Conforme discutimos anteriormente, as manifestações políticas ganham força de maneira instantânea dentro das redes sociais da internet, ainda que o motivo da manifestação seja pontual e relativo à população de um país especificamente, a globalização e o sentimento de pertencimento a este território globalizado, típico da contemporaneidade, faz com que jovens de diferentes partes do mundo se manifestem solidariamente aos movimentos sociais de outros países35. Assim, podemos mais uma vez recorrer ao pensamento de Bauman sobre o “capitalismo leve” - o mundo da era da globalização, onde as orientações e os objetos perdem a fidelidade com seus territórios simbólicos e geográficos originários. Observamos hoje
um modelo de comunidade que podemos definir como líquida ou até volátil, pois se agregam e se desagregam com facilidade. As relações são superficiais e as articulações entre seus membros ocorrem de maneira efêmera dentro de ambientes virtuais.
Certamente, estamos falando de sujeitos mergulhados num grande mal-estar provocado pela pós-modernidade, que buscam causas e bandeiras para levantar como uma fuga, ou pelo menos como uma ação que dá sentido à existência e tem seu campo luta concentrado, na maior parte tempo, dentro das redes sociais da internet. Por isso, afirma Bauman (2001), observamos a despreocupação com o espaço ou pertencimento a um território específico, estes sujeitos podem dentro do ambiente virtual manifestarem- se a favor de causas que eles mal conhecem, porém ao compartilharem ou curtirem36
35 Podemos citar, como um exemplo deste fato, as diversas mobilizações que ocorreram na Europa e
Estados Unidos em solidariedade às manifestações ocorridas no Brasil entre os meses de Junho e Julho, incialmente por conta do aumento nas tarifas do transporte público na cidade de São Paulo.
36 Curtir e Compatilhar são duas das três opções que os usuários do Facebook (a maior rede social da
um determinado post estão demonstrando sua “luta” para todos os seus contatos da rede, propagando de maneira rápida tal informação.
Após toda a contextualização construída até aqui, o que buscaremos observar com maior profundidade neste momento, são as possibilidades que as redes sociais abrem, apesar da aparente superficialidade (no debate de assuntos que dizem respeito a toda uma sociedade), ao conseguirem fazer com que milhões de pessoas deixem suas casas e partam para as ruas em protestos, alcançando rapidamente conquistas políticas e sociais em uma velocidade nunca vista até então no país.
Assim, como em outras partes no mundo37, o Brasil passou, no mês de Julho de 2013, por um fenômeno de protestos em diversas cidades, que levaram milhões de pessoas às ruas e tiveram sua articulação toda feita dentro das redes sociais, mais especificamente, pelo Twitter e Facebook. Estes protestos tiveram a participação maciça de jovens e segundo pesquisas realizadas pelo Ibope38, metade dos manifestantes estava protestando pela primeira vez e mais de 70% dos participantes ficaram sabendo do ato pela internet, sendo 62% pelo Facebook.
A onda de manifestações populares teve início quando a prefeitura de São Paulo e o governo do Estado reajustaram os preços das passagens dos ônibus municipais, do metrô e dos trens urbanos de três reais para três reais e vinte centavos. No início de 2013, logo após começar seu mandato, o novo prefeito Fernando Haddad anunciou que a tarifa sofreria um aumento ainda no primeiro semestre daquele ano. Em maio, o governo federal anunciou a publicação de uma medida provisória que desonerava o transporte público da cobrança de dois importantes impostos (PIS e COFINS), para evitar que os reajustes nas tarifas pudessem pressionar a inflação. Ainda assim, as tarifas de ônibus, trens urbanos e metrô foram reajustadas para três reais e vinte centavos, desencadeando os protestos.
disponibilizaremos uma das definições mais curtidas do facebook sobre a definição destas opções. O post foi publicado por um usuário e curtido, comentado e compartilhado por milhares de pessoas:
“'Curtir' significa: bom, mas não o suficiente para eu perder tempo com um comentário... 'Curtir + comentar' significa: legalzão, dava pra melhorar, mas meus amigos não vão entender... 'Curtir + comentar + compartilhar' significa: PQP, por que não pensei nisso antes!!!” (Disponível em <HTTP://www.facebook.com>. Acesso em 21/7/2013.
37 Podemos citar como maiores exemplos o Occupy Wall Street nos Estados Unidos e a Primavera Árabe,
onde de manifestações ocorridas em 2010 no Oriente Médio que culminaram com a queda de regimes ditatoriais no Egito e na Líbia.
38 Pesquisa disponível em < http://g1.globo.com/brasil/noticia/2013/06/veja-integra-da-pesquisa-do-ibope-
No mesmo dia em que o reajuste foi anunciado, poucos integrantes do Movimento Passe Livre (MPL)39 e de alguns partidos de esquerda saíram às ruas para protestar e
foram fortemente repreendidos pela polícia. O fato ganhou os noticiários da televisão e, principalmente, as redes sociais, onde o MPL passou a convocar os cidadãos para um novo protesto contra o aumento das passagens. Mensagens de solidariedade aos manifestantes repreendidos e a organização de uma manifestação nas ruas de São Paulo rapidamente se tornaram um viral40 na internet.
A partir deste episódio, diversos protestos passaram a ser organizados pela internet em todo o país e até no exterior. Porém, uma série de outras demandas da sociedade até então discutidas de maneira tímida pela mídia ou grupos políticos vieram à tona, muitas causas saíram às ruas, deixando a briga pelos vinte centavos do transporte diluída no meio de tantas outras.
A rapidez com que as multidões se organizaram e o número de causas sociais ou políticas aderidas por esse movimento tornaram difíceis às interpretações até mesmo para os mais hábeis jornalistas, políticos e cientistas sociais. O papel da internet foi fundamental na condução desses protestos e suas causas, nosso desafio, portanto, é entender como o compartilhamento de imagens e mensagens curtas, sem grandes debates ou explicações conseguiu movimentar todo um país.