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Os estudos que têm o gênero como foco partem, como vimos, de perspectivas teóricas distintas, sobretudo, porque preveem aplicações metodológicas diferenciadas para

112 resultados específicos. Neste trabalho, analisamos a webnotícia sob a perspectiva teórica denominada na literatura como Sociorretórica, que vê o gênero a partir da “ação social” realizada pelo sujeito inserido numa situação social, que é retórica e lhe aparece como recorrente. Para entendermos essa definição de gênero, que é a base da teoria, devemos considerar as várias noções teóricas que ela abarca. Nesta seção, tratamos de cada uma delas.

O ensaio “Gênero como ação social”, de Carolyn Miller, foi publicado inicialmente em 1984, no Quarterly Journal of Speech, e apresenta a definição de gêneros como ação social fundada numa situação recorrente a partir de uma síntese teórica de vários conceitos da Retórica, que é posteriormente assumida por vários outros estudiosos de gênero, como Bazerman (2005), Devitt (2004), Russel (1997), Alves Filho (2010), dentre outros, que subsidiam, hoje, a base teórica da Sociorretórica.

O Núcleo de pesquisa em Texto, Gênero e Discurso, Cataphora, coordenado pelo professor Francisco Alves Filho, da Universidade Federal do Piauí, tem desenvolvido várias pesquisas no âmbito da Sociorretórica, desde 2008. Algumas pesquisas já foram finalizadas, com estudos sociorretóricos de gêneros de diferentes meios sociais, como o editorial de jornal (SOUSA, 2011), a entrevista de emprego (SANTOS-SILVA, 2011), o ofício (BRITO, 2012); com gêneros da internet, na rede social Twitter: perfis de universidades (CASTRO, 2012), perfis fake (ALEXANDRE, 2012), perfis de candidatos à prefeituras (VIANA, 2013); e ainda, com gêneros da internet, a notícia satírica (SOUSA, 2013).

A definição de gênero como ação social vem sendo desenvolvida e demonstrada ao longo dos anos em vários estudos. Conforme Devitt (2004), os estudiosos, na perspectiva retórica, “ecoam” Miller e incluem elementos comuns na definição de gêneros, como o reconhecimento de que gênero é ação, de que a ação é tipificada, de que a tipificação é oriunda das condições recorrentes, e que todas essas condições envolvem um contexto social, todas demonstrando, segundo a autora, a complexidade teórica do gênero.

113 3.2.1 A classificação do gênero pela ação [retórica]

Miller (2009 [1984]) inicia seu ensaio “Gênero como ação social” fazendo uma crítica aos estudos retóricos críticos que, mesmo estudando os gêneros como discursos que constituem uma classe distintiva, ainda não ofereceram uma orientação consistente sobre o que constitui um gênero. A autora aponta algumas definições apresentadas pelos estudos que critica, como a de gêneros retóricos definidos pelas semelhanças nas estratégias ou formas dos discursos, pelas semelhanças nas audiências, nos modos de pensar, nas situações retóricas, e afirma que a diversidade de definições constitui um problema para os teóricos e para os críticos.

Destacando a necessidade da classificação para a linguagem e a aprendizagem, a autora ressalta que, apesar de as definições apresentadas acima constituírem maneiras de classificação do discurso, para ela “o termo ‘gênero’ significa alguma coisa teoricamente ou algo útil criticamente, não pode se referir a qualquer categoria ou tipo de discurso” (p. 21 e 22). A crítica, nesse sentido, está centrada justamente na variedade de definições, de modo que a crítica é feita como justificativa da sua proposta, com o ensaio de 1984, de apresentar ao gênero retórico um conceito classificatório estável e assegurar que o conceito apresentado seja retoricamente válido.

Para desenvolver sua proposta, Miller elabora sua abordagem a partir de Campbell e Jamieson (1978), na defesa do ponto de vista das autoras de que “o estudo do gênero é valioso não porque pode permitir a classificação de algum tipo de taxonomia, mas porque enfatiza alguns aspectos sociais e históricos da retórica que outras perspectivas não o fazem” (p. 22). O pressuposto básico é que, para que uma definição retórica de gênero seja válida, ela precisa centrar-se na ação que é usada para sua realização, e não na forma ou na substância do discurso. Nessa perspectiva, o termo gênero deve ser limitado a um tipo particular de classificação do discurso, de modo que essa classificação deve ser baseada na prática retórica e, consequentemente, ser aberta e estar organizada em torno das situações de uso linguístico. E isso é central na teoria proposta por Miller: o estudo da ação retórica realizada pelo sujeito para agir socialmente.

114 Devitt (2004) sintetiza parte do conhecimento já construído sobre gêneros retóricos, sobretudo aqueles apresentados por Miller (2009 [1984]), e apresenta as ideias essenciais da teoria contemporânea, apontando ainda para novos direcionamentos. Referindo-se às definições de gênero relacionadas à classificação e à forma, Devitt chama atenção para o fato de que o modelo de forma como um recipiente do significado tem sido substituído nos estudos de gêneros por uma noção mais integrada, que vê como o significado é construído sem que a forma seja separada do conteúdo.

As classificações dos gêneros, de acordo com Devitt (2004), podem aparecer como um efeito, mas não compreendem uma extensão deles. Dessa forma, estudar o gênero do ponto de vista retórico não significa procurar responder a questões sobre classificações genéricas já levantadas, como a quantidade, ou que um gênero é um subgênero de outro, se um texto pertence a este ou àquele gênero em específico, que respondem a questões que podem ser interessantes a determinadas propostas investigativas, embora não respondam sobre a natureza do gênero em si. A forma como os textos são agrupados ou classificados está muito direcionada ao objetivo da classificação e ao que é selecionado para ser observado:

Moll Flanders, de Daniel Defoe, por exemplo, pode ser classificada como uma narrativa, um romance episódico, uma pseudo-autobiografia, ou um romance do século XVIII, de acordo com os interesses do classificador. Trabalhos ainda menos transitórios podem ser classificados de várias maneiras: um memorando de um setor departamental pode ser classificado como correspondência comercial, memorando, correspondência interna, ou escrita acadêmica, dependendo da perspectiva do classificador. (p. 7)31

Considerar problemas criados pela classificação, segundo Devitt (2004), não significa afirmar que os mesmos não envolvam classificação, mas os estudos têm mostrado que diferentes sistemas de classificação servem a propósitos diferentes. De toda forma, segundo a autora, para uma definição retórica de gênero, as classificações mais importantes são aquelas em que os rótulos são criados pelas pessoas que utilizam os gêneros. Antes de serem nomeados pelos analistas, os usuários dos gêneros já o rotularam, em circunstância da

31No original: “Daniel Defoe’s Moll Flanders, for example, can be classified as a narrative, an episodic novel, a

pseudoautobiography, or an eighteenth-century novel, depending on the classifier’s interests. Even less transitional works can be classified in multiple ways: a memorandum from a departmental chair can be classified as business correspondence, memoranda, internal correspondence, or academic writing, depending on the classifier’s perspective” (DEVITT, 2004, p. 7).

115 ação que realizam com eles. Na verdade, as “pessoas classificam ações exclusivas em rótulos comuns, e nós, estudiosos, chamamos esses rótulos de ‘gêneros’” (p. 09).

A classificação, segundo Miller (2009 [1984) é importante para a ação humana, porque por meio do processo de tipificação é que criamos as recorrências, as analogias, de modo que o que recorre não é a parte material de uma situação, mas a interpretação que fazemos de um tipo32 ou gênero. Para que uma comunicação seja bem sucedida, é preciso que compartilhemos tipos de discursos que são comuns; e o compartilhamento dos tipos é possível porque esses são criados socialmente.

Do ponto de vista de uma teoria retórica, conforme observa Devitt (2004, p. 14), os gêneros são classificados pelas ações que realizam, tendo em vista que gêneros “são ações sociais e retóricas, que funcionam quando as pessoas interagem umas com as outras”33. As ações realizadas pelos gêneros são tipificadas, e, para reconhecer essas ações como sendo tipificações, é preciso que se reconheça que os gêneros são, ao menos em parte, classificações, porém, aquelas feitas pelas pessoas que agem socialmente por meio dos gêneros. Portanto, os rótulos criados pelos usuários, em detrimento daqueles feitos por críticos ou analistas, são os mais importantes para uma definição retórica de gêneros, porque são estes que definem exatamente o fator determinante para dizer que um gênero é distinto de outro (RUSSELL, 1997).

Esse deslocamento é importante porque permite entendermos que quando rotulamos gêneros estamos classificando ações, e não apenas tipos de textos. Segundo Devitt (2004), são os estudiosos que classificam esses rótulos em gêneros, mas os usuários classificam ações exclusivas em rótulos comuns. Aqueles os percebem a partir das ações que realizam no mundo com a linguagem, estes teorizam essas ações e as relacionam a textos resultantes delas e os classificam em gêneros. Os usuários utilizam os gêneros e agem com eles naturalmente e nem sempre têm consciência disso; não têm a percepção [teórica e classificatória] do analista, por exemplo.

32Na teoria Sociorretórica de gêneros, “tipo” é utilizado como correlato de “gênero”.

33 No original: “They are also both social and rhetorical actions, operating as people interact with others [...]”

116 A adoção dessa perspectiva teórica implica um direcionamento metodológico para o estudo de gênero. A abordagem etnometodológica é definida por Miller (2009 [1984], p. 28) como “o conhecimento que a prática cria”, na qual o gênero é definido a partir do conhecimento empírico do seu usuário. Segundo Devitt (2004), é o usuário que tem o conhecimento prático para estabelecer as categorias genéricas, a partir do seu conhecimento implícito dos gêneros. Nesse sentido, são incluídas as compreensões que os retores e as audiências têm acerca do discurso que usam. Miller argumenta que:

um princípio classificador baseado na ação retórica parece refletir mais claramente a prática retórica (especialmente porque [...] a ação engloba tanto a substância quanto a forma). E se o gênero representa ação, tem que envolver situação e motivo, uma vez que a ação humana, seja simbólica ou não, somente é interpretável num contexto de situação e através da atribuição de motivos. (MILLER, 2009 [1985], p. 23) A ação desencadeada pelo gênero faz com que esse seja representado em decorrência da ação que desenvolve. Pelo fato de a ação ser interpretada a partir do contexto em que é produzida, Miller (2009 [1984]) defende o envolvimento das noções de situação e motivo na ação realizada pelo gênero. Os termos situação e motivo são provenientes de Burke (1973), como esclarece Miller, de modo que a discussão de Campbell e Jamieson (1978) depende implicitamente desses termos, particularmente da noção de situação. Miller, com base em Campbell e Jamieson (1978, p. 21), diz que:

um gênero, segundo as autoras não consiste meramente em uma série de atos em que certas formas retóricas recorrem (...). Antes, um gênero é composto de uma constelação de formas reconhecíveis ligadas umas às outras por uma dinâmica interna (MILLER, 2009 [1984], p. 23).

Na definição de Campbell e Jamieson, gênero é entendido a partir de uma visão que o concebe como portador de formas reconhecíveis. Essas formas reconhecíveis podem ser definidas como o reconhecimento socialmente definido e compartilhado de similaridades, que podem ser entendidas como a definição mais direta para o que Miller denomina de

tipificação. Segundo Bawarshi e Reiff (2013 [2010]), essa noção se mostra essencial para

uma concepção de gênero como ação social. Bazerman e Miller (2011) ratificam o pensamento de 1984 e afirmam que o conceito de tipificação permite que vejamos, além das similaridades na forma, as similaridades no conteúdo e na ação. De modo que são as similaridades de forma e conteúdo que nos permitem engajar nas similaridades de ação, e a

117 tipificação se aplica nos três níveis do gênero: a forma, a substância e a ação social [que é retórica].

E é a recorrência no uso das formas tipificadas que possibilita o reconhecimento delas, que, segundo Miller (2009 [1984]), são organizadas no gênero a partir de uma dinâmica interna que “funde” características do âmbito substantivo, ou conteudístico, estilístico e situacional. Essas características, juntas, dão o caráter de uma “resposta” retórica do retor a “demandas” situacionais, ou seja, nós respondemos retoricamente às demandas sociais através de formas de uso linguístico, que são reconhecíveis para nós, dada a recorrência no uso das mesmas.

Bawarshi e Reiff (2013 [2010]) afirmam que a maior contribuição de Miller para os estudos retóricos de gênero foi entender que estes precisam ser definidos em termos de fusão de formas relacionadas a situações recorrentes e em termos das ações tipificadas produzidas por essa fusão. Já a ideia de ação baseada em situações recorrentes mostra sua importância na medida em que nos aponta um modo de compreensão da “relação dinâmica entre os gêneros e as exigências, situações e motivos sociais – em suma, a relação entre os gêneros e a maneira como construímos, interpretamos e agimos nas situações” (BAWARSHI e REIFF, 2013 [2010], p. 92 e 93).

3.2.2 A situação retórica recorrente

A noção de situação é explorada por Miller (2009 [1984]) a partir de Bitzer (1968), que aponta um caminho para o estudo do gênero, na observação de que as situações são recorrentes, muito embora este autor nunca tenha se referido a gêneros. Para Bitzer (1968), em nosso dia a dia, ocorrem situações que são comparáveis, e por serem comparáveis nos levam a respostas que também são comparáveis.

Nesse sentido, respostas comparáveis, que podem ser vistas como formas recorrentes de discurso, tornam-se uma tradição, que tende a restringir a forma de apresentação de novas respostas, que, por sua vez, são parte da tradição. Miller (2009 [1984]) esclarece que o fato de os retores responderem de forma semelhante em elogios fúnebres, discursos inaugurais, por

118 exemplo, deve-se à questão de existirem situações com estruturas e elementos semelhantes. Nesse caso, quando respondemos retoricamente a determinada demanda social, fazemos a partir daquilo que aprendemos socialmente como sendo o mais apropriado, e de certa forma agimos/respondemos já sabendo possíveis efeitos que nossas ações terão sobre as outras pessoas.

Numa teoria de gêneros, conforme Miller (2009 [1984]), é particularmente importante considerar o fato de que as situações retóricas são recorrentes. A recorrência deve ser entendida a partir da inferência que fazemos por meio da nossa compreensão social de situações que nos pareçam comparáveis, similares ou parecidas (análogas) a outras, embora nenhuma dessas situações seja igual a outra, já que todas são únicas, não se repetem, não ocorrem novamente, apesar de serem semelhantes.

Pelo fato de a recorrência da situação retórica ser um fenômeno intersubjetivo e de caráter social, a mesma não deve ser confundida em termos materialistas, haja vista que o que recorre na situação não é uma configuração material dos objetos, dos eventos ou das pessoas, nem mesmo uma configuração subjetiva (uma percepção individual), “porque essas também são únicas de momento a momento e de pessoa a pessoa” (MILLER 2009 [1984], p. 30). Miller afirma que nossas ações humanas são guiadas por significações advindas das interpretações que fazemos antes de agir, em que interpretamos “o ambiente material indeterminado; definimos, ou ‘determinamos’, uma situação”. Nesse caso, chegamos “a determinações comuns de estados de coisas materiais que podem ter muitas interpretações possíveis”, pois o nosso estoque de conhecimentos está baseado em tipos:

em outras palavras, nosso estoque de conhecimentos é útil apenas na medida em que pode ser relacionado a novas experiências: o novo é tornado familiar através do reconhecimento de similaridades relevantes; aquelas similaridades se constituem como um tipo. Um novo tipo é formado a partir de tipificações já existentes quando elas não são adequadas para determinar uma nova situação. Se uma nova tipificação evidencia ser continuamente útil para o controle de estados de coisas, ela entra no estoque de conhecimentos e sua aplicação se torna rotineira. (p. 30-31)

Aqui, temos uma reflexão importante sobre o processo de utilização do gênero a partir da situação: o que nos aparece como novo é oriundo daquilo que entendemos como fazendo parte de novas experiências. Devitt (2004) afirma que um gênero nasce a partir de uma necessidade criada por uma situação, mas o nascimento de um gênero acontece a partir

119 de outros gêneros ou tipos preexistentes, quando estes não são mais adequados ou não mais atendem às determinações da situação. Quando o uso retórico de uma tipificação nova atende à demanda-resposta de uma situação, a tendência é que haja recorrência de uso e a tipificação se torne um gênero ou um tipo (de discurso) e passe a fazer parte do nosso estoque de conhecimento, para ser utilizado quando estivermos diante de uma situação que nos pareça conveniente ou apropriada. Segundo Devitt (2004, p. 13), “a compreensão de gênero implica a compreensão de uma situação retórica e seu contexto social”34

.

Como já dissemos, a situação retórica recorrente não é material, uma vez que resulta de uma interpretação que fazemos de situações que nos pareçam comparáveis. Assim, apresenta em seu seio uma exigência, que também não se localiza numa percepção privada ou individual, nem numa circunstância material, mas está localizada no mundo social, podendo também ser caracterizada como um fenômeno retórico e social:

a exigência é uma forma de conhecimento social – uma interpretação mútua de objetos, eventos, interesses e propósitos que não somente os ligam entre si, mas também os fazem ser o que são: uma necessidade social objetificada [...]. Inversamente, embora a exigência forneça ao retor um sentido de propósito retórico, claramente não é a mesma coisa que a intenção do retor, pois esta pode ser mal- formada, dissimuladora ou diferente do que a situação convencionalmente sustenta. A exigência fornece ao retor uma maneira socialmente reconhecível para realizar suas intenções conhecidas. Oferece uma ocasião e assim uma forma, para tornarem públicas nossas versões privadas das coisas. (MILLER, 2009 [1984], p. 32, grifos nossos)

A exigência consiste numa necessidade de uso linguístico advinda de uma situação social. Logo, a exigência retórica é interpretada pelo retor a partir de uma situação social que lhe aparece como recorrente e o impulsiona a agir por meio da linguagem, utilizando-se, para isso, de tipos ou gêneros reconhecidos socialmente como capazes de resolver determinado problema ou de elucidar a necessidade retórica imposta por aquela situação social.

Miller (2009 [1984]) chama atenção para o fato de a exigência retórica apresentada pela situação não ser confundida com o propósito retórico do retor. A exigência aparece para o retor como uma maneira reconhecível, e por isso social, para a realização de intenções conhecidas, que nos apareçam como análogas ou similares a outras intenções [recorrentes], o

34No original: “[...] understanding genre entails understanding a rhetorical situation and its social contexto”

120 que comprova o seu caráter essencialmente social. Já o propósito retórico, conforme observa Miller, está relacionado ao propósito do retor (por isso retórico), e por causa disso pode ser diferente ou não coincidir com a exigência que a situação social convencionalmente sustenta.

Todavia, conforme veremos na subseção 3.2.4, em que tratamos do propósito comunicativo, este também é de natureza social, embora não se confunda com a exigência retórica, tendo em vista que esta é vinculada à situação retórica e o propósito comunicativo (ou propósito retórico) ao gênero. Nesse sentido, em nosso trabalho, não abordamos a noção de propósito como estando vinculada a uma intenção individual do retor, mas ao objetivo que atingimos (ou pretendemos atingir) quando utilizamos um gênero, logo o propósito, ou o conjunto de propósitos comunicativos são abordados em nosso trabalho como categorias do âmbito do gênero.

Um retor pode agir retoricamente por meio da utilização de um gênero, a partir de uma exigência retórica advinda de uma determinada situação. Porém, mesmo utilizando o gênero interpretado como apropriado para resolução de uma exigência retórica imposta pela situação, ele pode optar por utilizar um gênero que satisfaça a exigência retórica da situação, que é social, e ainda atingir um propósito retórico particular (uma intenção), que é individual. Daí a importância apontada por Miller de as noções de exigência e propósito não serem confundidas.

As pessoas constroem a situação recorrente através de seu conhecimento e da utilização dos gêneros. Essas semelhanças reconhecidas de um discurso para outro acontecem porque as pessoas têm um estoque tipificado de conhecimento, ou seja, um conjunto de gêneros socialmente criado. Esse pressuposto, todavia, tem gerado discordância dentro da própria teoria retórica de gêneros. Miller (2009 [1984]) afirma que a recorrência não decorre de uma configuração material (de eventos, pessoas, objetos) e nem de uma configuração, ou “percepção”, subjetiva, “porque essas também são únicas de momento a momento e de pessoas a pessoas” (p. 30). Devitt (2004), diferentemente de Miller, argumenta que a percepção individual é a fonte da reincidência, pois o discurso existe em decorrência dos indivíduos.

121 Dessa forma, Devitt dá destaque ao indivíduo quando afirma que o discurso só existe quando os indivíduos agem, e de alguma forma essas ações são fundamentadas na

Benzer Belgeler