RİSALE-İ NUR'DA
6. Evet, hadis-i şerifin ifadesiyle HAZRET-İ İSA'NIN SEMAVİ NÜZULÜ (gökyüzünden inişi) KAT'İ (kesin) OLMAKLA BERABER; mana-yi işarisiyle (işaret
Vimos no capítulo anterior que Habermas, apesar de seu otimismo em relação às possibilidades de emancipação, via com reservas a implantação de tais possibilidades ante a fragilidade dos fundamentos econômicos no processo de socialização capitalista. Assim, a aparente familiaridade entre o otimismo de Habermas e o pessimismo de Adorno e Horkheimer – diga-se, a sociedade administrada – não fica desse modo tão patente. Em conformidade com as interpretações de Marx, Habermas considerava a ocorrência de turbulências na aparente condição perpétua de continuidade das relações capitalistas. Abalos que reconhecia como inerentes aos próprios limites do capital.
Por outro lado, muitos dos pensadores próximos às conclusões mais sombrias de Adorno e Horkheimer dão mostras de que as discussões dos limites do capital estão fora de seu horizonte de análise, justamente por conta de uma suposta perpetuação das estruturas da produção de mercadorias, cuja origem estaria assentada na eliminação das contradições dos fundamentos econômicos. Essa equação, verificada destacadamente na relação produção- consumo de mercadorias, estaria na base da pax do capitalismo monopolista. De fato, o desencantamento do mundo, na ordem coisificada da produção de mercadorias, restringe demasiadamente a consecução programática de um projeto emancipatório – algo que não escapa ao próprio Habermas. E é em meio a esse caldo cultural que se verifica a conjunção da dominação e exploração, com a participação ativa dos indivíduos sujeitados. Como vimos no capítulo anterior, autores como Gramsci e Martín-Barbero, atentaram para esse deslocamento dos conflitos sociais, dando ênfase à chamada superestrutura: a produção de conhecimento, o campo das representações simbólicas coletivas, a arte e a estética, etc. – lato sensu, a esfera da cultura.
Diante do quadro de uma sociedade administrada nesses moldes, justifica-se o afastamento da teoria crítica das questões mais imediatas da produção capitalista. Especialmente quando se verifica o papel central desempenhado pelo Estado na manutenção da ordem socioeconômica do capitalismo pós-liberal. Horkheimer (através das análises de Pollock) destacadamente, reconheceu a familiaridade interna do capitalismo monopolista nas vertentes do fascismo europeu, da democracia de massas nos Estados Unidos e até mesmo do socialismo real soviético (POSTONE, 2008). Em suma, o forte controle estatal da economia,
sugeria uma primazia da política a amainar as contradições da produção moderna de mercadorias. Entretanto, ao que pese essas profundas mudanças, Horkheimer “[...] insistiu que a base da teoria continuava intocada na medida em que a estrutura econômica básica da sociedade não houvesse mudado” (POSTONE, 2008, p.226, grifos do autor).
Mas, segundo Moishe Postone (2008), Horkheimer ficou a meio caminho entre a interpretação do processo sociocultural e a manutenção da teoria nos termos da crítica à economia política de Marx. Horkheimer, através das contribuições de Pollock, apreendeu que as categorias do marxismo tradicional eram insuficientes para a interpretação do capitalismo pós-liberal e suas bases de dominação social. Porém, apesar dessa percepção,
[...] eles não questionaram suficientemente as pressuposições subjacentes àquelas categorias. Assim, eles não foram capazes de reconstituir uma crítica social mais adequada. A combinação desses dois elementos de suas abordagens resultou no pessimismo da Teoria Crítica. (POSTONE, 2008, p.211)
Postone argumenta que essa interpretação influenciou diretamente a produção intelectual da escola de Frankfurt. O decisivo papel do Estado no século XX a preencher os “[...] hiatos funcionais de mercado” (HABERMAS, 1994, p.77), se traduzia numa perpetuação sofisticada do processo de dominação social. As contradições entre forças produtivas e relações de produção, pareciam ter desaparecido numa síntese conciliadora na tríade Estado-capital-trabalho (comandada pelo Estado). Produção em massa, consumo em massa e realização do capital – no interior das políticas do keynesianismo-fordismo – invalidavam as teses sombrias de Marx. E de fato, essa fase de acumulação do capitalismo mostrou-se blindada aos solavancos das crises capitalistas, ao mesmo tempo que propiciava prosperidade material aos membros da sociedade. O pessimismo dos frankfurtianos devia-se ao olhar prudente de reconhecer os aspectos bárbaros dessa sociedade (entre os quais a miséria extrema e a guerra) a fervilhar sob a aparência de uma paz redentora. A análise da cultura ganha relevo num clima social em que os anseios individuais passam a convergir com a própria heteronomia e dominação dos sujeitos.
A esfera da cultura, antes relegada a segundo plano nas análises do marxismo tradicional, passa a ser o centro da cena. O que Marx nomeara de superestrutura, funda-se agora como a própria estrutura da sociedade, a ponto da produção cultural ser interpretada como o carro chefe da economia capitalista:
No que concerne ao aspecto econômico, pode-se constatar uma transformação importante na posição ocupada pela indústria cultural no contexto do capitalismo tardio. Enquanto, no “modelo clássico”, Horkheimer
e Adorno constataram sua dependência das indústrias de hardware (especialmente siderurgia, eletroeletrônica e química), ainda que as empresas de comunicação de massa fossem organizadas no mesmo modelo dos conglomerados da economia convencional, na indústria cultural global, observa-se uma clara tendência de elas se tornarem independentes e até mesmo de predominarem sobre os setores líderes do passado. (DUARTE, 2008, p.101-102)
Conforme Rodrigo Duarte (2008, p.102) constata acertadamente, “[...] muitas empresas transnacionais de hardware eletrônico [...]” (destacadamente as líderes do setor, de origem japonesa) têm “[...] se tornado proprietárias de firmas tradicionais de produção de conteúdo para a cultura de massas” (sobretudo os grandes estúdios de cinema e redes de TV norte-americanas), e que “[...] a ‘marca’, o logotipo, hoje importa mais do que o produto propriamente dito [...]”, tanto na valoração atribuída pelos sequiosos consumidores, como pelo “valor comercial” imaterial que se confere a tais marcas. Mas, vejamos o que dizem Horkheimer e Adorno a respeito da indústria cultural:
Se, em nossa época, a tendência social objetiva se encarna nas obscuras intenções subjetivas dos diretores gerais, estas são basicamente as dos setores mais poderosos da indústria: aço, petróleo, eletricidade, química. Comparados a esses, os monopólios culturais são fracos e dependentes. (HORKHEIMER; ADORNO, 1991, p.115)
A citação de Duarte tem o mérito de ressaltar a importância do conceito de indústria cultural na atualidade, visto que a produção cultural é alvo de grandes conglomerados econômicos. O que se quer destacar é que a abordagem de Duarte parece ser a expressão mais ampla de uma percepção geral, tácita, de autores referenciados atualmente na teoria crítica. Na comparação pontual entre as citações de Duarte e da “Dialética do esclarecimento”, emerge uma transformação profunda no capitalismo. O “modelo clássico” de indústria cultural não corresponderia mais ao que se verifica atualmente. A produção cultural mercantilizada e industrializada passa de dependente, a protagonista da dinâmica capitalista. A constatação da perda da importância do hardware9 no capitalismo traz inúmeras
implicações para o conceito de indústria cultural. Surge daí várias questões:
Até que ponto a produção cultural pode ser entendida como o carro chefe do capitalismo atual? Pode-se concluir que o capitalismo sustenta-se sem seu hardware, ou de que esse perdeu a importância de outrora? O conceito de indústria cultural corresponderia aos
9 De modo mais literal, hardware significa ferragens, maquinaria, aparelhagem. Mas, Duarte parece utilizar a expressão numa referência à linguagem da informática, onde hardware é o conjunto de unidades físicas que compõem um computador ou seus periféricos, em contraposição ao software: suporte lógico, suporte de programação; conjunto de programas, métodos e procedimentos, regras e documentação relacionados com o funcionamento e manejo de um sistema de dados, e assim, se contrastam com o hardware. A própria linguagem da informática remete à dicotomia entre corpo, matéria, e espírito.
desafios atuais? Se a leitura de enfraquecimento do hardware capitalista estiver incorreta, quais as consequências das interpretações que se baseiam nela?
Não se pretende fazer uma defesa a priori das afirmações de Horkheimer e Adorno, o que seria reprovável segundo os pressupostos da própria teoria crítica que, justamente, recomenda atenção ao dinamismo da sociedade. Ao mesmo tempo, nota-se, por um lado, que as reflexões socioculturais atuais referenciadas na teoria crítica, parecem partilhar da constatação anunciada na “Dialética do esclarecimento” da perpetuação ad infinitum do capitalismo. Por outro lado, refuta-se o argumento de Horkheimer e Adorno de que a indústria cultural seria dependente de outros setores da economia. Pode-se reconhecer, grosso modo, nesse duplo movimento, um afastamento da teoria crítica da crítica à economia política de Marx: primeiro (em aparente concordância com as reflexões frankfurtianas), a não confirmação da tese de esgotamento do capitalismo; e segundo (refutando-se o diagnóstico da “Dialética do esclarecimento”), de que o setor de circulação assume o comando da produção de mercadorias, tornando-se independente.
Marcos Nobre (1998) destaca que Horkheimer e Adorno anunciam no prefácio à segunda edição da “Dialética do esclarecimento” (decorridos mais de 20 anos de sua primeira aparição), a necessidade de ajustes de suas análises por conta dos rumos subseqüentes tomados pelo desenvolvimento social. Nobre identifica essa mudança com transformações sofridas pelo próprio processo capitalista, em especial, as características do Estado de bem- estar social.
Por outras palavras, se o diagnóstico do capitalismo tardio permanece, em suas linhas gerais, o mesmo que sustentava o livro de 1947 [a “Dialética do esclarecimento”], algumas das formulações incisivas que dele se seguem não serão mais repetidas por Adorno. E isto é muitas vezes decisivo. Por exemplo, quando se considera que entre indivíduo e sistema social se estabelece uma verdadeira dialética e não simplesmente subsunção, como parece ser o caso de inúmeras passagens da Dialética do esclarecimento. E, como se sabe, essa dialética é um dos eixos centrais da obra tardia de Adorno. (NOBRE, 1998, p.30, grifos do autor)
Nobre (1998) esboça, em linhas gerais, o problema que se quer discutir nesse estudo ao questionar em que medida o diagnóstico da “Dialética do esclarecimento” não corresponderia mais à realidade social subseqüente do pós-guerra. Dentre as conclusões mais decisivas de Nobre, destaca-se, além da percepção dos próprios autores frankfurtianos da necessidade de ajustes, a produção tardia de Adorno (principalmente) onde há uma relação mais dialética da teoria crítica com seu objeto, a sociedade. Dialética que se verifica não apenas na possibilidade da emancipação diante da estrutura do Estado de bem-estar social.
Mas também, de modo não declarado, na possibilidade de solavancos e atritos no funcionamento das estruturas do sistema capitalista, que pode ser sintetizada nos seguintes termos:
A antiga teoria crítica, i.e., Pollock, Horkheimer e Adorno, interpretou – de um ponto de vista retrospectivo, por assim dizer – a ordem nacional- socialista como produto fatalmente exitoso do domínio capitalista sobre as crises. A teoria do capitalismo era teoria do fascismo. A teoria crítica do capitalismo pós-guerra, ao contrário, concentrou-se, de um ponto de vista prospectivo, numa teoria das crises que deveriam se dar exatamente a partir do balanço precário característico do “capitalismo democrático de estado” de “garantias de acumulação” e “garantias de legitimação”. A teoria do capitalismo era teoria da crise. Na medida em que se pode prognosticar – esta crise começou. (DUBIEL apud NOBRE, 1998, p.32, grifos do autor) Ao citar o artigo de Helmut Dubiel de 1983, Nobre (1998, p.32) constata que ele “[...] organiza os termos do problema, mas não tira as conseqüências”, pois, se por um lado, ele faz indicações das diferenças entre as interpretações da “Dialética do esclarecimento” e a copiosa produção posterior de Adorno, por outro lado, “[...] limita-se a pressupor uma continuidade entre os dois universos de textos”. Porém, Nobre sublinha o modo interessante de como o problema é apresentado por Dubiel, da teoria crítica em dois momentos distintos colocados lado a lado no mesmo momento histórico, como “teoria do capitalismo que é teoria do fascismo” e a “teoria do capitalismo que é teoria da crise” – “Pois, talvez, a distinção não seja tão nítida quanto pode parecer à primeira vista” (NOBRE, 1998, p.32).
Nobre não avança na direção da hipótese levantada nessa pesquisa – de que o conceito de indústria cultural expresse os próprios limites objetivos do modo capitalista de produção – na medida em que também não aprofunda as causas da crise do capitalismo na fase do welfare state. E é com hesitação que esse estudo se propõe a fazer uma leitura para compreender a aparência dos fenômenos como aparência socialmente necessária:
Adorno faz dessa lógica aporética método: as tensões e ambiguidades herdadas pelo marxismo e pela teoria crítica da sociedade constituem o único elemento em que se pode pensar, ou seja, pensar no “estado falso” é pensar no interior das aporias inevitáveis do projeto moderno. Mais ainda: para Adorno, o objeto por excelência da teoria é justamente a inevitabilidade das aporias. (NOBRE, 1998, p.182-183, grifos do autor)
A aporia que se segue nesse estudo, pode então ser apresentada nos seguintes termos: a opulência da indústria cultural que se constata atualmente indica uma sociedade unidimensional monolítica, ou expressa (também) as próprias fraquezas das contradições do modo capitalista?