BÖLÜM University of Applied Sciences in
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Ao abordarmos o tema da etiologia das dificuldades de aprendizagem, verificamos de acordo com as investigações realizadas, que não é possível atribuir uma única causa concreta que justifique a origem das DA. Kirk e colegas (2005), Lerner e Kline (2005) e Martín (1994) (cit. in Cruz, 2009) referem que a concepção que domina sobre a etiologia das dificuldades de aprendizagem é multifactorial, visto que as DA são muito heterogéneas, tanto na etiologia, como na sua apresentação clínica e desenvolvimento.
As teorias mais explicativas, representativas e aceites sobre a etiologia das DA, de acordo com Martín (1994, cit. in Cruz, 1999), são as teorias baseadas num enfoque neurofisiológico, que entendem o comportamento humano em função do funcionamento neurológico e cerebral do indivíduo (Lerner & Kline, 2005; Martín, 1994, cit. in Cruz, 1999); as teorias perceptivo-motoras que entendem as DA como uma série de deficiências de tipo motor e perceptivo que existem nos indivíduos (Lerner & Kline, 2005; Martín, 1994, cit. in Cruz, 1999); e as teorias psicolinguísticas e cognitivas que sugerem que as DA têm origem em deficiências nas funções de processamento psicológico. Neste processamento psicológico enquadram-se os processos de codificação, armazenamento, elaboração e recuperação da informação sensorial.
De acordo com o último tipo de teorias, Martín (1994) refere que podem ser consideradas três causas genéricas para as dificuldades de aprendizagem específicas (DAE): “falhas na recepção da informação adequada, falhas na produção adequada de informação, conteúdos irrelevantes existentes na informação a aprender, pois é devido a esses conteúdos irrelevantes que se desordena a informação, o que impede o indivíduo de poder efectuar uma adequada codificação da mesma” (cit. in Cruz, 2009, p. 67).
Como factores causais, Citoler (1996), Casas (1994) e Martín (1994) (cit. in Cruz, 2009) sugerem três categorias para agrupar os factores etiológicos: factores fisiológicos, factores socioculturais e factores institucionais.
No que concerne aos factores fisiológicos, estes englobam a disfunção neurológica ou lesão cerebral que podem ter uma origem pré-natal (ingestão de drogas/álcool por parte da mãe, deficiências nutricionais e infecções, como a rubéola e a toxoplasmose), perinatal (prematuridade, a anóxia, lesões durante o parto provocadas por instrumentos médicos, partos difíceis ou induzidos, baixo peso à nascença) ou pós-natal (traumatismos cranianos, meningites, encefalites, tumores, febres muito altas, sarampo, escarlatina); determinantes genéticos ou hereditários, pois estudos realizados sugerem que alguns tipos de DA específicas, nomeadamente desordens específicas de leitura (como a dislexia) são de origem genética (Correia, 2003); factores bioquímicos, que na opinião de Casas (1994) e Mercer (1994) (cit. in Cruz, 2009) poderão ser a alergia aos alimentos, sensibilidade aos salicilatos, deficiências vitamínicas e desequilíbrios nos neurotransmissores; e factores endócrinos, que consistem num excesso ou num defeito nas secreções químicas das glândulas que integram este sistema de interacção (Citoler, 1996; Casas, 1994; Martín, 1994, in Cruz, 2009).
Quanto aos factores socioculturais, os aspectos mais referidos na literatura são a má nutrição, privação de experiências precoces, códigos linguísticos familiares restritos e valores e estratégias educativas inadequadas (Citoler, 1996; Casas, 1994; Martín, 1994, in Cruz, 2009). Mata (2006) refere que o ambiente emocional adverso, como a desorganização familiar, a instabilidade emocional de alguns membros da família, situações de divórcio, o stress materno durante a gravidez, entre outros, pode causar “alterações e estados emocionais adversos à aprendizagem, nomeadamente, problemas caracteriais e impulsividade no comportamento” (p.71).
Para além dos aspectos enunciados, há ainda os aspectos emocionais e afectivos que também interferem significativamente nas crianças que apresentam DA. Durante o período crítico do desenvolvimento da linguagem, é fundamental que a mãe estabeleça e mantenha contacto com a criança, porque, se não existir comunicação, não haverá demonstração de interesse, carinho, estimulação auditiva que ajude a criança a captar a informação necessária para compreender e falar. O não contacto com a mãe poderá originar limitações linguísticas (fonéticas, semânticas e sintácticas) que, por seu turno, afectarão, inevitavelmente, a maturação neurológica das áreas associativas do cérebro.
Em relação aos factores institucionais relacionados com as realidades educativas escolares, em particular com as questões pedagógicas, Citoler (1996), Casas (1994) e Martín (1994) (cit. in Cruz, 2009) sugerem duas causas: as deficiências nas condições materiais em que decorre o processo de ensino/aprendizagem e o inadequado planeamento do sistema educativo.
No que respeita à primeira causa, os autores referidos alertam para a importância do envolvimento no comportamento do aluno e para o contexto em que o mesmo influi no processo de aprendizagem. Para além destes aspectos, Casas (1994, cit. in Cruz, 2009) também aponta outras características materiais que podem influenciar e dificultar o processo de ensino/aprendizagem, sendo as mais frequentes: o número excessivo de alunos por aula, conduzindo a um menor rendimento por parte do professor e do aluno; condições físicas inadequadas, tais como escassa ventilação nas salas de aula, falta de luminosidades, excesso de barulho; e falta de meios e de materiais adequados nas salas de aula, tanto ao nível do mobiliário como do material didáctico. Na opinião de Casas (1994, cit. in Cruz, 2009), estas deficiências podem favorecer alguns comportamentos incompatíveis com uma aprendizagem adequada, como a falta de atenção, o desinteresse e a falta de motivação.
Quanto à segunda causa, os autores referem as metodologias, o grau de adequação do programa às características do aluno, a não preocupação com os diferentes níveis de maturação (biológica e/ou psicológica) do aluno, a personalidade e as atitudes pedagógicas do professor em relação à sua interacção com o aluno, a organização escolar e a falta de professores especializados. Contudo, vários autores argumentam que as causas apontadas não serão propriamente causas directas ou específicas, mas causas condicionantes ou agravantes das dificuldades de aprendizagem.
Todos os aspectos e causas evidenciados implicam, sem dúvida, efeitos morfológicos e funcionais, assim como uma redução do potencial da aprendizagem do indivíduo que apresenta dificuldades de aprendizagem.
Sintetizando, existem muitas e diversificadas teorias etiológicas que sugerem várias causas para as DA, sendo difícil encontrar um consenso em relação às mesmas. Fonseca (1999) afirma que “… na maioria dos casos a causa das dificuldades de aprendizagem nas crianças permanece um mistério” (p. 127). No entanto, apesar da diversidade etiológica existente na literatura, são muitos os autores que sugerem que as dificuldades de aprendizagem específicas estão relacionadas com uma disfunção ao nível do sistema nervoso central. Segundo Mata (2006), “o sistema nervoso central funciona como um processador de informação e, estando danificado, pode inibir ou afectar seriamente a capacidade do indivíduo para a aprendizagem” (p. 73).