2. Hizmet İçi Eğitim
2.11. Hizmet İçi Eğitim Süreci
2.11.1. Hizmet İçi Eğitimin Planlanması
“Sou contra as bancas de jornais!”
Foi com estas palavras que, logo ao início de minha pesquisa, o blogueiro Tiresias da Silva [2005] captou minha atenção. No artigo de 2005, referenciado pelo próprio autor como o post “mais polêmico do site em 2009”, e desdobrado em mais três textos em 2008 e outros dois em 2010, sobravam críticas à desordem urbana, repisando o tema da necessidade de se instituírem normas mais rígidas para a concessão do espaço público e argumentando que, não só as bancas atrapalham a circulação de pedestres
pelas calçadas21, como elas teriam se desviado de sua função original: do comércio de
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A mesma crítica já foi encampada em diversos momentos diferentes na coluna de Ancelmo Góis nO
Globo. Cito p. ex. a nota publicada em 22 de junho de 2009, na página 12 do jornal: “A privatização das
calçadas pelo comércio é uma mazela que atinge todo o Rio de Janeiro. Em Vila Valqueire, na Zona Oeste da cidade, esta banca de jornal [que aparece na imagem central] e a padaria Flor do Valqueira obrigam os pedestres, como mostra a foto do coleguinha Hudson Pontes, a deixar a calçada para poder seguir seu destino. ‘Para passar, tem que se andar na rua, que é movimentada, ou entrar na padaria, entre as duas caixas, onde geralmente já tem muitas pessoas na fila, esperando’, reclama a leitra Bárbara Riachoelo” [O GLOBO, 2009]. Mas situações contrárias a esta também são objeto de notícias. Em dezembro de 2010, o mesmo O Globo noticiava com algum destaque manifestações de moradores do bairro do Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro, que tentavam impedir a retirada de uma banca da Rua Dias Ferreira. Segundo a prefeitura, a titular da banca não havia encaminhado no prazo os documentos para seu recadastramento obrigatório, e a Secretaria de Ordem Pública resolveu remover o quiosque, em vista de suas dimensões serem superiores às autorizadas. O jornal dava ainda conta de que, no último processo
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jornais e revistas, passaram a negociar todo tipo de guloseimas e – pasmem! –, inclusive, a veicular publicidade.
Os posts de Tiresias da Silva obteviram ampla participação em seus comentários, muitos dos quais deixados por jornaleiros, magoados pelas críticas (alguns, é verdade, mais raivosos) e rebatendo um a um vários dos pontos apresentados. Oportunidade única para a observação sobre este debate, tenho acompanhado desde então as revisitas do blogueiro ao tema, sempre procurando desfazer o mal entendido inicial, explicando que não é contra a categoria dos jornaleiros, mas contra a indústria que se instalou por trás das bancas [SILVA, 2008a; 2008b; 2008c; 2010a; 2010b].
De forma semelhante ao argumento dos buquinistas parisienses, alguns dos jornaleiros que respondiam à discussão no blog procuravam evidenciar que não se lhes agradava vender outros gêneros. Segundo eles, “Pode parecer besteira mas os produtos alternativos: balas, cigarros, refrigerante, etc. São conveniencias, complementam as vendas e dão retorno” [2008a]. Mas a grande maioria simplesmente colocava a questão em outros termos, apontando que as críticas deveriam ser dirigidas, na realidade, à instância de licenciamento e fiscalização da prefeitura, já que os jornaleiros agiam estritamente dentro da lei. E, se a proliferação de bancas ou a ampliação de suas atividades originais incomodava, isto se devia a um regime de licenciosidade absoluta, onde eles próprios saíam perdendo.
Na tentativa de reconstituir o caminho que levou a esta liberalização do comércio em bancas, busquei investigar então em que momento, nos termos da lei, os ditos produtos alternativos passaram a ser encampados. Como vimos, ao fim do Governo Chagas Freitas, e no calor das eleições de 1982, a lei estadual nº 586/1982, seguida de suas disposições complementares, promulgadas pela lei nº 596/1982, tornou atribuição do estado do Rio de Janeiro o controle sobre a distribuição e venda de publicações impressas. Com esta medida, o governador Chagas Freitas buscava ampliar e facilitar a expansão de seus veículos privados de mídia, notadamente o jornal O Dia, em especial na região metropolitana do estado. Como recurso desesperado, buscando recuperar o espaço perdido com o previsível fracasso do candidato governista Miro Teixeira, a lei passou quase despercebida no fim do mandato chaguista. Apenas em 1985, por iniciativa do vereador pedetista Eduardo Chuahy, então presidente da Câmara, é que foi revogada a legislação [lei estadual nº 908/1985], abrindo caminho
de recadastramento, 1391 bancas (de um total de 2,5 mil, na cidade) já haviam sido regularizadas [ANTUNES, 2010; ANTUNES; MEROLA, 2010; O GLOBO, 2010].
para que, em 1986, a prefeitura voltasse a se ocupar da atividade através do regulamento nº 6 da Consolidação de Posturas Municipais de 1978, alterado na sequência pelo decreto nº 6.229/1986 emitido pelo prefeito Saturnino Braga.
É deste ponto, em exato, que parto para as considerações subsequentes. A respeito da cronologia de acontecimentos supracitados, pode-se afirmar que o decreto de Saturnino preenchia a lacuna deixada pelo vácuo legislativo estadual, uma vez que retornava ao município a competência sobre a regulação e licenciamento das bancas. Para completar, é precisamente tal decreto municipal o responsável por aumentar de 200m para 400m a distância mínima entre uma banca e outra ou entre uma banca e qualquer estabelecimento comercial que vendesse jornais e revistas, norma que suscitaria os debates internos na Procuradoria Geral do Município, tratados nas páginas imediatamente anteriores.
O Governo de Brizola ocupou-se, nesse período, apenas de sancionar legislações que restringiam a circulação e a exposição em bancas de conteúdos pornográficos [lei nº
763/1984]22 e publicações ilustradas com alusão a armas de fogo e/ou armas brancas [lei
nº 1.112/1987]. Tal direcionamento apontava para um novo papel do estado no controle da circulação e distribuição da imprensa – responsabilidade esta, em determinados aspectos, compartilhada com a União –, enquanto passaria a caber à municipalidade tão- somente a regulação da atividade.
Não à toa, às vistas do projeto de lei municipal nº 1.515/1991, de autoria do vereador Cesar Pena – eleito pelo Partido Socialista, espécie de dissidência do PDT de Brizola –, a procuradora-chefe da Procuradoria de Serviços Públicos do Município do Rio de Janeiro, Vanice Regina Lírio do Valle, manifestou seu receio de que o texto proposto para a lei “venha a tangenciar a disciplina da liberdade de imprensa – matéria que refoge à competência legiferante da Municipalidade”. O projeto nº 1.515/1991 determinava em seu caput a proibição da “exposição [sic] em bancas de jornais e revistas, de fotos que reproduzam cenas de atrocidade e sadismo” [PROCURADORIA
GERAL DO MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO, 1991]. Considerado genérico e
ambíguo em seus termos, o projeto foi vetado a partir da recomendação do procurador geral do município Raul Cid Loureiro e também da procuradora do município Kátia
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Trata-se de comentário meramente especulativo, mas é possível que parta daí o interesse provocativo de publicações eróticas como a Playboy em atrair para suas páginas a filha do governador, Neusinha Brizola. Falecida recentemente, Neusa Maria Goulart Brizola chegou a posar nua para a revista em 1987, mas o político conseguiu impedir a divulgação das fotos, alegando que as imagens poderiam vir a prejudicar seus netos (filhos de Neusinha) [cf. O GLOBO, 2011].
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Patrícia Gonçalves Silva. Esta última, por oportuno, lembrou que o projeto versava sobre matéria de âmbito do poder de polícia administrativa, “especificamente na espécie de polícia de costumes, que visa a limitar e condicionar o exercício de liberdades e direitos individuais em benefício do decoro, da moral e dos bons costumes” [id.:ibid.]. Segundo a procuradora, a competência sobre assuntos desta natureza é dos três graus federativos, notadamente do poder municipal, contudo, pelos termos vagos em que o projeto havia sido formulado, sua aprovação causaria rebatimento na liberdade de
imprensa – assegurada constitucionalmente23 –, já que o texto não regulamentava a
exibição de publicações que porventura veiculassem cenas de atrocidade e sadismo, apenas a proibia.
Assentadas as competências entre os três poderes, o decreto seguinte, nº 11.380/1992, já em fins da administração Marcello Alencar, alterava mais uma vez o regulamento nº 6 do decreto nº 1.601/1978, presente na Consolidação de Posturas Municipais. Abrindo caminho para a reformulação conceitual do modelo de funcionamento das bancas nos anos subsequentes, a legislação promulgada pelo prefeito Marcello Alencar solapava as pretensões da corrente chaguista ou grupos afins em voltar a fazer uso político da categoria dos jornaleiros. As mudanças aprovadas no teor da lei não eram substanciais no sentido de alterarem profundamente a atividade, mas, sem dúvida, enfraqueciam o capital político dos grupos que durante as décadas de 1970 e 1980 se mantiveram no poder em todo o estado do Rio, especialmente na capital. Para começar, o decreto nº 11.380/1992 removia praticamente todas as menções anteriores a respeito do papel dos Sindicato de Empresas Proprietárias de Jornais e Revistas e Sindicato de Distribuidores e Vendedores de Jornais e Revistas, ambas as associações afinadas com a corrente de correligionários do antigo MDB carioca, herdeiro político do
ex-governador Chagas Freitas24. Onde se lia, por exemplo, que ambos os sindicatos
deveriam ser ouvidos antes da concessão de autorização para a instalação de bancas, na lei chaguista nº 596/1982; no decreto nº 11.380, estaria grifada a competência exclusiva da Secretaria Municipal de Fazenda. Também o parágrafo em que se sugeria a consulta ao Sindicato das Empresas Proprietárias de Jornais e Revistas a fim de aprovar um esquema de funcionamento especial por menos de oito horas diárias para determinadas bancas passava a mencionar apenas a Secretaria de Fazenda. E, ainda, o trecho que
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Cf. a esse respeito BRASIL, 1988, especialmente art. 5º, inciso IX; art. 220, parágrafos 1º, 2º e 6º.
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Note-se mais uma vez que Chagas Freitas foi presidente do Sindicato de Empresas Proprietárias de Jornais e Revistas durante 14 anos, de 1956 a 1970, quando então assumiu o Governo da Guanabara.