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Belgede 22 6 (sayfa 33-36)

A ciência [...] localiza-se em um campo de saber e nele tem um papel, que varia conforme as diferentes formações discursivas e que se modifica de acordo com suas mutações.22

Michel Foucault

A Análise de Discurso de orientação francesa (também conhecida como AD) surgiu no final da década de 1960, em face de favorável conjuntura filosófica e política vivenciada na França. A AD foi edificada pelo filósofo Michel Pêcheux em época de pleno exercício do Estruturalismo Lingüístico, possibilitando a constituição do discursivo a partir de suas duas dimensões indissociáveis: a lingüística e a histórico-social.

Para Courtine (2006, p. 54), no começo dos anos 1970 se dá o esgotamento do paradigma da Lingüística Estrutural, o que conduz ao ressurgimento de uma perspectiva sociológica inscrita na linguagem francesa desde muito tempo, na “sua tradição”. É a ocasião, promovida pela abertura de disciplinas, nas quais “se pensa a relação entre a história e a lingüística”. Daí se tem o surgimento dos primeiros textos que permitem a elaboração de métodos de análise automática do discurso.

A AD critica a análise imanentista do conteúdo textual e o formalismo das descrições, contrapondo-se às tendências lingüísticas da época: o Estruturalismo e a Gramática Gerativista. Portanto, a AD inova justamente pelo propósito de analisar o funcionamento lingüístico e as condições de produção que conduzem à exterioridade lingüística, cabendo-lhe por finalidade explicitar como se dá o funcionamento de um discurso e de que forma ele produz sentidos. O discurso é materializado no lingüístico- histórico e, para sua compreensão, é necessário relacioná-lo com outros discursos, textos e com suas condições de produção. Dessa forma, o discurso é tido como heterogêneo, sendo atravessado por diferentes formações discursivas e afetado por inúmeras posições do(s) sujeito(s).

Assim, na análise efetuada sob a ótica lingüístico-histórica discursiva, o texto deve ser compreendido em relação a outros textos e a outros discursos que o perpassam, vez que o significado não advém do texto.

A AD trabalha o discurso considerando o sujeito, a história e a língua. Pêcheux; Fuchs (1990) expõe que a AD é herdeira de três regiões de conhecimento: Psicanálise,

22 Cfe. FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. 7. ed. Rio de Janeiro:

Lingüística, Marxismo, entendendo a noção de discurso na confluência desses campos de conhecimento.

1- No campo da Lingüística, Pêcheux problematiza o corte saussureano, dando a Saussure o lugar de fundador da Lingüística como ciência e retomando a sua idéia do “real da língua” na noção de sistema e ao mesmo tempo, centralizando a análise na Semântica, com a idéia de não transparência do sentido, da não reflexividade entre signo/mundo/homem.

2- Em relação ao Materialismo Histórico, por meio da releitura althusseriana de Marx, Pêcheux entende que há um real da história, que não é transparente para o sujeito, pois ele é assujeitado pela ideologia.

3- Na Psicanálise, por meio da releitura de Freud, Pêcheux compartilha a idéia do sujeito na sua relação com o simbólico, pensando o inconsciente como estruturado por uma linguagem.

Cronologicamente a AD francesa se configura em três épocas, conhecidas como AD1, AD2 e AD3, existentes por conta de revisões conceituais feitas por Michel Pêcheux em nível teórico e metodológico. Apresentamos, a seguir, uma síntese dessas supracitadas épocas para melhor compreensão do percurso teórico-histórico da Análise do Discurso. Pêcheux (1990) diz que a AD1 reúne um conjunto de traços discursivos empíricos cuja produção foi dominada por uma máquina discursiva, vez que o ponto de partida da AD1 é justamente um corpus fechado de seqüências discursivas, selecionadas num espaço discursivo dominado por condições de produção estáveis e homogêneas.

Na AD2, Pêcheux (idem) faz uso da noção de formação discursiva (cujo termo foi tomado de empréstimo a Michel Foucault) como determinante para fazer explodir a noção de máquina estrutural fechada, haja vista que uma formação discursiva (doravante, FD) é constitutivamente “invadida” por elementos que vêm de outras FDs, e que se repetem nela. Daí, a introdução da noção de interdiscurso para designar “o exterior específico” de uma FD. Também, para esse filósofo francês, a desconstrução da maquinaria discursiva fechada marca a AD2.

Na terceira época (AD3), compreendida entre 1980 e 1983, na concepção pecheuxtiana (ibid) tem-se a revisão e o surgimento de novos procedimentos para a Análise de Discurso. A começar por 1980, em face da materialização de intensa crise enfrentada pelas esquerdas francesas, com reflexos significativos nas concepções ideológicas do marxismo da época. A partir de decepções políticas e tendo que conviver com a morte do mestre Althusser, Pêcheux passa a reordenar os seus trabalhos,

modificando suas posições dogmáticas anteriormente atreladas às concepções althusserianas e às diretrizes estabelecidas pelo Marxismo.

É nessa terceira época que Pêcheux passa a ter uma nova visão dos dogmas marxistas - que muito influenciavam a sua obra -, e a reconsiderar e se aproximar das teses foucaultianas. Ele, então, passa a se afastar da ideologia de luta de classes estabelecida pelo Marxismo e se aproxima dos estudos arqueológicos e genealógicos desenvolvidos por Foucault. Incrementa uma desconstrução teórico-metodológica que encaminha a Análise de Discurso francesa para novos rumos. É o encontrar-se com a “Nova História”, a partir da convivência com Pierre Nora, Jacques Le Goff, dentre outros.

Ressalte-se que, desde 1977, Pêcheux abandona o entendimento de formação discursiva como um bloco homogêneo ligado a uma ideologia dominante, passando a considerar que a ideologia possuía heterogeneidade. Com isso, toma emprestado de Foucault, o termo formação discursiva e passa a reinterpretar o conceito de FD, considerando o exterior discursivo. Assim, desenvolve a noção de interdiscurso como elemento exterior e anterior a uma FD e que participa de sua constituição.

São de grande importância os conceitos foucaultianos para o desenvolvimento da Análise de Discurso, sobretudo, na terceira época, quando as idéias de Foucault serão consideradas primordiais para o impulsionamento da AD e passarão a se disseminar em diversos trabalhos.

Para Gregolin (2001a, p. 13-14), é fundamental a contribuição de Foucault para a Análise de Discurso no que tange as suas retificações e reorganizações. Evidencia que as idéias foucaultianas, em Análise do Discurso, derivam principalmente da Arqueologia do Saber e do conceito de ordem do discurso. Dentre as ditas contribuições, a autora destaca o conceito de formação discursiva, “cujos elementos são regidos por determinadas regras de formação”, ou seja, condições a que estão submetidos esses elementos de uma FD. Ademais, frisa que o filósofo opera a distinção entre enunciado e enunciação a partir dessas regras de formação. Vai além expondo que Foucault opera com a concepção de discurso como “uma prática que provém da formação dos saberes e a necessidade de sua articulação com outras práticas não discursivas”.

Gregolin (idem, p.14) também afirma que Foucault contribui com a concepção de discurso como jogo estratégico e polêmico, sendo um espaço onde se tem a articulação entre o saber e o poder. Por outro lado, o autor traz a idéia de que “a produção do

discurso gerador de poder é controlada, selecionada, organizada e redistribuída por procedimentos que visam a conjurar toda e qualquer ameaça a esse poder”.

Muitos outros princípios foucaultianos são elencados na Análise de Discurso e, assim como a releitura sistemática de sua obra, a partir da A Arqueologia do Saber, A Ordem do Discurso, Microfísica do Poder, contribuem para a ampliação do embasamento teórico da Análise de Discurso.

Nesse sentido, podemos relacionar mais algumas importantes contribuições trazidas por Michel Foucault para a Análise de Discurso, como a inter-relação entre o discurso e a história, considerando a história como descontinuidade e o discurso como acontecimento; as reflexões sobre o sujeito do discurso, atentando para a multiplicidade de suas posições e a descontinuidade de suas funções; o conceito de arquivo, determinando o que pode ser dito e o que rege o surgimento, subsistência, funcionamento e modificação dos enunciados. Além de atribuir ao conceito de arquivo a enunciabilidade e as regularidades existentes nos textos. Além do mais, faz uso do tema poder em sua obra, relacionando-o ao saber e a verdade científica (no período da fase “arqueológica”), e enfatizando as práticas de poder e seus efeitos na construção da subjetividade (quando da fase “genealógica”).

Ressaltamos que esta pesquisa considerará a análise discursiva a partir da terceira época da Análise de Discurso (AD3). Dessa forma, poderemos analisar os efeitos das relações de poder (e resistência) que se destacam no discurso ecológico sobre a preservação de árvores da arborização urbana recifense, precipuamente considerando os elementos vindos de outras formações discursivas e a participação da memória social na produção de sentidos do discurso em questão. Sendo assim, propomos investigar os efeitos de sentidos no discurso ecológico, protagonizados por sujeitos institucionalizados e não-institucionalizados a partir de deslocamentos ocorridos pela articulação do discurso ecológico com os discursos jurídico e jornalístico.

Destarte, é necessário considerar o sujeito e a situação na análise de discurso. Mas este sujeito e esta situação “contam na medida em que são redefinidos discursivamente como partes das condições de produção do discurso” (ORLANDI; RODRIGUES, 2006, p. 15). Daí se dizer que na análise de discurso não se pode deixar de relacionar o discurso com suas condições de produção. E que, nas condições de produção do discurso, estão inclusos os sujeitos e a situação enunciativa.

Considerando-se a produção do discurso ecológico sobre a preservação de árvores da arborização urbana, podemos dizer que as circunstâncias de enunciação em uma

situação no sentido estrito compreendem o contexto do meio ambiente urbano com as árvores e as pessoas que delas usufruem. Já a situação no sentido lato compreende o contexto sociohistórico, ideológico, ou seja, considera-se o saber distribuído tanto pela rede institucional como pela rede midiática, onde o saber liga-se as relações de poder e resistência daí advindos.

No dizer de Orlandi (2007, p. 59-61), a “Análise de Discurso não procura o sentido ‘verdadeiro’, mas o real do sentido em sua materialidade lingüística e histórica”. Portanto, partindo da materialidade do texto, da sua opacidade, o analista deve construir dispositivos de interpretação com o intuito de trabalhar o texto em sua espessura lingüístico-histórica, em sua discursividade. A autora também afirma que é necessário considerar que a interpretação faz parte do objeto da análise, enquanto parte da atividade discursiva do sujeito. Mas que o analista deve atravessar “o efeito de transparência da linguagem, da literalidade do sentido e da onipotência do sujeito”.

Cabe acrescentar que para Gregolin (2001b, p. 61), a interpretação não se restringe à decodificação dos signos, nem tampouco se limita ao desvendamento de sentidos exteriores ao texto. Ela é essas duas coisas ao mesmo tempo. Portanto, a interpretação é “leitura dos vestígios que exibem a rede de discursos que envolvem os sentidos, que leva a outros textos, que estão sempre à procura de suas fontes, em suas citações, em suas glosas, em seus comentários”. É por essa razão que os sentidos nunca se dão em definitivo, havendo sempre “aberturas por onde é possível o movimento da contradição, do deslocamento e da polêmica”.

Por outro lado, o dispositivo teórico construído na perspectiva da AD deve “investir na opacidade da linguagem, no descentramento do sujeito e no efeito metafórico, isto é, no equívoco, na falha e na materialidade”, assim como no trabalho da ideologia. Sendo assim, a partir da construção desse dispositivo o leitor é deslocado para o lugar construído pelo analista e, nesse local, passa a compreender “o movimento da interpretação inscrito no objeto simbólico que é seu alvo” (ORLANDI, 2007, p. 61).

Daí, acreditamos ser interessante lembrar que os processos de interpretação em nível do Direito e sob a ótica da AD francesa são diferentes. Mesmo que esta pesquisa também trabalhe com regras e fundamentos jurídicos, os dispositivos legais vão, conjuntamente com os textos midiáticos, fazer parte da composição do corpus, que será analisado pela via interdiscursiva. Cabe lembrar que a hermenêutica do Direito busca revelar o sentido da norma para a vida social e se ela é capaz de conduzir uma aplicação justa para a comunidade. Entretanto, para o analista do discurso o processo de

interpretação é diferente. Isso porque para ele a linguagem não é transparente e, em assim sendo, interpretar é revelar na opacidade do texto como um objeto simbólico produz sentidos. Portanto, o analista do discurso não está preocupado em interpretar, mas sim em entender como um texto produz sentidos em sua funcionalidade.

Para Orlandi (idem, p. 61), o analista do discurso “trabalha (n)os limites da interpretação”. Ele se coloca em uma posição que não exclui a História, o simbólico ou a ideologia, sem eliminar “os efeitos de evidência produzidos pela linguagem em seu funcionamento”, mas o que lhe interessa é analisar “o processo de produção de sentidos em suas condições”.

Ainda no dizer dessa autora não existe uma verdade oculta atrás do texto, mais sim “gestos de interpretação que o constituem e que o analista, com seu dispositivo, deve ser capaz de compreender”. Portanto, “a interpretação é o sentido pensando-se o co-texto (as outras frases do texto) e o contexto imediato” (ibid, p. 26).

Destarte, pode-se afirmar que a interpretação está relacionada à questão da ideologia. Até porque é o sujeito que vai interpretar os objetos simbólicos existentes no texto. Quando o sujeito se comunica ele exercita a interpretação atribuindo sentido ao seu dizer. Mas ele se expressa acreditando que os sentidos estão contidos nas palavras, frases e proposições existentes no texto.

Nesse contexto, qualquer enunciado faz parte de um gênero discursivo que se materializa em textos. Portanto, ao enunciar o sujeito tem necessariamente que se expressar num determinado gênero. E não se pode “falar de gêneros sem pensar na esfera de atividades específicas em que eles se constituem e atuam, aí implicadas as condições de produção, de circulação e de recepção” (BRAIT, 2001, p. 29).

Assim, cada grupo social possui formas discursivas próprias de comunicação socioideológica. Dessa forma, os gêneros estão ligados à situação social de interação, e por isso mesmo possuem dimensões lingüístico-textual e social próprias.

Cabe lembrar que este trabalho tem por meta analisar discursivamente regras legais e a materialidade textual do gênero midiático - suporte “Cartas à Redação” -, constando de temas ecológicos concernentes à preservação de árvores da arborização recifense. E que, nessa análise, investiga-se a produção de efeitos de sentidos no discurso ecológico a partir de deslocamentos sobrevindos pelo seu atravessamento nos discursos jurídico e jornalístico. Daí, sobressair-se uma forte marcação das posições-sujeito, tendo-se como conseqüência uma profusão de sentidos resultantes da construção desses discursos.

Ressalte-se que a reclamação de leitores, pela via midiático-jornalística, é um instrumento de contestação social comum no nosso cotidiano. E, no caso específico do discurso ecológico, no espaço compreendido entre o dito e o não-dito, pode ser usada para contestar e cobrar posicionamentos sobre direitos e deveres atinentes às questões da arborização urbana.

Belgede 22 6 (sayfa 33-36)

Benzer Belgeler