1.3. İdari Yaptırım Türleri
1.3.2. İdari Para Cezası
Ao final da primeira parte, o ensinamento de Zaratustra se encerra com uma incitação aos discípulos para que abandonem o mestre e sigam seus próprios passos. Porém, ao mesmo tempo, como já dito, o mestre cobra de seus seguidores fidelidade à sua doutrina. Esse abandono dos discípulos é parte da estratégia pedagógica que visa transformá-los em espíritos livres que sejam companheiros de criação. Quando alcançarem essa condição, Zaratustra afirma que regressará para
246 Cf. HIGGINS, 1987, p. 81-82
247
Idem, p. 124 248
Nietzsche anuncia a Gast que este será o mote da segunda parte em julho de 1883, no entanto acrescenta que “dele derivam harmonias e modulações distintas daquelas da primeira parte” (Carta a Peter Gast de 13 de julho de 1883). Em outra carta ao amigo do final de agosto do mesmo ano, Nietzsche reflete sobre a continuidade e a unidade de sua narrativa, dizendo que a primeira parte “compreende um círculo de sentimentos que constituem a premissa do círculo de sentimentos que constituem a segunda parte.” No entanto, confidencia que a segunda parte contém “uma quantidade inacreditável de coisas vividas e sofridas pessoalmente” e que, assim, somente são compreensíveis para ele mesmo e para mais ninguém (Carta a Peter Gast, final de agosto de 1883)
junto de seus discípulos amando-os com outro amor. O mote para a segunda parte é extraído do último discurso do primeiro Zaratustra: “- e somente quando todos vós me tiverdes negado eu retornarei a vós. Em verdade, com outros olhos, irmãos, buscarei então os que perdi, com outro amor eu então vos amarei”249 (Za/ZA “Da virtude dadivosa”, 1). O início da segunda parte mostra
o personagem na solidão “aguardando como um semeador que espalhou suas sementes”250 o
trabalho de seus herdeiros em disseminar sua doutrina. O retorno à solidão nesse contexto da narrativa não significa o fim da necessidade que o personagem sente de possuir discípulos. Nesse estado, a alma de Zaratustra “ficou plena de impaciência e avidez por aqueles que amava, pois ele ainda tinha muito a lhes dar” (idem). Como fazer dádivas e conservar o pudor? No início da segunda parte, Zaratustra se encontra num estado muito próximo ao retratado na primeira parte do Prólogo, sofrendo as dores de sua sabedoria que cresce demasiadamente na solidão e quer transbordar. O mestre sofre em seu isolamento autoimposto dos discípulos porque possui uma sabedoria transbordante, dadivosa, a mesma que lhe fez regressar depois de dez anos de solidão para junto aos homens. No entanto, o aprendizado anterior lhe ensinou a necessidade de contenção, por isso o sofrimento se torna maior. Através de um sonho que interpreta como um aviso, um sonho premonitório, conclui, decifrando seu significado, que sua doutrina corre perigo, que sua doutrina estava sendo descaracterizada pelos seus inimigos, que estavam envergonhando seus amigos251. Zaratustra então chega à conclusão de que a hora de regressar enfim chegou, é hora de buscar os perdidos (Verlornen).
Transtornado de felicidade, como um “vidente e cantor que é tomado pelo espírito”, o personagem inicia seu retorno para junto dos homens. Porém, medita sobre o problema de ser ferido por essa felicidade: “Tola é minha felicidade, e falará coisas tolas: é ainda jovem demais – tende então paciência com ela! Fui ferido por minha felicidade: todos os sofredores me servirão de médico!” (idem). Zaratustra encontrou ocasião para esvaziar sua sabedoria transbordante, mas aquele que agora regressa está cansado das velhas línguas:
Certamente há um lago em mim, solitário e que basta a si mesmo; mas meu rio de amor o arrasta consigo para baixo – para o mar!
Novos caminhos sigo, uma nova fala me vem; como todos os criadores, cansei-me das velhas línguas. Meu espírito já não deseja caminhar com solas gastas.
Lento demais, para mim, corre todo discurso: - pularei para a tua carruagem, furacão! E mesmo a ti fustigarei com a minha maldade. (Za/ZA “O menino com o espelho”)
249 “ „— und erst, wenn ihr mich Alle verleugnet habt, will ich euch wiederkehren. Wahrlich, mit andern Augen, meine Brüder,
werde ich mir dann meine Verlorenen suchen; mit einer andern Liebe werde icheuch dann lieben.“.”
250 Za/ZA “O menino com o espelho”.
251Zaratustra sonha com um menino com o espelho que lhe diz “olha-te no espelho”. Quando olha através do espelho o que vê é “a
careta e o riso galhofeiro de um demônio”. Segundo Lampert, o que o personagem vê no espelho é o próprio espírito de gravidade, o seu demônio. (Cf. LAMPERT, 1986, p. 87)
A partir da segunda parte assistimos a mudanças na forma como Zaratustra fala, pois deixa de ser retratado somente como aquele que ensina e passa a ser focalizado também como um indivíduo que atravessa um profundo processo de autoformação, que cada vez mais vem ao centro da narrativa. Nietzsche reivindica cautela no ensinar pela possibilidade do professor perder a seriedade consigo mesmo na medida em que pensa as coisas em relação aos seus alunos252. Como ser professor sem perder essa seriedade? A preocupação com o auditório se torna cada vez mais um elemento de tensão na compreensão de Zaratustra acerca de suas próprias vivências. Por outro lado, o personagem não consegue se desvencilhar desse dilema, pois, como se apresenta no início da segunda parte, exibe uma preocupação tanto com a deturpação de sua doutrina quanto com a recepção dogmática da mesma. O personagem mantém sua audiência sempre precavida em relação a sua figura, passando a falar de uma maneira menos direta e persuasiva, comunicando suas descobertas de forma reservada e resguardando suas vivências, ao ponto de muitas vezes ocultá- las de seus ouvintes. Em “Dos compassivos” (Von den Mitleidigen), o personagem nietzschiano afirma: “É difícil viver com os homens, sendo tão difícil calar”. Diante disso, Zaratustra se apresenta como um personagem cansado das velhas línguas. Outra novidade em relação à primeira parte, especialmente no que se refere ao Prólogo, se encontra na forma como Zaratustra fala de sua sabedoria, ela não é somente qualificada como transbordante, dadivosa, mas também como sua “velha sabedoria selvagem” (alte wilde Weisheit). A solidão na qual o personagem agora é
retratado no início da segunda parte fez sua sabedoria não só se acumular demasiadamente, mas também a tornou prenha de um novo filho. O personagem caracteriza sua velha selvagem sabedoria como uma mulher que acabou de gerá-lo e corre pelo deserto à procura de uma cama macia para ele, denominando-a de leonina. Dessa forma, o personagem sugere que este novo rebento de sua sabedoria simboliza a terceria metamorfose do espírito e que ao regressar para junto dos homens procura por aqueles que o acolham.
Assim como no Prólogo, a primeira seção da segunda parte, “O menino com o espelho” (Das Kind mit dem Spiege), mostra o estado no qual Zaratustra se encontra quando decide voltar para junto dos homens. Porém, os primeiros discursos da segunda parte são distintos dos discursos da primeira parte, pois não buscam atrair discípulos e sim são dirigidos àqueles que já foram escolados no ensino do mestre e possuem um tom mais pessoal. Zaratustra se volta àqueles que não compreenderam adequadamente seus ensinamentos preliminares. Aquele que, na primeira
252 “[...] Quem é professor geralmente é incapaz de ainda fazer algo para o seu próprio bem, está sempre pensando no bem de seus
alunos, e, cada conhecimento só o alegra na medida em que pode ensiná-lo. Acaba por considerar-se uma via de passagem para o saber, um simples meio, de modo que perde a seriedade para consigo.” (MAI/HHI, 200. Cautela no escrever e no ensinar). O filósofo retoma essas considerações acerca do professor em Além do Bem e do Mal: “Quem é professor nato considera cada coisa apenas em relação a seus alunos – inclusive a si mesmo.” (JGB/BM, 63).
parte da obra, incita seus discípulos a um desenvolvimento autônomo em relação ao mestre, revela agora sua preocupação com a recepção de seus ensinamentos. Esse reencontro com os homens não ocorre na praça do mercado, como da primeira vez, mas nas Ilhas Bem-Aventuradas (glückseligen Inseln)253.
Como observa Lampert, nos dois primeiros discursos de abertura da segunda parte, Zaratustra não se refere aos discípulos como discípulos e sim como irmãos e amigos. O personagem somente volta a chamar seus seguidores de discípulos no terceiro discurso. Em “Nas ilhas bem- aventuradas” (Auf den glückseligen Inseln), seção que apresenta o primeiro discurso de Zaratustra aos seguidores na segunda parte, o personagem fala novamente acerca de Deus e do Além do Homem. Deus é entendido como uma conjectura que excede os limites da vontade criadora (schaffender Wille), diferentemente do que ocorre com o Além do Homem254. A ideia de Deus deve ser considerada como uma manifestação da vontade de verdade (Wille zur Wahrheit), que conforme define o personagem significa o anseio de tornar tudo pensável, visível, humanamente sensível. Como defende Zaratustra, o que se chama de mundo deve ser, primeiramente, criado. Todos os ensinamentos acerca do imóvel, do uno, do pleno, insaciado e intransitório são símiles, mas símiles que causam mal e são inimigos do próprio homem. O imperecível é uma imagem poética e os poetas mentem demais 255. Como diz Zaratustra, os “melhores símiles devem falar do tempo e do devir: devem ser louvor e justificação de toda transitoriedade”. Criar é a “grande libertação do sofrer, e o que torna a vida leve”, mas a existência do criador depende dos inúmeros sofrimentos e transformações. Para serem “defensores e justificadores de toda a transitoriedade”, os criadores devem morrer e renascer várias vezes, o que, como se sabe, é um atributo do próprio deus Dioniso. Para que o criador queira ser ele próprio uma “criança recém-nascida”, é necessário que experimente as dores do parto. Zaratustra diz que este foi o seu próprio destino e que é este destino que deseja sua vontade criadora. Tomando a si mesmo como exemplo, o personagem ensina aos seus discípulos acerca do caráter libertador do querer.
253 Como aparece em Hesíodo, as Ilhas Bem-Aventuradas (Nesoi Makarôn) é o lugar onde Zeus confinou a raça divina de homens
heróis, um lugar distinto do Hades, para onde eram confinados os homens comuns depois da morte, e também do Tártaro, o lugar onde eram enviados os inimigos dos deuses. Nestas Ilhas os heróis viviam felizes, “intocados pela tristeza”. (Cf. HESIODO,2002,p. 166-173). No século V a.c, o poeta Píndaro retoma esse tema na Ode Olímpica (2.57) onde as Ilhas Bem-Aventuradas aparecem como um lugar no qual ocorre o repouso final das grandes almas. Estas Ilhas também aparecem mencionadas na República de Platão (519 c-d). Em uma carta a Peter Gast de 16 de Agosto de 1883, Nietzsche diz que quando o amigo ler o segundo Zaratustra até o final identificará onde situou suas Ilhas Bem-Aventuradas, fazendo referência à Ischia, ilha italiana localizada na baia de Nápole.
254 Como observa Roberto Machado, é impossível não lembrar nessa menção aos limites das ressonâncias kantianas na filosofia de
Nietzsche, lembrando que no início de sua produção filosófica, Kant e Schopenhauer se afiguravam como filósofos trágicos justamente pela imposição de limites ao conhecimento (Cf. MACHADO, 1997 p. 84). Porém, cumpre destacar que, nessa passagem de Zaratustra, a menção aos limites é feita em relação à vontade criadora.
255 Essa afirmação de Zaratustra será lembrada mais tarde por um de seus seguidores, no momento em que o personagem revela sua
identidade. Nietzsche faz uma paródia aos versos iniciais do “Coro Místico”, do final do Segundo Fausto de Goethe, invertendo o adjetivo “transitório” (vergänglich) e acrescentando que os poetas mentem demais.
Tudo o que sente sofre comigo e está em cadeias: mas meu querer sempre vem como meu libertador e portador de alegria.
Querer liberta: eis a verdadeira doutrina da vontade e da liberdade – assim Zaratustra ensina a vós.
Não-mais-querer e não-mais-estimar e não-mais-criar! Ah, fique longe de mim esse grande cansaço. (Za/ZA “Nas Ilhas Bem-Aventuradas”)
Como ensina o personagem, o querer liberta das cadeias e assim desvia o homem do grande cansaço, condição que caracteriza o último homem, apresentado na primeira parte da obra, e que voltará a ser enfaticamente tematizado no encontro de Zaratustra com a figura do Adivinho. No prosseguimento de seu discurso de regresso, o personagem afirma que é para o ser humano e não para os deuses que impele sua vontade de criar, comparando-a a um martelo que investe furiosamente contra aquilo que lhe aprisiona, não se importando com os estilhaços, fazendo isso em nome da beleza do Além do Homem256. Em “Dos compassivos” (Von den Mitleidigen), Zaratustra diz que para o homem do conhecimento a história humana foi até agora vergonhosa, ensinando sobre a necessidade de superar a compaixão. Deve-se superar o amor pela humanidade tal como ela é, pois ofendemos o orgulho dos sofredores com nossa compaixão e, desse modo, alimentamos a vingança. O grande amor é aquele que supera tanto o perdão como a compaixão. Assistimos mais uma vez aqui à crítica de Zaratustra à compaixão e seu esforço em distingui-la da virtude dadivosa, que ressoa, entre outros aspectos, a tentativa de apresentar seu personagem como um tipo oposto ao Parsifal de Wagner, um herói schopenhaueriano que se torna sábio, justamente, pela compaixão. Em linha oposta, Zaratustra é aquele que ensina que o criador deve ser duro, e por isso deve estar acima de sua compaixão. Com isso, busca afastar seus discípulos dessa virtude cristã, do amor pela humanidade como ela é, alimentando o desejo pela criação do Além do Homem.
Em “Dos sacerdotes” (Von den Priestern), discurso no qual Zaratustra volta a chamar seus
seguidores de discípulos, os ataques aos ensinamentos cristãos tem continuidade. O personagem fala da imagem deplorável dos sacerdotes que chamam de redentor aquele que os aprisiona. No entanto, existe uma mistura de antipatia e simpatia pela figura dos sacerdotes. Zaratustra fala que seu “sangue é aparentado ao deles” (mein Blut ist mit dem ihren verwandt) e que também deseja
ser honrado por eles. Os sacerdotes são vítimas de suas próprias paixões, da vergonha de si mesmo, por isso procuram por um redentor que seja capaz de livrá-los daquilo que são, sendo este
256 A ideia de uma filosofia à marteladas, que aparece com toda a força em Crepúsculo dos Ídolos, já se insinua a partir da segunda
parte de Assim Falava Zaratustra. Como observa Lampert, o arco iris, a ponte, a corda, imagens que representavam o sentido da humanidade para o Além do Homem são aqui substituídos por um martelo que bate sobre a inflexível pedra (LAMPERT, 1986, p.90- 91).
o seu ascetismo. Diz Zaratustra: “Cadeias de falsos valores e palavras ilusórias! Ah, se alguém os redimisse de seu Redentor” 257. Na adoração dos sacerdotes há muito heroísmo, porém, a causa
pela qual se sacrificam é falsa e ilusória. Se por um lado, essa lealdade à causa é um exemplo para os discípulos, por outro a relação que exibem com sua doutrina é condenável. Em seu próximo discurso, “Dos virtuosos” (Von den Tugendhaften), Zaratustra condena aqueles que querem ser
recompensados pela sua virtude, seja no céu ou na terra, visando atingir seus próprios discípulos para que não sejam desvirtuados, ansiando por retribuições. O mestre afirma que veio para aqueles que ficaram cansados das velhas palavras, “recompensa” (Lohn), “retribuição” (Vergeltung), “castigo” (Strafe), “vingança com justiça” (Rache in der Gerechtigkeit), com as quais aprenderam com os tolos e mentirosos acerca da virtude, e também para aqueles que se cansaram de dizer que uma ação para ser boa deve ser desinteressada (selbstlos).
O discurso subsequente, “Da Gentalha” (Vom Gesindel), dialoga com “Das Moscas do
Mercado” apresentado na primeira parte, superando-o, no entanto, pela virulência. Zaratustra se apresenta como aquele cujo empenho é se livrar da gentalha, como quem foge da impureza, da sujeira, da doença, da contaminação, mas que, enfim, um dia se questionou: “Mas sim perguntei, um dia, e quase sufoquei com minha pergunta: Como? A vida também necessita da gentalha?”. Este sentimento de sufocamento será retomado dramaticamente no contexto de formulação do pensamento do eterno retorno. Nesse momento de sua trajetória, Zaratustra diz aos discípulos que se salvou desse nojo da gentalha encontrando o manancial da vida na mais elevada altura, reivindicando que os solitários construam um ninho na “árvore Futuro” (Baume Zukunft). Em “Das
tarântulas” (Von den Taranteln), o personagem ataca os pregadores da igualdade (Prediger der
Gleichheit) com o objetivo de irritá-los e desmascará-los. Adotada como símbolo da vingança, a tarântula é comparada a estes pregadores com objetivo de caracterizá-los como seres “ocultamente vingativos” (versteckte Rachsüchtige). A vontade de justiça e de igualdade destes pregadores é
uma forma de vingança que advém de um “delírio tirânico da impotência” (Tyrannen-Wahnsinn
der Ohnmacht). Zaratustra afirma que “sua mais alta esperança” é justamente que “o homem seja redimido da vingança”. O mestre pede então a seus discípulos que desconfiem daqueles que falam demasiadamente de justiça e, consequentemente, se denominam “os bons e justos”, alertando-os inclusive sobre aqueles que divulgam sua doutrina e que são ao mesmo tempo pregadores da
257“In Banden falscher Werthe und Wahn-Worte! Ach dass Einer sie noch von ihrem Erlöser erlöste!”. Nessa passagem, Nietzsche
faz uma paródia as palavras finais de Parsifal, “Redenção para o redentor”, reproduzidas na coroa mortuária do músico pela Sociedade Wagner de Munique. No pós-escrito de O caso Wagner, Nietzsche comenta este fato, invertendo ironicamente essa inscrição: “Ocorreu no funeral de Wagner que a primeira Sociedade Wagner alemã, a de Munique, depositou em seu túmulo uma coroa, cuja inscrição tornou-se imediatamente famosa. “Redenção para o Redentor!” – dizia ela. Todos admiraram a elevada inspiração que havia ditado essa frase, assim como o gosto que era prerrogativa dos seguidores de Wagner: mas muitos (coisa singular!) fizeram-lhe a mesma pequena correção: “Redenção do Redentor!” – Respiramos aliviados.”. Nietzsche faz menção a esta inscrição também numa carta à Gast de 11 de Agosto de 1888.
igualdade. Apesar de clamar aos discípulos para não serconfundido com estes pregadores, o que seria incoerente com o Além do Homem, ao final do discurso Zaratustra revela que foi picado pela tarântula: “Sim, ela se vingou! E, ai de mim! Agora, com vingança também fará minha alma girar!”. Para que isso não ocorra, Zaratustra pede a seus amigos que lhe prendam firmemente numa coluna, numa clara alusão ao Canto XII da Odisseia na qual Ulisses pede para ser amarrado ao mastro do navio para que não seja seduzido pelo canto das sereias. A picada da tarântula simboliza a vingança como motivo para o ataque. Nesse contexto, Zaratustra começa a refletir sobre se ele também não é um mestre da vingança e pede a seus discípulos para que estejam atentos e desconfiem se aquele que ensina sobre o Além do Homem também não é um professor desse tipo. A superação da vingança será um dos temas fundamentais de Zaratustra, que aparece com todo vigor na construção do problema do tempo que conduzirá ao pensamento do eterno retorno258.
Podemos observar que a abertura da segunda parte de Assim Falava Zaratustra é constituída por discursos que dão continuidade aos ensinamentos do personagem apresentados na primeira parte, porém, com um tom cada vez mais pessoal, radical e violento. Estes discursos se voltam à reeducação dos discípulos e possuem o objetivo de identificar para seus seguidores quem são seus inimigos e distinguir seu ensinamento dos outros ensinamentos modernos, propósito que culmina em “Das Tarântulas”259. O próximo discurso não é endereçado aos discípulos e sim aos sábios
famosos (berühmten Weisen), apresentados como servos do povo e de suas superstições,
contrapondo-se aos espíritos livres, odiados pelo povo como um “lobo pelos cães”. A vontade de verdade dos sábios famosos anseia por justificar as regras que o povo reverencia, vestindo-se
258Em seu ensaio “Quem é o Zaratustra de Nietzsche?” (Wer ist Nietzsches Zarathustra?), Heidegger reconhece ser este um dos
temas fundamentais da obra, porém afirma que o personagem nietzschiano não consegue realizar essa superação. Como dirá Zaratustra em “Da Redenção”, o espírito de vingança é o que conduziu a reflexão vigente até hoje, e, tendo em vista que esse pensamento dominante é a metafísica, cabe refletir, segundo Heidegger, acerca da própria posição de Nietzsche no interior dessa história. Para o autor de Ser e Tempo, o pensamento de Nietzsche se apresenta como um acabamento da história da metafísica, diretamente vinculada a sua manifestação moderna que entende ser a vontade a expressão do “ser daquilo que é”. Essa vontade se apresenta em Nietzsche como vontade de poder, como o que procura imprimir no devir o caráter de ser. Diz Heidegger: “A mais elevada vontade de poder, isto é, o mais vital em toda vida, é representar o passar como permanente devir no eterno retorno do igual