Ao longo do tempo, a existência de estudo do gênero advém da Antiguidade Clássica, vinculada ao filósofo grego Aristóteles. Nesse período, esse teórico procurou classificar os gêneros de acordo com a situação oratória e com sua funcionalidade. Desse modo, foram determinados princípios básicos sobre os gêneros em duas direções, a saber: uma de ordem literária; outra não literária (BAKHTIN, 2003). Esta última diz respeito, por exemplo, aos gêneros retóricos (jurídicos e políticos). Ademais, seus contributos teóricos tanto têm perdurado como influenciado a produção textual contemporânea.
Cabe ressaltar a necessidade de darmos “um salto cronológico” em relação aos gêneros, visto que na intenção de elucidarmos questões que nortearam o desenvolvimento desta pesquisa, buscamos, de modo especial, a noção de gênero com base em concepções teóricas do filósofo e crítico literário russo Mikhail Bakhtin (2003). Nessa perspectiva, os gêneros são concebidos como práticas sociais instituídas e historicamente reconhecidas por grupos nos quais eles são produzidos e veiculados de modo regular. Assim, a pesquisa atual sobre um gênero discursivo-
textual tem como referência de base as reflexões advindas dos estudos de Bakhtin sobre gêneros do discurso.
Nessa perspectiva, a acepção de gêneros do discurso está baseada no pensamento bakhtiniano, tal como “[...] cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos gêneros do discurso” (BAKHTIN, 2003, p. 262, grifo do autor). Esse teórico fundamenta essa concepção, além de salientar a extrema heterogeneidade dos gêneros do discurso, ou seja: gêneros discursivos primários (simples) e secundários (complexos). Nesse sentido, os primeiros são concebidos como produções espontâneas da vida cotidiana, ao se formar conforme as condições da comunicação discursiva imediata; o segundo, são compreendidos como produções institucionalizadas complexas, tais como: romances, dramas, pesquisas científicas, entre outras. Ao discutir essa heterogeneidade, o teórico ressalta a necessidade de se incluir as diversas formas de manifestações científicas. Nesse sentido, destacamos também que, de acordo com o autor,
A riqueza e a diversidade dos gêneros do discurso são infinitas porque são inesgotáveis as possibilidades da multiforme atividade humana e porque em cada campo dessa atividade é integral o repertório de gêneros do discurso, que cresce e se diferencia à medida que se desenvolve e se complexifica um determinado campo (BAKHTIN, 2003, p. 262).
Nessa direção, sinalizamos que os resumos de dissertações e teses, como foco geral de interesse desta pesquisa, são produzidos no âmbito de comunidades acadêmicas, caracterizando- se, assim, como um gênero discursivo secundário, decorrente de uma prática sociodiscursiva institucionalizada.
Para o reconhecimento dos gêneros como tal e a elaboração de quadros tipológicos, adotamos, como referência obrigatória, os postulados teóricos de Bakhtin. Assim, ao abordar a noção de gênero na obra Estética da criação verbal, estabelece seus componentes essenciais. Com isso, descreve sobre os elementos-chave que caracterizam os gêneros em geral, ou seja, conteúdo ou seleção de temas, estilo e unidades composicionais, como formas de organização textual. Isso tem gerado mais motivação para o desenvolvimento de pesquisas sobre a análise de gêneros, com foco nesses elementos explicitados na superfície textual. Consideramos, também, que a noção de enunciado tem como base o pensamento bakhtiniano. Desse modo, para compreendermos o conceito de enunciado numa relação com o conceito de tópico discursivo
partimos dessa vertente teórica, uma vez que em discussões sobre o enunciado e a diversidade de formas de gêneros dos enunciados esse teórico afirma que
Achamos que em qualquer corrente especial de estudo faz-se necessária uma noção precisa da natureza do enunciado em geral e das particularidades dos diversos tipos de enunciados (primários e secundários), isto é, dos diversos gêneros do discurso. O desconhecimento da natureza do enunciado e a relação diferente com as peculiaridades das diversidades de gênero do discurso em qualquer campo da investigação linguística redundam em formalismo e em uma abstração exagerada, deformam a historicidade da investigação [...] (BAKHTIN, 2003, p. 264).
Nessa perspectiva, cabe-nos também enfatizar que, para Bakhtin (Ibid., p. 264), “O estudo da natureza do enunciado e da diversidade de formas de gênero dos enunciados nos diversos campos da atividade humana é de enorme importância para quase todos os campos da linguística [...]”. Com efeito, tornam-se explícitas questões essenciais entre enunciado e gêneros discursivos e, ainda, seus elementos constitutivos.
Sobre a noção de gênero, Marcuschi (2008, p. 154) sustenta-a com argumentos de que é “impossível não se comunicar verbalmente por algum gênero, assim como é impossível não se comunicar verbalmente por algum texto. ”. Com isso, o autor indica a importância de se abordar o gênero na esfera da atividade humana. A propósito dos gêneros textuais, o autor afirma que “são os textos que encontramos em nossa vida diária e que apresentam padrões sociocomunicativos característicos definidos por composições funcionais, objetivos enunciativos e estilos concretamente realizados [...]” (MARCUSCHI, 2008, p. 154). Ao se reportar ao texto, o teórico assevera que
O texto acha-se construído na perspectiva da interação. E os processos enunciativos não são simples nem obedecem a regras fixas. Na visão que aqui se está propondo, denominada sociointerativa, um dos aspectos centrais no processo interlocutivo é a relação dos indivíduos entre si e com a situação discursiva. Estes aspectos vão exigir dos falantes e escritores que se preocupem em articular conjuntamente seus textos ou então que tenham em mente seus interlocutores quando escrevem (Ibid., p. 77, grifo do autor).
Sobre a questão do enunciado, sua noção ganhou grande contribuição das ideias de alguns linguistas, uma vez que ao fazerem referência às produções verbais, dispõem, além do termo “discurso”, dos termos “enunciado” e “texto”. A essas produções são atribuídas diversas definições. Julgamos importante enfatizar que para Adam (2011), o enunciado é objeto da análise
de discurso. Ainda, quanto ao enunciado, são-lhe atribuídos diferentes valores, conforme Maingueneau (2011, p. 56, grifo do autor), ou seja:
[...] o enunciado se opõe à enunciação da mesma forma que o produto se opõe ao ato de produzir; nessa perspectiva, o enunciado é a marca verbal do acontecimento que é a enunciação. Aqui, a extensão do enunciado não tem nenhuma importância: pode-se tratar de algumas palavras ou de um livro inteiro. Essa definição do enunciado é aceita universalmente.
Ademais, Maingueneau, em discussões teórico-conceituais, trata do emprego usual das expressões discurso, enunciado e texto. Nesse sentido, o autor afirma que “O discurso só adquire sentido no interior de um universo de outros discursos [...]. Para interpretar qualquer enunciado, é necessário relacioná-lo a muitos outros [...]” (Ibid., p. 55). Já no que se refere ao enunciado, o autor diz que “[...] emprega-se também ‘enunciado’, para designar uma sequência verbal que forma uma unidade de comunicação completa no âmbito de um determinado gênero de discurso [...]” (MAINGUENEAU, 2011, p. 56). Em relação ao texto, o autor aborda o emprego desse termo com um valor mais preciso, principalmente quando se refere a apreensão do enunciado como um todo.
A respeito desses conceitos, outros teóricos têm contribuído com suas reflexões para a construção de um novo quadro conceitual que os relaciona. Por isso, buscamos explorá-los pelo fato de que suas noções são essenciais para fundamentar parte da composição do quadro teórico desta tese, quer dizer, os postulados da ATD (ADAM, 2011). Assim, nessa abordagem teórica, a proposição-enunciado é enfocada como unidade textual de base. A esse respeito, Adam afirma que
Temos necessidade, metalinguisticamente, de unidade textual mínima que marque a natureza do produto de uma enunciação (enunciado) e de acrescentar a isso a designação de uma microunidade sintático-semântica (a que o conceito de proposição atende, finalmente, bastante bem) (Ibid., p. 106, grifo do autor).
Por sua vez, Motta-Roth (2002) reflete sobre diferentes gêneros textuais numa relação gênero/ensino. Decorrente disso, a autora, ao analisar a produção de gêneros acadêmicos institucionalizados em domínios distintos do conhecimento, assevera que “Para compreender como se configuram os gêneros que estruturam nossa experiência acadêmica, é necessário estudá- los no contexto de situação e de cultura em que operam” (MOTTA-ROTH, 2002, p. 79).
Em relação ao contexto de produção e de estudos de gêneros do discurso, identificamos, entre inúmeras contribuições teóricas no campo de análise desses gêneros, a do pesquisador inglês John M. Swales (SWALES, 2009). Nesse estudo, o autor apresenta uma base conceitual formulada sobre gênero, comunidade discursiva e propósito comunicativo. Nessa perspectiva, verificamos que o teórico, ao se preocupar com o discurso acadêmico escrito, contribui com os estudos de gêneros, visto que criou um modelo estrutural de análise de gêneros textuais, ou seja, o modelo CARS (Create a research space). Este, por sua vez, ao ser considerado como um instrumento voltado para a organização textual de introduções de artigos de pesquisa, pretende dar conta da estrutura desse discurso. Assim sendo, Swales (2009) contribuiu ainda mais para a nossa percepção sobre a importância do propósito comunicativo do resumo de gêneros acadêmicos, bem como pela perspectiva de criação de um modelo didático para orientação da produção do resumo documentário para a comunidade acadêmica.
Embusca de uma caracterização de categorias de texto, por meio de tipologia, gêneros e espécies, Travaglia (2007) discute parâmetros e critérios para essa definição, independentemente quais sejam os tipos, gêneros ou espécies. Com isso, o autor afirma que
A identificação, distinção e caracterização das diferentes categorias de texto é um dos objetivos da Linguística Textual em seu programa de trabalho, todavia ao nos debruçarmos sobre os textos circulantes em uma sociedade e cultura, vemos que esta não é uma tarefa simples. Tanto a identificação quanto a distinção das categorias de textos dependem diretamente de sua caracterização, porque o simples nome atribuído pelos usuários dos textos nunca é suficiente para identificar e diferenciar as categorias de texto, embora seja o primeiro passo para fazê-lo (TRAVAGLIA, 2007, p. 39).
Por isso, consideramos pertinente, configurarmos, em linhas gerais, a apresentação do arcabouço teórico-metodológico da ATD, haja vista a necessidade de compreendermos a estrutura composicional do texto resumo e suas possíveis análises.