos cálculos financeiros). O mecanismo de penalidade é introduzido pela divisão da matriz (portanto, de cada uma de suas casas), pela fatorial da potência.
O critério de hierarquização é calculado na matriz estável S resultante da série.
Com a estabilização da matriz, além de não haver o risco da explosão dos resultados, obtém se uma matriz com valores admissíveis, facilitando a análise da matriz potenciada resultada.
Através de um segundo modelo, o CHIVAS (Cálculo de Hierarquização de Variáveis e Análise de Sistemas), calculará a potenciação e hierarquização, passando o conjunto a chamar se URCA/CHIVAS.
De forma hierárquica, o modelo URCA/CHIVAS apresentará as variáveis motrizes do cenário, ou seja, qualquer mudança que ocorra nelas terá grande impacto no cenário, e as variáveis dependentes que sofrem grande influência, ou seja, qualquer modificação no cenário afeta fortemente essas variáveis.
Depois da aplicação do programa URCA/CHIVAS, obtém se a hierarquização, envolvendo influências diretas e indiretas. Baseado no resultado da Tabela 9, a seguir, o programa URCA/CHIVAS hierarquiza as variáveis e seleciona
as de maior relevância para o estudo. Tal seleção é feita através da interpretação da motricidade e da dependência, considerando a média de todas as variáveis. Se uma variável possui motricidade maior do que a média de todas as variáveis e Dependência menor do que essa média, ela é considerada uma Variável Motriz, ou seja, ela é uma das responsáveis pelas mudanças no cenário do Direito Autoral. Se uma variável possui motricidade e dependência acima da média de todas as variáveis, ela é interpretada como uma Variável de Ligação, conhecida também como variável de passagem. Quando a variável possui dependência e motricidade a seguir da média das variáveis, tem se uma variável Dependente ou de Resultado. Na tabela 9, a seguir, são observadas as variáveis hierarquizadas, de acordo com a motricidade e a classificação, respectivamente.
Realizada a hierarquização, observa se claramente o destaque das variáveis oriundas da análise do Diamante da Prospectiva, de manifestação exógena, na tabela 10 escritas na cor vermelha. Contudo, no intuito de depurar a amostragem de variáveis a serem consideradas, Eduardo Marques desenvolveu um método de estipular certo grau de tolerância para a relevância das variáveis estudadas. Com esse método, se escolhe a tolerância percentual da motricidade a ser considerada no estudo, diminuindo assim proporcionalmente o nível da média considerada no estudo.
Conforme tabela a seguir, o grau de tolerância foi de 15%, apresentando 9 variáveis como sendo as mais relevantes para o estudo do cenário do Direito Autoral. Essas variáveis, agora tidas como incertezas críticas, cujos estados futuros definem os cenários alternativos.
Variáveis Condutoras Hierarquizada Motricidade 1 Limitações legais acerca do acesso à obra 42.130,40 2 Busca de Novos Acordos Bilaterais 40.565,30 3 Atuação mais rígida do poder legislativo 38.355,70
4 Crescimento da Classe Média 32.288,30
5 Crescimento Econômico do Brasil 31.370,10 6 Criação de um órgão que fiscalize o ECAD 27.265,10 7 Conhecimento do Poder Judiciário para lidar com o direito autoral 26.320,50
8 “Dom” do autor 23.007,90
9 Catálogo com músicas comerciais (World Music) 22.355,80 Tabela 16 Incertezas Críticas
Tolerância : 15%
Incertezas Críticas
Incertezas críticas são as variáveis importantes para a definição do futuro. Esta fase é essencial, pois depende da percepção do cenarista para avaliar as incertezas mais importantes para o futuro. Com elas, o pesquisador irá criar as bases para construção de uma matriz que vai permitir expressar os cenários para o
futuro. No estudo em questão, as incertezas verificadas como sendo as mais importantes são:
Limitações legais acerca do acesso à obra:
Define o nível de limitação ao qual as obras serão submetidas. Busca de Novos Acordos Bilaterais:
Define a velocidade para o sugimento de novos acordos bilaterais. Atuação do Poder Legislativo:
Define de que forma o Poder Legislativo atuará. Crescimento da Classe Média:
Define a velocidade do Crescimento da Classe Média. Crescimento Econômico do Brasil:
Define a velocidade do crescimento econômico do Brasil. Criação de um órgão que fiscalize o ECAD:
Define se haverá impacto ou não sobre as atividades operacionais do ECAD.
Conhecimento do Poder Judiciário:
Define se haverá ou não impacto sobre o mercado de Direito Autoral. O Dom do autor:
Define o potencial criativo do compositor. Catálogo com Musicais Comerciais: Define se haverá ou não impacto.
A variável que expressa as limitações legais acerca do acesso à obra é a mais importante no estudo dos cenários do Direito Autoral. Ela é uma das principais motivações para o Ministério da Cultura promover o Fórum Nacional do Direito Autoral. Embora a legislação brasileira tenha muita similaridade com a legislação francesa, cuja proteção é voltada para o autor, ela vem sendo constantemente discutida pela classe cultural, que, muitas vezes se vê prejudicada por ter que contribuir com a arrecadação do direito autoral. Cabe ressaltar também que essa é uma variável promovida por um importante ator desse cenário, a ONG Creative Commons, que usa essa variável como argumento para a liberação dos direitos autorais. Os argumentos em prol da liberação de arrecadação para eventos de cunho sócio cultural são plausíveis quando fundamentados na melhoria da
difusão do conhecimento de forma mais democrática, são plausíveis. Contudo, acabam perdendo sua força ao se deparar com leis que protegem os interesses morais e materiais decorrentes de qualquer produção científica, literária ou artística, como visto na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ressalta se também a real possibilidade que o autor tem de liberar a utilização de suas obras para quaisquer fins, desde que comunicada previamente à instituição gestora de seus direitos.
Na defesa dos seus interesses, a ONG Creative Commons também se fundamenta na falha do sistema de proteção dos direitos autorais para os sites que disponibilizam gratuitamente o acesso à diversas obras, enfatizando sua aplicabilidade e funcionalidade em uma tentativa de controlar as liberações. Tal argumento é falho, pois o problema não está em 'controlar as liberações', mas sim, em controlar a inadimplência desse tipo de usuário, o que justifica inclusive, o destaque da variável que considera a atuação do poder legislativo, que será vista mais à frente. Portanto, o avanço tecnológico não influencia na arrecadação dos direitos autorais, o que influencia é a atuação ineficiente do poder legislativo.
Envolvidos com o sucesso da MPB (música popular brasileira) no exterior, muitos artistas brasileiros se dedicam à carreira internacional. Alguns se dedicam de forma parcial, outros se entregam ao sucesso internacional agindo como verdadeiros exportadores da cultura brasileira. Gêneros como o Samba e a Bossa Nova, característicos da cultura brasileira, estão sendo muito bem representado no exterior. Países como Japão, Portugal, Estados Unidos, Inglaterra, Argentina e França, se destacam como maiores ouvintes de música brasileira tanto que, há casos de compositores que possuem arrecadação aparentemente perpétua no exterior, mas não possuem arrecadação no Brasil. Levando se em consideração a relação político econômica entre o Brasil e outros países, entende se claramente o motivo real para os acordos bilaterais representarem tanto nos cenários do Direito Autoral. Os acordos bilaterais impedem que haja bi tributação de imposto de renda para o envio de remessas financeiras entre países diferentes. A bi tributação muitas vezes pode gerar perdas de quase 45% para o país que recebe a remessa, em virtude de taxas bancárias, impostos de transmissão e o expressivo imposto de renda. Logicamente, a ampliação do quadro de acordos bilaterais, representa maior projeção para novos negócios brasileiros no exterior, logicamente, abrindo portas para os artistas brasileiros.
Apontada por profissionais que atuam em associações, a variável que expressa a atuação do poder legislativo ocupa o posto de terceira variável na escala de motricidade como sendo exógena. A atuação do poder legislativo apresenta forte influência no ambiente interno do mercado em estudo, por influenciar na resolução das inadimplências que agravam esse setor. A impunidade das empresas que se beneficiam da obra do autor.
As variáveis que se referem ao Crescimento da Classe Média e o Crescimento Econômico do Brasil representam a influência da prosperidade econômica vivida nos últimos anos. Ambas foram auferidas após a consideração da Pirâmide da Prospectiva, conforme sugerido por Marques (2007). A diferença entre a atuação dessas duas variáveis está sob a atuação sobre variáveis endógenas e variáveis exógenas.
Ainda, com base nos dados das tabelas 15 e 16 construiu se o gráfico de motricidade e dependência a seguir:
Ilustração 10 Gráfico Motricidade X Dependência
O Gráfico Motricidade X Dependência foi introduzido por Godet (1993) com o objetivo de facilitar a visualização gráfica da atuação da variáveis. É nítida a predominância de variáveis motrizes no estudo em questão, contudo, não se pode negar que há também variáveis de conexão, ou seja, que possuem baixa
para permitir o relacionamento de outras variáveis e, logicamente, não poderiam ser desconsideradas, uma vez que pessoas entrevistadas colaboraram.