Na análise do grau de consolidação procurou-se verificar a relação que existe entre o ritmo de crescimento das EBTs e sua idade. A tabela 3 mostra que o crescimento de 38 empresas da amostra atingiu a média de 25,1% ao ano, resultado bastante significativo para este conjunto de empresas. A idade das empresas está inversamente associada ao seu ritmo de crescimento, resultando num coeficiente de correlação de -0,571. Com efeito, duas empresas com taxas de variação real do faturamento superiores a 60% apresentaram as menores idades médias da amostra.
Tabela 3: Distribuição das EBTs por Faixas de Crescimento
Total por Faixa TVRF* (1997-2002) Faixas de Crescimento Número EBTs Faturamento 2002 (R$ milhões) Idade
Média Média Mediana < 0% 6 154,2 18 -7,2% -5,6% 0% a 5% 3 6,7 20 2,8% 3,4% 5,1% a 10,0% 3 9,6 15 9,2% 9,3% 10,1% a 25,0% 13 93,4 14 15,5% 14,7% 25,1% a 50,0% 7 9,7 7 37,0% 37,1% > 50% 6 60,8 6 83,3% 80,8% Total 38 334,4 13 25,1% 15,3%
Fonte: Elaboração GeTec (UFSCar).
*TVRF: Taxa de Variação Real do Faturamento
Esta relação também pode ser verificada, através dos segmentos em que as EBTs se inserem. A tabela 4 evidencia que em todos os segmentos para os quais há
informação de mais de uma empresa, a mediana de crescimento23 é inferior à média simples. A taxa de crescimento de 25,1% é fortemente influenciada pelo crescimento elevado do ramo de serviços. A média de crescimento deste ramo foi de 28,6%, um tanto maior que o ramo industrial (21,2%). Além disso, este elevado crescimento está associado com uma idade relativamente baixa das EBTs, em média 10 anos.
Tabela 4: Distribuição das EBTs por Segmento
Total por Divisão TVRF* Idade Divisão CNAE Média Mediana N % Faturamento 2002 (R$ milhões) Média Mediana Total Indústria 16 17 18 47% 114,0 21,2% 13,7% 24-Química 16 11 3 7% 20,4 17,5% 14,6%
25-Artigos de Borracha e Plástico 5 5 1 3% 0,5 35,7% 35,7% 26-Produtos de Minerais Não-Metálicos 17 17 1 3% 3,3 22,1% 22,1% 29-Máquinas e Equipamentos Mecânicos 26 26 1 3% 3,3 4,0% 4,0% 32-Material Eletrônico e de Telecom. 19 18 2 5% 49,5 5,2% 5,2% 33-Eqptos. Médico-Hospitalares, de
Automação e Precisão 15 17 10 26% 37,0 25,6% 12,8% Total Serviços 10 8 20 53% 220,3 28,6% 19,6% 72-Serviços de Informática 10 7 17 45% 216,6 24,6% 19,3% 74-Serviços Prestados às Empresas 9 10 3 8% 3,7 51,2% 25,4%
Total 13 10 38 100,0% 334,3 25,1% 15,8%
Fonte: Elaboração própria, GeTec (UFSCar). *TVRF: Taxa de Variação Real do Faturamento **N: Número de EBTs
Tendo como base a tipologia de Tether (1997), que procurou classificar as EBTs em função da sua dinâmica de crescimento, é possível adotar como parâmetros de corte a mediana da idade e da taxa de variação de real do faturamento para identificar duas categorias distintas de empresas: a primeira, agrupa empresas que chamaremos de maduras (consolidadas) - aquelas com idade acima da mediana de 10 anos e crescimento abaixo da mediana 15,8%; já a outra engloba as empresas não-maduras (não-consolidadas), associadas com uma baixa idade mediana ou uma alta taxa de crescimento (Figura 1).
23
A mediana é uma medida de tendência central que fornece o valor central de um determinado conjunto ordenado de números. Em alguns casos, a mediana é preferível à média, porque não é afetada tão facilmente por valores extremos (muito pequenos ou muito grandes).
Figura 1: Grau de Consolidação das EBTs Pesquisadas
Como resultado, aproximadamente 16 firmas (42%) são consideradas empresas maduras, que crescem abaixo da mediana, e 22 empresas (58%) podem ser consideradas não- maduras. Para 15 destas EBTs, uma idade relativamente baixa está associada com um alto crescimento, indicando que muitas das EBTs inserem-se em nichos de mercado que lhes possibilitam crescimentos significativos ao menos por algum período de tempo. Para 3 firmas dentre as empresas não-maduras encontrou-se um baixo crescimento, apesar da idade baixa. Apenas 4 EBTs, apresentaram crescimento alto mesmo com idade acima da mediana. De um modo geral, foram encontradas para as EBTs maduras uma taxa de variação real do faturamento média de 6,2% e uma idade média de 20 anos, enquanto para as EBTs não maduras, estas mesmas variáveis foram de 31,3% e 8 anos, respectivamente.
O crescimento das EBTs quase sempre encontra respaldo na ausência de concorrentes em um mercado pouco inexplorado. Mas se as EBTs obtêm crescimento rápido quando jovens, nada garante que em suas etapas posteriores serão tão bem sucedidas: as restrições ao crescimento surgem porque a demanda em nichos se esgota relativamente rápido. Dado o porte pequeno, o ritmo de crescimento destas empresas estaciona em um patamar proporcional às competências internas que lhes foi possível acumular. Estas limitações estruturais combinadas com outras de caráter institucional, como a ausência de financiamentos que viabilizem uma expansão continuada, formam um quadro de crescimento travado para a maioria das EBTs no Brasil (PINHO et al., 2005: 48).
% CRESC. IDADE Alto Baixo Baixa Alta Maduras N=16 Não-maduras N=3 Não-maduras N=15 Não-maduras N=4 10 anos 15,8%
A dinâmica de crescimento das EBTs brasileiras parece estar mais diretamente vinculada às características específicas de sua inserção de mercado do que com a maturação ou não dos ativos tecnológicos24. Uma análise das características do produto principal permitiu verificar que o tipo de tecnologia (estável, em mudança, nova ou difundida) adotada não interfere no grau de consolidação das EBTs, uma vez que tanto empresas jovens quanto empresas maduras utilizam-se de tecnologia "nova" e/ou em mudança constante25. Isto não sugere uma interpretação linear que exclui a tecnologia como variável de influência no desempenho das EBTs, até porque a inserção possível para as EBTs brasileiras é essencialmente condicionada por sua condição de empresas que, geralmente, não realizam inovações primárias e pela própria estreiteza da base de conhecimento que a maioria delas logra desenvolver no contexto de um sistema de inovação periférico (PINHO et al., 2005: 49).
Deste modo, o entendimento de suas bases tecnológicas só faz sentido quando se consideram os aspectos relacionais do mercado destas empresas. Por exemplo, é reconhecido que em segmentos tradicionais da química, a maturação dos ativos tecnológicos responde por uma boa parte do baixo crescimento que se verifica entre aquelas empresas. Mas nas EBTs, a química se ocupa de segmentos particulares, caracterizando-se como química de especialidades26 e dependentes de relações de complementaridade, de tal modo que dificilmente uma tecnologia não seria "nova" o suficiente para atender às necessidades da sua demanda, mesmo entre as EBTs maduras.