2. AMPULLÜ EPİLASYON
2.4. Ampullü Epilasyon Cihazı
Como pais, somos assim como que “requisitados” pela vida a exercer certas funções de natureza vital; em certa medida, todos são pais “adotivos”, que deverão adotar não apenas nossas crianças, mas também o papel que temos que ter para com eles.
(BOVE, 2010, p. 61)
A relação dos pais com os filhos é a que expressa, de maneira mais visível, a afetividade. Por isso, procuramos compreendê-la, observando, nos fragmentos dos discursos, os três afetos que Spinoza considera como primários – alegria, tristeza e desejo – e, ao final, deparamo-nos que os problemas dessa convivência para os protagonistas deste estudo é um sofrimento ético-político. O litígio foi a ação encontrada para a tentativa de realização do desejo de efetivação dos seus direitos e dos filhos.
A afetividade e as regras formais a respeito das relações familiares modificam-se, pois fazem parte de todo o complexo da nossa sociedade. Morin (2007, p. 171) define a família como uma “[...] organização bio-sócio-cultural [...]”, que “[...] liga o arcaico, o histórico e o contemporâneo. Atravessa os séculos e as sociedades, tendo ainda futuro”. A família contemporânea ganhou ares democráticos, e a continuação da posição subalternizada da mulher e dos filhos em relação ao homem passou a não ter congruência. Com isso, a questão do poder dentro da família foi, e vem sendo, alterada. Passou-se a esperar do homem mais compreensão no trato com os outros membros, obrigando-o a repensar o modelo em que foi socialmente construído, como já mencionamos anteriormente. Por vezes, o modelo burguês e o contemporâneo sobrepõem-se, exigindo dos integrantes da família que tenham características de ambos, recriando, assim, uma nova maneira de pensar e de agir que não é referente ao primeiro ou ao segundo, mas sim algo novo no âmbito das relações afetivas familiares.
A legislação brasileira vem acompanhando essas mudanças, principalmente quando promulgou a Lei nº 11.698, em 13/06/2008, que dispõe sobre a Guarda Compartilhada, e a Lei nº 12.318, em 26/08/2010, que dispõe sobre a Alienação Parental. Essas mudanças também puderam ser vistas quando, no país, o Código Civil e Estatuto da Criança e Adolescente mudou a expressão “pátrio poder” para “poder familiar”. Além disso, foram promulgadas algumas leis que causam menos comoção, mas que, de alguma forma, expressam essas mudanças – como, por exemplo, a Lei nº 11.924, de 17/04/2009, que autoriza o(a) enteado(a) a adotar o nome da família do padrasto ou da madrasta. (BRASIL, 2008, 2009, 2010).
Consideramos que a relação familiar entre pais e filhos é, senão a mais importante, a mais visceral. A existência desta em uma família é que traz a perpetuação e os laços emocionais incontestáveis em sua importância. Mesmo para pessoas que não têm filhos, a relação familiar é uma questão de debate, quer seja por opção pessoal e social ou por razões orgânicas. Ter filhos significa, também, ter uma continuação familiar e pessoal, pois “[...] o nome de família funda a identidade pessoal” (MORIN, 2007, p. 172). Esta relação não idealizada é permeada por afetos alegres, tristes e desejantes, que influenciam na variação da intensidade da força vital do corpo e da mente dos seus protaganistas. A relação com os filhos é fonte de alegria, mas também de tristeza. Não está nesta afirmação juízo de valor, se isso é positivo ou negativo, mas a constatação do que ocorre nessa relação tão delicada. Chauí (2011, p. 90), explicando Spinoza, diz que “Bom é tudo quanto aumente a força de nosso
conatus; mau, tudo quanto a diminua. Eis porque Espinosa afirma que algo não é desejado por nós por ser bom, mas é bom porque o desejamos.” A autora diz, ainda, que
Alegria, tristeza e desejo combinam-se em múltiplas formas dando origem a inumeráveis afetos, ainda que cada um dos três afetos originários forme um sistema com sua lógica própria. Em outras palavras, num sistema de alegria, as paixões tristes serão incorporadas de tal maneira que as forçaremos a operar como se pudessem aumentar nossa força vital, e, ao contrário, num sistema de tristeza, as paixões alegres serão incorporadas de tal maneira que as forçaremos a operar como se devessem diminuir nossa força vital, ainda que imaginemos estar assim aumentando-a. Exatamente porque afetos alegres, tristes e desejantes se entrecruzam e entrelaçam de formas múltiplas e variadas. (CHAUÍ, 2011, p. 92).
Desta forma, procuramos compreender as relações afetivas dos sujeitos pesquisados com seus filhos, observando, inicialmente, os três sistemas de afetos primários nessa relação, considerando que os afetos podem não estar ligados ao seu sistema próprio, ou seja, um afeto, aqui nomeado ou expressado como triste, pode servir para aumentar a potência daquele sujeito; assim, não estará ligado ao sistema de tristeza, mas de alegria. Por outro lado, pode
ocorrer o contrário, isto é, um afeto alegre pode estar essencialmente ligado ao sistema de tristeza e, portanto, aumentar, momentaneamente, a potência de ação do sujeito, quando, na verdade, a diminuirá.
Os sujeitos pesquisados foram enfáticos ao demonstrarem afetos alegres em relação aos filhos. Utilizaram falas efusivas, expostas em risos, sorrisos e lágrimas amorosas, de contemplação e de admiração pela pessoa do filho, agradecidos pela oportunidade de serem pais, felizes por perceberem nos filhos a continuidade do seu ser.
Ele é demais, maravilhoso! [sorriso] Olha que menino, poxa, uma alegria! Deus é muito bom com a gente, nossa! (Rui)
Minha filha é muito forte, linda! Tem um coração bom (...) é amada e está de parabéns! (Marlene)
Converso, explico, porque ela é curiosa. Sempre tive um relacionamento desse jeito, está indo muito bem! (Mariane)
Ela é tudo pra mim, morro, passo nervoso [risos], temos muitos momentos alegres. A gente brinca, se diverte! (Nilson)
Ser pai é gostoso... Amo demais meus filhos, Deus foi muito bom por ter permitido que a guarda deles ficasse comigo [olhos marejados]. (Flávio)
Demonstro meu amor, (...) pergunto se querem sair comigo, jantar... Eu volto rapidinho se eles querem ir ao cinema, jogar bola... (Orlando)
Ele passa todo final de semana com o pai e eu que levo e busco, e ele não me paga a gasolina! [risos] (Maria das Graças)
Eu fiz questão de ter quatro filhos, porque tenho certeza que é importante para ter uma casa alegre. (Sueli)
Posso falar que no final o que ficou de melhor foi o nascimento das crianças (...). (Carlos)
uma coisa gostosa... De todos os investimentos considero o meu maior, porque o dia em que eu for embora ficará uma sementinha de mim. (Mário)
Se eu vier falecer amanhã, seria tão bom alguém falar assim: “teu pai não era rico, mas um cara muito boa gente.” [olhos marejados] (Fúlvio)
Ela fala pra mim: “mãe, eu quero fazer Medicina, não vejo a hora de fazer 14 anos pra trabalhar e ter minhas coisas.” (Luísa)
Os afetos alegres demonstrados não foram etéreos, mas ligados ao cotidiano, em ações aparentemente banais. Foram valorizadas atividades corriqueiras, como levar o filho a uma festinha de criança, passar as noites com ele, receber um telefonema, ter companhia para assistir um filme, conversar, fazer uma refeição juntos ou, até mesmo, apenas ter tempo para parar e olhar o rosto do filho. Enfim, amar, sentir-se amado e estar presente quando o filho faz questão da sua presença. O sucesso e a vivacidade dos filhos são incorporados como sendo seus. Os pais olham para os filhos e vislumbram a perspectiva de futuro, o ânimo para continuar a vida!
Ela falou: “você pode levar o Thiago lá na festinha?” Respondi: “posso, claro!” Mas, normalmente, ela pede pra trocar quando tem uma festinha. Ela fez questão de eu ir dessa vez. (Rui)
Quando vi que ia dar uma brecha pra poder conversar com ele e conseguir que o menino passasse o dia e ficasse comigo, a noite foi muito legal! (Maria das Graças) A parte boa de ser pai? É o carinho, né? O filho telefonar e falar que está com saudade... (Fúlvio)
Quando eu alugo filme e fica todo mundo sentado no sofá, ou os três ficam deitados na cama, assistindo filme, é muito legal! (Mariane)
Eu sento no chão e a gente brinca junto (...), conversa bastante. Às vezes, levo alguma coisa que ela gosta de comer, ou uma ‘bobeirinha’... (Nilson)
Participei de muitas coisas com eles. Sempre fui muito amigo, nos falamos e estamos sempre juntos. (Mário)
Faço questão de estar com eles toda semana. Vou uma ou duas vezes, nem que seja pra ficar 5 minutos na porta, na calçada. (Orlando)
A Carla é a menor de todas. Ela fala:“vou ficar com o meu pai”, e fica comigo. É impressionante! (...) (Carlos)
Ela é danada; tenho muito orgulho dela! (Marlene)
Na reunião, a professora só deu parabéns pra ela e elogio pro pai e pra mim, porque era tudo nota 10! (Luísa)
Por mais problemas e diferenças que os irmãos tenham, acho que os irmãos, em algum momento da vida, vão se ajudar. (Sueli)
Quando vejo um conhecido meu tendo netos, já me imagino naquela situação. (Flávio)
Se, por um lado, os afetos alegres estavam presentes nos relatos, percebemos, também, tristeza nos depoimentos dos pais quando se referiam a seus filhos, demonstrada na recusa destes em conviver com eles, na distância e no conviver separadamente. A educação, no sentido de colocar limites, foi também motivo de tristeza, seja pelo fato de ter que incluir esta obrigação na educação ou pelo de ficar sozinho com ela, sem poder compartilhar com o outro os rumos da educação. Uma tristeza muito profunda foi demonstrada pelo pai e pela mãe que avaliaram que o outro não expressava o amor pelo filho como gostaria. Por fim, a tristeza fez- se presente à medida que ficou visível para os pais, ou para um dos pais, a separação do filho como outro ser, diferente de si, que tem o seu próprio caminho a seguir.
Vi a mudança na conduta dos meus filhos (...). Eles diziam: “pai, para no portão.” Depois de um tempo, os dois não queriam vir... [silêncio... choro]. (Orlando)
É muito triste esse momento porque minha filha não tem mais convívio comigo e com a minha família. Falei:“tenho 50 anos, daqui a pouco morro e você nem ficou com seu pai!” Tô mal! [olhos marejados]. (Carlos)
Ela grita muito comigo, me responde. Sinto-me chateado, mas não a culpo (...) (Mário)
Queria ter meus filhos mais perto de mim. Eles não têm culpa... [choro], eu quem quis essa separação de mãe e filho (...), abandonei a casa. (Luísa)
Fiquei muito triste, passei momentos difíceis. Quando você mora com o filho e fica um tempo longe... (Rui )
Ela, às vezes, não quer deixar o moleque sozinho, andar de bicicleta. Ele já tá na idade que pode ir à padaria (...). Aborreço-me. (Fúlvio)
O que vejo neles de errado falo, não consigo ser diferente! O meu amor expresso ali pro que fizerem, bem ou mal! (Sueli)
O que me suscita raiva dela é o jeito que ela trata o filho. Ela não ligar pra saber se os meninos estão bem, doentes... (Flávio)
Aquele objetivo que eu tinha, que minha filha se sentisse amada pelo pai, ainda não consegui. (Marlene)
Eu quase que pirei quando fui ver as fotos do acampamento numa ilha deserta!!! (Maria das Graças)
É meio triste falar isso, mas a função do pai e da mãe é se tornar, cada vez mais, desnecessário para o filho... (Mariane)
Não tenho medo da morte; eu tenho medo de deixar os filhos aí e não estar tudo encaminhado [olhos marejados]. (Fulvio)
Observamos, nos sujeitos pesquisados, que, quando o assunto era relacionado aos filhos, os pais eram tomados pelo desejo em relação à vida dos filhos e à sua própria. Esse desejo referia-se à vontade de que os problemas fossem resolvidos, os conflitos fossem superados, a vida dos filhos fosse melhor do que aquela que eles viveram. Sendo assim, bons presságios foram emanados.
Quem sabe, um dia ela [mãe] acorde, dê um estalo e passe a incentivar os meus filhos a virem comigo. (Orlando)
Quero ela seja feliz com o pai, tenha momentos bons com o pai. (Marlene)
Que ele se sinta sempre acolhido, seguro, que tenha muito carinho, compreensão, autoestima, saudável em todos os sentidos (...) (Nina)
Vou estar sempre ao lado dele, ser um grande amigo... Mostrar o que acho certo, mas deixá- lo optar, fazer dele uma pessoa que saiba conduzir sua vida. (Rui)
Não queria que fosse que nem eu, uma correria. Quero que ele não sofra o que sofri, que ele aproveite minhas experiências. (Fúlvio)
Quero que meus filhos cresçam diferentes de mim e da mãe (...). Fui diferente de meu pai. Dou carinho, amor, disciplino, saio pra passear com eles. Fiz tudo pra eles irem além com os filhos deles. (Flávio)
Quero que ela seja muito melhor que eu e a mãe dela, que nos separamos. Cresça sadia, forte, com muita alegria, amor, tenha caráter (...) Quero ser um avô, bisavô (risos). (Nilson) Seja uma pessoa com estabilidade, feliz de verdade. Saúde (...) Fiz várias coisas; umas deram certo e outras não; não me fizeram feliz, me fizeram ficar tenso. (Mario)
Sejam verdadeiros, não desejem o mal, deem valor pra família e amigos, se esforcem, procurem superar os obstáculos. (Carlos)
Que sejam responsáveis, acreditem no amor, sempre! O amor move tudo! Ele dá força pra lutar (...) (Sueli)
Quero deixar pra esse mundo uma filha que tenha valores morais, princípios, uma boa pessoa, saiba cuidar de si e do outro (...) . Acredito que eu e o pai dela estamos fazendo tudo pra que isso aconteça. (Mariane)
Analisamos, por meio da observação dos dados obtidos nos depoimentos dos sujeitos pesquisados, como eles são afetados na relação com os filhos por sentimentos advindos da alegria, da tristeza e do desejo. Percebemos, ligados ao sistema da alegria, afetos de reconhecimento67, do quanto a vinda dos filhos fez bem às suas vidas, dando-lhes satisfação68
por terem conseguido superar tantas dificuldades e exercido a paternagem/maternagem, glória69 pela educação dada aos filhos, segurança70 no relacionamento com eles, esperança71
na construção de um mundo melhor e, principalmente, no amor72 sentido.
Ligados ao sistema da tristeza, percebemos os afetos de decepção73 pelo projeto
frustrado de convivência integral com os filhos, de compartilhamento quanto à educação a ser
67 “Reconhecimento é o amor por alguém que fez bem a um outro.” (E III, AD19).
68 “A satisfação consigo mesmo é uma alegria que surge porque o homem considera a si próprio e a sua potência
de agir.” (E III, AD25).
69 “A glória é uma alegria acompanhada da ideia de alguma ação nossa que imaginamos ser elogiada pelos
outros.” (E III, AD30).
70 “Segurança é uma alegria surgida da ideia de uma coisa futura ou passada, da qual foi afastada toda causa de
dúvida.” (E III, AD14).
71 “A esperança é uma alegria instável, surgida da ideia de uma coisa futura ou passada, de cuja realização temos
alguma dúvida.” (E III, AD12).
72 “O amor é uma alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior.” (E III, AD6).
73 “A decepção é uma tristeza acompanhada da ideia de uma coisa passada que se realizou contrariamente ao
ministrada por ambos os pais, de comiseração74 pela ideia de que os filhos estão sendo
afetados pela falta de amor e de atenção por parte do outro pai/mãe, e de medo75 de que os
planos e os sonhos em relação ao futuro dos filhos não se realizem.
Percebemos afetos ligados ao desejo, como o de gratidão76 por terem tido a oportunidade de ser pais e de retribuir o amor recebido aos filhos, e o de benevolência77, no sentido de tentarem suprir o mal que a separação/o litígio inferiu-lhes. O desejo, segundo Spinoza, em sua obra Ética, é a potência de vida, é o apetite de que se tem consciência, é algo que ajuda o ser a perseverar em sua existência. O desejo está indelevelmente enlaçado à propulsão, ao movimento.
Todo ente se esforça, tanto quanto estiver em seu poder, para perseverar em seu ser [...]. O esforço pelo qual todo ente se esforça para perseverar em seu ser não é senão a essência atual desse ente [...]. A mente, seja enquanto tem ideias claras e distintas, seja enquanto tem ideias confusas, esforça-se para perseverar em seu ser por uma duração indefinida e tem consciência de seu esforço [...]. Esse esforço, enquanto referido apenas à mente, chama-se vontade; mas quando se refere simultaneamente à mente e ao corpo, chama-se apetite. O apetite é a própria essência do homem [...] entre o apetite e o desejo não há qualquer diferença, senão a de que o desejo é aplicado aos homens quando têm consciência de seus apetites e, por conseguinte, pode assim ser definido: o desejo é o apetite de que se tem consciência. (SPINOZA, E III 6, 7, 9 e esc.).
Chauí (2011, p. 150), com base em Spinoza, afirma que “O desejo é a própria essência do homem enquanto concebida como determinada a fazer algo por uma afecção nela existente.” Ele envolve a consciência quando conhecemos ou imaginamos conhecer a causa da nossa vontade. Quando a causa é imaginária, depositada no desejado, e não no desejante, o desejo é a paixão. Entretanto, quando a causa é real, ou proveniente de ideias adequadas, depositada no próprio desejante, o desejo é ação. Para que um desejo se realize, depende do sujeito, das circunstâncias e das condições materiais. Desta forma, a sua realização requer uma ação, e esta deve ser proveniente do sujeito que deseja. O sujeito é o ponto de partida; de maneira geral, cabe a ele a iniciativa. A paixão e a ação têm diferentes graus de intensidade. Uma paixão é mais forte que outra quando aumenta a capacidade de existir do nosso corpo e
74 “A comiseração é uma tristeza acompanhada da ideia de um mal que atingiu um outro que imaginamos ser
nosso semelhante.” (E III, AD18).
75 “O medo é uma tristeza instável, surgida da ideia de uma coisa futura ou passada, de cuja realização temos
alguma dúvida.” (E III, AD13).
76 “O agradecimento ou a gratidão é o desejo ou o empenho de amor pelo qual nos esforçamos por fazer bem a
quem, com igual afeto de amor, nos fez bem.” (E III, AD34).
da nossa mente. Há paixões nascidas da tristeza, que são afetos que enfraquecem o conatus, e paixões nascidas da alegria, que o fortalecem.
A manifestação do desejo em relação aos filhos foi expressa por alguns pais como paixão, pois o seu desejo era depositado no filho, e a atitude que correspondia àquele desejo era depositada no outro – pai/mãe – ou no próprio filho. Esses desejos ou paixões, depositados no outro, são difíceis de ser realizados, uma vez que a ação depende do outro e não de si; portanto, são nascidos da tristeza. Por exemplo, o pai não conseguir conviver com os filhos e esperar que, para que esta situação mude, a mãe, magicamente, passe a incentivar as visitas; ou, ainda, que o filho sinta-se amado pelo outro - pai/mãe -, mas sem mudar nada em sua atitude. São paixões tristes e, por esta razão, enfraquecedoras do conatus. Todavia, em sua maioria, os sujeitos mostraram-se incluídos na ação para que o desejo virasse realidade, tendo como base as suas experiências de vida e o seu firme propósito para atuarem nesse sentido, sendo amigos, dando amor e servindo como exemplo. Este desejo fortalece-os, pois nasce da alegria de ter tido um filho a oportunidade de usufruir dessa companhia e de colaborar para um novo tempo.
O desejo é a força pulsante da vida, pois é a busca para a transformação de uma realidade vivida, ou mesmo almejada. O desejo, tal qual nos ensina Spinoza, não é morto, nem “mais ou menos” passivo; ao contrário, é vivo, no sentido que, junto a ele, está a ação. Desta maneira, os pais/mães pesquisados procuraram realizar o desejo de convivência saudável com os seus filhos por meio do exercício tanto dos seus direitos quanto dos direitos dos seus filhos, sendo que isto foi feito através de uma ação judicial. Assim, buscaram alívio para os seus sofrimentos no Judiciário - independente de quem tenha entrado com a ação judicial, pois só existe o litígio se a outra parte requerida na ação responde ao embate.
Os sujeitos manifestaram que tomaram a iniciativa porque perceberam que os direitos dos seus filhos estavam sendo violados, expressos, por vezes, no seu sofrimento devido aos desentendimentos com o(a) ex-companheiro(a). Consequentemente, o litígio foi uma ação desejante necessária para que os direitos fossem garantidos e cumpridos, ainda que a ação judicial tenha trazido, temporariamente, mais sofrimento, mas, ao final, havia a real possibilidade de reestabelecer a convivência pacífica entre eles, como um exercício do direito dos pais e dos filhos.
Tudo que passei foi pra preservar o direito dele, porque ele era o fundamento de tudo. Brigávamos muito (...). Ele merecia um ambiente bom. (Rui)
Quando nós vivemos juntos, não era um ambiente preservado, favorável pra ele se desenvolver (...). Ele só ficou em paz quando eu me separei. (Maria das Graças) Ela via que o pai e a mãe não falavam a mesma linguagem (...). Ela tem direito de ter os dois do lado dela, educando-a na mesma direção. (Mariane)
Catarina não tinha os direitos [preservados] porque não vivia num ambiente de amor e carinho. Eu não podia visitá-la porque brigávamos... (Nilson)
Eles estavam sem os direitos deles, viam muita discussão entre eu e o pai. (Luísa) (...) a relação entre eu e a mãe não tem nada a ver com a deles e a mãe; eles não