O crescimento econômico, só por si, revela-se insuficiente para reduzir desigualdades, conforme já se asseverou. As consequências sociais da
globalização, portanto, não podem produzir retrocessos, notadamente no campo do trabalho.
Como reação às condições injustas, indignas e degradantes de muitos trabalhadores em todo o mundo, a Organização Internacional do Trabalho (OIT), agência multilateral ligada à Organização das Nações Unidas (ONU) especializada nas questões do trabalho, a partir do processo de reformulação de suas políticas estratégicas iniciado em 1987, apresenta a Declaração sobre os Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho, de 1998. Seguidamente, durante a Conferência Internacional do Trabalho realizada em 1999, externa a ideia e as dimensões do denominado trabalho decente.
Neste ponto do estudo, é relevante se lançarem as peculiares características da OIT e os diferentes aspectos que abrangem sua legitimidade para definir os padrões de direitos trabalhistas no plano internacional.
A criação da OIT foi aprovada ao ensejo da Conferência da Paz de 1919, no âmbito do Tratado de Versalhes86, o qual estabeleceu as bases para o desenvolvimento das relações internacionais após o advento da Primeira Guerra Mundial.
A tese da internacionalização do Direito do Trabalho, no entanto, é anterior ao enunciado período. A ideia de se criarem normas internacionais de combate à exploração do trabalhador antecede a criação da OIT, relacionando-se com a preocupação humana com a manutenção de padrões civilizatórios mínimos em todas as nações.
As normas protetivas do trabalho passaram a exibir tendências consistentes no sentido da internacionalização, notadamente, com a influência gerada pelo
Manifesto Socialista de Marx e Engels de 1848 ("Trabalhadores do mundo, uni-vos, vós não tendes nada a perder a não ser vossos grilhões.") Também os movimentos sindicais do final do século XIX contribuíram para tal tendência, por meio da repercussão que ensejavam e por seus panfletos a estamparem o ideário socialista.
A internacionalização das normas de proteção ao trabalho teve clara influência da Encíclica Rerum Novarum, de 1891, criada pelo Papa Leão VIII, um marco para a proteção do trabalhador.
Com a expansão do sindicalismo e da difusão de ideais universalistas de afirmação da classe operária, inclusive por meio de congressos transnacionais (Congresso Socialista de Paris de 1889), a tese da internacionalização do trabalho se fortaleceu, culminando com a criação da OIT (1919), cuja finalidade é a de estabelecer normas internacionais de proteção do trabalhador, garantindo padrões civilizatórios que combatam a desigualdade, miséria, e exploração da força do trabalho, preservando, com finalidade maior, a paz entre os homens.
Conforme assevera Adalberto Martins87, “observa-se, pois, que a OIT é o principal fator de internacionalização do Direito do Trabalho”.
Em 1944, foi aprovada a Declaração de Filadélfia, com os novos objetivos e fundamentos da OIT, a saber:
• o trabalho não é uma mercadoria;
• a liberdade de expressão e de associação é uma condição indispensável para um progresso constante;
• a pobreza, onde quer que exista, constitui um perigo para a prosperidade de todos;
• a luta contra a necessidade deve ser conduzida com uma energia
87 MARTINS, Adalberto. Manual didático de Direito do Trabalho. 3.ª ed. São Paulo: Malheiros,
inesgotável todas as nações e por meio de um esforço internacional contínuo e organizado pelo qual os representantes dos trabalhadores e dos empregadores, colaborando em pé de igualdade com os Governos, participem em discussões livres e em decisões de caráter democrático tendo em vista promover o bem comum.
Após a Segunda Guerra Mundial, com a criação da ONU, a OIT foi reconhecida como organismo especializado em relações de trabalho no âmbito internacional, competente para empreender a ação e instrumentos na consecução de seus objetivos. O processo de internacionalização dos Direitos Humanos, em tal período, como reação às atrocidades praticadas durante a Segunda Grande Guerra, percebe diferenciado relevo e impulso consistente.
A OIT é a organização internacional competente para estabelecer normas internacionais trabalhistas. Diante da adesão da grande maioria dos países do mundo, goza de apoio e reconhecimento universais na promoção dos direitos fundamentais no trabalho como expressão de seus princípios constitucionais.
A formulação de normas internacionais trabalhistas, como função precípua da OIT, ocorre por meio de instrumentos como convenções, recomendações e resoluções. Também atua por meio de procedimentos de ratificação, revisões e denúncias.
O sistema de normas internacionais formulado na OIT manifesta-se, mormente, sob o formato de convenções88, as quais correspondem a tratados internacionais sujeitos a ratificação dos países membros, estando abertas à adesão, e por meio das recomendações, que se constituem em instrumentos facultativos, os
88 Nas hipóteses de ratificação de uma convenção por um país, são assumidas duas principais
obrigações: o engajamento formal na aplicação de suas disposições e a aceitação de um controle internacional.
quais versam a respeito dos temas abordados nas convenções, mas restringem-se a oferecer orientações para a política e as ações nacionais.
Entre as características da OIT, encontra-se sua composição tripartite. O tripartismo corresponde à composição dos principais órgãos da OIT, os quais, ao deliberarem sobre as normas internacionais de proteção do trabalho, contam com representantes de governos, de associações sindicais de trabalhadores e de organizações de empresários. Tal representa, efetivamente, o engajamento de todas as partes que participam diretamente das relações de trabalho.
A proteção da dignidade humana do trabalhador, ao longo de seus 90 anos de existência, sempre foi o objetivo primeiro e a razão fundamental das ações valiosas desenvolvidas pela OIT.
A legitimidade da OIT para definir os padrões de direitos trabalhistas no plano internacional está escorada, portanto, de modo firme e consistente, no processo histórico que demarca sua evolução constitutiva e a progressiva defesa dos direitos laborais por meio de sua ação e instrumentos preconizados, conjugado com as notáveis especificidades de sua estrutura decisória tripartite.
Qualquer modelo econômico que leve a condições desumanas de trabalho, à desconsideração do trabalhador como ser humano dotado de dignidade como valor principal, não pode sustentar-se isoladamente.