Na opinião de Creswell (1998), há muita controvérsia em torno de como definir uma pesquisa qualitativa. Alguns autores delimitam uma pesquisa qualitativa segundo o uso de técnicas de coleta de dados, usadas de maneira qualitativa. A definição de Vieira (2004) aponta para a análise dos dados, argumentando que uma de suas características é o fato de não usar instrumental estatístico para avaliar os resultados alcançados. Sustenta, ainda, que a base de análise fundamenta-se num referencial teórico-empírico conhecido e legitimado.
Neves (1996, p. 1) também a entende em termos de técnicas de tratamento de dados, afirmando que se assemelham a procedimentos de interpretação dos fenômenos cotidianos: “compreende um conjunto de diferentes técnicas interpretativas que visam a descrever e a decodificar os componentes de um sistema complexo de significados”. O autor citado completa que, na maioria das vezes, os estudos qualitativos são conduzidos no próprio local de origem dos dados, que estes são simbólicos e situados em determinado contexto histórico e social, e que se aproximam mais de uma perspectiva fenomenológica do que do empiricismo.
Ayrosa & Sauerbronn (2004) esclarecem, no entanto, que a fenomenologia parte da premissa de uma realidade individualmente construída, diferentemente do construcionismo social, que acredita na realidade socialmente constituída. Dessa forma, parece tendencioso defender apenas a perspectiva fenomenológica. Como há diferentes maneiras de se interpretar o mundo, mas não uma única, conforme os relativistas defendem, o conhecimento pode surgir por meio da indução, ou seja, pela observação dos dados e de regularidades neles mesmos.
Bauer, Gaskell & Allun (2002) opinam que o interesse principal em uma pesquisa qualitativa consiste em observar a maneira como as pessoas espontaneamente se expressam e falam sobre o que é importante para elas e como elas pensam sobre suas ações e as dos outros, ou seja, sua percepção do fenômeno a ser estudado.
Levando em consideração esse conjunto conceitual apresentado, nota-se que a tradição hermenêutica é resgatada na pesquisa qualitativa, como Spink (1995) sinaliza. Dessa forma abre-se espaço à interpretação e ao desvendamento de significados, das intencionalidades e das esferas simbólicas.
Spink (2000) traz também a contribuição de Foucault sobre as novas possibilidades de interpretação formadas no século XIX e até hoje vigentes, que se centram no intérprete e se tornam mais complexa. Daí depreende-se que a realidade existe de acordo com a forma com que o individuo a acessa.
Nessa linha, Ayrosa & Sauerbronn (2004) atentam para o papel do pesquisador, cujo sistema de significados também interfere nesse processo. Ao mesmo tempo em que ‘lê’ a realidade, ele a constrói e reconstrói em ‘seu teto’, sob sua perspectiva e lentes paradigmáticas, num movimento multivocal de duas vias. Pode-se afirmar que a origem dessa idéia é Derrida, “para quem não há nada além do texto”, levando o pesquisador a buscar o “sentido do texto
privilegiando o que está fora dele, tomando o contexto como referente do sentido” (SPINK, 2000, p. 37).
O termo hermenêutica, oriundo tradicionalmente do estudo da Bíblia, assume que os seres humanos podem extrair as verdades ao se estudar detalhadamente um texto, qual seja, a Bíblia. Ao importar a hermenêutica tradicional para as ciências sociais, buscou-se perceber o oculto e o não dito nesses textos e nas falas. No século XVI, segundo Spink (2000, p. 98):
“a dogmatização da ciência e a cristalização do critério de verdade única tornaram a tarefa do intérprete algo submetido a leis rígidas e a critérios hermenêuticos e científicos únicos tomados como capazes de apresentar uma leitura única dos fenômenos da existência”.
Desde o século XIX, contudo, as técnicas interpretativas começaram a se modificar para uma forma inacabada, não linear e tampouco conclusiva. Atualmente, tem-se adotado ferramentas estruturadas como o círculo hermenêutico, que possibilitam e valorizam a construção e reconstrução dos significados, nos processos recursivos dos quais participa também o investigador (AYROSA & SAUERBRONN, 2004).
Para Foucault, a nova configuração possui duas implicações: a primeira, de que a interpretação é sempre subjetiva, “não é mais do que o intérprete”; a segunda diz respeito à circularidade da interpretação. Conforme Spink (2000, p. 100): “ao interpretar-se a si mesma, não pode deixar de voltar-se sobre si mesma”. Não é possível crer que os signos existam isoladamente, que não há uma subjetividade e uma intersubjetividade atreladas a eles, que a história, a cultura, o contexto e a sociedade estão à parte de todo sistema de significados. Dentro dessa visão, concorda-se que há uma articulação entre linguagem e interpretação, ou
seja, defende-se uma perspectiva construcionista da hermenêutica: um processo subjetivo e intersubjetivo de produção de sentidos.
Dada a natureza interpretativa, indutiva e hermenêutica da pesquisa qualitativa, é possível entendê-la como um multi-método em foco, como o fazem Denzin & Lincoln (1994). A definição de Creswell (1998, p. 15) amplia essa visão, enfatizando as múltiplas e possíveis dimensões e visões do problema ou objeto:
“é um processo de investigação baseado em tradições metodológicas distintas de pesquisa que exploram um problema humano ou social. O pesquisador constrói uma pintura complexa e holística, analisando palavras, relatórios que detalham visões dos informantes e conduz o estudo no seu contexto natural”.
Creswell (1998) sintetizou no quadro 5 transcrito a seguir os principais elementos que definiriam uma pesquisa qualitativa, segundo três grupos de autores representativos das idéias mais compartilhadas no campo das ciências sociais:
Quadro 5 - Características de uma pesquisa qualitativa Autores
Bogdan Eisner Merrian
Características & Biklen Pesquisa feita no próprio local em
que ocorre o fenômeno; foco no campo como fonte de dados.
Sim Sim Sim
Pesquisador como instrumento- chave de coleta de dados.
Sim Sim Não
Resultados são processos,
construções, mais que um produto acabado.
Sim Não Sim
Análise de dados indutiva, mais atenção ao particular do que ao geral.
Sim Sim Sim
Foco nas perspectivas e significados dos participantes
Sim Sim Sim
Uso da linguagem expressiva Não Sim Não
Persuasão pela razão e argumentação
Não Sim Não
Fonte: Creswell, 1998, p. 16.
Observa-se que nem todos concordam que palavras e figuras possam ser consideradas fontes de dados ou que o pesquisador seja um instrumento de coleta de dados, mas algumas características são centrais: a valorização da particularização dos resultados, dos significados que os participantes atribuem ao objeto investigado e o fato de a coleta de dados ser feita in locus, são exemplos de pontos em comum. Neves (1996) e Vieira (2004) ressaltam, ainda, o caráter descritivo da pesquisa e a capacidade de enriquecer e fundamentar as descrições em um referencial teórico consistente.
Sob esse prisma, seria ajustado adotar métodos qualitativos para investigação de fenômenos pouco estruturados, pouco conhecidos, horizontes inexplorados ou cuja configuração tenha se modificado ou, ainda, de difícil classificação ou mensuração (AYROSA & SAUERBRONN, 2004; ROCHA, 2004). A pesquisa qualitativa, então, é definida por Ayrosa & Sauerbronn
(2004) como meio de investigar problemas que provavelmente não tenham sido de fato “problematizados”.
Rocha (2004) salienta que não é tão evidente quando utilizar os métodos qualitativos em estudos conclusivos no campo de Administração, sugerindo três possíveis aplicações:
- estudo de processos, cuja característica central consiste grande número de fatores intervenientes, em que as relações entre eles são complexas e desconhecidas;
- desenvolvimento de tipologias, sendo especialmente adequados para identificar características e situações específicas de algum fenômeno;
- estudos de culturas e sub-culturas nas organizações, em que a complexidade é ponto comum entre os autores.
Creswell (1998) fornece alguns critérios para se desenhar um estudo qualitativo, salientando sempre a flexibilidade do pesquisador quanto à redefinição dos rumos da pesquisa:
1) planejamento de uma abordagem geral ao estudo - não um plano detalhado e determinístico;
2) definir que referencial da literatura que deve ser incluída, quanto de teoria deve guiar o estudo, como e se há necessidade de verificar a acurácia do estudo;
3) entender que não há apenas um padrão definido de se apresentar a pesquisa qualitativa.
Creswell (1998) defende que o conhecimento vem por meio dos significados que as pessoas constroem e trocam entre si, sendo impregnado de vieses e valores. O conhecimento é escrito em uma forma pessoal e intima. A partir dessas considerações preliminares em mente, se busca um problema relevante e se constrói o corpus de pesquisa.
Corpora, plural de corpus, no sentido lingüístico, são coleções de dados de linguagem que servem para vários tipos de pesquisa (BAUER & AARTS, 2002). Consiste em todo material escrito ou falado sobre o qual se fundamenta uma análise lingüística, a saber, textos formais ou informais, falas e outros tipos considerados mais ou menos representativos. Esse material é estruturado e classificado segundo alguns parâmetros, tais como canal (falado, escrito, escrito para ser falado, etc.), temática (arte, família, religião, etc.), função (persuadir, expressar, informar, etc.). Segundo Bauer & Aarts (2002), devem ser: relevantes (um foco temático), homogêneos (não misturar entrevistas com textos, devem ser separados como corpora para comparação), ter sincronicidade (fazem parte da história e é uma interseção da mesma).
Após a definição desses corpora, procede-se ao esboço de um plano de pesquisa mais estruturado. Nunca é demais ressaltar, como Neves (1996) assevera, que o uso de métodos qualitativos pode conferir redirecionamento da investigação. Creswell (1998) contribui nesse sentido, aconselhando ao pesquisador a começar com uma questão simples, e não uma relação causal entre variáveis ou comparação entre grupos. A relação pode até surgir ao longo da pesquisa, mas não necessariamente deva ser antecipada.
Assim, o plano mais estruturado pode sofrer alterações, como foi o caso desta tese. Ao longo do processo de pesquisa, o projeto inicialmente elaborado foi sendo reconstruído, em função dos resultados que levaram a reavaliação de uma série de elementos. Esse plano mais estruturado, conforme Creswell (1998) orienta, deve, além do que já foi relacionado antes:
- contar com procedimentos rigorosos de coleta de dados, ou seja, usar múltiplas formas de dados e mais de um modo de coletá-los; sugere-se sistematizá-los de forma a facilitar sua análise, talvez até em uma tabela em que possa se dar detalhes sobre os dados;
- usar múltiplos níveis de abstração na análise de dados, em que um pesquisador se movimente nível particular para o geral em termos de abstração;
- ter cuidado na redação, evitando juízos de valor e ambigüidades. No entanto, deve também conter idéias inesperadas, achados que permitam refletir sobre a complexidade do problema estudado.
Além de todos esses cuidados, Spink (1995) defende que o rigor nas ciências sociais é desviado deste seu eixo central para a questão da validade, ou seja, o grau em que um fenômeno é interpretado corretamente. É nesse sentido que sugere o uso da triangulação metodológica como estratégia de validação, pois ao combinar técnicas múltiplas de coleta / análise de dados ou múltiplos pesquisadores, acredita ser possível fortalecer a confiança nas interpretações.
Rocha (2004) identifica alguns abusos observados em pesquisa qualitativa no Brasil, que por sua vez devem ser bem considerados para sustentar a validade da analise dos dados.
Um desses erros é não reconhecer qual posição ontológica e epistemológica orienta as lentes do pesquisador. É comum observar elementos positivistas onde domina o paradigma interpretativista. O uso de amostras, projeções, generalizações e critérios estatísticos ou linguagem que denote a relação causal não são adequados em métodos qualitativos.
O rigor não está em considerar apenas uma lista de critérios, mas compreender os limites e possibilidades da pesquisa qualitativa: cada método constitui e constrói o objeto de estudo de uma maneira particular. É preciso reconhecer a realidade como um caleidoscópio, conforme Spink (1995) qualifica e entender a importância de os pesquisadores questionar os próprios pressupostos e interpretações.