O interesse de Habermas pelos potenciais da linguagem e da comunicação, como estrutura e categoria de mediação social, está presente desde o início de seu percurso acadêmico (WHITEBOOK, 2008, p.126). Entretanto, apenas no final dos anos 1960 e início dos 1970 é que Habermas começa a desenvolver de modo mais sistemático uma teoria da ação visando a transformação social, percurso que culmina em 1981 com a “Teoria da ação comunicativa”.
Habermas sustenta a hipótese de que as possibilidades de dirimir as patologias sociais, que obstam uma vida digna, repousam na busca da autonomia (de acordo com a tradição do Iluminismo herdada pela teoria crítica da sociedade). Porém, para Habermas, a autonomia “[...] está implícita em cada ato de comunicação linguística” (ROUANET, 1986, p.377) e, portanto, não se reduz ao estágio de desenvolvimento das forças produtivas (ROUANET, 1986, p.310). Desse modo, o conceito de agir comunicativo pode ser sumarizado como o “[...] processo de interação de pelo menos dois sujeitos capazes de linguagem e ação que se relacionam intersubjetivamente tendo como finalidade a busca cooperativa da verdade que gera o consenso” (GOMES, 2007, p.112).
Entretanto, as potencialidades do agir comunicativo possuem uma contrapartida histórico-material assentada nas estruturas normativas da sociedade, que correspondem em certa medida ao estágio de desenvolvimento das forças produtivas, mas, conforme citado acima, não se restringem a essas. Mais adiante veremos, de acordo com Habermas, como as demandas das estruturas normativas da sociedade, e a correspondente necessidade de legitimação, puseram em curso uma tendência universalista que, se por um lado, eleva a complexidade da dominação e exploração, por outro torna persistente a presença das necessidades plurais da sociedade em torno das discussões determinadas pela legitimação.
O ponto de partida para a teoria da ação comunicativa é o conceito de mundo da vida ou mundo vivido (Lebenswelt), como “o lugar das relações sociais espontâneas, das certezas pré-reflexivas, dos vínculos que nunca foram postos em dúvida” (ROUANET, 1990, p. 113). A própria aquisição da linguagem, uma experiência partilhada por cada indivíduo da sociedade, teria suas origens ancoradas no mundo da vida. O mundo da vida, além de ponto de origem, seria uma espécie de “pano de fundo” a atuar na retaguarda das ações comunicativas (GOMES, 2007, p.133). Para Habermas (apud GOMES, 2007, p.133) o mundo da vida representa um lugar transcendental de encontro entre falante e ouvinte, onde é possível estabelecer de forma recíproca as pretensões de consenso com o mundo (objetivo, subjetivo e social) na medida em que eles podem criticar e exprimir os fundamentos das
respectivas pretensões de validade, cuja meta indica para a resolução de desentendimentos e à chegada de acordos consensuais.
A contrapartida do mundo da vida é o mundo sistêmico ou mundo do sistema. “Vida” e “sistema” são duas formas distintas, porém inextricáveis e complementares nos processos de interação social. Mas, se o mundo da vida refere-se ao âmbito das relações e vínculos espontâneos e à reprodução simbólica, o mundo sistêmico se manifesta aos sujeitos “[...] como integração funcional, realizada a partir da reprodução material necessária à sobrevivência e à conservação do sistema” (GOMES, 2007, p.140).
O processo de evolução7 social torna as estruturas sistêmicas da sociedade – ou seja, o aparato pertencente às esferas institucionalizadas – cada vez mais autônomas em relação àquelas demandas originárias do mundo da vida. Marcadamente na modernidade, o dinheiro e o poder (que Habermas nomeia de media) passam a ser “[...] elementos controladores de integração sistêmica”. É a partir do conceito de media que “[...] Habermas desenvolve a sua tese sobre a colonização do mundo da vida pelo mundo sistêmico” (GOMES, 2007, p.39). Esse processo de colonização se expressa na crescente absorção da esfera espontânea e simbólica da socialização ao âmbito da normatividade posta nos contextos funcionais da sociedade que, para Habermas, seriam resultado dos seguintes processos de transformação social:
1º) de uma cientifização da prática profissional; 2º) expansão do setor de serviços de que mais e mais interações são submetidas a uma forma de mercadoria; 3º) regularização administrativa e legalização de áreas de intercurso político e social previamente regulado de modo informal; 4º) comercialização da cultura e da política, e, enfim, processos cientifizantes e psicologizantes de educação das crianças. (HABERMAS, 1994, p.104) A colonização do mundo da vida pelo mundo sistêmico sintetiza, parcialmente, o conceito de indústria cultural, especialmente nos aspectos acima elencados por Habermas da subsunção das interações sociais à forma mercadoria, da comercialização da cultura e educação e, de modo geral, da reunificação de trabalho e tempo livre sob a égide do trabalho abstrato e da forma mercadoria. As consequências dessa sistematização racional, das esferas simbólicas e espontâneas da interação social, seriam manifestadas como crises de consenso, onde se revelariam “[...] o desequilíbrio e a barbárie estabelecida no mundo [...] num processo
7 “Quando falamos de evolução, entendemos na realidade processos cumulativos nos quais se torna reconhecível uma direção” (HABERMAS, 1983, p.122). Portanto, evolução não deve ser confundida com a ideia de progresso nem com uma teleologia da história.
de reducionismo da razão, na medida em que esta passa a ser restringida à sua dimensão instrumental” (GOMES, 2007, p.36-37).
Portanto, a colonização do mundo da vida pelo sistêmico estaria, para Habermas, na origem das principais patologias sociais da modernidade, obstando as potencialidades de uma vida digna, justamente ao inviabilizar “[...] a possibilidade do reconhecimento intersubjetivo das pretensões de validade que formam argumentativamente os consensos” (GOMES, 2007, p.35-36). Ressalta-se que o conceito de mundo da vida é de grande importância nessa pesquisa, já que o elo entre esse estudo e o pensamento de Habermas é a “colonização do mundo da vida” pelo “sistêmico”, e as potencialidades de emancipação a partir das urgências do mundo da vida, as contingências que o cerceiam, e as possibilidades de consenso entre seus participantes.