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İğneli Epilasyon Cihazı

3. İĞNELİ EPİLASYON (ELEKTRO EPİLASYON)

3.3. İğneli Epilasyon Cihazı

O submisso é aquele que renuncia à luta por fraqueza, por medo, por resignação. O sereno, não: refuta o destrutivo confronto da vida por senso de aversão, pela inutilidade dos fins a que tende este confronto, por um sentimento profundo de distanciamento dos bens que estimulam a cupidez dos demais [...].

(BOBBIO, 2002, p. 41) Ao analisarmos os depoimentos dos pais quanto à relação afetiva entre eles, a categoria do conflito emergiu, contemplando os vários aspectos observados. De uma parte, a participação da família, dos filhos e dos novos companheiros; de outra, a origem do próprio conflito, como o vivenciaram, ainda o vivenciam, e as formas que utilizam para enfrentá-lo. Por esta razão, faz-se necessário compreendermos, um pouco mais, sobre o conflito.

Usualmente, o conflito é associado a embate, discussão, desavença, luta, colisão, guerra, briga, entre outros termos que indicam negatividade. Necessariamente, o conflito não precisa estar associado ao mal-estar, pois é uma interação e faz parte do viver em sociedade, da condição humana, não estando inscrito nele um juízo de valor, se em si mesmo é bom ou ruim. O conflito integra uma relação social entre as pessoas que se afetam mutuamente através do encontro, mas discordam dos seus pontos de vista, posicionando-se de maneira diferente. Portanto, não há conflito em um uma relação onde as pessoas são indiferentes umas às outras. É ação e reação; é afetamento.

Os princípios da teoria da complexidade auxiliam-nos a uma melhor compreensão do conflito. Rodrigues (2006, p. 20) explica que o primeiro princípio, e talvez o mais contundente, seja o dialógico. Ele conjuga e associa instâncias contraditórias e propõe a convivência de antagonismos e oposições. “Esse princípio mantém a tensão entre a ordem e a desordem, concebendo-as não como dualidade, mas associando-as ao mesmo tempo como complementares e antagônicas, produzindo, assim, organização e complexidade.” O terceiro princípio, o hologramático, percebe o todo na parte e a parte no todo, sendo que cada parte contém o todo e o todo contém a parte. Quanto ao segundo princípio, o da recursão

organizacional, implica em movimento, pois causa e efeito são partes da mesma organização e se retroalimentam. Para a autora,

Esse princípio é importante para pensar a sociedade, as culturas que, uma vez produzidas pelas interações entre indivíduos e organizações, retroagem sobre eles, produzindo-os. Essa ideia rompe com o entendimento linear das relações

causa/efeito, estrutura/superestrutura, voltando-se para perspectivas de ciclos autoconstitutivos, autoorganizados e autoprodutores. (RODRIGUES, 2006, p. 20).

O conflito faz parte das múltiplas conversações e posicionamentos do sistema social; ele indica que há diferenças. A multiplicidade contém componentes semelhantes e distintos que convivem entre si. As diferenças e semelhanças afetam-se mutuamente e podem compor uma nova organização da relação social. Um sistema social de conversações que não comporta diferenças torna-se um sistema pobre, no sentido de que as diferenças elaboradas são promotoras de mudanças e evoluções. A diversidade de opiniões é necessária ao desenvolvimento humano e social. Ela é propulsora da sociabilidade quando transforma a diversidade em unidade sem, com isso, anular a diversidade. Por outro lado, a predominância e a exigência da semelhança de ideias nos relacionamentos sociais inibem a criatividade. “Tudo que é organização viva, não apenas o organismo individual, mas também os ciclos das reproduções, os ecossistemas, a biosfera, ilustra o encadeamento em circuito desta dupla proposição: a diversidade organiza a unidade que organiza a diversidade.” (MORIN, 2003, p. 148). Assim, a diversidade é necessária, deve ser mantida, sustentada, incentivada, desenvolvida em todas as unidades de relacionamento social. Há que se preocupar quando existe a diversidade extrema, deixando as diferenças tomar um vulto intransponível, pois corre-se o risco de tornar aquela relação social insustentável, determinando o seu fim ou estrangulamento. O aumento de diversidade leva ao aumento da complexidade do sistema. Com o crescimento da complexidade, há uma tendência maior à dispersão. Isto requer, por parte da organização, mais flexibilidade e conjunção, no sentido de conectar-se e entrelaçar as ideias. Conforme Morin,

O desenvolvimento da complexidade requer, portanto, ao mesmo tempo uma maior riqueza na diversidade e uma maior riqueza na unidade (que será, por exemplo, fundada na intercomunicação e não na coerção). Assim, em princípio, os desenvolvimentos da diferença, da diversidade e da individualidade internas dentro de um sistema andam juntos com as qualidades emergentes, internas (próprias às individualidades constitutivas) e globais, e com a qualidade da unidade global. (MORIN, 2003, p. 148-149).

Portanto, o conflito é a base das discussões no plano de ideias diferentes. E isto é positivo, na medida em que o conflito colabora para que dele surja uma nova ideia, melhor e mais forte, gerando a aprendizagem de lidar com as diferenças.

Neste trabalho, abordamos o conflito intersubjetivo de justiça, que, segundo Freitas (2009, p. 186), são “[...] aqueles que se projetam nas relações intersubjetivas entre os sujeitos,

individuais ou institucionais, que sejam portadores de valores distintos de justiça”. Freitas aponta que, na perspectiva adotada de conflito, é necessário que esteja presente, simultaneamente, os seguintes predicados:

1. no plano objetivo: um problema alocativo incidente sobre bens tidos por escassos ou encargos tidos como necessários, sejam os bens e os encargos de natureza material ou imaterial; 2. no plano comportamental: consciente ou inconsciente, intencional ou não, contraposição no vetor de conduta entre dois sujeitos; e 3. no plano anímico ou motivacional: sujeitos portadores de percepções diferentes sobre como tratar o problema alocativo, como função de valores de justiça. (FREITAS, 2009, p. 187).

No plano objetivo, é necessário que exista um bem ou um encargo que esteja sendo disputado, que haja dificuldades em alocar ou distribuir o que está sendo pleiteado. Este bem ou encargo é tido como necessário e inevitável à vida daqueles sujeitos, o que, diante da escassez do recurso, pode levar a uma escolha trágica (CALABRESI; BOBBITT, 1978). No caso de escassez, consiste a dificuldade do estabelecimento de critérios que contemplem ambas as partes. Trazendo esta questão para a especificidade deste estudo, por exemplo, a guarda dos filhos deverá ficar com um dos pais; e mesmo ocorrendo a versão compartilhada, deverá ser fixada a residência dos filhos. O tempo de permanência dos filhos deverá ser com o pai ou com a mãe, pois não há como os filhos ficarem com os dois ao mesmo tempo, já que os pais não compartilham a vivência de casal. Portanto, eis o dilema: o recurso, qual seja a disponibilidade física dos filhos, é apenas um, uma vez que não há como estar fisicamente, e ao mesmo tempo, em dois lugares.

No plano comportamental, este algo que é disputado está em meio a um comportamento de dois ou mais sujeitos que querem, no todo ou em parte, a mesma coisa. Muitas vezes, este comportamento está dominado pela paixão, ditado por ideias inadequadas, no sentido espinosano de que não são ideias claras. Um exemplo muito comum de ideias inadequadas refere-se aos usuários confundirem “poder familiar” e “guarda”79. O sujeito é

79A Guarda possui tamanha dimensão jurídica que chega, na prática, a confundir-se com o Poder Familiar.

Nossa legislação não oferece uma definição do Poder Familiar e do termo Guarda, mas relaciona as suas funções, inserindo-as entre os deveres parentais. O Poder Familiar, anteriormente denominado de Pátrio Poder no direito brasileiro, traduz-se no conjunto de responsabilidades e direitos atribuídos aos pais a ser exercido no interesse dos filhos até que atinjam a maioridade, enquanto que a Guarda é o direito/dever dos pais, ou de cada um deles, de ter em sua companhia contínua e vigilância os filhos, provendo-lhes os cuidados mais diretos na saúde e educação, por exemplo.

Desta forma, aquele que detém a Guarda unilateral tem também o Poder Familiar, enquanto que aquele que não detém a Guarda não deixa de ter o Poder Familiar que, também, lhe obriga e concede responsabilidades e direitos quanto aos filhos. A Guarda dos filhos é um atributo do Poder Familiar. No modelo de exercício de Guarda unilateral, o genitor que detém a Guarda contínua detém a maior parcela do conteúdo do Poder Familiar

afetado e afeta o outro de inúmeras maneiras simultâneas, sendo este processo retroalimentado por ideias que podem ser inadequadas, ocorrendo desqualificações80,

rejeições e desconfirmações81 do outro. Quer seja de forma intencional ou não, existe uma

contraposição na conduta dos sujeitos.

No plano anímico ou motivacional, estes sujeitos têm a convicção de que lhes é de direito aquilo que está sendo pleiteado, pois têm percepções não convergentes quanto à justeza da decisão alocativa a ser tomada. Referimo-nos à justiça no sentido que vai além da igualdade, na perspectiva da equidade, sem correspondência direta com o repertório da legalidade. Os critérios de justiça estão vinculados à perspectiva ética, adotada pelo sujeito em sua individualidade.

O conflito intersubjetivo de justiça, do qual trata este estudo, refere-se ao familiar. Quando a família leva o conflito para o Judiciário, ele sai da esfera privada e vai para a pública. A família judicializa seu conflito como uma expressão da questão social. O judiciário, como a instituição que trata da justiça, recebe a demanda.

Bruno (2006) estuda a litigiosidade na justiça da família. Analisa as demandas mais significativas neste contexto e as possíveis formas de intervenção judiciais nas demandas. Em (guarda, educação e criação), restando ao guardião descontínuo o poder-dever de fiscalização e visitação. No mais, o dever de sustento e decisões sobre a disposição de bens, emancipação, bem como autorização para casar, viajar para o exterior, nomear um tutor e representação dos atos da vida civil representam um exercício que permanece em conjunto por disposição expressa legal. Os estudiosos deste tema costumam referir-se a um esvaziamento do Poder Familiar sofrido pelo guardião descontínuo, uma vez que a Guarda concentra, em si, grande parcela do conteúdo do Poder Familiar. Entretanto, há quem não compartilhe deste entendimento, alegando que somente a educação e as decisões diárias são atribuídas ao guardião contínuo, pois a vida das crianças/adolescentes é muito maior do que esses aspectos, e as grandes decisões sobre a vida dos filhos permanecem sob o exercício de ambos os pais.

Cabe esclarecer, também, que a Guarda é aplicada em dois tratamentos jurídicos diferenciados: o previsto pelo Código Civil; e outro, pela Lei nº 8.090/90, Estatuto da Criança e do Adolescente. A Guarda civilista cuida da proteção dos filhos menores no âmbito da família parental, ao passo que a Guarda estatutária trata da Guarda das crianças e adolescentes em situações de risco como forma de regulamentação da posse de fato, como medida liminar ou incidental nos procedimentos de tutela e adoção ou, excepcionalmente, para atender a situações peculiares ou para suprir a falta eventual dos pais ou responsáveis, podendo ser deferido o direito de representação para a prática de determinados atos (art. 33 do ECA). (LEVY, 2008).

80 “Processo interativo que consiste no menosprezo do conteúdo do enunciado de uma pessoa, da própria pessoa,

do que ela faz e do contexto em que se faz o enunciado ou ação. Nas transações mais perturbadas, a desqualificação faz-se em todos os níveis ao mesmo tempo.” (MIERMONT, 1994, p. 188).

81 A rejeição é a negação da existência do outro ou do assunto que está se tratando. Existe, portanto, o

reconhecimento limitado, ou seja, reconhece-se a existência do que se fala, ou da pessoa que interage. O assunto ou a pessoa é apenas negado. A desconfirmação difere da rejeição porque é uma forma em que ela ignora a existência da fala ou da existência da própria pessoa que interage. Na desconfirmação, a pessoa ou assunto é dado por inexistente por aquele que desconfirma. Consideramos esta uma das maneiras mais cruéis de desqualificação e de tratar outro ser humano (ANTONIO, 2013). A base do entendimento de rejeição e desconfirmação pode ser encontrada em “Pragmática da Comunicação Humana”, de Watzlawick, Paul; Beavin, Janet Helmick; Jackson, Don D. p. 96-99.

um dos seus enfoques, analisa a percepção dos magistrados sobre a autoridade que exercem nos conflitos de família e demonstra que, embora a legitimação da autoridade seja legal- racional, há também uma legitimação carismática. Argumenta que há uma interface entre a mudança na forma de resolução dos conflitos familiares e a maior presença do Poder Judiciário na sociedade. Este fato teria como sua principal influência o declínio do patriarcado e o reconhecimento legal das relações familiares menos hierárquicas. A autora entende que, com o declínio da autoridade tradicional, os conflitos familiares demandam, mais intensamente, as decisões judiciais. Isto produz uma “racionalização da intimidade”, e os magistrados intervêm nesses conflitos, exercendo uma autoridade legitimada, tanto racional como carismaticamente. A conclusão da referida estudiosa é de que “[...] a forma como se constitui a demanda – racionalizando a intimidade – e o exercício da autoridade do magistrado – racional e carismática – indicam que os conflitos familiares são exemplos da jurisdicionalização das relações sociais”. (BRUNO, 2006, p. 6).

Como já afirmamos anteriormente, as relações afetivas familiares vêm se modificando para uma organização menos hierarquizada e exigindo de seus protagonistas novas formas de pensar e agir. O sistema legal e jurídico acompanha e faz parte dessas mudanças82, entre

outras, com o reconhecimento da igualdade entre homens e mulheres no referente aos direitos e aos deveres. Uma das saídas para as dificuldades no exercício desse novo desenho de autoridade familiar compartilhada - poder familiar - pode estar sendo buscada no judiciário, ao mesmo tempo em que o judiciário tem se mostrado de alguma forma, por sua estrutura e funcionamento, mais apto a responder tais questões. A este respeito, Bruno esclarece que

Uma das condições para a expansão do Poder Judiciário, em sua dupla dimensão - intensificação de sua atuação e difusão de seus métodos - é o processo de democratização (re-democratização) pelo qual passam muitos países. Esses processos, ligados a contextos mais amplos de reconhecimentos de direitos individuais e coletivos, são feitos especialmente através das cartas constitucionais, e, mesmo que ainda não consolidados, o simples reconhecimento dos direitos provoca um aumento na procura de soluções jurídicas para sua garantia e consolidação. (BRUNO, 2006, p. 23).

Assim, caminham juntas e intrinsicamente atreladas, as mudanças nas relações familiares, as modificações no sistema legal e jurídico e, consequentemente, as novas exigências no exercício da magistratura para adjudicar as demandas a ela imposta. Cada vez

82 Uma das mudanças que vale mencionar refere-se à inclusão da denominação “entidade familiar”, na

Constituição Federal, que abarcou outras formas de organização familiar que não a exclusivamente formada a partir do casamento.

mais, os magistrados estão sendo chamados a se manifestarem em conflitos de ordem moral e social. Desta forma, o acesso ao sistema de justiça passa a ser, também, uma forma de acesso ao exercício da cidadania, fazendo uma conjunção entre justiça e democracia, ao mesmo tempo em que personifica pequenos retratos dos conflitos das relações familiares, trazendo a sua contribuição ao grande mosaico das relações sociais.

Inspiradas em Rojo (2003, 2004), acompanhamos Bruno (2006) quanto à opção do termo jurisdicionalização83, pois este implica no reconhecimento dos indivíduos como sujeitos de direito que demandam uma decisão a ser tomada pelo judiciário e “[...] uma ressignificação para a solução do conflito, ou pelo menos, para a sua legitimação na inserção da esfera pública”. (BRUNO, 2006, p. 36). Portanto, não significa, apenas, o submetimento do conflito ao judiciário, mas “[...] de indivíduos ou grupos que, identificando-se como sujeitos de direito, submetem suas demandas aos tribunais e outras instâncias adjudicatórias”. (BRUNO, 2006, p. 162).

Assim é que a solicitação pelos sujeitos, levando à intervenção do judiciário nos conflitos familiares, torna-se uma jurisdicionalização das relações afetivas familiares, visto que os sujeitos, imbuídos de conseguirem efetivar seus direitos, buscam no judiciário um recurso para que o direito seja realizado e encontram acolhimento de seu pleito na instituição. Ocorre que, para que se deslinde, encontra-se, na atuação do magistrado, a encarnação do que deva ser o justo. O magistrado é aquele que vai decidir sobre o conflito instaurado, conflito este nutrido por fortes emoções, mas que, para seus protagonistas, necessita de uma decisão racional. Neste sentido, as percepções dos juízes neste estudo são da maior importância.

Os usuários do judiciário, ao buscarem a efetivação dos seus direitos, estão carregados de afetividade e procuram, na instituição, não somente um acolhimento a esta necessidade racional, mas, também, emocional. A figura do juiz, do “pai justo que decide”, ainda permanece no imaginário. Suas palavras têm um peso maior, tanto por seu poder de decisão quanto por sua carga simbólica. Os usuários esperam uma decisão justa e racional, assim como acolhimento de ordem emocional às suas expectativas sociais: encontrar, no juiz, vocação e carisma no exercício da função. Com isso, temos que a autoridade do juiz de família não seria legitimada apenas racionalmente, mas afetivamente, por meio do carisma. Portanto, “[...] mesmo tendo a princípio sua autoridade legitimada pela ordem legal-racional,

83 “Jurisdicionalização tem maior abrangência analítica do que judicialização, que significa apenas a maior

penetração do Judiciário, quer por si mesmo ou pela difusão de seus métodos.” (BRUNO, 2006, p. 36). O termo judicialização é pertinente à relação judicial.

quando distanciam o ideal da formação do estritamente formal, no sentido da norma legal, se afastam também da concepção do perfil típico de um profissional burocrata”. (BRUNO, 2006, p. 155). Neste momento de emoções e sentimentos confusos - qual seja o litígio familiar -, as palavras de um juiz, por sua simbologia, têm força e grande capacidade de apaziguamento.

Contudo, apesar de os usuários serem receptivos à palavra de apaziguamento, frustram-se, pois esperavam que o juiz tomasse uma decisão favorável a si. A frustração também acontece no momento que o magistrado, “ser onisciente, onipresente, sabedor de todas as coisas” - no imaginário -, coloca-se em uma posição humana e volta-se para o sujeito, sugerindo que ele reflita sobre aquilo que já havia pensado à exaustão. Ao fazer isso, o magistrado abdica do poder cultural que lhe foi outorgado e não utiliza o carisma para a dominação do outro, mas para a sua emancipação, exercitando a sua autoridade carismaticamente legitimada para a legitimação do outro como legítimo outro, ou seja, um sujeito capaz, que tem sua potencialidade, que é dotado de conatus.

Os conflitos familiares como objeto de ação judicial institucionalizam-se, mas também desinstitucionalizam-se, quando a “[...] solução e o encaminhamento desses conflitos se dão não apenas pela intervenção da autoridade racional, mas também pela carismática”. (BRUNO, 2006, p. 161-162). A desinstitucionalização promovida pelo magistrado oferece novas possibilidades aos usuários; entre elas, a participação da mediação familiar, pois, conforme sublinha Bruno,

[...] se esta jurisdicionalização expressa o des-encanto das relações familiares, com a perda de sua fundamentação tradicional, pode também significar a possibilidade de re-encanto, se a vocação dos magistrados os levarem a desenvolver a personalidade carismática. Assim fazendo, os magistrados podem interromper ou inverter, a qualquer momento, a “mercantilização dos afetos” (racionalização da intimidade), expressão que designa de forma exemplar o processo de racionalização moderna no contexto das relações familiares e da jurisdição de família. (BRUNO, 2006, p. 163- 164).

A mediação famíliar judicial é um componente da jurisdicionalização das relações afetivas familiares, à medida que os usuários demandam para o judiciário (judicialização) e ele oferece ao demandantes uma nova possibilidade - mediação familiar - para que os usuários retomem a reflexão sobre o seu conflito (desjudicialização).

Destarte, a mediação familiar judicial está dentro de um contexto social, o da jurisdicionalização das relações familiares. O esforço que cabe à mediação familiar é

compreender o conflito, abrir-se para a possibilidade de conhecê-lo, de entender como ele ocorre, de predizer que consequências pode acarretar, porque, em certa medida, a compreensão deve poder conter o conflito, deve pensar e potencializar a capacidade dos conflitantes de interpretarem, de conhecerem melhor essas ideias inadequadas a fim de transformá-las em ideias adequadas. “Em suma, passar da condição de causa inadequada à de causa adequada exige passarmos das ideias inadequadas às adequadas, de sorte que, para nossa mente, conhecer é agir e agir é conhecer.” (CHAUÍ, 2011, p. 96).

Nos depoimentos dos integrantes da pesquisa, observamos que o conflito entre os pais não se restringe a eles: envolve seus próprios pais (avós), amigos, filhos e os novos parceiros amorosos. Desta forma, concentramos, didaticamente, os aspectos que envolvem terceiros e os que tratam, especificamente, da relação afetiva somente entre os pais.

Inicialmente, trabalhamos os aspectos que envolvem terceiros, que emergiram sobre a família extensa, para, em seguida, falarmos sobre o envolvimento dos filhos e