Com forte influência das concepções urbanísticas do subúrbio jardim de Radburn, originalmente uma cidade-jardim projetada por Clarence Stein na década de 1920, Armando Augusto de Godoy foi contratado, em maio de 1936, como consultor da Coimbra Bueno & Cia, empresa contratada para dar continuidade ao planejamento de Goiânia após a demissão de Atílio Corrêa Lima em 1935. Concluído em 1937 e aprovado em 1938, o plano apresentado pela Coimbra Bueno & Cia. mantinha muito da proposta original, basicamente remodelando e reduzindo a zona comercial, ampliando e projetando o setor sul dentro dos princípios de bairro-jardim (que constituiria um segundo “centro de radiação” ao lado do setor central proposto por Atílio Corrêa Lima), e redefinindo o crescimento da cidade agora orientado nas direções sul e oeste do município, visivelmente beneficiando as propriedades da empreitera “Coimbra Bueno”, então encarregada da construção da cidade.
Em relação às áreas livres e verdes, o plano da Coimbra Bueno & Cia. mateve a preocupação ecológica de se preservar matas, bosques e florestas de galeria. Sobre esse aspecto BUENO, em 1938, afirmou: “O brasileiro, talvez por influência atávica, tem o instinto de destruição de florestas.
Para conservar os bosques em estado natural no centro da cidade, e as matas circunvizinhas, tivemos que lutar com elementos, ás vezes, de posição graduada, que mostraram bem claramente quanto o nosso povo ignora o valor da nossa vegetação. Aliás, é mesmo difícil de se convencer um indivíduo que vive lutando contra o mato, de que ele deve proteger as árvores...”.
Ainda em relação às áreas livres e verdes propostas para os fundos de vale e áreas de nascentes, da mesma forma como Atílio Corrêa Lima, o plano apresentado pela Coimbra Bueno & Cia. reforçava a obrigação inconteste do Estado na proteção das matas de galeria, das encostas dos rios e das nascentes em um raio demarcado por técnicos competentes. Dessa forma, as nascentes transformadas em áreas de parques em associação às “park-ways” no longo das margens dos rios possuíam caráter público e se revestiam de função social e ambiental relevantes, dado a cidade possuir um grande número de córregos e cabeceiras de drenagem. Redefinindo o que havia sido proposto por Atílio Corrêa Lima em 1933, o plano em questão propôs como principais integrantes do sistema de espaços livres e verdes da cidade de Goiânia as seguintes tipologias (Quadro 04; Figura 15):
Aeroporto: constitui uma versão mais elaborada daquele previsto por Atílio, possuindo,
basicamente, um campo de pouso circular de 1,1 km de diâmetro, e áreas para aviões (municipais, comerciais e militares), escola de pilotagem e clubes aéreos.
Jardim Botânico: não previsto anteriormente, sendo proposto para as margens da represa Jaó.
Bosque dos Buritis: constitui o “Parque Buritis” previsto por Atílio Correa Lima.
Bosque Capim Puba: previsto no longo do córrego Capim Puba, onde seriam implementadas as
“park-ways” propostas por Atílio Correa Lima.
Bosque dos Bandeirantes: situado nas margens do córrego Capim Puba, constituindo, pois,
parte da “park-way” aí proposta por Atílio Correa Lima.
Jardim Zoológico: não previsto no plano original, constituía parte da área destinada ao Parque
Buritis pelo projeto original da cidade.
Hipódromo e Vila Hípica: não previstos no plano de Atílio Correa Lima, a serem implantados
numa área entre Goiânia e Campinas.
Centro de esportes nobres (pólo, golfe, tênis etc.): não previstos no plano de Atílio Correa
Lima, a serem implantados na mesma área referida acima.
Cemitério “Jardim dos Mortos”: não proposto no projeto original, pressupunha a reestruturação
do antigo cemitério de Campinas.
Anel Verde: englobando as florestas ciliares cuja manutenção fora prevista no projeto de Atílio
Corrêa Lima como parques urbanos delimitados por “parkways”, o “Anel Verde” proposto pelo plano da Coimbra Bueno & Cia. foi previsto visando o isolamento do núcleo urbano projetado frente às demais áreas urbanas que provavelmente se consolidariam nas proximidades do núcleo original.
“Park-way”: Os setores Norte, Central e Sul seriam contornados por uma avenida parque, com largura entre 15 e 20 metros, que limitaria a expansão do núcleo urbano:
“O núcleo central é circundado por uma avenida contorno, para fora da qual nunca
deverão ser permitidas construções urbanas. Este núcleo ficará cercado por uma faixa de bosques e campos de propriedade da prefeitura, e franqueados ao público” (BUENO,
Represa Jaó: construída a partir do barramento do rio Meia Ponte, tendo em vista a geração de
energia elétrica, suas margens foram desapropriadas para que fossem saneadas e reflorestadas e, futuramente, recebessem um tratamento de avenida-parque. Entre a avenida-parque e a represa existiria um gramado recoberto por espécies da flora nativas, que constituiria um Jardim Botânico. Foram previstas ainda áreas para estação de piscicultura, clubes náuticos e estação de hidroaviões.
Áreas de cultivo agrícola: ao lado das áreas situadas no vale do ribeirão Anicuns, portanto ao
Norte da cidade, propostas por Atílio Correa Lima para constituírem áreas agrícolas, o novo plano propõe a utilização temporária, parra esse mesmo fim, de quadras das Zonas Sul e Oeste, que somente seriam urbanizadas no futuro.
Figura 15: Plano Diretor de Goiânia (PDG) – disposição dos espaços livres e verdes. Fonte: IBGE, 1942
Quadro 04: Tipologias de espaços livres e/ou verdes propostos pela Coimbra Bueno & Cia., em 1937, para Goiânia.
Área Livre/Verde proposta Localização Funções
Aeroporto A noroeste de Goiânia. Aeroportuária.
Jardim Botânico Margens da represa Jaó. Recreativa e preservacionista.
Bosque dos Buritis Nascente do córrego Buritis Recreativa e preservacionista.
Bosque do Capim Puba No longo do córrego Capim Puba, entre a Zona de
Esportes e o Setor Oeste. Recreativa e preservacionista.
Bosque Bandeirantes Margens do córrego Capim Puba, entre a Zona de
Esportes e o Setor Oeste. Histórica-monumental e recreativa.
Jardim Zoológico Entre o Hipódromo e o Aeroporto, próximo ao Bosque
dos Buritis. Recreativa e preservacionista.
Hipódromo da Vila Hípica Entre o Setor Campinas e o Parque Zoológico, em área
de terreno plano. Prática de esportes e lazer.
Centro de esporte nobres (pólo, golfe, tênis etc.) Entre o Setor Campinas, o Bosque dos Bandeirantes e o
Parque Capim Puba. Prática de esporte e lazer.
Jardim dos Mortos Campinas. Cemitério.
Anel Verde Entorno do núcleo urbano. Produtiva e de “tampão físico”.
“Park-way” Setores Norte, Central e Sul. Recreativa , prática de esportes, higienista, de
circulação/transporte e preservacionista. Avenida Parque da Represa Jaó (Yatch Clube,
Clube Regatas, pista e estação para hidroaviões e Jardim Botânico)
Margens da Represa Jaó. Recreativa, prática de esportes aquáticos, higienista,
circulação/transporte e preservacionista.
Áreas de cultivo agrícola Entrono do núcleo urbano e quadras das Zonas Sul e
Oeste. Produtiva e de “tampão físico”.