A tese do fim da ideologia, ou melhor dizendo, o emaranhamento de sua versão tecnocrática no mundo da vida até o ponto onde não é mais possível reconhecer a dominação, têm como pano de fundo o capitalismo tardio, que, dependendo do contexto ou de quem o nomeia, pode ser também chamado de Estado de bem-estar social, welfare state, pós- capitalismo, sociedade industrial, sociedade pós-industrial, capitalismo regulado, organizado, avançado, etc. O certo é que tanto uma posição, digamos, mais ortodoxa da teoria crítica que resulta num impasse pessimista, quanto a opção habermasiana de desenvolver
programaticamente uma teoria da ação social centrada na linguagem, parecem partilhar da mesma visão de uma sociedade administrada.
Aparadas as arestas, a diferença mais marcante entre as duas concepções seria que a posição pessimista da teoria crítica buscaria denunciar e compreender as consequências deletérias desse processo, enquanto Habermas busca ressaltar as brechas do mundo sistêmico e os aspectos progressivos dialeticamente emaranhados na modernidade tardia, onde, de forma programática, seria possível desdobrar os potenciais relacionados ao mundo da vida, e desse modo dirimir ou superar as patologias sociais.
Tanto a opção habermasiana quanto a ortodoxia da teoria crítica incorreriam no mesmo equivoco: de que o Estado de bem-estar social representaria uma espécie de sistema autorregenerante a perpetuar-se ad eternum – a última e infindável fase do capitalismo monopolista, agora eternizado porque abolira todas as contradições, especialmente aquelas estruturais que apontariam tendencialmente para o esgotamento sistêmico. Assim, de modo bastante esquemático para fins expositivos, poderíamos caracterizar as duas interpretações: segundo a concepção de Habermas, seria o campo propício e irreversível para a realização das potencialidades emancipatórias da ação comunicativa; para a “ortodoxia” da teoria crítica, ao contrário, o solo fértil para a dominação total da sociedade administrada, processo que indica como ponto evolutivo final, em última instância, a implosão da sociedade.
Mas, se de fato entramos “[...] numa fase de problematização permanente” (ROUANET, 1986, p.307) com o fim das ideologias, torna-se ainda mais urgente que estejamos atentos às transformações sociais oriundas da esfera econômica (quer essa seja entendida como o principal fundamento social ou como subsistema do mundo sistêmico). Tanto a negação determinada quanto a ação comunicativa, correm o mesmo risco de falhar em seus objetivos, ao tratar a esfera econômica como se fosse um continuum histórico capitaneado pelo capitalismo monopolista – entendido como sistema monolítico em relação a suas estruturas. Entretanto, não se trata simplesmente de um problema de abordagem teórica. As transformações recentes do capitalismo, o enfraquecimento do Estado de bem-estar social e sua relação com os processos de crise econômica desde o final dos anos 1960, colocam novas dificuldades sobre aquelas análises que tiveram como pano de fundo as interpretações sobre o capitalismo monopolista.
É comum ver entre os teóricos críticos mais obstinados no pessimismo de Adorno e Horkheimer, a opção de manterem-se afastados das discussões econômicas, pois, nos “cânones” da teoria crítica da sociedade estaria “sentenciado” que apenas no âmbito da cultura seria possível desdobrar negativamente alguma possibilidade de emancipação. Porém,
apesar da aparência de estabilidade estrutural do capitalismo monopolista de seu tempo, Adorno e Horkheimer nunca deixaram de considerar a hipótese de esgotamento sistêmico do modo capitalista de produção (ou ao menos considerar suas tendências ao esgotamento). Marcuse também tinha uma compreensão semelhante a esse respeito. Mas, e quanto a Habermas?
Ao contrário de muitos pensadores “pessimistas” da teoria crítica (referenciados em Adorno e Horkheimer), Habermas, ao que pese seu relativo otimismo, manteve em seu horizonte de investigação as análises mais sombrias de Marx que apontam para o esgotamento do modo capitalista. Quando se fala nas análises de Marx, não se quer referir a qualquer teleologia da história, ou à capacidade de fazer previsões catastróficas, mas sim, em que medida o dinamismo capitalista (incluindo-se suas tendências ao esgotamento) coloca novos problemas nas questões sociais.
Um equívoco comum, derivado dessa interpretação, pode ser exemplificado com os trabalhos sociológicos (não apenas os referenciados na teoria crítica) que parecem reproduzir a informação oficial veiculada nos telejornais: a de que a nova fonte da riqueza social estaria no chamado setor de serviços. Nesse sentido, Habermas chega a considerar a mudança estrutural na esfera do trabalho, e aponta até a insuficiência da teoria do valor para interpretar a dinâmica socioeconômica resultante de tal transformação. Entretanto, logo pondera: “[...] é uma questão empírica se a nova forma de produção de mais valia pode compensar a queda tendencial na taxa de lucro, isto é, se pode operar contra crises econômicas” (HABERMAS, 1994, p.76).
Habermas mostra conhecer com bastante clareza “a queda tendencial da taxa de lucro”, conforme as interpretações de Marx, cuja síntese pode ser assim exposta: na substituição de trabalho vivo (capital variável) por trabalho morto (capital constante), como consequência da inexorável busca por elevação da produtividade, encontra-se a diminuição da mais valia quando reportada ao capital total e, portanto, “[...] o impulso enfraquecedor na continuação do processo de acumulação” (HABERMAS, 1994, p.44).
Assim, se por um lado, no capitalismo avançado, o Estado é concebido “[...] não enquanto um órgão cego no processo de realização, e sim como um potente capitalista coletivo que torna a acumulação do capital a substância do planejamento político” (HABERMAS, 1994, p.63), por outro lado, enquanto a lei do valor for determinante para a tendência de crise – “[...] isto é, a assimetria estruturalmente necessária na troca de trabalho assalariado por capital – a atividade do Estado não pode compensar a tendência de queda
políticos” (HABERMAS, 1994, p.63, grifos nossos). Corroborando essa interpretação, observa-se atualmente que o Estado tem conseguido consumar as crises por meios políticos de forma cada vez mais precária e provisória – como se verifica a partir da crise de financiamento que assola os países da União Europeia e também os Estados Unidos, ainda como reflexo da crise imobiliária de 2008.
Como se disse anteriormente, a teoria da ação comunicativa parece assentar-se, em grande medida, nas possibilidades concretizadas pelo Estado de bem-estar social, e especialmente, por conta dos problemas de legitimação que deles emergem. A busca pelo consenso torna-se uma necessidade para a manutenção do próprio sistema que, então, passa a experimentar uma fase de problematização constante. Entretanto, como se observou, Habermas não se deixa reduzir às potencialidades do welfare state. Ele já mostrava com precisão a possibilidade de solavancos na pacificação aparente do capitalismo avançado. Isso, diga-se de passagem, já em 1973 na obra “A crise de legitimação do capitalismo tardio”, quando não havia ainda no horizonte a expectativa de que o sistema capitalista passaria por tantas turbulências.