1.4 Türkiye’nin Yenilenebilir Enerji Kaynakları ve Potansiyelleri
1.4.2 Hidrolik (Su Gücü) Enerjisi
Se gu ndo No rma Telles, o romance caracterizou a produção literária no século XIX. Muitos lite ratos, particularmente os pertencentes à segunda ge ração de românticos brasile iros, encara vam a histó ria como embate de f orças contrár ias e, por intermédio de seus roma nces assumia a cólera e denunciava m os conflitos da vi da social, através do cotidiano de seus pe rsonagens.105 Percebe-se com isso a ri queza das f ontes l iterárias na produção histórica.
Manuel Antônio de Almeida,106 em sua ob ra Me móri as de um sargent o de milícias, procurou apreender o cotidian o das classes baixas do Rio de Janei ro no início d o século XI X. Ent re seus persona gens, encontramos uma parteira desempenhando um im po rtante papel na sociedade f luminen se no período. O au tor não a nomeia, essa parteira define-se por seu of ício, é chamada também por comadre e interfere, com autori dade, na vida d e seu afilhado Leona rdo.
A pa rteira ou com adre é desc rita p or Manuel Antonio d e Almeida como uma mulher de estatura baixa, religi osa, super sticiosa,
105
TELLES, Norma. Escritoras, escritas, escrituras. In: DEL PRIORE, Mary (Org). História das mulheres
no Brasil. São Paulo, UNESP, 1997, p. 418-419.
106
gorda, “bonachona, ingên ua ou tola até um certo ponto, e finória até outr o”,107 benzedei ra, sempre q uerend o saber da vida de out ros com todos os menores detalhe s- “isso lhe da va longa matéria para entreter as partu rientes que se c onfiavam aos se us c uidados”.108 Apren deu o ofício por curiosidade, adquiri do na prática, pelo o ensinamento de o utras mulhe res, passando a depende r financeiramente del e. Relacionava-se co m pessoas dos mais variados meios sociais.
Quanto ao traj e da parteira, Almeida descreve que
era, como o de todas as mulheres da sua condição e esfera, uma saia de lilá preta, que se ve stia sob re um vestido qualque r, um lenço branco muito teso e engomado ao pesco ço, outro na cabeça, um rosário pendu rado no cós da saia, um raminh o de arruda at rás da orelha, tu do isto coberto po r uma clássica mantilha, j unto à renda da qua l se p re gava uma pe quena f i ga de ouro ou de osso.109
Tinha libe rdade, saía sozin ha, sustentava-se economicament e. Esse pe rfil de part eira traçado por Manuel Antonio de Almeida rompe também com o s pa drões mo rais da bur gu esia brasilei ra do pe ríodo imperial. Considerand o essa comadre de comportamento desviante par a o período, podemos afirmar que a imagem negativa das mulheres parteiras, construída princi palmente pelo discurso médico, teve como objetivo também puni r e controlar o com port amento f eminin o, causando em certa me dida im passes para a atuação das parteiras.
107
ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. São Paulo: Ática, 1996, p. 30. 108
Idem, p. 31.
109 Ibdem.
A pr opós ito, o termo “comadre”, citado por Man uel Anto nio de Almeida, j á existia desde a Anti gü id ade Clássica e era utilizado para desi gnar as parteira s práticas. Nesse pe ríod o, essas mulhe res eram vistas como sábias, pois cabia a elas o corte do cor dão um bilical da criança, a realização do parto, a orientação à pa rtu riente quanto ao aleit amento, entre outras ati vidades. Na Península Ibé rica e no Brasil, o termo tem o mesmo signif icado. Assim como na Anti güidade, eram mulheres respeitadas e desenvol viam a mesma atividade de outr ora.110
Na Europa, a partir do século XV III, o termo “comadre” vai ganhando um si gnif icado depreciati vo, particularmente na França. Sob influencia do discurso eur opeu, o Brasi l, principalmente no século XIX, herda o mesmo di scurso, pois esse term o passou a deno min ar as mulheres parteiras, tachadas de igno rantes, per i gosas e inaptas a desenvol ve r seu of ício.111
Contudo, esse no vo si gnificado do term o “comadre”, associado às mulheres parteira s sobretudo pelo discurso médico não, condiz com o signif icado dele inscrito no Dicio nári o da Língua Por tuguesa de 1813.
COMADRE, s.f . A mulher, que se rve d e madrinha a respeito da mãi, ou pai do afilhado. Ferr. Castro, f . 126. El Rei a o neto por madrinha me d a, Comadre ao filho. S. A parteira, familiarmente.112
110
SILVA, A. A primeira médica no Brasil. Rio de Janeiro: Pongetti, 1954, p. 14. 111
O termo “comadre” usado por Manuel Antoni o de Almeida e stá de acordo com o significado apresentado pelo dicioná rio acima citado. Poi s, na prática, a parteira tornou -se muit as vezes madri nha da criança.
Out ra obra lite rária que apresenta o cotidiano de uma parteira é Luzia -Homem, de Do min go s Olímpi o. Romance escrito em 1903, apresenta- nos o cenário social do regionali smo nor destino por meio do cotidiano dos retirantes do Ceará. A parteira presente na o bra chama-se Rosa Veado, e desempenha um importante papel social no sertão cearense no período. Além de realiza r pa rtos, ben ze e é tam bém curan deira, interferindo com autori dade na vida da comunidade.
A parteira é descrita po r Domin gos Olím pio com o uma m ulhe r pobre, sustentando sozinha seus f ilh os. Seu s serviços são amplamente requisitados. Sempre querendo saber d a vi da de outros, como também opinar nas situações alheias, costuma contar detalhes ocorri dos du rante o seu trabalho. Isso lhe confere a garanti a de poder, a confiança aos seus cuidados, bem com o a chance de ser o centr o das atenções du rante as reuniões co m out ras mulheres, que geral mente ocorriam no f inal da tarde. Podemos conf eri r essas características da parteira Rosa Veado n o se guinte trecho da obra:
Rosa Veado vo ltara extenuada de pe nosíssimo t rabalho. Sentada à por ta da casa de taipa, onde mora va com os f ilhos, entre o cemitério velho e a Fortaleza, contava o caso às vi zinhas at entas, acocoradas em redor dela, curiosas e admiradas.
112
MORAES SILVA, Antonio de. Diccionario da Língua Portugueza. Lisboa: Typographia Lacerdina, 1813, p.201.
É o que digo a vocês. As outras comadres não lhe
puderam dar vol ta e não ti ve ram remédio senão me procu rarem, p or que, não é p or me gabar, todo o m undo sabe que eu sou a tira-teimas. Que hor ror! A mulher tira a criança atraves sada, lá nela.113
Quanto às técnicas da parteira, Domi ngos Olím pio nos relata, por inte rmédio do d iscurs o de Rosa Veado, que as pala vra s dóceis e as rezas também f aziam parte do momento do parto.
Então eu disse: daqui a um nadinha, se Deus qui ser, está aí a criança. Tenha coragem. Ma is uma vez e estará livre... Pegu ei-me então, com o Senh or São Raimundo e rezei. O menino estava mesm o atra vessado. Vão ver uma botija, minha gente – disse eu. Trouxe ram uma botija de zinebra vazia, onde eu mandei que ela assoprasse com tod a a f orça. – So pre...de verdade...Vamos....Nisto dei um j eito que só eu sei...A mulhe r lar gou um grito rasgado e a criança pulou ! A mar rei-lhe o embigo; ar rum ei-lhe quat ro palmadas f or tes; m eti-lhe o dedo na boca cheia de gosma...Foi dito e f eito: chorou l ogo co m força, pois era um menino macho, com a graça de Deus...114
A pa rteira Rosa ta mbém não dispensa a ajuda do marido da partu riente. Porém, a participação deste só oc orre qua ndo ela requi sita e sua ação resume-se aos mandos da parteira, como podemos conf erir:
E como as párias não se despregassem, chamei o marido, mandei q ue botasse o pé em c ru z na bar ri ga da mulher enq uanto esta reza va comi go: “Minha Santa Mar gari da, não esto u p renha, nem parida, mas de vós
113
OLÍMPIO, Domingos. Luzia-Homem. São Paulo: Ática, p. 49-50. 114
f avorecida.” Ao cabo da terceira vez, estava tudo acabado. Arre!115
Rosa, diferentemente de outras partei ras, cobrava pelos seus serviços p restados. Poi s via no exe rcício de partej ar, de benzer e de cura r uma forma de garant ir a sobre vi vência de sua família.
Era m uito comezinho receber a pa rteira visitas misteriosas, em busca das suas art es, das suas mara vilhas.
Trago aqui os dois mil réis – dizia Terezinha quando
se acharam a sós.
Hoje talvez não possa fazer a reza – disse Rosa,
tomando a cédula e examinand o c om os ol hos pequeninos e cinzentos; armados du ns óculos de cangalha, remendados com cera – Estou que não posso me mexer de cansada de um trabalho que me pôs sal na moleira...
Faça sa Rosa. É em benefício de um pobre que já não
se astreve com a cadeia.116
Esse perf il de pa rteira traçado po r Dom ingos Olím pio romp e também com o s pa drões mo rais da bur gu esia brasilei ra do pe ríodo imperial. Nota-se ainda, que a participação das parteiras na vida social brasileira permaneceu por muito tempo, com o também a crença nos seus conhecimentos empír icos das mulheres parteiras.
Dessa forma, obse rvamos que o ima giná rio social feminino e masculino c ria e in venta ima gens conf orme a sati sf ação de suas necessidades. Iss o é o que po demos ver ificar também no di scurso médico
115 Ibidem.
durante o século XIX, o qual at ribu i imagem depreciati va às mulheres parteiras, como estratégia para imp or u ma no va ordem médica direcionada à maternidade.