Em relação à primeira questão, o que procuramos foi investigar o tipo de relação que existe entre a condição de participação nos projetos (“Exper” ou “Control”), que é a variável causal chave do modelo, e as características pessoais dos respondentes, que são as variáveis explicativas X5, X5.1 e X6. As sub-questões aqui são, pois, as seguintes: até que ponto a atitude da própria pessoa (de pró-atividade ou passividade) influencia na sua participação nestes projetos? até que ponto a atitude da família (de estímulo ou não-estímulo à participação em projetos em geral) influencia em sua participação no Projeto Olímpico / CAMP?
Examinando os resultados do quadro 27 mais adiante, constatamos, de imediato, que a atitude da família foi a variável determinante para a participação da criança / adolescente nos projetos Olímpico e CAMP. Isto porque TODOS os participantes dos dois projetos (para os
quais foi possível identificar a atitude da família77) contaram com um background de estímulo familiar.
Porém, e isto é importante destacar, nem todo background de estímulo familiar resultou necessariamente na participação nos referidos projetos. Houve situação em que os pais ou os próprios garotos optaram pela NÃO participação nestes projetos, uma vez que tinham uma opção alternativa de desenvolvimento pessoal que consideravam mais adequada. Foram os casos de “Control 4”, “Control 5”, “Control 7”, “Control 9” e “Control 11”. Teve também uma outra situação extrema em que a família parecia estar focada no desenvolvimento pessoal do filho, porém a atitude passiva e desinteressada dele foi preponderante, resultando em sua não-participação não apenas no projeto social como também na escola. Tal foi o caso de “Control 16”, provavelmente um outlier.
Apenas para os casos em que foi possível identificar a atitude individual, podemos dizer que existiu uma correlação razoável entre este indicador e adequação escolar. Com exceção de “Exper 8”, crianças e adolescentes com atitude interessada e pró-ativa tenderam a apresentar adequação idade / série na escola; e vice-versa. É preciso, no entanto, ter clareza que esta constatação é frágil em nosso modelo porque: 1º) no que se refere ao indicador “adequação escolar”, a repetência escolar foi banida do ensino público brasileiro até a 4ª série do ensino fundamental; e 2º) não conseguimos identificar, a partir da entrevista, a variável “atitude individual” para 13 casos, o que corresponde a um percentual de 37% de dados missing para a nossa amostra. Na maior parte das vezes isto ocorreu quando a entrevista foi realizada com o pai ou responsável da criança / adolescente, e não com a própria criança / adolescente.
Assim, esta elevada correlação detectada entre atitude individual (X5) e adequação idade / série (X5.1) apontaria para a necessidade de apenas uma das duas variáveis para compor o modelo. Mas, por outro lado, a elevada taxa de dados missing referentes à atitude individual (X5) mostrou ser interessante considerar também X5.1 no modelo apenas a título de variável coadjuvante de X5, de modo a enriquecer a interpretação dos resultados. Importante alertar, todavia, para o componente de endogeneidade presente em X5.1, uma vez que a variável adequação escolar foi apurada por ocasião da nossa entrevista e, portanto, o desempenho escolar do período analisado encontra-se também aí incorporado.
Feita essa ressalva, o ponto relevante que queremos destacar é a correlação que detectamos entre as características individuais e as características da família. Explicando melhor: indivíduos com adequação escolar e atitude de vida pró-ativa estavam quase sempre associados à famílias “presentes” e estimuladoras do seu desenvolvimento pessoal. E vice- versa: indivíduos com inadequação escolar e atitude de vida passiva estavam associados a famílias mais “ausentes” e com atitudes não-estimuladoras do seu desenvolvimento. Houveram exceções, como os casos notórios de “Control 15a” e “Control 16”.
As evidências a partir dos resultados da amostra apontam nitidamente para três perfis de crianças / adolescentes da Mangueira, no que se refere ao seu envolvimento com o Projeto Olímpico e o Projeto CAMP:
1º perfil – INCLUÍDOS: Os incluídos nos projetos são, em geral, crianças / adolescentes com algum grau de estímulo familiar e/ou de adequação escolar e/ou atitudes pró-ativas.
São os casos de: Exper 1; Exper 2; Exper 3; Exper 4; Exper 5; Exper 6; Exper 7; Exper 8; Exper 9, Exper 10; Exper 11; Exper 12; Exper 13; Exper 14; Exper 15; Exper 16; Exper A; e Exper B.
2º perfil - AUTO-EXCLUÍDOS: Uma minoria dos excluídos dos projetos são também crianças / adolescentes com algum grau de estímulo familiar e/ou de adequação escolar e/ou atitudes pró-ativas – mas, que optararam por não participar, por terem outra alternativa de desenvolvimento pessoal.
São os casos de Control 4; Control 5; Control 7; Control 9; e Control 11.
3º perfil – EXCLUÍDOS EM SITUAÇÃO DE RISCO SOCIAL: Uma maioria dos excluídos dos projetos são crianças / adolescentes sem estímulo familiar para sua participação nos projetos e/ou apresentando inadequação escolar e/ou atitude passiva face a seu próprio desenvolvimento.
São os casos de Control 1; Control 2; Control 3; Control 6; Control 8; Control 10; Control 12; Control 13; Control 14; Control 15a; Control 15b; e Control 16.
A elucidação dos três perfis dá margens a duas considerações relevantes sob a ótica da avaliação do impacto destes projetos na Mangueira.
A primeira consideração é a de que a maioria dos excluídos é constituída por crianças e adolescentes da Mangueira, justamente os que mais necessitariam estar inseridos nestes projetos sociais apoiados pela Xerox. Pois são exatamente eles que tipificam o perfil
caracterizado por serem largados pela família e de não alimentarem um sonho de auto- desenvolvimento. São eles que se encontram mais próximos da “ameaça da rua” e mais expostos à atração das drogas e da criminalidade. Ilustramos com algumas situações que apontam para a fragilização da situação de vida destas crianças / adolescentes:
! pai do garoto “Control 1” acabou de sair da prisão onde esteve durante sete anos; ! a adolescente “Control 6” parou de estudar e teve duas filhas;
! o adolescente “Control 9” ficou três anos sem estudar por desinteresse; ! o garoto “Control 13” quer parar de estudar;
! “Control 14” tem apenas 7 anos de idade, vive solto e a sua mãe não o leva para a escola;
! a adolescente “Control 15b” parou de estudar e diz que o que ela gosta é de ficar sem fazer nada;
! o garoto “Control 16” já chegou a dizer para sua mãe que iria virar “bandido”. Se, como vimos, um dos componentes destes projetos apoiados pela Xerox é a prevenção da criminalidade na Mangueira, estes projetos deveriam estar focados nestas crianças / adolescentes da comunidade mais expostos a situações de risco social (perfil 3).
E por que as crianças / adolescentes da Mangueira não participam do Projeto Olímpico e do Projeto CAMP (perfis 2 e 3)?
As entrevistas mostraram que eles não participam dos referidos projetos por duas razões principais (ver quadro 25): (1) seus pais / responsáveis, ou eles próprios, informaram praticamente não ter conhecimento sobre os projetos; e (2) no casos dos menores, eles não têm como se locomover até a Vila Olímpica. Naquele primeiro caso, poderíamos alegar que este posicionamento reflete desinteresse dos pais ou deles próprios na busca por oportunidades de desenvolvimento pessoal. No segundo caso, as palavras da mãe de “Control 13” resumem bem o dilema provavelmente enfrentado por muitos pais de crianças da comunidade: “também eu não tenho confiança de mandar ele sozinho pra Vila Olímpica”. E aí? Mais adiante, comentaremos sobre possíveis alternativas para este dilema, a partir de soluções identificadas na própria comunidade.