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A compreensão das mudanças que consubstanciam o Ceará como um recorte espacial cada vez mais relacionado com o processo de mundialização perpassa pela leitura articulada das instâncias que compõem as suas particularidades. Esse todo relacional deve ser considerado, pois não é possível entender o território sem o seu caráter multidimensional, constituído pelo conjunto de características políticas, econômicas e ideológicas sobre uma base natural mais ou menos modificada.

Ao considerar esse plano de articulação e compreendermos o seu papel no contexto das transformações que caracterizam a mais recente configuração de acumulação capitalista, enxergamos que ele próprio, o território cearense, se impõe como uma força produtiva. Ele se apresenta como uma materialidade que conduz e suporta as intencionalidades da mundialização, isto é, um intermediário e um instrumento, um ambiente e uma mediação. O território, assim, se apresenta rico de elementos políticos, econômicos e ideológicos, um ambiente singular face às mudanças que se dão no bojo das dinâmicas globais.

A adoção de um projeto de acumulação industrial pautado na atração de investimentos externos engendrou um conjunto de políticas econômicas focadas em ações públicas empreendedoras e na reestruturação do território como condicionante estratégico de dinamização produtiva. Sempre ficou claro para a elite de empresários-políticos cearenses que fazer do semiárido um lugar atraente para investidores parceiros ou grande empreendedores nacionais e internacionais, era não só construir uma imagem política renovada, mas, sobretudo, soerguer objetos que indicassem uma sintonia do Ceará com os mecanismo de acumulação predominantes no mundo.

Às ações normativas empreendedoras, deveria ser somado o minucioso redesenho técnico do território, materializado através de inúmeros objetos modernos que facilitassem a interconexão entre os lugares. Somente assim, a eficiente gerência da flexibilização industrial poderia ser realizada, tornando a fragmentação produtiva uma realidade e a complementaridade do circuito produção/circulação/distribuição/consumo um dado concreto. Assim, vias de comunicação e de transportes foram construídas para interligarem áreas, pontos e nós de tráfego. Da mesma forma, novas interações espaciais articuladas num arranjo renovado de redes geográficas também facilitaram a conectividade e a rapidez dos movimentos. O resultado foi um moderno conjunto organizacional de fixos e fluxos que transformou o Ceará num território mais acessível às intervenções do mercado, principalmente ao penetrar numa nova ciranda marcada pela desregulamentação econômica em tempos de redefinição da configuração de acumulação capitalista.

A instrumentalização do espaço destaca o Ceará como um território que se articula ao movimento das forças hegemônicas da mundialização. Ele foi esquadrinhado, entrecortado e realinhado em função de relações econômicas e políticas que tiveram um amparo local na sintonia com o movimento do mundo, engendrado por um sistema de técnicas que organiza a materialidade e está a serviço de alguns interesses.

Lima (2005) já informava o quanto essa reestruturação se evidencia através de ações e políticas de cunho modernizante, com base em estratégias racionais e tecnificadoras cristalizadas no próprio território, principalmente com o objetivo de adequá-lo aos interesses de investimentos privados de grande monta. Confirma-se então, que a busca pela fluidez territorial e a proposta de aparelhar o espaço para uma acumulação ampliada é pensada mediante o soerguimento de obras públicas erigidas através da solidez do concreto imposto. Confirma-se também que os projetos estruturantes permitem acelerar a velocidade das ações e transforma o próprio território num mecanismo produtivo e de circulação, reduzindo sua fricção.

Entre as grandes obras no estado que impulsionam essa recente reestruturação podem ser destacadas:

1)Alguns programas de integração rodoviária que vem dotando o Ceará de novas possibilidades para o escoamento de pessoas e produtos, ao aparelharem/construírem rodovias e as edificações que lhe servem de apoio. Essa proposta se materializa através de dois conjuntos de ações:

I) o primeiro é marcado por maiores investimentos em rodovias estaduais no intuito de facilitar o escoamento de produtos industriais e agrícolas, mas também o tráfego de pessoas para pontos turísticos de maior movimentação no litoral leste e oeste do estado. Segundo dados do Departamento de Edificações e Rodovias do Ceará (DER), são mais de onze mil quilômetros de estradas sob a tutela do Governo do Ceará,

sendo que deste total 6,3 mil quilômetros estão asfaltadas. Somente nos últimos três anos, mais de R$ 1,7 bilhão foi gasto em obras rodoviárias estaduais, com destaque para os trechos de duplicação das rodovias CE-040 (desde o município de Fortaleza até Beberibe, passando pelos municípios de Aquiraz, Iguape e Cascavel), e de ampliação e reforma da rodovia Padre Cícero (entre Banabuiú e Solonópole), que pretende ligar Fortaleza a Juazeiro do Norte, passando pelos municípios do sertão central, isto é, Quixadá, Banabuiú, Solonópole, Orós, Cedro, Mangabeira e Caririaçu. Esse percurso reduz em 60 quilômetros a distância atual entre a região do Cariri e a Capital, que atualmente é de 552 quilômetros. Estas e outras obras fazem parte do Programa Rodoviário do Estado do Ceará (CEARÁ III), que propõe melhorar as deficiências da malha rodoviária estadual não pavimentada e restaurar as rodovias pavimentadas, obedecendo a critérios de seleção exigidos pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o maior parceiro externo do projeto. Do custo total previsto no CEARÁ III, 62,3% é financiado pelo BID, com o restante custeado com recursos do Governo do Estado do Ceará como contrapartida. Mas apesar destas tentativas de estruturação das rodovias estaduais, é preciso destacar que mais de 50% das mesmas ainda apresentam trechos em condições “regulares” ou “ruins”, segundo

avaliação da Confederação Nacional de Transportes (CNT)51. Isso implica em

dificuldades na tentativa de atrair investimentos para certos municípios do interior e demonstra as fragilidades econômicas e infraestruturais de um estado que penetra na modernidade com mais lentidão do que a divulgação midiática parece anunciar. Conseqüentemente, um montante muito maior de investimentos ainda será necessário para que os interesses econômicos desejados pelas elites políticas e empresariais sejam alcançados.

II) O segundo conjunto de ações implica em pressionar o Governo Federal a recuperar, adequar ou duplicar as rodovias federais, principais corredores de circulação do território cearense. Desde a década de 1990, essas rodovias estão bastante precárias, o que implica em debates acirrados entre lideranças estaduais e diretores de órgãos como o Departamento Nacional de Infraestruturas de Transportes (DNIT). Assim como na maioria dos estados brasileiros, discute-se a eficiência e a rapidez com que se conduzem as obras de recuperação e expansão das rodovias, mas acusações de desvios de verba pública também são freqüentes. Em função de certa pressão política, longos trechos das rodovias federais mais importantes do estado passam por reformas, e as pesquisas sobre a demanda de recursos para adequação de outras rodovias também já foram realizadas. Em estudo recente publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), intitulado "Rodovias

brasileiras: gargalos, investimentos, concessões e preocupações com o futuro"52, revelou-se que as rodovias federais no estado do Ceará necessitam de cerca de R$ 5,89 bilhões para resolverem problemas como recuperação, adequação ou duplicação. Entre as partes com maior necessidade de reforma estão três trechos da BR-020, cinco trechos da BR-116, um da BR-122, outros sete da BR-222 e um trecho cada das BRs 230 e 304. Acrescenta-se a isso uma ampliação do acesso rodoviário ao Porto do Mucuripe, em Fortaleza e a construção de novos trechos nas BRs 226 e 230, além de uma ponte sobre o rio Jaguaribe, na BR-304, na fronteira do Ceará com o Rio Grande do Norte (ver cartograma 04).

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Cartograma 04: Principais rodovias federais e estaduais que cortam

Benzer Belgeler