1.2. İdari Yaptırım
1.2.3. İdari Yaptırımların İdari İşlem Teorisi İçerisindeki Yeri
Após o Prólogo, a primeira parte de Assim Falava Zaratustra é constituída, predominantemente, pelos discursos do personagem aos seus pretensos seguidores, sendo que, dentre os mais significativos, se encontra o primeiro discurso, “Das três metamorfoses” (Von den drei Verwandlungen). A compreensão desse discurso é fundamental para o entendimento da estratégia assumida pelo personagem nos discursos da primeira parte225. O personagem fala sobre três metamorfoses do espírito (Drei Verwandlungen des Geistes): a transmutação do espírito em camelo, de camelo em leão e de leão em criança. Zaratustra não diz como ocorre a primeira metamorfose, o que, segundo Lampert, significa que para o personagem somente as outras duas transmutações tem valor para aqueles que serão seus seguidores. Dessa forma, as qualidades do camelo não estariam entre aquelas que o ensinamento de Zaratustra inicialmente prescreve, pois as disposições que procura gerar é a destruição e a criação226. O camelo simboliza o “espírito resistente” (tragsame Geist), aquele que mede suas forças pelas cargas que pode suportar, por isso deseja a carga, quer o peso para provar a si mesmo sua força. O camelo representa a reverência àquilo que ja foi criado, sua força reside na submissão aos imperativos morais estabelecidos pela tradição. O espírito como camelo “ruma carregado para o deserto”, o ambiente onde ocorre a segunda metamorfose, de camelo em leão. O espírito que se transmuta em leão “quer capturar a liberdade e ser senhor em seu próprio deserto”. O leão procura pelo seu derradeiro senhor e quer
muitos, no discurso público. Nesse caso, é como se “o baixo-contínuo de todos os discursos fosse: “este sou eu, isto sou eu que digo, pensem disso o que quiserem!”. O tom da fala deve manifestar que aquele que se dirige a muitos é o mesmo sempre, deve fazer lembrar em todo o desdobrar do discurso que este emana de um eu estável cuja identidade pode ser apreendida por todos. Um discurso que se projeta a um auditório universal requer a mortificação das características expressivas individuais do falante.
225 Na abordagem de Lampert, “Das três metamorfoses” é como um Prólogo que apresenta o caminho que percorrerão os próximos
discursos. A partir disso, o intérprete divide os dicursos do primeiro Zaratustra a partir da sequência das transmutações do espírito apresentada nesse primeiro discurso. Neste sentido, existe um primeiro grupo de discurso, de “Das cátedras da virtude” à “Do ler e escrever”, que retratam o espírito como camelo, o oitavo discurso, “Da árvore na montanha”, representa uma transição para o segundo grupo, que se estende de “Dos pregadores da morte” até “Do amigo”, retratando o espírito como leão, e, por fim, o terceiro grupo de discursos, de “Do amor ao próximo” à “Da virtude dadivosa”, retratando o espírito como criança, para os quais o discurso “Das mil metas e uma só meta” realiza uma transição. Cf. LAMPERT, 1986, p. 31-77
226Cf. LAMPERT, 1986, p. 33. Para Lampert, o camelo simboliza o espírito heroico e antecipa o primeiro conflito de Zaratustra com o espírito de gravidade. Quando Zaratustra diz que o camelo ruma carregado para o deserto, o personagem estaria apontando para a necesisidade de destruirmos aquilo que reverenciamos para que não se torne um fardo pesado demais. Porém, o camelo ainda não tem essa disposição para a destruição. A difícil consciência que pertence ao camelo como camelo leva o espírito a transformar-se em leão.
tornar-se seu inimigo, pois quer ser senhor de si mesmo. Seu inimigo é um dragão chamado “Tu deves” („Du-sollst“)227, que representa os valores milenares e estabelecidos pela tradição.
Valores milenares brilham nessas escamas, e assim fala o mais poderoso dos dragões: “Todo o valor das coisas brilha em mim. “Todo o valor já foi criado e todo o valor criado - sou eu. Em verdade, não deve mais haver ‘Eu quero’!” Assim fala o dragão58. (Za/ZA “Das três metamorfoses)
O leão trava uma batalha no deserto com seu derradeiro senhor, o dragão “Tu deves”. ““Tu deves” chama o dragão, mas o leão diz “eu quero””228. Realiza-se então, o embate entre a vontade
do dragão e a vontade do leão. O valor e a força daquilo que já foi criado são expressões da vontade do dragão. Podemos dizer que por meio da figura do dragão, o problema do passado começa a ser introduzido em Assim Falava Zaratustra. O personagem aponta para a importância do enfrentamento do problema do tempo para o projeto de transvaloração dos valores. No entanto, é somente no segundo e terceiro livros que este problema começa a ser formulado e enfrentado, não pelos discípulos, mas pelo próprio Zaratustra. Nesse contexto o acento é a conquista da liberdade para novas criações, para a qual é necessário que o espírito como camelo se transmute em leão. Ao contrário do leão, o camelo representa o espírito que se inclina a uma ordem previamente dada de valores herdados do passado, valores milenares. Dessa forma, como diz Zaratustra, aos olhos desse espírito da suportação, a atividade do leão se apresenta como “a mais terrível aquisição”, pois não consegue “criar a liberdade para a nova criação”, “criar liberdade para si e um sagrado Não também ante o dever”. Dessa forma, para criar essa liberdade é necessário o espírito como leão. No entanto, esse movimento também não é suficiente para que efetivamente novos valores sejam criados, é necessário então que o espírito se transmute em criança. Diz Zaratustra: “Inocência é a criança, e esquecimento; um novo começo, um jogo, uma roda a girar por si mesma, um primeiro movimento, um sagrado dizer “sim””229. O espírito como criança
possui em si as potencialidades para um novo ordenamento do mundo, a inocência e o esquecimento, caracteriza um novo começo através da substituição da velha ordem regida por valores metafísico-morais, por uma nova dinâmica de instauração dos valores regida pela legislação do jogo. Essa metamorfose é necessária porque o espírito não quer somente conquistar sua liberdade, mas também “quer agora a sua vontade”, por isso é necessário dizer sim ao “jogo da criação” (Spiele des Schaffens).
227 Paulo César de Souza traduz a expressão Du-sollst por “Não-fará”. Nesse caso, acompanharemos a tradução proposta por Mário
da Silva.
228“„Du-sollst“ heisst der grosse Drache. Aber der Geist des Löwen sagt „ich will“”.
229 “Unschuld ist das Kind und Vergessen, ein Neubeginnen, ein Spiel, ein aus sich rollendes Rad, eine erste Bewegung, ein heiliges
Na caracterização da última metamorfose do espírito, Zaratustra evoca a criança de Heráclito, que rege inocentemente o tempo como quem brinca de construir e destruir castelos. Como diz o filósofo de Éfeso: “Tempo é criança jogando, brincando. Reinado de criança” (HERÁCLITO.
Fragmento 52 DK). A criança com seu jogo caracteriza o tempo como Aion, não demarcado pelas fronteiras do passado, presente e futuro, não mensurado (Chrónos), um tempo compreendido como destino, do nascimento e da morte, do vir-a-ser e do perecer, da criação e da destruição. Nietzsche em A filosofia na época trágica dos gregos (Die Philosophie im tragischen Zeitalter der Griechen), escrito de 1873 publicado postumamente, recupera essa associação de Heráclito entre o Aion e a criança que brinca de construir e destruir castelos, em inocência sempre igual. Assim como o artista, a criança se encontra na dinâmica do construir e destruir através do jogar/brincar, sem nenhuma imputação moral, onde a destruição potencializa a criação230. A ligação entre a criança e o esquecimento e sua articulação com a discussão acerca da temporalidade aparece na segunda extemporânea. Como afirma Nietzsche nessa obra redigida em 1873, assim como o
animal, a criança vive imersa no esquecimento, desconhecendo ainda o enfado e a melancolia, o
que causa inveja ao adulto, que a arranca muito cedo desse estado, fazendo com que ela aprenda a entender precocemente “a expressão “foi”, a senha através da qual a luta, o sofrimento e o enfado se aproximam do homem para lembrá-lo o que é no fundo a sua existência - um imperfectum que nunca pode ser acabado” (HL/Co. Ext.II, 1). No período de juventude, essa ênfase nietzschiana no jogo do Aion estava comprometida com o conceito de dionisíaco, assim como também essa menção à figura da criança, conforme aparece na segunda extemporânea, estava vinculada à crítica ao sentido histórico. Em “Das três metamorfoses”, porém, como defende Fink, Nietzsche não está
se referindo ao “jogo do fundo original que cria e destrói o mundo dos fenomenos”, e sim ao “jogo da avaliação do homem, a criação lúdica de mundos de valores” (FINK, 1969, p.77). A abordagem nietzschiana do sentido histórico também se modifica ao longo do segundo período.
Essa retomada da figura da criança para simbolizar a terceira transmutação do espírito no texto de Zaratustra, caracterizando-a como uma roda que gira por si mesma, é o que mais se aproxima de uma alusão ao pensamento do eterno retorno na primeira parte da obra. O próprio Nietzsche afirmará mais tarde, em Ecce Homo, que Heráclito poderia ter sido o mestre do eterno
230 “Neste mundo, só o jogo do artista e da criança tem um vir à existência e um perecer, um construir e um destruir sem qualquer
imputação moral em inocência eternamente igual.(...) E, assim como brincam o artista e a criança, assim brinca o fogo eternamente activo, constrói e destrói em inocência - e esse jogo joga o Aión consigo mesmo. Transformando-se em água e em terra, junta, como uma criança, montinhos de areia à beira-mar, constrói e derruba: de vez em quando recomeça o jogo. Um instante de saciedade: depois, a necessidade se apodera outra vez dele, tal como a necessidade força o artista a criar .” (NIETZSCHE, 1995, p.49-50).
retorno231. Pode-se então concluir que esse discurso contém uma antecipação da própria trajetória de Zaratustra. Porém, é importante salientar que na primeira parte, além de ser apenas insinuada e esboçada nas metáforas utilizadas, essa trajetória é apresentada em um discurso para aqueles que potencialmente se tornarão os discípulos de Zaratustra. Como observa Lampert, com o objetivo de fazer discípulos, esse discurso define não a tarefa, mas a disposição necessária para a tarefa para aqueles aos quais falta tal disposição232. O objetivo do discurso é gerar uma determinada disposição de espírito em seu auditório. Isso significa que Nietzsche em um primeiro momento não está indicando ser esta a travessia de Zaratustra, e sim o processo pela qual deve passar aqueles que se tornarão seus companheiros de criação. Nisso, porém, reside a grande mudança que se assiste a partir da segunda parte da obra. Nas partes subsequentes, aquilo que Zaratustra havia inicialmente apresentado como um processo formativo para os discípulose cujo ponto culminante é a experiência do eterno retorno, será vivido pelo próprio personagem de forma cada vez mais solitária.
Nesse sentido a publicação da primeira parte como uma obra autônoma poderia ser tomada como um indício de que Nietzsche, com a doutrina do Além do Homem e com o processo formativo que sua pedagogia requer, pretendia inicialmente com Assim Falava Zaratustra somente preparar o seu leitor para uma apresentação posterior do eterno retorno, que ocorreria em outro momento, possivelmente em outro estilo de escrita e em outra obra. É somente com o auxílio das partes subsequentes que a trajetória espiritual apresentada em “Das três metamorfoses” pode ser lida como uma antecipação da autoformação do próprio Zaratustra e, dessa forma, como apresentando fortes indícios de que a obra receberia uma continuidade. Lido em si mesmo, no ambiente da primeira parte, esse discurso antecipa o itinerário percorrido pelos “Discursos de Zaratustra”, itinerário que dialoga e apresenta paralelos com o próprio percurso intelectual de Nietzsche ao longo do segundo período, com a trilogia dos espíritos livres apresentada em Humano, demasiado, humano, Aurora e Gaia Ciência. Sendo assim, o primeiro discurso apresenta metaforicamente uma travessia na qual se assiste a liberação do espírito, cujo ponto final é a sua desalienação na vontade criadora. Em Humano, demasiado humano, Nietzsche acredita que o método genealógico seria capaz de promover essa liberação do espírito, na medida em que torna possível conhecer o contexto psicológico e histórico de formação das crenças. Dessa forma, através do auxílio das ciências naturais, esse método por fim revelaria que as crenças metafísicas não seriam necessárias à vida, promovendo com relação a estas crenças uma atitude de
231“A doutrina do “eterno retorno”, ou seja, do ciclo absoluto e infinitamente repetido de todas as coisas – essa doutrina de
Zaratustra poderia ter sido ensinada também por Heráclito. Ao menos encontram-se traços dela no estoicismo, que herdou de Heráclito quase todas as suas ideias fundamentais” (EH/EH “O nascimento da tragédia”, 3).
indiferença. A próxima obra, Aurora, traz consigo uma variação na compreensão nietzschiana de ciência, configurando-se como paixão do conhecimento. Tendo em seu horizonte o exemplo de Pascal, Nietzsche reconhece os limites dessa indiferença com relação às crenças metafísicas233 e, a partir de então, entende que a emergência dos espíritos livres depende da remoção dessas crenças. Em Gaia Ciência, Nietzsche reconhece a insuficiência do método genealógico para tal fim e defende que somente mediante a criação essa remoção poderia ser possível. Como argumenta o filósofo num belo aforismo intulado “Somente enquanto criadores!” (Nur als Schaffende!).
[...] A reputação, o nome e a aparência, o peso e a medida habituais de uma coisa, o modo como é vista – quase sempre uma arbitrariedade e um erro em sua origem, jogado sobre as coisas como uma roupagem totalmente estranha à sua natureza e mesmo à sua pele -, mediante a crença que as pessoas neles tiveram, incrementada de geração em geração, gradualmente se enraizaram e encravaram na coisa, por assim dizer, tornando- se o seu próprio corpo: a aparência inicial termina quase sempre por tornar-se essência e atua como essência! Que tolo acharia que basta apontar essa origem e esse nebuloso manto de ilusão para destruir o mundo tido por essencial, a chamada “realidade”? Somente enquanto criadores podemos destruir![...] (FW/GC § 58)
A travessia espiritual apresentada em “Das três metamorfoses” manifesta essa campanha nietzschiana de destruição e remoção das crenças metafísicas e dos valores morais, da maneira como esse embate se apresenta ao fim do segundo período, e expressa a forma como o filósofo, nesse contexto de sua produção, compreende a emergência dos espíritos livres. A liberação do espírito somente se realiza mediante a criação. Zaratustra inicia seu ensinamento aos discípulos a partir desse ponto, dizendo a eles que a liberdade conquistada pelo espírito como leão, advinda da destruição do dragão “tu deves”, somente se efetiva na vontade criadora do espírito como criança234. Apesar de possuir esse paralelo com o percurso dos espíritos livres ao longo do segundo período, a pedagogia de Zaratustra expressa nos discursos da primeira parte traz consigo uma inovação na medida em que é apresentada como um trabalho prévio ao projeto de criação do Além do Homem. Esta pedagogia visa à criação de espíritos livres que sejam companheiros de criação. A travessia espiritual apresentada no primeiro discurso aos pretensos discípulos está atrelada a um programa pragmático existencial que contém um chamamento à solidão como forma de romper os vínculos com a existência gregária, e assim seguir o “caminho do criador”. A conquista da liberdade para novas criações, a transmutação do espírito de camelo em leão, requer a retirada para a solidão. Como veremos no último discurso da primeira parte, a pedagogia de Zaratustra visa criar espíritos livres que, por sua vez, criarão o Além do Homem. Posteriormente,
233 Acerca do exemplo de Pascal, conferir LOPES, 2008, p. 367-418.
234 Como defende Eugen Fink, “Das três metamorfoses” formula uma “transformação radical da existência” que permanece como
princípio de todos os outros discursos da primeira parte, cujo centro de gravidade é a morte de Deus. Segundo o intérprete, seu tema fundamental é “a modificação do ser humano pela morte de Deus, isto é, a transformação de sua alienação na liberdade criadora que se sabe autônoma.” (FINK, 1969, p. 76)
em Além do bem e do mal, o espírito livre aparecerá também como precursor, só que não mais do Além do Homem, mas do filósofo do futuro.
No discurso que sucede “Das três metamorfoses”, intitulado “Das Cátedras da virtude” (Von den Lehrstühlen der Tugend), Zaratustra faz uma crítica ao objetivo para o qual se volta o ensino das virtudes pelos sábios catedráticos. Esse discurso foge do habitual porque em sua maior parte não é Zaratustra quem fala. O personagem acompanha o discurso de um sábio professor de virtudes que atrai os jovens falando que o bom sono é resultante de um comportamento virtuoso, servindo dessa forma como uma comprovação de que devemos ser virtuosos. Zaratustra descobre que as multidões eram atraídas por esses professores da virtude porque buscavam algo que anestesiasse o corpo, “virtudes opiáceas” (mohnblumige Tugenden). O personagem também é professor de uma virtude, a virtude dadivosa, que, no entanto, não atrai multidões. Em “Dos trasmundos” (Von den Hinterweltlern), Zaratustra começa sua abordagem das crenças metafísicas, primeiramente confessando aos seus discípulos que ele mesmo, outrora, foi também um “trasmundo”. Podemos encontrar nesse discurso uma das mais explícitas referências a O nascimento da tragédia em Assim Falava Zaratustra e nos permite situar o contexto no qual tem início a trajetória de seu personagem principal.
Outrora, também Zaratustra lançou sua ilusão para além do homem, como todos os trasmundanos. A obra de um deus sofredor e atormentado me parecia o mundo.
Sonho me parecia então o mundo, e ficção de um deus; colorida fumaça ante os olhos de um divino insatisfeito. Bem e mal e prazer e dor e tu e eu – eram, para mim, colorida fumaça ante olhos criadores. O criador quis desviar o olhar de si mesmo – então criou o mundo.
É um ébrio prazer, para o sofredor, desviar o olhar do seu sofrer e perder a si próprio. Ébrio prazer e perda de si próprio me parecia o mundo outrora.
Este mundo, o eternamente imperfeito, imagem de uma eterna contradição, e imagem
imperfeita – um ébrio prazer para o seu criador: - assim me parecia outrora o mundo.
(Za/ZA “Dos trasmundanos”)
Assim Falava Zaratustra está repleto de referências autobiográficas, sendo que aqui podemos identificar que sob a máscara de seu personagem, Nietzsche faz uma autocrítica ao seu primeiro livro publicado. Em O nascimento da tragédia, o filósofo pensa a criação do mundo como obra de um artista primordial eternamente insatisfeito que, para desviar de sua eterna dor e contradição, procura redimir-se na aparência, esse artista é denominado por Nietzsche de Uno-primordial (Ureine). A existência do mundo é, então, uma representação, uma imagem eternamente imperfeita do Uno-primordial, daquilo que não pode ser figurado, uma eterna ficção. Podemos observar como a fala de Zaratustra evoca a concepção desse deus-artista-primordial do primeiro livro nietzschiano, que se serve do sonho apolíneo para se redimir na aparência. No entanto, no prosseguimento do discurso, Zaratustra afirma que superou essa crença quando reconheceu que esse deus era “obra e loucura de homens, como todos os deuses”, uma “pobre porção de homem e
de Eu”, de suas próprias cinzas e não do além. “Que aconteceu, meus irmãos? Superei a mim mesmo, ao sofredor; carreguei minhas próprias cinzas para os montes, uma chama mais viva inventei para mim. E eis que o fantasma fugiu de mim!”(idem). Essa passagem é importante para a compreensão dos eventos que marcam a narrativa de Zaratustra, pois faz menção a um tempo anterior ao início de sua jornada, conforme descrita no Prólogo. O dado textual que nos permite fazer essa afirmação se encontra no diálogo do personagem com o velho santo da floresta, quando esse afirma ter visto Zaratustra quando carregava suas cinzas para a montanha235. Além disso, as palavras de Zaratustra nesse discurso possibilitam dizer que essa expressão significa metaforicamente a autossuperação das crenças metafísicas. Sendo assim, o personagem inicia sua trajetória depois dessa autossuperação.
Depois de confessar que também já fora um trasmundo, o personagem inicia seu trabalho de desmistificação reconhecendo a base corporal na qual se enraízam estas crenças. A metafísica se apresenta como a manifestação de um corpo que desespera de si mesmo e com isso quer se distanciar da terra, como uma tentativa de romper as “paredes últimas” (letzten Wände), os limites do próprio corpo. No entanto, “aquele desumanado mundo inumano” (entmenschte